Poema de agora: PÁSSARO (Fernando Canto)

PÁSSARO

O pássaro defecará sobre teus ombros
Se não te assemelhares a ele
Nestes dias de ranço, de fel

Antes de qualquer anormalidade
Deverás procurar o inatingível
nas frestas
das tardes
e nos casarões
que imaginaste
para a construção do teu ninho

Será um processo inusitado em tua vida
dela tirarás um movimento tenro
que por certo contribuirá para que voes
e busques
quantas vezes necessário for
a flor que em tua idade
arde
arrasa
sangra
enquanto sentes te fluir mulher.

Não é conselho nem ordem nem obrigação,
É lei!

A tua metamorfose à semelhança

no canto
e no voar
no jeito de beber da água e de comer
e ainda pousar no arbusto.

Primeiro, o ato da criação não será bíblico.
não haverá molde
nem mãos divinas nem barco nem sopro
já és da terra e do céu
já és do chão e do ar

E é débil a condição da resistência
Tu não resistirás a essa permuta

Digo-te agora que do teu canto
saltarão as cores do arco-íris
e nunca a chuva apagará a lenda
do fogo dos teus olhos

É irreversível o plumear da epiderme

Tuas antigas mãos trafegarão no oxigênio
sem deixar rastros
pois a liberdade não semeia marcas

Tu serás estrela
e não darás concessões do teu brilho
à pálida lua
ou a um sol antigo

Quero ainda te dizer que não serás
a aurora
Embora tenha refletido que renascerás
radiante
e adiante ofuscarás
a vista dos animais sem teu porte

Se és mulher em véspera de asa
voa
voa
Não sacrifica mais a prática
da liberdade

Sei que é premonitória a semelhança

Haverás de ser ave, e ouve,
Está perto a tua missão
Quando te souberes mansa
terás que saborear as sombras
Essas que talvez empatem teu caminho

Mas tu construirás teu ninho
nas frestas das tardes quentes
à imagem e semelhança
do pássaro que passou ou que passará por ti,
na noite.

Fernando Canto

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