Poesia de agora: Sei lá onde foi parar Meu último poema – Jaci Rocha

Sei lá onde foi parar meu último poema

Sei lá

Sei lá onde foi parar
Meu último poema

Ainda ontem o vi, adormecido
Nas paralelas da leopoldo com a mendonça furtado
Silencioso e tímido entre o trânsito abafado.

Depois, penso que se escondeu
No ronco contínuo e macio do ar condicionado.
Nas colunas de concreto
Onde, comodamente, cultivam-se cactos

– E só habitam coisas plásticas
que não carecem de cuidados –

Eu sei, tu sabes
É só por amor às rosas
Que sentimos o verso de outros mundos
E a dor de ser e expandir…

Pode ser, poeta,
Que entre letras e verbos
Onde tudo pede os devidos contrapontos
Ande a esquecer de anotar encantamentos

E estender poesia no varal,
Após as chuvas que caem no quintal…

É que, neste mundo acelerado e moderno
É preciso ser atento
Não desistir de ver o céu, a lua
E a vida bem de perto.

Longe das telas e das correções
De cor, de som ou ortográficas
Neste mundo high tec
Onde não cabem as coisas imperfeitas e falhas

É preciso ter cá um pouco de coragem
E uma sutil falha de conexão
Para esquecer do clica-curte
Mergulhar num rio ou apenas dar as mãos…

Sei lá onde foi parar
meu último poema.

Jaci Rocha

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