Sobre o Anauerapucu e outros Topônimos locais – Por Fernando Canto – @fernando__canto

Comunidade do Anauerapucu – distrito de Santana-AP – Foto: Jef Ribeiro

Por Fernando Canto

Longe de mim a ideia de realizar estudo linguístico aprofundado sobre palavras de origem indígena. Porém, dada a insistência de algumas pessoas em perguntarem o significado do nome de certas localidades próximas de Macapá e, em função de ouvir gente falando coisas que nem sequer se aproximam do real sentido do termo, resolvi desvendar alguns deles.

Esta pequena toponímia tem como fonte alguns estudos lexicológicos consagrados como o “Vocabulário Tupi-Guarani Português”, do professor Silveira Bueno (Brasilivros Editora, S.Paulo, 1987), o “Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Origem Tupi”, de Antônio Geraldo da Cunha, prefaciado por Antônio Houaiss (Ed. Melhoramentos e ed. Da UNB, S. Paulo/Brasília, 1999), entre outros estudos mais localizados.

Como se sabe, topônimo é a forma generalizada de denominar lugares como cidades, vilas, montanhas, rios, e acidentes geográficos diversos. Trata-se de um estudo difícil, em face da migração de grupos tribais, mormente na Amazônia onde muitas palavras de origem tupi se confundem com as oriundas do tronco linguístico caribe ou caraíba. Silveira Bueno diz que “Nem sempre é fácil desentranhar o verdadeiro significado da palavra, colhido nos elementos construtores do vocábulo. A separação de tais elementos admite diversidades, decorrendo disso o fato muito comum de um topônimo apresentar duas ou mais interpretações”. É o caso da palavra Macapá, que segundo T. Sampaio, significa o pomar das macabas (bacabas). De ma-caba = a coisa gorda, oleosa. Entretanto a palavra bacaba vem de ybá (árvore frutífera) + cabá (sebo, gordura), ambas de origem tupi. Para o padre Ângelo Bubani, que escreveu o texto “Pistas para a História da Evangelização do Território do Amapá”, a palavra Macapá significa queimar, cuspir fogo.

A palavra Curiaú também traz algumas controvérsias. Uns acham que se trata de uma onomatopéia, que quer dizer lugar de criar boi, mas ela vem mesmo do tupi: curiá-u = o viveiro, a ceva, o comedouro dos curiás (patos do mato, pequenos patos da água doce). Já o nome Amapá tem dois significados: o lugar da chuva, de origem tupi e, terra que acaba, de origem caribe. Curicaca é ave ciconiforme (forma de cegonha) da família dos tresquiornicídeos (como os guarás, flamingos e garças). Carapanatuba vem de carapanã + tyba ou tuba = muito. É lugar de abundância de carapanãs. Cujubim é ave galiforme (forma de galinha) da Amazônia; Cunani é uma planta entorpecente semelhante ao timbó e Curuá é um tipo de palmeira abundante no Bailique, que por sinal significa ilha dos Aruãs (índios, antigos habitantes do arquipélago do Marajó) ou ainda, mais poeticamente, ilhas que bailam. Cajari é rio dos cajás (tipo de taperebá), assim como Jari é o mesmo que rio das iaras. Caviana é igual a caviúna, que quer dizer madeira preta, de lei, usada na construção civil. Há, no Estado, muitos lugares denominados Pirativa. Essa palavra significa pesqueiro, ou lugar onde os peixes são cevados. De pira = peixe e tyba, sufixo que indica grande quantidade. Ambé é uma variedade de cipó e Meruoca a casa, o local dos mosquitos, assim como Matapi que é um covo de pescar, oblongo, o mesmo que jiqui. Itaubal é um local de muita itaúba ( de itá = pedra + ubá ou yba = árvore), ou seja: árvore de pedra. Já Piririm vem de pira + y + im = rio de peixe pequeno.

Crônicas antigas (ver “Momentos de História da Amazônia” de João Renôr Ferreira de Carvalho. Ed. Ética, Imperatriz, 1998) fazem inúmeras citações de grupos indígenas do Amapá como os Maraunuz, que habitavam as imediações do forte de Cumaú, dos holandeses (município de Santana) e os Cumaúzes (Macapá), mas seus significados se perderam. É possível que a palavra Maruanum venha de mberu = mosca, mosquito + anum = ave que se alimenta de mosquito (maruim) e outros insetos. Pronunciamos no dia a dia sem refletir várias palavras que não sabemos o que quer dizer como: Pacoval, que vem de pacova = banana; buriti, de mbiriti, que é árvore que emite líquido. Araxá, que é “a vista do mundo”, “o panorama”. Ariri, rio de água corrente. Araguari que é o mesmo que rio do vale dos papagaios, ou rio da baixada dos papagaios, ou das araras. E tantas outras palavras.

Mas se estamos falando de lugares convém dar o significado a denominações que sem querer geram as mais variadas interpretações especulativas, como por exemplo, Cupixi, que provavelmente vem de cu = língua, o órgão da fala (como em pirarucu = peixe de língua), e pixé, gosto de peixe queimado. Outra palavra é Anauerapucu, que segundo Bubani (op. cit.) é morcego comprido. Não concordo com essa acepção porque morcego em tupi é andyrá. É possível que venha de anauerá, do tupi anawi’rá, que é árvore da família das rosáceas (licania macrophylla), madeira usada na construção civil, e de pu’ku = comprido, longo. Anauerapucu significa, então, anaureá comprido. Nada mais do que isso.

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