Roteiro de Leitura de “Os Sertões” (Euclides da Cunha) – 3º Capítulo: A Luta em Os Sertões– Por @yurgelcaldas

Por Yurgel Caldas

Dividida em quatro partes (I. Antecedentes; II. Causas próximas da luta. Uauá; III. Preparativos da reação. A guerra das caatingas; e IV. Autonomia duvidosa), “A Luta” encerra a narrativa de Os Sertões. Na prática, trata-se do momento em que o leitor tem acesso aos diários de guerra, desde o primeiro até o último combate da Guerra de Canudos: “Despertou-os o adversário, que imaginavam iam surpreender. Na madrugada de 21 desenhou-se no extremo da várzea o agrupamento dos jagunços…” Chama atenção a visão da política como fanatismo e do fanatismo como ato político: “Seguiam para a batalha rezando, cantando – como se procurassem decisiva prova às suas almas religiosas” […] “Reunidos sempre em volta da bandeira do Divino […] os jagunços enfiavam pelas ruas” […] “Cercam-lhe relações antigas. Todas aquelas árvores são para ele velhas companheiras. Conhece-as todas. Nasceram juntos; cresceram irmãmente; cresceram através das mesmas dificuldades, lutando com as mesmas agruras, sócios dos mesmos dias remansados” […] “A natureza toda protege o sertanejo”.

Também é notável a forma como o homem (antes sertanejo, agora jagunço – o guerreiro do sertão) se articula à terra para obter vantagem nos combates: “[…] as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta” […] “E o jagunço faz-se o guerreiro-tugue, intangível […] As caatingas não o escondem apenas, amparam-no” […] “É que nada pode assustá-los”. Lembrando que “tugue” é uma religião hindu, cujos membros faziam sacrifícios humanos por estrangulamento; em sentido figurado, significa um ser sanguinário e cruel.

Euclides da Cunha. Caricatura de Raul Pederneiras (1903)

Numa referência ao cangaceiro, Euclides da Cunha menciona o romance O Cabeleira, de Franklin Távora, para explicar o termo “derivado de cangaço”: “O assassino foi à feira debaixo do seu cangaço, dizem os habitantes do sertão”. O “cangaço”, aliás, é um termo de sentido vário, que – a despeito de significar o “engaço” ou “bagaço” (parte que sobra de frutas espremidas, que eram utilizadas como utensílios em casas pobres e como suporte para armas dos “cangaceiros”) pode remeter a um movimento social ocorrido em várias partes do Nordeste brasileiro entre os séculos XIX e XX; um sinônimo de banditismo.

Foto encontrada no site “Imagens Históricas do Brasil”.

Nesse momento, o narrador oscila entre apresentar a guerra do ponto de vista do exército oficial, que combatia a resistência armada sertaneja, e a própria visão do homem metropolitano que, de certa forma, se organiza em torno dos desejos do próprio exército oficial: “Felizmente os expedicionários, em ordem de marcha, tinham prontas as armas para a réplica, que se realizou logo em descargas rolantes e nutridas”. É interessante também como o narrador qualifica os guerrilheiros resistentes de Canudos, ou seja, os cangaceiros: “o sinistro João Abade […] o ardiloso Macambira […] o terrível Pedrão”.

Velha Canudos, estátua de Antônio Conselheiro, ao fundo capela de São Pedro – Foto encontrada no site https://pa4.com.br/home/

Em determinado momento, “quebrou-se o encanto do Conselheiro. Tonto de pavor, o povo ingênuo perdeu, em momentos, as crenças que o haviam empolgado”. Trata-se de um momento importante, mas ainda não decisivo na guerra de Canudos, pois o Conselheiro retomaria a vida espiritual dos sertanejos em sua mão.

Antônio Moreira César – Foto: wikipédia

Vale a pena conferir a descrição que o narrador faz do coronel Antonio Moreira César, o comandante da 7ª Infantaria na primeira expedição a Canudos. Tal descrição lembra muitíssimo a de Antonio Conselheiro, seu antagonista. Diz Euclides sobre Moreira César: “Tinha o temperamento desigual e bizarro de um epiléptico provado, encobrindo a instabilidade nervosa de doente grave em placidez enganadora”.

Old papers in the vintage handbag

Por fim, ocorre uma espécie de retomada de consciência histórica do narrador metropolitano, soldado oficial e ente civilizador do Brasil republicano e moderno, em nome do homem nordestino, de sua terra e de sua luta diária e justa por sobrevivência: “O sertanejo defendia o lar invadido, nada mais”. No final, Os Sertões soam como uma espécie de perturbação da ordem e da unidade nacionais. Na passagem intitulada “Fora da pátria”, o narrador considera as impressões dos novos expedicionários na última incursão do exército oficial em Canudos: “Viam-se em terra estranha. Outros hábitos, Outros quadros. Outra gente. Outra língua mesmo, articulada em gíria original e pinturesca” […] “Tudo aquilo era uma ficção geográfica”.

Os Sertões também podem ser lidos, a partir de seu final, como um elogio à resistência do mais fraco ante um arco de forças muito mais poderoso do que as formações sertanejas/cangaceiras. Assim, Euclides, após a vitória do exército republicano, afirma: “Fechemos este livro. Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo”.

*Contribuição do amigo Yurgel Caldas, que é professor de Literatura da Unifap e do Programa de Pós-graduação em Letras (PPGLET) da mesma instituição.

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