Solidão (crônica de Ronaldo Rodrigues)


É possível que minha vida faça parte de um filme. Se assim for, gostaria que a câmera pegasse um ângulo favorável do meu rosto. Meu nariz é torto visto de frente. Bobagem.
 
Alguém abre a porta e mete a cara. Levanto a cabeça, por não ter muito o que fazer, a tempo de ver uma mulher fechando a porta, com um certo ar de decepção. Por falar em ar, nesta sala de leitura tem um cartaz pedindo silêncio, bem abaixo de uma central de ar condicionado que faz um barulho dos infernos. A muito custo é possível não deixar que o barulho atrapalhe a leitura.

O sol entra pela vidraça. Em breve será noite, a biblioteca irá fechar e eu terei que levar minha solidão para se distrair em outro lugar. Solidão é um bicho que fica fazendo cócegas aqui dentro.
 
Em meio a tantos livros, fico pensando como seria minha vida se eu fosse um autor consagrado. Um cara que escreveu só um livro e ficou rico e famoso com ele. E nunca mais teve que trabalhar. Outro tipo de solidão vem mostrando suas garras, junto aos últimos raios de sol desta tarde igual às outras tardes, antecedendo uma noite igual às outras noites.
 
Saio da biblioteca e vou procurar refúgio. Atravesso a praça, olhando o grande relógio da matriz. O tempo é parceiro inseparável da solidão. Mas o tempo não me diz nada, não marquei encontro com ninguém, não tenho plano algum. No momento, estou no centro da praça e as nuvens anunciam tempestade. Gostaria imensamente que um raio caísse em cima de mim e eu pudesse concluir este texto.
 
Ronaldo Rodrigues

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