Todo mundo tem um pouco de Bráulio

Por Marcelo Adnet
Os Estaduais vão chegando à fase decisiva, a Copa do Brasil começa a afunilar e a Libertadores, a partir de agora, é para matar. Aos vitoriosos o roteiro é claro, quase previsível – celebrar, gargalhar, provocar, com a camisa do time orgulhosamente trajada. Mas, e nas derrotas? Como você reage?
Existe o tipo maduro, que troca de canal e segue em frente, logo se concentrando no trabalho de segunda-feira, que está por vir. Mas este tipo é raro e quase nunca é zoado, ou melhor, não se deixa atingir por qualquer provocação, encara o esporte “na esportiva”.
Mas, a maioria de nós leva o esporte “na competitiva”. Sendo assim, vou descrever as reações típicas de um derrotado através de um personagem fictício, Bráulio. Quanto mais você se identificar com ele, mais fanático você é. Pois bem, vejamos. Quando soa o apito final e a derrota se consolida, Bráulio sente ódio, revolta, é como se o mundo não fizesse sentido por uma boa meia hora. Por quê? Por que os deuses do futebol escreveram exatamente o contrário do que ele queria? Por que o treinador não tirou o Fulaninho Capixaba? Por que o juiz não deu aquela falta? Se aquela bola tivesse entrado, se o goleiro não tivesse falhado, se tivesse jogado com raça, se, se, se… Aliás, se o árbitro der uma brecha para justificar a derrota, Bráulio se agarra a esta polêmica e a abraça como um flagrante que lhe concede um “Habeas Corpus moral” para a derrota.
Enfim, Bráulio segue sua rotina básica pós-derrota e desliga o celular, porque mesmo aqueles que nada entendem de futebol e mal o conhecem vão estar lá, fiéis, na hora de atazaná-lo, cumprindo o protocolo das chacotas. E só o fazem por saber que naquele momento Bráulio estará, certamente, curtindo o azedo do revés. Por isso, tampouco atende o telefone de casa, evitando a armadilha de atender os amigos-rivais. Ele suspende todos seus compromissos naquela noite, afinal, sair na rua no pós-derrota é proibitivo. Como conviver com a alegria alheia na rua sem pensar – “Ó vida… por que não me elegeste?”.
Também está terminantemente proibido entrar na internet e ver tevê. O cyberfutebullying é das atividades que mais movimenta a internet, onde, na base do anonimato, o pau quebra no teclado. Mesmo assim, Bráulio tem perfis falsos para xingar jornalistas, adversários e qualquer um que cruze seu caminho virtual. A televisão também é uma grande inimiga do perdedor. Por requinte de crueldade ela o persegue, reprisando insistentemente suas derrotas, mostrando o fracasso por vários ângulos diferentes, nos forçando a sentir, de novo, aquele gosto acre de derrota. Canais esportivos então nem pensar – Bráulio fica de mal com o SporTV por dias, pelo menos até o próximo jogo. Pensa que acabou? Você sabe que não.
Quando o novo dia nasce, o luto prossegue. É a típica ressaca futebolística. Ao sair na rua, Bráulio não faz o caminho de sempre. Recalcula a rota para encontrar o menor número de rivais possível, principalmente aqueles maníacos como ele, que devem estar expansivos, podremente felizes, vestindo as cores do algoz. A banca de jornal se torna uma tragédia expressa em fotos, manchetes e uma profusão de piadas e trocadilhos jocosos envolvendo seu amado time. Além de desviar das provocações, sua mente, em ressaca, tem que elaborar as desculpas e argumentos que serão usados logo mais na batalha a ser travada com alguns colegas, digo, inimigos de trabalho, que devem estar insuportavelmente felizes, alheios ao seu luto. Só depois de encarar o terrível officefutebullying, ele pode descansar e recomeçar uma nova batalha, ansioso para, desta vez, estar do lado de lá, fazendo um monte de gente desviar o caminho. Então, se orgulhará de ser Bráulio e beberá todas as garrafas estocadas, queimará os fogos que não foram usados, devolverá todo o futebullying sofrido e, finalmente, voltará a atender os amigos e sair de casa.
E aí, o quanto você tem de Bráulio? Por melhor que seja o time e por mais equilibrado que sejamos, todo mundo tem um pouco de Bráulio em si. Certo?
Neste fim de semana, boa festa aos vencedores e bom luto aos Bráulios!
Fui!
  • Gostei da Foto !! rsrsrsrsr !! Realmente, todo mundo tem um pouco de Bráulio, mas acredito que estou mais pra torcedor maduro … No Brasil é legal d+ a diversidades de times [e seus torcedores (ou sofredores)]… Mas o importante é a diversidade, e a brinacadeira sadia (esportiva), pois toda unanimidade é burra e monótuna! 🙂 Valew !! Abração !!

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