Resenha do livro “Torto Arado”, de Itamar Vieira Júnior – (Por Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena)

Por Lorena Queiroz

Torto Arado é uma obra recente e publicada pela primeira vez em Portugal. O livro também foi o ganhador do prêmio LeYa em 2018, vindo posteriormente a ser publicado no Brasil. Esta obra de Itamar Vieira Júnior já tem cheiro e jeito de clássico.

O enredo trata das vidas de uma família composta por pessoas fortes. Pretos, mulheres e homens que carregam ainda o orgulho e o fardo de sua ancestralidade. O pai desta família é Zeca chapéu grande, marido da guerreira Salu e, curandeiro que emprestava seu corpo como cavalo nas noites de Jarê, religião de matriz africana, mais especificamente um candomblé de caboclo, exclusivo da Chapada Diamantina. Zeca é filho de Donana, mulher forte que sobreviveu a três maridos e que, transmitia aos seus a força que era evocada nas horas difíceis. Zeca, Salu e Donana são, respectivamente, pai, mãe e avó de Bibiana e Belonísia, personagens que, sob sua ótica, a trama irá se desenrolar. O livro ainda conta com uma terceira personagem narrando, mas disso evitarei falar, pois seria um spoiler bem desagradável.

As irmãs Bibiana e Belonísia cresciam em uma fazenda no interior do sertão brasileiro. Certo dia, as irmãs ainda crianças, mexem em uma mala velha onde sua vó Donana guardava alguns pertences. Lá encontram uma faca que, não era guardada por Donana como um mero souvenir, aquele objeto guardava uma importância e simbologia para aquelas pessoas, mesmo que elas ainda não soubessem disso. A curiosidade das irmãs, mediante ao metal brilhante encontrado na mala, causa um acidente, deixando muda uma das irmãs. Assim, as meninas selam um pacto silencioso, onde uma seria a voz da outra.

O mais interessante neste livro é que ele não precisa em que época a trama se passa. Em algum momento você faz um cálculo, pois, Zeca chapéu nasceu apenas trinta anos após a abolição da escravatura. O mais estarrecedor é que, independente de você se localizar ou não no tempo histórico, você se depara com uma realidade que ainda perdura nos tempos atuais. A família de Zeca chapéu grande morava em uma fazenda chamada Água Negra. As pessoas dessa comunidade viviam em situação análoga à escravidão, não recebiam salário ou alguma folga. Os fazendeiros “cediam” parte da terra para que, quem lá quisesse viver, construísse sua casa e cultivasse seu sustento. Ocorre que, o cobrado em troca era trabalho duro no cultivo das terras do fazendeiro. Moravam em casas de barro, proibidos de construir casas de tijolo, pois assim não se fixariam no local.

Então, de tempos em tempos, tinham que erguer outra casa, pois as enchentes e a ação do tempo, deterioravam as casas de barro. Estas pessoas quase não tinham tempo de cultivar na terra o seu sustento, a vida difícil que consumia a saúde e antecipada a velhice. Passavam por longos períodos secas e enchentes, que se alteravam como uma dança de má sorte. Sorte essa que era pedida que se afastasse através das súplicas aos encantados. E quando conseguiam fazer brotar da terra o que comer, os fazendeiros, através de seus empregados, efetuavam saques nas casas destas pessoas. Em determinado momento, quando há um questionamento sobre a posse da terra, fica muito claro no trecho as injustiças que ainda estão incrustadas em nossa sociedade: “Que chegou um branco colonizador e recebeu dádivas do reino. Chegou outro homem branco e foram dividindo tudo entre eles. Os índios foram sendo afastados, mortos, ou obrigados a trabalhar para esses donos da terra. Depois chegaram os negros de muito longe, para trabalhar no lugar dos índios. Nosso povo que não sabia o caminho de volta para sua terra, foi ficando”. Dentro deste panorama é impossível não lembrar Rosseau quando disse que, “o verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro homem que, tendo cercado um terreno, disse: isso é meu. E encontrou pessoas suficientemente ingênuas para respeita-lo. Quantos crimes, guerras e assassinatos, misérias e horrores teria evitado à humanidade aquele que, arrancando as estacas desta cerca tivesse gritado: não escutem este impostor, pois os frutos são de todos e a terra é de ninguém. “

Somos convidados não só a refletir sobre como se deu de forma injusta a posse de terras, como também perceber essa população que nunca teve permissão da sociedade para sair da escravidão. Índios expulsos de suas terras que se unem aos pretos sequestrados para trabalhar e servir aos ladrões das citadas terras roubadas. Outro trecho que esclarece com muita precisão essa condição : ” Os donos já não podiam ter mais escravos, por causa da Lei, mas precisavam deles. Então, foi assim que passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores. Não podiam arriscar, fingindo que nada mudou…Passaram a lembrar para seus trabalhadores como eram bons, porque davam abrigo aos pretos sem casa”.

Este livro mostra uma parte esquecida do país que, apesar de fazer parte de suas entranhas, é veementemente desconhecida ou ignorada por uma boa parcela da população. Sei que é incômodo à algumas pessoas, lembrar que, talvez a casa onde mora, o terreno que habitamos, foi roubo em sua origem. Lá no começo, quando o sujeito achou de cercar tudo e acabou por fazer raiva a Rosseau. Ou talvez seja mais incômodo ainda, pensar que boa parte da população preta e indígena se encontram entre os mais pobres por questões que vigoram desde nossa colonização. Mas esse é um povo forte, acostumados ao sofrimento que seus ancestrais e descendentes carregam, tais como bambus que vergam mas não se quebram, carregando através dos tempos sua religião, suas crenças e seus costumes. Teimando em não deixar suas raízes morrerem como vítimas do preconceito.

Não, caro leitor, minha intenção não é deixá-lo deprimido ou culpado, ao contrário, quero que você sinta o que eu senti lendo esta obra, quero ainda, apenas parafrasear Belchior : ” Eu quero é que este canto torto,feito faca, corte a carne de vocês. “

* Lorena Queiroz é advogada, amante de literatura, devoradora compulsiva de livros e crítica literária oficial deste site.

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    Como sempre suas resenhas, alem da sutileza de narrarem a estória ou história de um modo devido, deixam ao leitor um aguçado sentimento de curiosidade pelo desfecho do trama.
    Aplausos de pé!

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    Querida Lorena. Concordo com o Luiz Jorge. Já li o primeiro capítulo e assisti a entrevista do autor no programa do Bial esta semana. Parabéns.

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