REENCONTRO COM A TERRA NATAL – Crônica de Fernando Canto

Foto: João Canto

Crônica de Fernando Canto

A serra da Escama parecia um altar aos meus olhos viajantes. A coloração azul ao longe refletia no céu como um lago de espelho invertido. E eu ali, numa expectativa sem precedentes roía-me de ansiedade.

Entre células que se degeneravam e gotas cadentes quase contidas, eu me preparava para o encontro com a minha memória, com as pessoas e com a minha cidade, após 34 anos de ausência.

Foto: João Canto

A lancha que viajamos vindos de Santarém enfrentava a corrente do Amazonas a vinte milhas náuticas, o equivalente a 32 quilômetros por hora, traduziu-me o primo Alacid. Era um contínuo e injusto embate entre natureza e invento humano. Na aproximação a câmera capturou a paisagem construída e os arredores imersos nas águas da maior enchente de todos os tempos. Dava a impressão de uma catástrofe, pois o sol das doze horas duplicava a luz ao incidir nas águas da frente da velha cidade. Fomos deixados por sobre um cais improvisado que se estendia por uma passarela de três tábuas até a parte mais seca da rua, pois ora a cheia já começava o seu vazamento.

O Mercado Municipal de Óbidos ainda guarda lembranças da imponência do passado (Foto: João Canto)

A cidade nos esperava no alto, mas o cheiro de um churrasquinho vendido no pé da ladeira despertou a fome e inevitável foi consumi-lo. Depois subimos a rua das mangueiras. De passo em passo eu me voltava para trás para olhar aquele cenário: era um céu o manto do rio lá embaixo. Embarcações passavam como répteis sobre aquela forma líquida, descendo. Descendo não, correndo, enquanto as outras, menores, se esgueiravam em sua margem no sentido oposto.

Foto: João Canto

Após breve descanso fomos ao centro histórico: então um turbilhão de lembranças aflorou em mim como se eu houvesse participado da construção daquela longínqua vila que se instaurou no solo amazônico. Naqueles outros “dias recurvos”, diria o grande romancista obidense Ildefonso Guimarães, creio que construí fortalezas com lágrimas de dor, mas a ferro e fogo rompi a floresta e soterrei os inimigos com a abundante tabatinga do lugar.

Pôr do sol em Óbidos – Foto: João Canto

Uma volta ao pôr do sol na roda-gigante do parquinho me deu as dimensões da história e das permanências do lugar. A luz sobre cidade direcionava os quadrantes de sua geografia. Perto dali a presença dominadora da Igreja abraçava-me ao vento enquanto o antigo quartel do Exército, com seus minaretes e torreões, quase vermelho ao poente, mostrava toda a sua imponência. O branco cemitério, adiante, se rutilava em prantos dos apelos dos heróis redivivos. Então, aos poucos a cidade foi esmaecendo e sua bela arquitetura colonial tornou-se apenas pingos de um tecido brilhoso de luz artificial.

Pátio da Fortaleza Pauxis (Foto: João Canto)

Confesso que esse encontro fez meu coração bater bem mais acelerado. Aliás, a ânsia fora provocada há tempos, quando o Alacid me convidou pela enésima vez para fazer esta viagem, e eu, enfim, resolvi encará-la. Obidense, o arquiteto e empresário Alacid Canto, como todos os membros da sua família (incluindo, é claro, seu irmão João, que alimenta o site “Chupa Osso”), é um radical propagandista de seu amor por este importante município do Pará, no médio Amazonas, que tem como atração a sua própria história, a arquitetura e uma insólita estrutura cênica natural, na realidade um convite dos deuses para a poesia. E para a música.

Igreja Matriz de Sant’Ana em Óbidos, no oeste do Pará (Foto: João Canto/Óbidos Net)

Dizem que a memória é aquilo que somos à luz do que não somos mais. Por isso, talvez, este reencontro me sirva para consertar o que não quebrei, mas que a vida fez colidir com os muros que não ergui; que sirva para trazer à tona a amizade que me foi privada pela brusca partida – aquela que deixa quebrantos enrolados nas brumas da serra – porém, que num dia qualquer de sol com chuva volte entre as nuvens. Ou, quem sabe, como um fogo-fátuo, efêmero, mas brilhante.

Fernando Canto em Óbidos, 2009

Ainda estou aqui, velho coração, observando o cimento sobre os paralelepípedos da minha infância. Desacelerando ladeira acima.

*Texto de 2009. 

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