Poema de agora: Telhado… – Luiz Jorge Ferreira

Telhado…

O gato é que se assusta… quando eu o assusto com meus miados.
Eu também arranho o vidro da janela.
Eu também adoro afiar as minhas garras.
Perder meu olhar em direção a lua.
Enterrar minhas saudades em buracos escuros.
E uivar comigo, e em mim, de um jeito estúpido, e azul.
A rua é que se cala quando calo meu grito.
Qualquer assobio polui minha retina, com traços curtos e grossos.
Não ligo para os sussurros, e doces amargos, que mancham os retratos de riscos.
Meus espasmos amorosos é que amolecem os postes, e sobem nos muros.
Adiante das casa, adiante das caras, e defronte dos espelhos.

Eu volto para os telhados, agora molhados da língua de Deus.
E grito palavras roucas, e rotas sobre nós, sobre nossos filhos, sobre nossos pêssegos podres, sobre nossas frestas abertas,sobre o eco dos abismos, e gozos.

Quando ouço o barulho da noite, pulo e uivo.
Então é o gato que se assusta quando vomito lilás.
Eu me aquieto a lamber minhas feridas até que a alma sare.

Aí, ele furioso, me arranha.
E eu o arranho, do avesso ao contrário.
Sangram os miados que eu escondo, entre os nós do cajado.
O mesmo com que açoito a solidão.

Luiz Jorge Ferreira

* Além de poeta, Luiz Jorge Ferreira é cronista, contista, escritor e médico amapaense que reside em São Paulo e também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).

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