Poema de agora: Puído – Luiz Jorge Ferreira

PUÍDO

Quem cava uma cova.
Esculpiria uma corcova
Cutucando as costas do destino.
Faria também um Jardim?
Não sei se dentro de mim.
Ou no reflexo do meu olhar.
Ou no dorso das minhas lágrimas…sedentas de amanhecer.

Não me impeçam de sonhar com torres inclinadas para o Leste, ou que eu destrua estranhas estátuas de ar gelado caminhando em direção contrária ao Sol.

Não…a mim não resta muito tempo, toda a poeira que recolhi vaza entre meus dedos curvos na mão fechada.
Meu tempo é depois da terceira trovoada…
Um pouco antes do orvalho afogar as joaninhas nos jardins, e os vaga-lumes despidos incendiarem os Campos da gravura,e rasgarem os meses no Calendário da Pirelle.

Deus cochila olhando a maresia bulir com os mexilhões nas pedras.
Os deuses do igapó, nada fazem…
Eu nada tenho para ofertar ao tempo, a não ser uns poucos fios de cabelos, e alguns dentes que sobraram da primeira mordida no vazio.

Mas aguardo o terceiro trovão em cena.
Pronto para a Valsa insana de Chopin.
Já não retenho a areia no apertão das mãos sobre os dedos.
Sacrifico as veias…
Estrangulo as artérias…
Um sacrifício tolo que acabará exausto.

Em outra esquina o tempo sentado dentro de um carro mal estacionado…assobia Help…espera que os minutos se repetindo abram o farol.

Luiz Jorge Ferreira

* Do livro de Poemas “Nunca mais vou sair de mim sem levar as Asas” – Rumo Editorial – São Paulo.

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