RESENHA: GATOS PINGADOS, de Lulih Rojanski. São Paulo, Escrituras, 2018. Capa e ilustrações de Afrane Távora. 173 páginas.

Texto de Fernando Canto

O novo livro de contos de Lulih Rojanski traz dentro das 107 histórias o momento de sua maturidade como escritora. Algo maior do que já foi revelado há tempos com a publicação seus livros de crônicas e ficções, estas premiadas em concursos nacionais e usadas em vestibulares de universidades locais.

A obra se divide em quatro partes: Contradança, Pandora, Diálogos do Impossível e Dança sem Par. São short stories que têm uma dimensão estratégica para a contemporaneidade, na qual a brevidade com certeza é uma característica do gosto dos leitores, os que preferem o compacto ao fluídico; o rápido ao amplo, esquecendo eles que nem sempre a velocidade da leitura dilui a noção do prazer de perscrutar a filosofia que a autora intencionalmente coloca nas entrelinhas de sua produção, ou melhor, de sua poesia. Sim. Da sua poesia incrustada na prosa densa, como agulha que se interpõe nas palavras criando pontos de uma cerzidura sem nós.

Na apresentação do livro, o jornalista Sílvio Neto adverte que “a autora faz referência – às vezes reverência – a esses bichos (gatos) tão fascinantes, pingados aqui e ali por entre as páginas desta obra em prosa poética(…)”. Sílvio pede que nos esqueçamos dos maus tratos (tão desumanamente noticiados no dia-a-dia) para nos entregarmos à presença sinuosa e silenciosa desses felinos que andam com a altivez marcante de suas existências.

O leitor pode mesmo perceber que de dentro dos textos emerge um carinhoso afeto sobre tais felinos domésticos. Ao inverso da teoria epistemológica na qual o cientista, para entender e ser justo com a História dos homens e mulheres, deve passar a mão a contrapelo no gato, Lulih não só descobre isso como passa a enfocar nas suas narrativas que a necessidade da escrita ficcional traz uma realidade que é suscitada pelo carinho e pelo amor à vida e a esses animais, personagens de sua ambientação literária. É uma apologia clara aos felinos, tão clara quanto fazem na prática as ladies inglesas. Uma sacada inteligente da autora e mil observações que fazem seus movimentos silenciosos dos gatos ronrorarem num cotidiano que envolve mistérios a suplicar respostas “que não posso mais vê-lo na sua imobilidade de guardador das coisas que não ama. Porque o tempo não ama ninguém” (Laila e a Loucura). “Tenho uma necessidade estranha de dizer milhares de palavras todos os dias” (Hilda e o Trabalho). “Amava tanto aquele gato que tinha vontade de esmagá-lo de beijos” (Paixão). “Depois de aberta, somente a esperança ficou no fundo da caixa” (Pandora).

Lulih Rojanski e Fernando Canto

A autora tem o dom de fazer o leitor se apaixonar ao abrir qualquer parte do livro, pois ele vai se encantar com a escolha aleatória dos textos, tão bem articulados que o são. Do lírico ao aparentemente seco (sóbrio); do romântico ao surrealista, como o espetacular “Breve História do Gato que Falava Esperanto”, “O Homem de Papel”, “Destempo” e outros, fazem deste livro uma água termal e um sopro terno de vida, de morte e de desejo, posto o labirinto de temas, que conduzidos pelo fio de Ariadne, saem dele e se unem num só rio que deságua no oceano.

O absurdo ou fantástico ou surreal, como queiram classificar, são gêneros (e não escolas literárias), creio, nascidos da espécie escrita. O título, aliás, é uma confidencialidade acertada entre o real e o sonho. Ora, se uma criança imaginar uma torneira por onde saem 2, 3, ou 4 gatos pingados, pode esperar uma ou mais ninhadas que vão se acumulando para apreciar essa obra de Lulih. Mas enquanto o pepino não é torcido pequenino porque seria uma violência na educação infantil, é melhor que todos nós sonhemos juntos e aprendamos com ela o gosto pela leitura e o voo imprescindóivel da imaginação. E deixemos que ela afirme enquanto autora: ”Deixei algo primordial perdido no destempo” (Da Ausência).

O tema, esse misterioso elemento – passando pela veneração simbólica dos egípcios aos felinos e à suscetível bricolage do conto policial de Edgar Allan Pöe, “O Gato Preto” – chega em Lulih Rojanski como força motriz da sua literatura amadurecida, exata, bela.

IDUNA E A LOUCURA
Lulih Rojanski

Não me perdoe. Minha nova ordem é inventar palavras que lhe façam mal. Crio-as no barro, na forja, para que carreguem o tamanho exato do que precisam dizer, ainda que seja necessário amputá-las, esticá-las, sangrá-las até a conformação. Para você eu invento palavras sem representação escrita que aprendi por instinto, em Caximba dos espíritos, em Babel, na margem da busca em minha própria gênese. Procuro palavras anticristo que não compõem nenhuma protolíngua e sua ancestralidade, leio entrelinhas de signos gráficos de 50 mil anos, à procura da asa que parte do mais abissal silêncio, a asa: a palavra que lhe faça mal. Não me perdoe. Não quero de volta a flecha lançada, a brasa extinta, o voo perdido. Sobrevivo porque me agarro ao fio inextinguível da palavra, porque meia palavra não me basta. Do outro lado do silêncio me preparo para ouvir as palavras que criei pousando como corvo em seus ombros. E quando você desaparecer na última esquina, no labirinto do nunca mais, só uma coisa me fará falta: as palavras de bem que desperdicei.

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