Poema de agora: PANO DE FUNDO – Luiz Jorge Ferreira

PANO DE FUNDO

A brisa entre asas vibrantes de pálidos Zangões…
Pergunta ao silêncio da foto.
Nos éramos muito pobres n’aquele Brasil.
O mormaço abraçado ao amarelo do Maracujá…
Diz em um sussurro perfumado…
Mas nem ligavam para isso… né?
Nenhum pouco.

…como um estilhaçado espelho…

Vejo na fotografia as casas de madeiras caindo aos pedaços.
Para mim eram edifícios de aço comidos por cupins amáveis.

Vi as telhas fraturadas sujas de passado, fraturadas, sedentas d’água, morenas de Sol.
Vi as casas de madeiras caindo sobre nossas magras sombras.
Nem minha sombra eu vi porque pequena e ínfima sumiu sob a sombra de um pé.
Os urubus pousados nos fios eram mais claros que a palidez pintada dos moleques parados fazendo pose para o retratista.
Que possivelmente era o Padre, o Padre da Confissão ajoelhada, que falava dos pecados, veniais e mortais, que descrevia os infernos, e os seus castigos mais terríveis, dos lamentos mais sofridos, até de ser criado sem pai, para um moleque esmirrado que olhava cabisbaixo para a sandália remendada com arame, a desenhar com lágrimas figuras no chão.
Doía.
Enquanto sobre seus olhos ardidos, os mosquitos se esbaldavam nas remelas.

O Padre da Confissão ajoelhada que para mim andava com Deus na garupa da moto, quando subia a Ernestino Borges com seu odor de tabaco.
Deus também fumava?

Na fotografia não há cheiro de suor, nem a pobreza fede, nem se ouve gemidos da fome, a querer comida.


Ouve-se a dor dos olhares.
Ali era o Mundo, espremido defronte da Sede Escoteira Veiga Cabral, onde todos os sonhos de nossa vida, também de chinelos remendados, de puídas camisetas, de existência espremida entre dias preguiçosos e noites suarentas, se expõem ao tempo sujo de saudade.

Estávamos ali… enormes pequenos dentro de si.
Olhando o Padre Italiano nos aproximar do infinito pregados em uma foto indivisível.
Todos olhavam o Padre, e pensavam gritar…
Espere Seu Padre…
Deixe Deus sair da sua Moto e ficar aqui conosco fazendo a mesma pose que a gente faz, olhando sem direção para o mesmo horizonte…
É de lá, que um dia viram dias melhores para as nossas tão desiludidas esperanças.
Espere um pouco… somente um instante em Paz.

Luiz Jorge Ferreira

*Criado a partir da visão da foto do Blog João Lázaro, dos Escoteiros defronte da Sede dos Escoteiros Veiga Cabral, no Laguinho. Dia 8.07.2020. Osasco – São Paulo.

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    Quer melhor que isso. Um instantâneo na memória.
    Lindo poema laguinebse. Valeu,
    LUIZ, POR ESSA LUZ IRRADIANTE DA TUA POESIA.

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    Você com certeza também estava por ali, olhando com os olhos aguçados de talentoso… Músico Escritor.

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