Quem dera ser um peixe… – Crônica de Ronaldo Rodrigues

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Quem dera ser um peixe… Se eu fosse um peixe, essa chuva que caiu por toda a madrugada e continua caindo agora pela manhã não me atrapalharia.

Como a cidade está toda inundada, pelo menos a parte em que circulo, eu mergulharia na correnteza desse rio em que se transformou minha rua e chegaria sem problema ao trabalho.

Alguns colegas aproveitariam a chuva para chegar um pouco mais tarde. O chefe esbravejaria, como de costume:

– Esses vadios não querem trabalhar! Basta uma chuvinha à toa pra todo mundo querer ficar em casa! Vão chegar aqui com a desculpa esfarrapada de que o tráfego dos peixes está congestionado! Eles esquecem que eu também sou peixe e sei que quando chove assim fica mais fácil a nossa locomoção, ao contrário dos seres humanos! Estes, sim, têm transtornos mesmo! E isso é bem feito, já que são eles que entopem os esgotos e jogam lixo nos canais!

Eu concordaria com meu chefe, mas isso não me deixaria mais feliz. E, acordando dessa divagação e voltando ao meu ser natural, eu constato que não sou um peixe, não cheguei a esse requinte de evolução. Sou apenas um ser humano que precisa chegar ao seu local de trabalho. Não sou desses que entopem esgotos e canais, mas passo pelos mesmos transtornos. Na verdade, penso que somente os que jogam lixo nos esgotos e canais deveriam sofrer as consequências. Mas não é assim.

Vou cumprir minha missão. Vou fazer o possível para chegar ao trabalho a tempo de realizar meus afazeres. Vou enfrentar a chuva, que não tem nada a ver com isso. É uma força da natureza e somos nós que temos que nos adaptar a ela.

Vou molhar os sapatos, a ponta da calça, me esgueirar por debaixo de marquises e tentar não morrer afogado. Vou ser alvo de alguns motoristas que passam jogando água para todo lado. Para eles, dane-se quem está na rua ou nas paradas de ônibus. O ser humano é assim, mas ninguém pode me impedir de ficar pensando, como vingança e consolo: quem dera ser um peixe…

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