Que venha o mar

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Conto de Ronaldo Rodrigues

Devemos seguir, prosseguir. Cabeça erguida, passos decididos. Devemos seguir até que nossas forças cessem e encontremos novas forças para prosseguir. Digo isso para me convencer, já que não há outra maneira de suportar a caminhada. O cachorro ao meu lado está exausto. E ele não tem nada a ver com isso. Poderia ter ficado no conforto de sua gruta, caçando seu alimento.

Encontramos duas setas, uma indica a direita, outra a esquerda. Olho para o cachorro esperando que ele decida aonde ir. Ele pode recorrer ao faro ou simplesmente ao seu milenar sentido de orientação que o vem mantendo vivo até hoje.

O cachorro escolhe a direita. Eu escolho a esquerda e nos despedimos. Eu já trouxe muitos infortúnios para ele nesse meio século que caminhamos juntos. Deixo que ele siga seus próprios erros. Eu sigo os meus, até que aquele que decide sobre a vida e a morte apareça e resolva de uma vez por todas o enigma da minha caminhada.

Encontro uma mulher que me diz algo que não consigo escutar. É como se ela estivesse falando na televisão e eu tivesse baixado totalmente o volume. Prossigo, sabendo que aquilo que não ouvi deve ser uma coisa muito importante. Logo, outra mulher vem em minha direção. Ela fala muito e eu escuto tudo num volume altíssimo, um som que me deixa enlouquecido. Saio correndo da presença dessa mulher ouvindo suas inúmeras palavras que para mim não fazem o menor sentido. Corro pela planície, corro por muito tempo e a areia vai se estendendo pelas horas até o dia em que avistarei o mar.

Enfim, avisto o mar. Está diante dos meus olhos como se nunca tivesse se ausentado. Devo tê-lo visto no dia em que abri meus olhos ao nascer. Ele fugiu de mim por toda a vida até hoje. Hoje deve ser o dia da minha morte. Me aproximo do mar e ele vai se afastando, ficando sempre fora do meu alcance. Mas a minha decisão está tomada. Foi fácil tomar essa decisão, já que é a única que resta.

Me deito na areia, sob o sol. Me transformo em areia e o vento me leva. Sempre em direção ao mar.

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