Seja criança quando ainda se pode …


A melhor fase da vida talvez seja quando somos crianças, muitas pessoas alegam sem dúvida alguma, sentirem falta das brincadeiras, da falta de responsabilidade que a idade infantil proporciona, dos sonhos nascidos através de uma imagem, voz, onde tudo se descobre e se tudo se pode, inclusive ser sincero demais é permitido quando se é criança.

A minha infância foi regada a brincadeiras de roda, a famosa pira pega, pira esconde, pular elástico então nem se fala, subir nas mangueiras, nas goiabeiras, nas ameixeiras tudo com muita vontade de aproveitar o máximo à infância.

Sou jornalista e essa profissão que escolhi foi devido à admiração que nutria e ainda tenho pelo meu tio, Jackson Barbosa.  Eu era pequena tinha nove para dez anos e escutava suas diversas histórias que contava, quando vinha passar férias em Macapá, pois naquela época o curso de Jornalismo só tinha na UFPA, universidade ao qual foi aprovado.

Muito aprendi com o tio Jack, como histórias de lutas, de idéias libertadoras, de um mundo melhor por meio de sua atuação revolucionária de ver o mundo e não se acomodar com o que é imposto para nós. Naquele momento em que eu ouvia seus relatos, algo de novo nascia em mim, até hoje não sei o que fato, mas alguma coisa me fez ver as coisas de vários ângulos.

Os anos se passaram eu cresci, fiz a trajetória normal do curso da vida, mesmo em ordens inversas, brinquei, estudei para ser jornalista, tive filho e depois casei, mas me uni com o pai da minha filha, treze anos juntos, que felicidade é para mim.

Confesso que não sou uma jornalista que se cria na noite amapaense, mas minhas raízes estão aqui nessa cidade, sou filha da terra, gosto daqui. Nasci no bairro Santa Rita, trabalho no Santa Rita e moro no buritizal. Para chegar em casa sempre depois das seis, passo todos os dias pela rua Claudomiro de Moraes e sempre me deparo com crianças , adolescentes e jovens se prostituindo, elas tem a idade que eu tinha quando comecei a sonhar.

Essas crianças mulheres afirmam que são donas do seu próprio corpo, e que os seus corpos são seu ganha pão e não tem nenhuma outra alternativa para se sustentarem. Eu fico impactada toda vez que passo pela Claudomiro e vejo a mesma cena se repetir todos os dias. Mas é só isso, cadê a minha vontade de mudar o mundo, onde estão meus ideais, o fato é que eu também não faço nada e até quando?

Essa pergunta tem sido feita, dia após dia pela minha consciência e minhas mãos estão atadas perante a essa sociedade que sabe julgar como ninguém, e que mostra apenas os caminhos onde se pode ir, sem oferecer uma ajuda coerente para as meninas que vendem seus corpos por R$ 20,00.

A minha covardia de fazer algo pelas jovens da Claudomiro foi superada pela coragem, que aprendi quando era criança, quando sonhei quando criança. E tenho fé, que essa situação pode ser mudada, mesmo que muitos digam que o problema social no Brasil é um arcabouço sem fim.
Lilian Monteiro/Jornalista
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Commentários
  1. Édi Prado

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