RECORTES (Conto de Fernando Canto)

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Conto de Fernando Canto

O trabalho do velho Rine era recortar jornais na Assessoria de Comunicação de uma repartição pública. Toda manhã o chefe lhe pedia que selecionasse notícias referentes a sua área de atuação para a produção de um clipping.

Um dia ele chegou mais tarde com os olhos vermelhos com ressaca de Gin. Tremia como um doente do mal de Parkinson. Seus colegas ficaram pasmos quando ele apanhou uma tesoura e começou a recortar todas as folhas dos jornais aleatoriamente. Depois cortou o bigode e os cabelos mal pintados de preto, e com alguma dificuldade, as calças e as cuecas. Decepou de uma só tesourada o inútil sexo para jogá-lo sobre a mesa do chefe. O sangue esguichava como um chafariz de anjos postos junto à mesa do computador. Ninguém teve coragem de ajudá-lo. Ao contrário, todos fugiram aterrorizados até alguém se lembrar de chamar a ambulância e os paramédicos do corpo de bombeiro.

Os gestos seguintes só foram vistos pelo chefe que ficara encurralado atrás da máquina copiadora. Rine cortou a língua e furou os olhos. Em seguida deu ma gargalhada gutural e “falou” coisas incompreensíveis.

Quando os bombeiros chegaram, ele havia acabado de cortar a jugular e seu corpo estrebuchava sobre as notícias espalhadas pelo chão. No ar pairava um cheiro de gin e o chefe saía do seu esconderijo arrumando a gaveta, preocupado com o clipping que teria de entregar ao seu superior.

* Publicado no livro EquinoCIO, de 2004.

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