SOBRE NOVELAS E SUAS IMPLICAÇÕES

No sábado fui à locadora e me deparei com uma cena no mínimo interessante,  a atendente compenetrada no que parecia ser um capítulo decisivo da novela das oito. Não que isso seja pessoalmente estimulante, mas chama a atenção, pelo menos para uma análise antropológica da situação.
O enredo da trama era basicamente o mesmo de outros folhetins: mistérios previsíveis,, diálogos mal escritos e interpretados, narrativa precária e vilã maniqueísta. Nada mais surreal se pensarmos no jargão de diretores e produtores quando dizem que novelas são um tipo de arte que imita a vida.
Não me sinto representando, assim como a maioria das pessoas que conheço. Por isso, me prestei a uma análise, onde notei que entre o meio-dia e a meia-noite, a metade do horário de pico televisivo, nada menos que seis horas são exclusivamente dispensados ás novelas (falo da Rede Globo): Vale a pena ver de novo, Video-Show (programa que mesmo não sendo novela, é exclusivamente sobre elas) novelas das seis, sete e oito e mais recentemente a das onze.
Outro dia li uma reportagem em que um empresário de comunicação dizia: “Ora, nós apenas exibimos o que o povo quer ver; quem não estiver satisfeito que mude de canal”. Nada mais confortável – e tão confortável quanto falso. Primeiro, porque não existem pesquisas que sustentem que o povo queira ver uma novela atrás da outra. Segundo, porque ao sugerirem mudar o canal, o fazem sabendo que estão sendo despeitados, a julgar pelo baixo nível da concorrência e porque seu lucro é diretamente proporcional à audiência. Além disso, caso seu argumento fosse sincero, o que dizer sobre a quantidade de lobbys contra a implementação do modelo de TV Digital e sua pretensa amplitude de canais?
Ainda sobre o argumento “mostramos o que o povo quer ver”, estariam chamando o povo de imbecil, ou será que os mesmos chavões e clichês de toda novela estão além da imbecilidade? Não ingresso o grupo daqueles que defendem a novela brasileira como “excelente produto” ou ainda “que de tão bem feita que é, é exportada para outros países”. Pra mim, um excelente produto deve ter conteúdo. Deve ter algo além de belas imagens, uma edição perfeita e atores encantadores. Esse não é o caso!
Para mim, um dos gratos e institucionais papéis da TV deveria ser formação do cidadão, papel, aliás, que a Constituição do país impõe às concessões da TV aberta, mas cuja estrutura das TV´s que estão mais atrelada aos índices de audiência, pouco ou em nada se preocupam. Tal situação favorece não só a perpetuação da mediocridade como um empobrecimento sobre as mais diversificadas temáticas.

Neste sentido, um resultado  visível do impacto causado pela novela é a alienação – momentânea para alguns, permanente para outros – do público (vide proliferação dos realities). Além disso, vejo as novelas, de modo geral, como um convite à passividade –  já que basta esperar sentado que tudo se resolve no final –  e um estímulo ao individualismo – com o abandono completo dos valores coletivos e críticos.
Não por acaso, é nesse ritmo novelesco que segue o país: sem perspectiva, sem projeto de desenvolvimento e guiado por um ritmo de acomodação. Como em uma novela global, a maioria do povo quando insatisfeito, se contenta em xingar o vilão da trama como forma de aplacar o ódio e senta para aguardar o próximo capítulo decisivo.
 Para muitos desligar a televisão deve ser muito mais difícil que encarar a realidade!

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