Sou a favor – Crônica de Lulih Rojanski

Crônica de Lulih Rojanski

É uma pena que ser a favor não mude coisa alguma em lugar algum. Mas é confortante ser a favor… Sou a favor de desligar o rádio e a TV para ouvir a chuva; sou a favor da instalação de espreguiçadeiras nas beiras de rios, lagos e oceanos, e de um sistema de revezamento para usá-las que permita um tempo curto de espera para contemplar as paisagens, de pés descalços e com as mãos atrás da cabeça.

   Sou a favor da distribuição gratuita de picolés de limão pela prefeitura nos dias de calor; do direito de não aceitar governantes e de governar a própria vida do modo mais livre e não contemplado em nenhuma constituição; de fazer jardins em qualquer lugar onde haja terra desocupada; de andar nu pelas ruas, avenidas e logradouros, sem risco de execração; de vestir fantasias coloridas para ir ao trabalho… As cores têm a propriedade de transformar os sentimentos amargos em partículas de alegria.

    Sou a favor de orfanatos para animais abandonados; do aprendizado de instrumentos musicais desde o jardim de infância; da leitura dos clássicos da literatura todas as noites antes de dormir; da infinita acessibilidade aos livros; da liberdade de levar um edredom para o cinema; de chupar pirulito durante a aula, pois ele ajuda a manter a concentração; de repetir o prato sempre, seja do que for; de gritar ao ar livre para expulsar os demônios ou para acordar os anjos; de trocar o tapinha nas costas por uma pirueta; de encurtar os caminhos para tudo o que dê prazer; de colocar os varais de roupas floridas na frente da casa; de contar as estrelas apontando com o dedo, sem medo de verrugas; de dar às ruas nomes engraçados.

  Sou a favor de desligar a televisão na hora do jantar; do uso do guarda-chuva preto ou das sombrinhas coloridas em todas as ocasiões, porque a nostalgia é sempre bem-vinda; de água gelada nas torneiras públicas; do fim dos copos descartáveis; do barateamento dos chocolates; da anulação do ciúme e do reconhecimento da saudade como o mais belo sentimento; do uso universal dos colares artesanais de dois reais, dos vestidos florais, das sandálias de couro com túnicas brancas; do cultivo de ervas no quintal por quem aprecie os chás ou as poções.

  Sou a favor de tudo o que prolonga a vida; da alimentação natural e também dos churrascos dominicais; de taças generosas de vinho em todos os almoços; da venda de laranjas descascadas; das caminhadas que alcançam a noite; da extinção dos barbitúricos, ansiolíticos e analgésicos químicos que prometem combater a tristeza e a dor, mas instalam os vícios; de acender fogueiras nas noites de lua ou sem lua, para incentivar o florescer da alegria.

  Sou a favor de trocar o nome das coisas que têm nomes feios, como seborreia, cônjuge e fronha; de inventar palavras mais poéticas e gestos mais cordiais; da volta definitiva do vinil; da viagem no tempo, para que possamos todos voltar à infância e ver nossa própria doçura; da compreensão das gerações passadas; do conhecimento da história; das crianças ouvirem os velhos; da criação artística de toda natureza.

  Sou a favor das longas viagens por lugares distantes; de visitar os pais; de escrever cartas e enviá-las pelo correio; de conversar com os bichos e compreender sua resposta; dos shows gratuitos de música clássica; da entrada franca em cinemas, galerias e museus; do direito de dormir nos gramados das praças; de mudar o nome de batismo quando o nome que nos deram não nos cabe; da instalação de brinquedos para adultos nos parquinhos infantis.

E para concluir este apanhado de sonhos que nunca constarão dos textos massacrantes das leis, declaro que sou incondicionalmente a favor da desobediência civil, do amor natural e da crença na vida além da vida.

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