Poema de agora: SER TÃO… – Ori Fonseca

O sertão é do tamanho do mundo.
Sertão é dentro da gente.
O sertão é sem lugar.
O sertão não tem janelas, nem portas.
O sertão é uma espera enorme.
[Guimarães Rosa]

Ilustração: Fotografia de Hans von Manteuffel.

SER TÃO…

O sol resseca a tez da terra nordestina,
A boca sem saliva entoa um canto triste,
E pede em vão a Deus, que a tudo só assiste:
Morrer o gado, o grão de sede e de rapina,
E ao homem ver morrer de morte severina,
Na dor que se acha em casa estando no sertão.
A dor que é mais que dor no olhar do sertanejo,
Que açoita, invade, entranha e habita de latejo
Dos pés em carne viva ao breu do coração,
Em cada vez que pede algum trabalho ou pão.

O calo rasga a pele, a fome rasga o brio,
A lágrima é calada, a voz, estrangulada.
O homem não controla a dor desesperada,
A mesma dor pungente que seu pai sentiu
No mesmo quarto escuro à margem do Brasil.
Vagando sem destino, as almas do sertão,
Não têm parada certa sem que seja a cova,
Morada certa e sempre a velha casa nova,
Reforma agrária eterna, naco de seu chão,
Lugar do qual jamais há de estender a mão.

A fé, que é só o que resta quando o nada é tudo,
Mantém um fio de vida num fio de esperança
Em São José, Padim, na Virgem da abastança,
Em terço, andor, novena, santo mouco e mudo,
A fé que cobre a todos com seu falso escudo
É pão de barro seco, esmola pro sertão.
Não muda a sina injusta, a cena de tristeza
Que arrasta como cobra a gente em correnteza,
De mãos aos céus clamando a vida em oração.
E o verso diz “lá vai passando a procissão”!

A seca é só pretexto para o mal da usura.
Tiranos dormem calmo ao som de tanto choro,
Gemidos são lançados longe em triste coro,
Contudo, não alcança o ouvido da criatura
Feroz que come e bebe às custas da amargura,
Roendo cada ossada errante no sertão.
Poder que faz da morte a sorte de sua cria,
Que sempre, sempre, sempre, SEMPRE! Noite e dia,
Devora tudo e todos – pai, avô, irmão -,
Que “pega, mata e come” e ri da humilhação.

Então, que leva a alguém viver nesse pedaço
De chão sofrido, seco e tão aperreado?
Cultura, luta e a voz de um povo acostumado
A ser valente e artista e não negar o braço
No toque, se é zabumba; e tiro, se é cangaço.
A guerra é festa, e a festa é guerra no sertão.
Pois se há xaxado, xote e a voz do cantador,
Também se há de haver a mão do lutador:
Sanfona atada ao peito – voz de Gonzagão;
Fuzil ao peito atado – mão de Lampião.

“Palavras, ai, palavras, que potência a vossa!”
Cravada ao chão rachado e fértil do Nordeste:
Oxente, Exu, açude, Orós, cabra da peste,
Forró, buchada, fé, burrego, assum, carroça,
Palavras, só palavras, nada em que se possa
Dizer que não é sina o inferno do sertão.
O sol é só palavra e luz de força e vida,
Ganância, é fome, é morte, dor, terra partida.
Não pode haver justiça enquanto houver razão
Em só dizer “sim… sim” e ouvir só “NÃO e NÃO”!

Ori Fonseca

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