Resenha do livro “As alegrias da maternidade” – Buchi Emecheta (Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Por Lorena Queiroz

Certa vez ouvi minha avó dizer: ” Uma mãe cuida de dez filhos, mas dez filhos não bastam para cuidar de uma mãe”. Eu não entendia muito bem o que ela queria dizer com aquilo. Só depois de tomar conhecimento sobre a quantidade de idosos esquecidos em asilos, é que fui entender quanta razão vovó tinha. Seria essa uma das alegrias da maternidade?

A trama se inicia na década de 20 em Ibuza, Nigéria. Em uma tribo igbo, Nwokocha Agbani, um grande líder africano se apaixona por Ona, sua amante. Vindo desta relação, Nnu Ego. Vale ressaltar que a poligamia fazia parte dos costumes e Agbani tinha outras esposas. Quando Nnu Ego entra na adolescência, seu pai cuida de negociar seu casamento. A jovem esposa vai embora morar com a família de seu marido. Seu pai recebe seis barris de vinho de palma como agradecimento por sua filha ser uma virgem intacta. Ocorre que, por melhor esposa que a moça fosse, de nada valeria se ela não pudesse gerar um filho, e de preferência, homem. Assim, o casamento de Nnu Ego se desfaz sob todas as humilhações que uma mulher infértil poderia sofrer dentro dos costumes de seu povo. Agbani, protegendo o futuro da filha mais amada e não menos submissa, negocia um segundo casamento para Nnu Ego. O noivo era Nnaife Owulum, um homem rechonchudo que trabalhava em Lagos, Nigéria. Apesar das muitas diferenças entre os dois, Nnu Ego preza pelos costumes e a obediência ao pai; então, aceita seu marido, pois ele lhe ajudaria a mostrar a todos que não seria uma fracassada; aquele homem ao qual ela inicialmente não nutria atração ou afeto, lhe daria um filho. E logo isso acontece.

Em Lagos a vida era muito diferente de Ibuza. Sendo protetorado britânico, a influência do homem branco está presente. Eles empregavam os pretos que chegavam de lugares como Ibuza, e Nnaife Owulum trabalhava para os brancos. O que lhe fazia ser um pouco diferente de seu povo em alguns aspectos, mas conservando os costumes que lhe eram convenientes.

O tema central do livro é a saga da mãe Nnu Ego que, moldada pela idéia de que os filhos lhe trariam realização pessoal, prestígio perante a comunidade e segurança na velhice, passa pelas piores provações a que uma mãe poderia ser infringida, ainda mais dentro cenário histórico em que se passa o livro. Fome, privações e doenças. Uma mãe se virando sozinha para criar os filhos. Sempre sendo cobrada pelas tristezas e nunca premiada pelas alegrias. Pois quando um filho dava orgulho era mérito do pai. Mas quando errava era culpa da criação dada pela mãe. Uma eterna vida de cobranças, submissão e sofrimento. Não bastasse a condição difícil que ser mulher a colocava, ainda existiam as cobranças em cima da maternidade, que deixava sua vida cada vez mais difícil. Mas, apesar de todas as dificuldades, Nnu Ego consegue e, como todas as mães, sofre pelos filhos. Estes que são flechas lançadas ao mundo.

Confesso que esta leitura me causou um impacto muito grande. Nada que eu, e minhas irmãs de gênero não saibamos. Mas poucas vezes vi a verdade sendo colocada de maneira tão arrebatadora como Buchi Emecheta fez nesta obra que, além de mostrar uma atmosfera já difícil para qualquer ser humano, a condição da mulher é algo que é duplicadamente pior. E eleve à décima potência as dificuldades da vida de uma mãe pobre e sozinha. Não tão longe também as cobranças que ainda temos na sociedade pela procriação. Os que ainda acreditam que a mulher tem que ter um filho para sentir-se completa. Como se outras realizações fossem efêmeras mediante à alegria da reprodução. E, acreditem, é perfeitamente humano você não querer tê-los. Uma mãe é um ser sacrificado, ela nunca mais dorme como antes de seus nascimentos. Ela nunca mais ficará sem seu nome ser proferido por mais de 15 minutos. Vão sempre preferir adoecer a ver um filho doente. Pois estas são as mães, seres de corações calejados que possuem o amor que sempre salvará o mundo.

* Lorena Queiroz é advogada, amante de Literatura e devoradora compulsiva de livros.

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    Não conheço o livro nem a autora, mas me parece um enredo onde a dialética da tradição arraigada é tangida pelos mais terríveis sentimentos de discriminação contra a mulher.
    Vejo que sua complementação emana, traz fortemente à tona, sua condição de mãe com a poesia necessária para dar riqueza à história. Um envolvimento natural e bem colocado.

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    Eu ja li outras resenhas, comentadas por você, e me impressionou a tecnica que voce usa sempre posicionando no comentário o eixo central da temática da obra, e depois analisa a conclusão desta, e alem de aguçar nossa vontade de lê-la (seu comentário nos atiça a isso).
    Nos faz também desejar ler outras desse nível.

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    Agradeço imensamente ! A minha intenção é justamente que as pessoas se interessem pelas obras. Eu nada mais sou que uma entusiasta da leitura. ❤

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