Revista de consultório no tempo que não tinha WhatsApp – Crônica de Fernando Canto

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Crônica de Fernando Canto

Depois de um check-up com médicos de diversas especialidades, sentado nas antessalas à espera de ser atendido, aprendi que a paciência nos força a buscar alternativas para passar o tempo. Os consultórios médicos e de dentistas são estranhos. Ninguém cumprimenta ninguém e quando as pessoas falam parecem sussurrar.images (3)

Uma dessas alternativas, além da leitura de velhas revistas e dos jogos do telefone celular, é a televisão, que dependendo do horário da consulta, pode oferecer um programa, um filme, um capítulo de novela ou um desenho animado que gostamos, até a hora de sermos chamados.

sala-de-espera (1)Outra, mais pragmática, é fazer como um cliente que chegou ao consultório: perguntou quantas pessoas havia na sua frente e disse que ia para casa dormir um pouco, e que voltaria em tantas horas, já prevendo o tempo que iria ficar esperando. Certa vez observei um senhor tirar uma revista de palavras cruzadas do bolso e se interiorizar resolvendo os problemas expostos na revista. Devia ser um craque em consultório médico.

Mas todas eecad1ssas opções têm seu lado negativo, senão vejamos: há consultórios em que a televisão fica instalada no alto, próxima ao teto, ligada em um canal de preferência da atendente. Nesse caso, ocorre que ficamos meio envergonhados de pedir que ela mude de canal com receio dos demais clientes estarem satisfeitos com o que passa na TV. E a atendente fica lá no balcão toda poderosa, dona do controle, assistindo ou ouvindo o que ela quer. Os jogos dos celulares têm a desvantagem de fazer a bateria do aparelho arriar rapidamente, sem que percebamos. Agora, saidownloadr do consultório para dormir e voltar pode acontecer de o cliente perder a vez e retornar para o fim da fila, como aconteceu com o que eu vi. Já o homem das palavras cruzadas quase perde a vez porque estava mesmo muito compenetrado no seu passatempo. Foi necessário que a atendente lhe chamasse por diversas vezes.

Numa dessas consultas resolvi ler uma revista semanal de três anos atrás e me diverti muito com as frases sobre as eleições presidenciais e com as afirmações de políticos sobre o futuro do Brasil. Enquanto o tempo passava peguei mais umas quatro disponíveis, pois ninguém queria saber de ler e sim de ver o programa da TV. Fui folheando uma de seis meses antes, e a mais nova, uma “Caras” dois meses atrasada.

Confesso qrevista2ue me diverti à beça com as notícias nelas veiculadas. Li frases de ilustres filósofos e escritores famosos, pequenas reportagens sobre o meio ambiente ameaçado na Amazônia e indicações de filmes e livros que até então não havia lido ou assistido. Eu estava “passado batido” como se diz na gíria dos jogadores de dominó. Então me “atualizei” posteriormente ao correr atrás dessas peças que gostaria de ter visto ou lido, e não o fiz por falta de informação ou mero esquecimento.

88622616Agora não ouso mais falar mal das revistas velhas dos consultórios. Elas nos ensinam mesmo retardatariamente que devemos é ouvir e reler os fatos atuais, sem esquecer que os acontecimentos do passado foram importantes para o agora, da mesma forma que nos jubilamos ao encontrar um documento perdido há tempos, que apareceu na hora em que mais precisávamos dele. É como um bom dinheiro achado entre as páginas de um livro que sem querer tiramos da estante para folheá-lo . O chato é que no momento que uma matéria parece ser interessante, a atendente nos chama e a gente tem que deixar a revista no lugar sem terminar de lê-la.

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