Rock marginal: rock não combina com Bolsonaro (Rockeiros e conservadorismo) – Por Marco Antônio Costa

Por Marco Antônio Costa

Nos últimos dias foi tema de debate a intervenção política que Roger Waters tem feito em seus shows. Mas já de algum tempo, há um debate sobre rock versus conservadorismo.

Diante disso, resolvi escrever este texto, sem a pretensão de encerrar debates e, ao contrário, quero abri-los. De cara esclareço que ele tem o objetivo de conversar com os amigos headbangers como eu, de que votar em Bolsonaro é um retrocesso enorme. Inclusive para nós rockeiros.

O rock é marginal. É verdade que nem sempre o foi, mas mesmo nas diversas vezes que atingiu o mainstream da indústria fonográfica, sempre foi olhado de lado, com desconfiança e muito preconceito. Ou seja: até quando vende milhões, o rockeiro é mal visto pelo tal cidadão de bem. São os drogados, os de cabelo sujo, os viados, os que fazem orgias e toda uma sorte de conceitos pré-estabelecidos. Este é apenas um lado da marginalidade do rock. Outros estão dados pelos contextos sociais e históricos em que esteve inserido.

A origem do rock, seu nascimento, por exemplo, é negro. Por anos o rock foi visto e xingado nos EUA como uma música nigger. A tradução literal de nigger é negro, mas no arquétipo do modelo do racismo estadounidense, significa uma grave ofensa racial. Seria como um “preto filho da puta!” aqui no Brasil, ou mais ou menos isso. Vocês já se perguntaram porque Elvis é considerado o Rei do Rock?

Elvis foi o branco que teve a sagacidade de tocar música negra quando ninguém o fazia, ou poucos o faziam. Ele obteve sucesso tocando a nova música dos negros, a música de Nova Orleans e dos estados negros que misturavam Blues e Country, distorcendo guitarras e dando forma aquilo que conhecemos hoje como rock. Nem de longe desconheço a importância histórica, a qualidade e a relevância de Elvis, mas é necessário afirmar que a coroa foi parar na sua cabeça e não para um Chuck Berry, por exemplo, também por racismo e por interesses comerciais, pois era mais fácil vender um som branco.

Aqui vale a ressalva de que é impossível não ocultar, pelo tamanho do texto, dezenas e dezenas de nomes, de bandas, de gente pioneira que desde as primeiras décadas do século XX foram fazendo experimentações que criaram o Rock´n Roll. Portanto, embora não consigamos precisar a data, nem local específico, é possível afirmar que o rock nasceu preto e nasceu balançando as cadeiras e quadris, e dançar de forma espetacular e chocante para uma conservadora sociedade americana pós-guerra da década de 50, foi um dos grandes feitos de Elvis. Mas é isso, os negros já o faziam há algum tempo e esse dado é precioso para o objetivo do texto: o rock nasce marginalizado, discriminado, feito em guetos, portanto identificado com a vida dos mais pobres e dos explorados.

Heavy Metal

É verdade que quando atravessa o atlântico e chega à Inglaterra, o Rock primeiro conquista jovens virtuosos e de classe média londrinos. Depois chega à Cambridge e se espalha pelo país. Chega à cidades operárias como Liverpool e Birmingham, e com isso chegamos ao Heavy Metal.

O metal é onde conseguimos observar mais rockeiros abertamente conservadores. E acredito que isso é ainda mais contraditório. Muito mais. Senão vejamos, indo à história. Há um quase-consenso de que o metal nasceu, na sua forma mais acabada com o Black Sabbath. E o Sabbath nasceu em Birminghman, cidade operária e metalúrgica. E foi com o metalúrgico Ozzy Ousbourne e operários carvoeiros como o baterista Bill Ward que nasceu o metal. Foi com o guitarrista metalúrgico Tony Iommi – que perdeu a ponta de três dedos em uma prensa na fábrica e os reconstituiu com plástico derretido para seguir tocando – que se deu esse parto. Observem a forma épica, bárbara, fabril como nasce o metal. Ozzy contou em uma entrevista: “Eu nasci e vivi, durante muitos anos, num lugar em que a vida era trabalhar, trabalhar e trabalhar, do berço à sepultura, em fábricas de chapa de aço”. Vou marcar isso fortemente e repetir mais uma vez: o heavy metal nasceu operário, em um ambiente sem perspectiva social, em meio às fuligens das fabricas inglesas. Essa localização social determinou as temáticas da banda. Ao invés de um mundo belo e de amor, um mundo mais cruel, de contestação e obscurantista. Um mundo real. Também se tratava de uma banda anti-imperialista. Um dos clássicos da banda, War Pigs (Guerra dos Porcos, uma das músicas que escuto enquanto escrevo este texto, inclusive, recomento), foi um grito de protesto contra a guerra do Vietnã. Vamos à letra:
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Porcos da Guerra

Generais reunidos em suas massas/Como bruxas em missas negras/Mentes malignas que tramam destruição/Feiticeiros da construção da morte/Nos campos os corpos queimando/Enquanto a máquina de guerra continua girando/Morte e ódio à humanidade/Envenenando suas mentes lavadas/Oh, Senhor, sim!/Políticos se escondem/Eles apenas iniciaram a guerra/Por que eles deveriam sair para lutar?/Este papel eles deixam para os pobres, sim!/O tempo dirá a suas mentes poderosas/Fazendo guerra só por diversão/Tratando as pessoas como peões no xadrez/Espere até o dia do julgamento deles/chegar, sim!/Agora na escuridão, o mundo para de girar/Cinzas onde seus corpos queimavam/Sem mais porcos de guerra do poder/A mão de Deus marcou a hora/Dia do julgamento, Deus está chamando/Sobre os joelhos, os porcos de guerra rastejando/Implorando misericórdia por seus pecados/Satã, gargalhando, abre suas asas/Oh, Senhor, sim!/
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Esse cenário de tensão – admito especular – também justifica a característica central do metal, que pode ser definido como um som “pesado”. A distorção da guitarra, os grandes solos, a agressividade das performances e tudo o mais que nós bangers tanto gostamos, possivelmente tem origem, vejam só, na não aceitação das contradições do mundo do trabalho. Então, sim, o Heavy metal tem origem como uma música de protesto, por mais que nem sempre engajada, mas um grito de protesto sem dúvida.

Birmingham depois ainda teria a proeza de lançar outra banda de metal mais do que digna de nota: Judas Priest. Além da importância musical do Judas, os cito aqui por causa do vocalista Rob Halford, o primeiro gay assumido de uma grande banda de metal. Você, meu rockeiro e minha rockeira, que tanto contempla e se dá de boa com a homossexualidade do Fred Mercury não sabe, ou deve saber, como Rob sofreu quando assumiu sua homossexualidade.

E este é o primeiro ponto em que faço uma inflexão na minha tese central. Apesar de progressivo em relação aos temas sociais, o rock acompanhou ou andou próximo do restante da sociedade quando o assunto era comportamental. E essa sempre foi uma conta que não fechou. Ora, se há alguém discriminado na nossa sociedade pela música que escuta e pela forma que se veste, esses são os metaleiros. Mais ainda os do trash, black e death metal. Como conceber que quem é discriminado, discrimine da mesma forma ou de forma parecida outras pessoas? Como fãs de carteirinha do Judas, renegaram a banda à época que Rob assumiu sua orientação sexual? Essas não são parte das contradições do passado, são do presente, trata-se de uma das contradições fundamentais que esse texto quer abordar. Como você se sente, meu rockeiro, minha rockeira, meus consagrados bangers, com o fato de serem muito mal vistos pelos ’cidadãos de bem’ da nossa sociedade, gente babaquinha e hipócrita, e faz a mesma coisa com gays ou mulheres ou negros? Ou se não faz, como compactuar, votar e até chamar de ‘’’’’’mito’’’’ um ser que não para de destilar ódio, que faz apologia da ditadura, que humilha mulheres e diz ter dado boa educação para os filhos não se envolverem com negras? COMO? Você fica de boa?

O Rock também foi uma grande expressão, um canal de protesto contra a guerra do Vietnã nos EUA e em todo o mundo. Os protestos pacifistas daquele decisivo final da década de 60 foram embalados a rock e a folk. Acho que posso afirmar que a principal manifestação artística e cultural desta época, o festival de Woodstock, foi embalado por rock e declamado na poesia de Bob Dylan.

Mais ainda: o lema do Bolsonaro é “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos” e a coligação formal dele com o neopentecostalismo é uma realidade. Aí eu vos pergunto: você acredita que não será ainda mais discriminado em um governo desses setores fundamentalistas e intolerantes? O cabelo grande, uma tatuagem ou camisa do Iron com o Eddie estampado, nunca te fizeram passar nenhum constrangimento? Responda com sinceridade, você pode ir numa numa boa em uma entrevista de emprego com os adornos que seu estilo de música, de se vestir e de se portar? Eu sei a resposta para todas essas perguntas. E eu quero te afirmar que em um governo conservador tudo, mas absolutamente tudo isso, certamente ficará pior.

O rock e o metal sempre fizeram apologia à liberdade, sempre foram livres e jamais concordaram com autoritarismo algum. É, portanto, não apenas uma vacilada, um pequeno deslize, mas uma enorme contradição um headbanger conservador! Um headbanger votar em Bolsonaro. Reflita!

Punk

Jaquetas de couro, pinos, correntes, cabelo moicano, poucos acordes e um questionamento geral do funcionamento da sociedade. Não é um acaso que o punk tem toda uma vertente ligada aos movimentos anarquistas, de questionamento do poder estatal e da estrutura de classes da nossa sociedade. Talvez seja o punk o mais eminentemente político dos movimentos e das fases do rock.

No Brasil cabe ao punk a maior vinculação ao movimento operário. Oriundo do ABCD paulista, de Osasco e da capital São Paulo, o punk brasileiro é parte da frente que enfrenta a ditadura brasileira e acompanha o novo e insurgente movimento sindical do final dos anos 70. É deste período o hino anticapitalista: “Papai Noel, Velho batuta/rejeita os miseráveis/eu quero mata-lo, aquele porco capitalista/presenteia os ricos, cospe nos pobres (…)”. Mas engana-se quem achar que o punk brasileiro passa incólume pelas incoerências do tempo. Os mesmos Garotos Podres autores da música acima, há anos vivem em contendas que envolvem, dentre outras coisas, diferenças políticas. José Mário Mao Rodrigues, professor da USP, também é o bom e velho Mao dos Garotos Podres que tem falado repetidas vezes que a banda rachou porque um setor hoje é claramente conservador.

Grunge

“Faça a Evolução
Eu estou a frente, eu sou o homem/Eu sou o primeiro mamífero a usar calças, yeah
Eu estou em paz com minha luxúria/Eu posso matar, pois em Deus eu confio, yeah
É a evolução, querida
Eu estou em paz, eu sou o homem/Comprando ações no dia da quebra
À solta, eu sou um trator/Todas as colinas, eu irei aplanar todas elas, yeah
É comportamento padrão/É a evolução, querida
Me admire, admire meu lar/Admire meu filho, ele é meu clone
Esta terra é minha, esta terra é livre
Eu faço o que eu quiser, mas irresponsavelmente
É a evolução, querida
Eu sou um ladrão, eu sou um mentiroso
Esta é minha igreja, eu canto no coro
(Aleluia, Aleluia)
(…)”

“To the evolution” é apenas uma das canções do grunge que questionou nossa modernidade insana. Pearl Jam, Nirvana, Alice in Chains entre outras bandas fizeram do início dos anos 90 um novo boom e um novo recorte dentro do rock. Não estranha que tenha sido Seattle a protagonizar fortes e históricas lutas antiglobalização no fim da década. A estética, a pegada, as novas distorções da guitarra fizeram de Kurt Cobain e Eddie Vedder ícones de toda uma geração. Com letras por vezes mais enigmáticas e introspectivas, fecharam toda uma tendência mais pop e fun que havia na época.

Me parece o rock alternativo atual, notadamente o que se entende por indie, quem tem se portado melhor politicamente, incorporado pautas e se refletindo de forma mais coerente com a história do rock. Som mais ‘leve’, mas muito mais ideias na cabeça. E isso se estende muito mais para os seus fãs.

É claro que uma das hipóteses que tenho para explicar algum tipo de giro mais conservador, tem relação direta com a entrada pesada do dinheiro. A indústria fonográfica compra almas não é de hoje. No público em geral, me parece que há uma questão etária e também econômica. O rock saiu dos guetos, que me parece muito mais ocupado pelo hip-hop hoje em dia. O rockeiro médio envelheceu, passou em um concurso público, bebe cerveja maltada e também se crê parte de uma elite. De tão conceitual, diferente, alternativo e cult, muitas vezes deu passos para o conservadorismo. Este não é um artigo acadêmico, é um texto livre e portanto carece de comprovações sociológicas. Mas aposto alguns quinhões que se seguirmos essas pistas podemos pelo menos em parte comprova-las.

Se você conseguiu chegar até aqui na leitura, te agradeço e te parabenizo. Se te deu a impressão de que passei de forma muito telegráfica pelos momentos, também achei e acredite que me esforcei muito pra diminuir o texto.

O fato é que o rock é transgressão, é liberdade, é contestação do status quo, é antiautoritarismo e tudo isso não combina com Bolsonaro. Existem sim bandas e personagens grotescos, assumidamente conservadores na história do rock. A arte também é um espaço de disputa e com o rock não é diferente. Mas queria que você não ficasse tranquilo em ir pra rodinha punk ou tomar tua cervejinha e ouvir o teu som achando que está tudo ok se você votar em Bolsonaro. Não, não está, tu és um puta de um incoerente que não consegue nem honrar o ritmo que faz tua cabeça. Queria mesmo que você refletisse. Desculpa se em algum momento peguei pesado, mas é que o bagulho parceiro, já está pesado pra caramba.

Há tempo: rockeiro não vota no seu opressor. Nenhum voto em Bolsonaro!

* Marco Antônio Costa é, além de fã e conhecedor de Rock and Roll, professor de Sociologia.


  • Elton Tavares… Parabéns!!! Vc foi exatamente em pontos importantíssimos e coerentes sobre esse assunto, diga-se, surreal…
    Vou fazer um comentário, um tanto marginal e pode até ser preconceituoso… Mas é meu pensamento.
    Acima de tudo, Rockeiro é homem… Homem por sua própria natureza é MACHISTA… Então eles decidiram entre, uma ideologia, rock, e uma situação encroada no ser deles… E por ser tão arraigado neles isso, até acho que eles não tem noção.

  • Parabéns pelo seu conhecimento profundo do comportamento e história do rock roll!! É gratificante ler um breve histórico do estilo musical citando exemplos respeitáveis do estilo. Porém… Infelizmente, não posso concordar com o seu argumento contundente em dizer crer que rock não combina com Bolsonaro. Digo isto por conhecer vários músicos e rockeiros que apoiam o candidato à Presidência da República Federativa do Brasil, Jair Messias Bolsonaro. Lembre-se de um fato: O rock n’ roll é manifesto político e social, sim, mas não é exclusividade de uma só ideologia política ou social. É muita ousadia sugerir que todos os rockeiros não devem apoiar Bolsonaro justamente porquw a sua afinidade ideológica é contrária à reação popular de indignação contra mais uma tentativa de governo do Partido dos Trabalhadores, vulgo PT. É fato notório que este mesmo partido político quase levou o nosso país à falência, por comprovados atos de corrupção desenfreada . Lembre-se: O rock n’ roll tem sim, a opinião da Esquerda mas também aopinião da Direita e não pertence à uma só ideologia política e social como também pode existir um sociólogo com ideologias políticas de Esquerda, do mesmo modo, há sociólogos com ideologias de Diteita.. O rock n’roll tambem amadurece em toda a sua postura em ambos os lados mas eu creio fortemente que logo será destruída essa fronteira ideológica que existem entre o povo brasileiro atualmente por uma simples constatação: o brasileiro está cansado de ser iludido com utopias políticas que sugerem a discórdia, separação denominação de classes sociais, caça-às-bruxas-ideológicas de qualquer espécie. Acredito que você pode conversar mais com os artistas do rock n’roll que tenham opiniões contrárias às suas divagações de forma democrática e respeitosa (até porque o rock tem cérebro e cansa de ser revoltar com tudo , quebrar tudo e não resolver nada, né?) para perceber que toda a população brasileira exige uma necessário mudança de governo. Temos que nos unir. Não haverá perseguições por alguém ser negro, ser gay, ser gordo ou magro, como está sendo disseminado constantemente pela Esquerda Intelectual e muitos artistas favorecidos monetariamente pela Lei Rouanet. É interessante perceber a quantidade de artigos inflamados de protestos ou clamores de resistência política socialista que estou lendo depois de uma semana de que ocorreu o show do Roger Waters em São Paulo. Queria muito ler algo que me desse esperança de um país mais justo e correto. Ironicamente melhor frase do Roger Waters em uma música do Pink Floyd: TOGETHER WE STAND/DIVIDED WE FALL. Pense nisso, camarada.

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