Poema de agora:Escápula – Leo Coutinho (na voz de @manudosertao )

Escápula 

[escápula]

tinha um nome esse lugar que eu me inventava. es.cá.pu.la. lá eu te prometi nenhuma eternidade que escapasse da palma da mão. você não escutava. dizia que sim com a cabeça e eu via teus olhos brilhando em outros rostos que não o teu.

– não sou dado a permanências.

te ouvia dizer fazendo boca, voz, rosto e palavra de um desses personagens emplumados de livros moles. mas em seguida você sorria e era você.

não suportava teus silêncios. fosse só o da palavra vez ou outra ainda me colocaria de pé. era o de não dizer o que havia pra ser dito. ainda que a coisa e a dor e a clareza de um trovão te tropeçassem a língua, você não diria. os olhos baixos afundando no prato.

– tu nunca vai me olhar nos olhos? – como se ainda houvesse esperança.
– nunca é um tempo muito grande. – tua cabeça nem moveu pra dizer isso. cada palavra uma estocada em mim. tua escápula dançava muito nessa luz amarela que eu detestava.

tua ausência crua. minhas precariedades servidas quentes. o calço no pé da mesa me ajudando a sumir dali. minhas desimportâncias enormes caindo no chão. você deu de ombros. tua escápula falava. eu esquecia seu nome por dias.

lembrei… joão.

Leo Coutinho – Imagem e voz: Áquila Emanuelle.

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