Senzalas: dos recantos do Amapá para o mundo – Por Rebecca Braga – @rebeccabraga

Por Rebecca Braga

Em 1996, um grupo de amigos, que não por coincidência eram compositores, resolve viajar pelo Estado do Amapá para pesquisar manifestações culturais que fossem genuinamente amapaenses. Esses artistas aventureiros eram Amadeu Cavalcante, Joãozinho Gomes, Val Milhomem e Zé Miguel, que durante essas viagens se aprofundaram em pesquisas sobre o Marabaixo e o Batuque, manifestações artísticas e culturais de origem africana, exercidas majoritariamente por afrodescendentes em áreas rurais ou urbanas, em quilombos, nas casas das famílias festeiras de parte significativa do território amapaense.

O Marabaixo e o Batuque são a maneira pela qual o negro amapaense resguarda suas memórias, sua história de resistência, seus valores culturais e religiosos. Outrora visto pela ótica de uma manifestação puramente folclórica e tendo passado por processos contínuos de apagamento, hoje, depois de relativo período de valorização inclusive do ponto de vista das políticas públicas de Educação e Cultura, essas manifestações são a parte fundamental na construção da identidade amapaense e do reencontro com a ancestralidade negra.

Ainda vivendo o clima do disco Planeta Amapari, que juntou Val Milhomem, Zé Miguel e Joãozinho Gomes e embevecidos por essa redescoberta do Amapá, o grupo começa a compor canções que pretendiam ser uma música brasileira, amazônida, mas essencialmente amapaense. Com as composições em mãos e a pesquisa em fase de finalização, o grupo retorna a algumas comunidades pra mostrar o resultado final.

Sabendo que tinham encontrado o que procuravam em termos de música, poética e significados, o grupo grava o álbum Dança das Senzalas, título da primeira faixa do CD e que mais tarde deu nome ao grupo. Depois de um show histórico realizado em 1999 no Canecão, casa de show carioca que recebeu ao longo de sua história alguns dos maiores artistas brasileiros, o grupo passou a chamar grupo Senzalas. Depois disso, foram inúmeros os convites para tocar Brasil afora.

À convite de um produtor musical brasileiro que morava em Berlim, o Senzalas consegue realizar uma turnê por alguns países da Europa. Shows esses que não teriam saído do papel não fosse pela contribuição da FUNARTE, a Fundação Nacional de Artes do Governo Federal. A turnê europeia foi a primeira oportunidade que muitos dos músicos que compunham a equipe do Senzalas tiveram de tocar para um público internacional, podendo mostrar assim a música feita na Amazônia, especificamente, nos rios e florestas do Amapá.

Val Milhomem, que aos 17 anos já frequentavam os redutos da música amapaense, tendo participado de alguns dos movimentos musicais mais importantes do estado e que tem como seu primeiro registro gravado o álbum Formigueiro, foi um dos artistas que deu a cara ao que chamamos hoje de Música Popular Amapaense. Além de Formigueiro, Val gravou em 1996 o Planeta Amapari, em parceria de Zé Miguel e Joãozinho Gomes; em 1998 com Zé Miguel, Amadeu Cavalcante e Joãozinho Gomes, o Dança das Senzalas; em 2006 o Constelação de Parentes, com Joãozinho Gomes; em 2013 gravei junto de Amadeu, Zé Miguel e Joãozinho o álbum Tambores do Meio Do Mundo e, anuncia que está com planos de lançar o EP Vem Ver.

Val conversou um pouquinho com a Rádio Iara sobre o relançamento do álbum Dança das Senzalas e Tambores do Meio do Mundo, agora disponíveis nas plataformas digitais:

“Nós já estávamos atrasados no uso dessas ferramentas tão importante nos tempos de hoje. Havia muita cobrança daqueles que curtem (a nossa música) e da comunidade estudantil. Acredito que é um grande reforço para o time de produtores da Amazônia que buscam o conhecimento de suas obras por uma grande parcela do povo brasileiro e do resto do mundo”.

Perguntado sobre como vê o momento atual e sobre os ataques que Cultura vem sofrendo, Val afirma:

“Eu vejo esse momento como o pior que eu já vivi, para a cultura brasileira e muito mais para cultura nortista que sempre esteve distante dos grandes centros e das grandes discussões. Mas se tem uma coisa que aprendi nessa vida é que sempre haverá um novo amanhecer e é nesse novo amanhecer que a esperança se renova. Fé na vida porque dias melhores virão.”

A gente também acredita em dias melhores, poeta!

Para ouvir o Dança das Senzalas clique aqui.

Para ouvir Tambores do Meio do Mundo clique aqui.

Fonte: Radioiara

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