Tabuleta – Texto Poético de Luiz Jorge Ferreira

Texto Poético de Luiz Jorge Ferreira

Minha mãe ficou de mal com a chuva, e cobriu todas as plantas do quintal com uma antiga manta toda manchada de sereno, cuspe de anjos, e sêmen colorido de joaninhas. Passou a molha-las com lágrimas de saudade das Araras, que passavam em migração e ela sentia suas falta…

Eu resolvi desenha-las na face superior da manta que o sol beijava quando vinha por sobre o telhado pálido do Grêmio Estudantil, e se ia atabalhoadamente para as ilhas, onde uma lua minguante servia em escamas de mãe d’água um inebriante aluã…

Quando mamãe soube proibiu as nuvens de umedecerem as cuias, proibiu os cacos de espelhos de refletirem a lua, e me proibiu de desenhar flores…

Uma noite escura em que os morcegos iludidos pelo escuro…escuro…sentaram no pátio perto da minha bicicleta Caloi, para cantarem em Mi Bemois toda o repertório de Noel…

Mamãe repartiu o pão caseiro com Maricota a mulher do Jardineiro, e foram tecer as galhadas do Maracujazeiro para proporcionar repouso aos Zangões…

Eu peguei minha louças, meus ladrilhos, minha mini porta de mármore Carrara, e andei até encontrar um holofote de luz branca que chamou a chuva que escutou, e chegou cantando…

Mamãe emocionada se encantou fizeram a paz, e eu não aguentei e nasci…Dizendo que a saudade é um pedaço do passado que ninguém consegue esquecer.

Assustado… vendo os abutres beliscando o Arco-íris, então eu puxava o azul dos teus olhos e com ele manchava o céu.

E com seus sorrisos construí castelos úmidos, e uma Ponte Pênsil que servia de balanço para a Primavera quando ela vinha de Amsterdam no Sol da manhã, porque de tarde fazia muito frio e era uma ilusão soprar com o bafo dos Mapinguaris desenhados no Caderno de Pauta, as costas branca dos picos gelados da Noruega.

Como eu já havia nascido e minha mãe se preparava para lançar dois ovos a bombordo do Amapá…para chocarem com o calor da floresta…meus irmãos.

Esqueci da festa e passei a chorar por tudo que não compreendia, e como de nada entendo…

Resolvi deitar no sereno que eu tinha solicitado aos dias nublados.

Hoje estou enraizado.
Em mim.
Não sei se sou o Açaí.

*0sasco (SP) – Dia Qualquer de 2024.

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