Poema de agora: Remendando palavras – Luiz Jorge Ferreira

Remendando palavras

Filho não se prometa limpar as coisas que espalhei pela casa
Nem amarre as noites lá fora… para que percam a hora de lustrar as estrelas que enferrujam sobre as gaiolas
Não derrube as gavetas no chão, pode misturar as palavras, e palavras misturadas não soam bem.


Há de se atentar com a cicatriz de passos quando correr a vassoura sobre o chão
Deixei muitas caminhadas desenhadas rumo ao horizonte e nunca fui…
São gestos inúteis desenhados sobre as costas do gato de pelúcia
São apostas de um jogo de astucia com o olhar penetrante dos cães.

Filho respeite os vasos, as flores e as folhas secas, essas são as que mais representam a efusão da vida e se abrigam da vida na morte.

Leia os cadernos, sim os cadernos de folhas soltas partidas, de reconstrução de proparoxítonas, da inclusão suave do til, do desespero do não, e da perplexidade do sim.
Quando for rasgá-lo se for canhoto, troque de mão, as letras choram sob uma pressão muito forte, as suavidades são muito desejadas por elas.

E essa velha casa, a respeite sob suas pisadas… há de lembrar…
Que ela me acolheu com um ventre, que um dia acolherá você.
Escancare as janelas, acenda todas as lâmpadas, molhe todas as plantas, ponha minha fotografia a porta da rua, e espalhe boas novas mesmo que a solidão seja a única expectadora…
Pode ser que a saudade apareça vestida como uma colegial…
Pode ser… pode não ser…
De fato os dias estranhos estão ficando banais.

Luiz Jorge Ferreira

*Do livro “Nunca mais vou sair de mim, sem levar as asas”.

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