SOB RELÂMPAGOS – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

Já falei que sempre tive muitos amigos, Graças a Deus. Alguns foram embora chamados pela voz do Alto. Outros, por teimosia, se adiantaram a essa chamada. Outros, ainda, me fizeram a sacanagem de me deixarem só, com uma saudade imensa que só pode ser controlada com a memória sempre coerente da esposa e da família.

Eu os listaria, se não estivesse triste. E em cada linha do caderno pautado ouviria suas vozes e vontades de estarem comigo comemorando meu aniversário em casa, como eu também fazia na casa
deles.

Todos eles, pretos como eu do bairro do Laguinho, alargariam seus sorrisos e cantariam suas dores e vitórias, que de alguma forma participei.

Não é que eu chore pelas suas mortes, aquelas inevitáveis por doenças, choro pelos novos amigos que adquiri ao longo da minha existência material e que se põem ternos e admiráveis nesta trajetória cósmica, pois eles também sofrerão o mesmo. Mas, rapaz, é foda tu saberes que a iminência desta praga apocalíptica te leva a pensar que a gente não é nada , nem mesmo pó.

Claro que estou triste. Tenho esse sentimento umano (sem h) e uma índole de nimal (sem a) febril e idiota como um robô útil dos senhores do Império do Star War. A palavra animal lembra lâmina ao contrário, e o que temos no nosso país são lâminas-chibatas que cortam a pele dos pobres brasileiros.

Por isso, amigos, me tenho mortalmente atroz, por me sentir um cidadão que ama seu país, seguindo sinais de um trânsito sem rumo, onde idosos e crianças trafegam no portal do inferno.

Tenho amigos de todos os lados. Uns até discutem com os outros em uma cerração etílica que só leva mais à bruma do que à clarividência de um Brasil politicamente próspero e esperançoso. Eu me despeço deste texto, enfatizando que a pandemia, a tristeza, a bunda da Anita e a Copa América jamais irão superar meu sonho de estar com os queridos e ver um Brasil melhor, ainda que surjam relâmpagos no céu nublado desta tarde no Laguinho.

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