Rosto sem nome – Por DaniElle Custódio – @elle_custodio

Por DaniElle Custódio

Era noite de natal, no ano de 2015, quando saímos para distribuir as marmitas aos moradores em situação de rua. A ideia era levar a ceia até eles, mas acabamos entregando mais do que comida. Aquecemos os seus corações e também os nossos.

Depois desse primeiro encontro, realizamos muitas ações pelo projeto social Liga do Bem em Macapá. Foi por meio dessa missão urbana que comecei a perceber nas ruas do centro da cidade a existência dessas pessoas invisíveis na sociedade.

Os rostos deixaram de ser anônimos e ganharam nomes. Comecei a enxergá-los dentro dos ônibus com suas histórias recontadas no exercício da mendicância, dentro dos bancos perto dos caixas eletrônicos, nos pontos dos semáforos pedindo o dinheiro do lanche, nas praças fazendo trabalho de flanelinha ou oferecendo serviços básicos para desamassar lataria de carro. Até no hospital os encontrei.

Tudo isso era muito louco, principalmente quando os encontrava e conversávamos, as outras pessoas me perguntavam se eu os conhecia. Não imagino o que passava pela cabeça desses curiosos.

Numa segunda-feira, saí para mais uma missão. Lembro que nesta noite, carregava muita tristeza, mas precisava ir. Nunca faltava nessas saídas e sempre convidava outros amigos. Então, saímos como sempre fazíamos e nos deslocamos a um novo ponto que era na frente do hospital de especialidades.

Ao chegar, conhecemos novos rostos sem nomes. Enquanto alguns cantavam, tocavam, outros ajudavam na distribuição dos alimentos. Peguei um copo de sopa, pão e suco e entreguei na mão de um senhor. Ao receber, ao invés de dizer um muito obrigado, olhou nos meus olhos e disse: “Deus existe!”.

Aquela frase foi como uma esbofeteada no rosto. Aquele senhor exclamou como forma de gratidão a quem reconhecia como Provedor ou falou direto comigo por perceber que estava triste? Não sei a resposta. Naquele momento, esqueci a tristeza. Também não me lembrei de perguntar o seu nome. No entanto, suas palavras me marcaram profundamente.

Crônica publicada no Blog da ELLE.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *