TOIA DULCE (homenagem à , Primeira Mãe-de-Santo do Amapá) – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

Macapá, a cidade mais fortificada ao norte do Brasil, fora um burgo intransponível para o novo, com suas mazelas de facas que cortavam as águas do Amazonas.

E o novo se escondia entre a liberdade de falar com estranhos deuses e a rebentar com a força das marés os impedimentos e os muros da hegemonia dominante do catolicismo.

Um dia houve a permissão para o estabelecimento da matriz africana sob o sol causticante do equador, e eles, os orixás, vieram tímidos se instalar sob a guarda da pálida lua que nasce bela no continente africano para romper com seu clarão indescritível o estuário do rio.

Foi então que a alma, a intangível alma dos determinados, encarnou a pele ancestral do mundo para transformá-lo em referência de luta e esperança a todos que sabiam, mas não podiam reverenciar suas raízes.

Foi então que Toia Dulce, a princesa da tradição, encarnou definitivamente o novo, quebrando o antes inacessível muro social e religioso, que aos poucos foi desmoronando, mesmo contra as reações dos poderosos.

Foi então que a história protagonizou a mão de Toia Dulce para direcioná-la aos caminhos do bem, do amor e da caridade, em constante luta contra o preconceito e a discriminação sofrida pela família, até o reconhecimento de alguns pela sua prática religiosa, depois tão solicitada.

Essa mesma mão que curava com suas ervas e unguentos a dor dos pobres, das crianças e dos desesperados, fulgurava na sua humildade pelas manhãs macapaenses, nem sempre descansando, mas pensando na melhoria do mundo, no embalo de uma cadeira, no pátio de sua casa no velho bairro da Favela.

Tia Dulce, Mãe Dulce, Toia Dulce, era, sim, a mesma mulher transfigurada de humildade e detentora do orgulho de ser negra, benzedeira e curandeira, e ser humano de aura mística mais esplendorosa.

Toia Dulce se foi rompendo silêncios, quebrando medos e construindo e deixando segredos e novas formas de lutar contra o medo. Deixou palavras aladas, cânticos e amores pelas memórias e pelos corações dos que com ela aprenderam a sonhar e a lutar. Deixou em curso o descascar da fruta e o renovar da pele contra as máscaras invisíveis da vida.

Eu lembro. Eu a vi ali, tantas vezes no dia dois de fevereiro, com seu bailado e seu canto a banhar com água benta os que precisavam mudar suas vidas. Eu vi. Eu lembro. O seu sorriso doce como as águas do Amazonas que levam neste instante nossas oferendas a essa princesa que reinou e nos deixou o tesouro de sons e amores, onde não cabem sombras, apenas luzes para sempre. Saravá!

(*) Homenagem à dona Dulce Moreira, Primeira Mãe-de-Santo do Amapá

NOTA. Toia= Termo feminino derivado de Toi, que significa Pai na tradição Jêje maranhense. No pará trata-se de um termo anteposto ao nome de uma entidade para indicar sua ascendência nobre.

*Republicado por hoje ser o Dia de Iemanjá.

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