Recordações do Arraial de Nazaré – Crônica de Fernando Canto

 

Crônica de Fernando Canto

Não muito diferente de Belém do Pará, a festa de Nossa Senhora de Nazaré em Macapá, também traz suas histórias de fé e de religiosidade popular muito arraigada na memória do povo.

Desde que começou a ser praticada por aqui, há mais de 80 anos, vem ganhando o respeito da população de forma que a cada ano o número de fiéis que dela participa se amplia impressionantemente. Indiscutivelmente o final ou início de cada século é motivo de medo apocalíptico, de confusões mentais provocadas por más leituras dos livros sagrados, de aparecimento de loucos, santos e falsos profetas, enfim quase tudo é motivo para que os crentes fiquem atentos aos acontecimentos e com isso queiram se proteger dos males.

O aumento do número de peregrinos a um santuário famoso é um sintoma dessa situação. Vejamos: Fátima, Lourdes, Aparecida e Belém do Pará, onde milhões de pessoas estão sempre presentes com os mais variados propósitos. Elas vão incondicionalmente a esses lugares em busca de cura para suas doenças; para pagar promessas; agradecer por graças alcançadas com a interveniência da Santa ou mesmo para louvá-la na condição de Mãe de Jesus Cristo.

É bem verdade que o lado profano existe em todas as festas religiosas. Em Belém, por exemplo, desde as procissões de translado da imagem ao círio e ao recírio, sempre estão os comerciantes de bebidas, para não irmos muito longe, os batedores de carteiras ou os vigaristas aplicando contos nos aparentemente ingênuos caboclos do interior. Há muitas histórias desse tipo contadas a rodo nas páginas policiais dos jornais locais.

Em Macapá a festa de Nossa Senhora de Nazaré traz recordações saborosas, quando o arraial para o acompanhamento da festa era instalado na Praça Veiga Cabral, onde hoje está o Teatro das Bacabeiras. Os pais levavam as crianças para andar de carrossel, roda gigante e outros brinquedos montados em pequenos parques onde também ficavam os balanços em forma de canoas. Pipoqueiros, vendedores de balões e brinquedos, como o reco-reco, o cata-vento e o ratinho violeta que se movia sob um carretel de corda, faziam o encanto da garotada, sem contar os doces e refrigerantes que até hoje parecem espocar suas espumas no nariz da gente. Nós, muitos irmãos de uma só família, íamos todos vestidos de “fatos” de um mesmo “corte” ou “fazenda”, comprada, com certeza, nas Casas Pernambucanas e não nos importávamos com isso. Afinal éramos uma família.

O tempo deslizou pela rua e o arraial continuou o mesmo na sua estrutura e espaço. Adolescentes que iam para a praça jogar sal nos balões dos “meninos pimbudos” agora se transformaram em jovens caçadores de meninas, em busca de aprimoramento de suas experiências sexuais. Ali as primeiras, segundas e várias outras namoradas “de pegar na mão”, incontidas, esperavam os namorados, muitas vezes de uniforme do colégio, numa flagrante mostra de gazeta de aula. Ali também rolavam outras possibilidades de integração social, de novos conhecimentos e da pura emoção que tomava conta daquela juventude saudável, porém ainda alienada em relação à situação política do país, mas que, como qualquer juventude em qualquer lugar do mundo, sonhava seus sonhos e tentava partir em busca de algo melhor para seu futuro. Mesmo sem saber exatamente o que era o futuro e se tudo poderia dar certo.

E o tempo deslizou mais uma vez. Agora correndo pelos rios e estradas desse país afora, em busca da realização de sonhos e do famoso ”futuro”. Não obstante as agruras e as rasteiras que pegamos pela vida, é doce lembrar um tempo em que “pão” era homem bonito e “gata” pornografia que dava processo por calúnia; significava prostituta. Esse tempo se mistura ao espaço como o profano se mescla à religião.

 

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