Sobre o Carnaval do Rio e a ousadia da mudança de data da festa cultural no Amapá (crônica de Ruy Castro)

Sobre a comparação do Carnaval do Rio com o do Amapá, o competente advogado e amigo deste jornalista, Wladimir Belmino, enviou essa crônica de Ruy Castro, do livro “Carnaval no Fogo”, o qual é de uma leitura porreta, e que descontrai a discussão tão intensa destes dias em terras tucujus.

Em 1889 a Monarquia foi derrubada, instituiu-se a República e, com o inevitável azedume que costuma se seguir a uma mudança de regime, alguns dos novos governantes ousaram desafiar o Carnaval – e se estreparam. Em 1892, a prefeitura do Rio resolveu que o Carnaval não deveria ser realizado em fevereiro por causa do calor, “propício a chuvas e doenças”, e sim em junho, no simbólico inverno carioca. Os foliões fingiram acatar a ordem e aproveitaram para fazer o Carnaval de sempre, em fevereiro, e o “oficial”, em junho, com o que, naquele ano, o Rio teve dois Carnavais. No ano seguinte, a ordem foi cancelada. Por essas e outras, o popularíssimo barão do Rio Branco, pai da diplomacia brasileira, constatou divertido que, no Brasil (no Rio, ele queria dizer) só havia “duas coisas organizadas: a desordem e o Carnaval”. Em 1912, o próprio barão cometeu a imprudência de morrer a dois dias do Carnaval, o que causou uma colossal comoção. Mais uma vez, a prefeitura, por ter sido decretado luto nacional, decidiu transferir a festa. E mais uma vez o Rio, por mais que amasse o barão, levou o Carnaval às ruas nos dias seguinte e levou-o de novo na data que o prefeito queria, a qual coincidiu com a Páscoa. A partir dali os poderes desistiram de se meter com a data do Carnaval.

*Castro, Ruy. Carnaval no fogo, Rio – crônica de uma cidade excitante demais. São Paulo, Companhia das Letras, 2003, fls. 74/75.

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