Poema de agora: Safra Permanente – Fernando Canto

SAFRA PERMANENTE

1.
Urge dizer a todos que te amo
e me alastrar, sôfrego, à tua procura diária
falar aos quatro cantos que o amor é necessário
na aventura floral desses caminhos
e que o rio transborda, seca e deixa restos
porque sou resíduo de ti,
que me semeias e me acendes
em busca de um novo tempo.

Tu és fêmea, e como tal carregas, de milênios,
a inconclusa compreensão concebida no teu útero,
estigma mundano – o homem, o preconceito.

2.
Não seria fortuita a insaciável renitência dos olhares
que nos tangem – céticos – a mover pálpebras
à palidez da luz da lua.
Seria por certo a espelhação daquelas almas
conflitantes e inseguras
Na absoluta podridão de suas mazelas.

3.
Perfurados ou não, nós nos cerzimos
rasgados ou não, nos costuramos,
temos tempo para usar borracha e corrigir
o desenho do futuro – arte coloquial que criticamos
desde a configuração abstrata
delineada no passado.

4.
Faz-se urgente empanar a couve-flor, enrolar charutos turcos e beber vinho do porto.
A água está no copo de alumínio pra tirar a espinha atravessada na garganta,
pois se o rio dá de comer o peixe não tem culpa dessa fome incontrolável.

5.
Decididamente tenho que gritar acompanhando o vento
ainda que me vire de repente
pois a alastração do meu amor por ti é inevitável
é profusa, é disseminadora.

6.
– Quem é esse? Hão de inquirir, procurando agruras:
– Ofiófago, furfurácio, bucéfalo, hendecágono, biltre,
escatológico, onívoro, herbicida, satrapanca, hetacombático,
súcio, teratológico, celeumático, metacromático, tabífico,
santiâmem, ovovivíparo, safilítrico, tribático, safídico,
troglodítico, tranchucho, safardana…?
Ou ainda: – Onírico? Um pássaro? Um avião?
– pelos poderes de Grey Skul, eu tenho o sonho!
A força desmedida e crua – extensão do meu amor.

7.
Por essa ambientação do cosmo que transformo
O sol em sol
O sol em sonho
O sonho em safra permanente de existência.

8.
Não haverá ritmo ou canção
o brilho desse amor estará preso ao laço
que se ampliará conforme o tempo.
A chuva pingará o essencial nas estranhas da terra
e a terra germinará o exato para que vingue a flor
e a flor perfumará o necessário para estimular os sentidos
todos eles, inclusive aquele que inventarem à noite
para que o sonho sobreviva de manhã.

Fernando Canto
Macapá, janeiro de 1986

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