Setembro dos desfiles na Fab – Crônica de @MarileiaMaciel

Crônica de Mariléia Maciel

Depois de junho, época das quadrilhas, o mês mais esperado era setembro. Isso no tempo em que os desfiles na Fab tinham a grandiosidade do carnaval, e a avenida enchia de alunos e as arquibancadas de familiares e amigos. Dia da Raça, 5, só as escolas de 1ª a 4ª série, 7, dia da Pátria, vez das escolas de médio porte, e no glorioso dia 13, o mais esperado, quem entrava em cena eram as grandes, com bandas marcais, carros alegóricos, muitos pelotões com balizas na frente e todos artifícios possíveis na época, das bicicletas enfeitadas aos apelos de atrações nacionais. Vi em cima do carro do CA o Maguila e outra vez no palanque oficial a então miss Brasil, Dayse Nascimento.

Desfiles eram bons de assistir e de participar. Só passei a curtir mesmo a partir da 5ª série, no IETA. Dia 5 eu sempre ia pra ver a escola Augusto do Anjos desfilar com papai no comando, sempre alinhado e marchando junto com os alunos. As arquibancadas não lotavam tanto e as bandeirinhas do Brasil e cataventos não coloriam completamente a avenida de verde e amarelo. No dia 7 a coisa melhorava. Lá vinham os militares com suas cabeças carecas cobertas pelas boinas. A meninada gritava, jogava beijos e sonhava andar de mãos dadas com um, vestido de preferência de branco, mas quando uma de nós conseguia paquerar um militar, era sempre um PM, da Marinha, nem pensar.

Desfilei uma vez com uma enxada. Quando lembro me dói a costa. Empolgada com a disciplina de Técnicas Agrícolas, em que plantávamos pepino e alface, que depois iam parar na sala de Educação para o Lar, resolvi atender ao convite do professor. E lá fomos nós com um short branco e uma camisa de xadrez branca e vermelha amarrada na cintura. O problema era o acessório que nos arrumaram pra representar melhor, enxadas, mangueiras, regadores e outros utensílios. Me sobrou a enxada no ombro com a qual atravessei, suada, a Fab. Não podia trocar de ombro e nem perder a cadência.

Mas o melhor foi quando descobri que o sonho de desfilar na banda podia ser aliado às horas de alforria na rua por causa dos ensaios, que começavam em junho. Antes da quadra ser construída, ensaiávamos onde hoje fica a nova Catedral, mas quando se aproximava a data do desfile ou do festival que escolhia a melhor banda, tínhamos que manter segredo e o ensaio era em lugar incerto, só se ouvia o barulho dos instrumentos. A disputa maior era entre GM, CCA, CA e IETA, que tinham as melhores e maiores bandas. Minha estreia foi com o instrumento pra quem não tinha muito talento, o prato.

No dia do desfile, nervosa, fui apertar o nó que prendia o prato e acabei afrouxando. Quando o IETA já entrava, com o público ansioso e aplaudindo, um dos pratos soltou e caiu justamente em cima do meu dedão. Desfilei em prantos, mas cumpri minha missão e jurei que no outro ano não passaria por aquilo. E assim foi. No ano seguinte estava eu tocando, desafinadamente, a caixa, fruto da minha insistência com o maestro Ronaldo. Logo depois, subi mais um degrau e andava pra lá e pra cá com as baquetas do meu tarol. O passo seguinte era o trompete, que nunca toquei, mas desfilei com as bochechas infladas, sem que nenhum som saísse.

E assim passava setembro, com as escolas em alvoroço de professores e alunos pra fazer o melhor desfile, o barulho dos instrumentos, os muitos namoros que duravam até o dia 13, as quadras com os chassis de carros para colocarmos as alegorias de papel celofane, as bicicletas com os raios cheios de papel verde e amarelo, os bambolês e bolas que sempre eram usados nas coreografias dos professores de educação física. O melhor de tudo era que o desfile era feito com amor, não tinha competição, isso ficava para o concurso de bandas, onde a premiação era um troféu de latão, mas que tinha um valor inestimável na estante da escola. Não tinha injustiça nem jurado comprado, a campeã era sempre a nossa escola.

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