Três escritos para continuar vivo

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

O gato atravessa a penumbra. Eu vejo seus olhos brilhando no espelho. E vejo sua vida se estendendo para além da minha. Eu sei que ele vai vencer, mesmo sem saber se estou em algum embate, mesmo sem saber se foi lançado um desafio. Só sei que ele se move pelas sombras daquilo que parece ser a minha vida. Vejo o gato cruzar a sala e se atirar pela janela. Sigo seus passos, sigo sua vida, me jogo, também, pela janela… E o encontro do outro lado do espelho.

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Tulipas vermelhas sempre me atraíram. Quando eu for assassino serial só matarei mulheres brancas e deixarei sobre seus corpos nus a minha assinatura de serial killer: uma tulipa vermelha. Em contraste com a pele clara, o rubro intenso da tulipa vai saltar aos olhos, compondo um belo quadro. Quando a polícia chegar ao local do crime, já posso ver aquele policial veterano ranzinza falando: – Ele atacou novamente! Que filho da puta! Posso ver, também, o policial novato, sempre menosprezado pelo veterano, querendo mostrar serviço: – Precisamos detê-lo! E me vejo ocupando as manchetes dos jornais: O Tulipa Vermelha Faz Mais Uma Vítima. Os jornais me batizaram, sou alguém na história, um personagem das crônicas policiais, o anônimo mais famoso do país, procurado e temido. Vou à floricultura e encomendo um buquê de tulipas vermelhas. Nunca se sabe quando poderemos dar início a uma carreira de psicopata.

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É sempre isso. Bate uma vontade louca de escrever justamente nos momentos mais estranhos. Como agora, na hora da transa. Uma transa até bem movimentada, uma garota bacana, colaborativa e disposta. Mas se a vontade de escrever bate, devo obedecê-la imediatamente. Sei lá o que aconteceria se eu não obedecesse. É ela que domina a minha vida. Fazia um certo tempo que essa vontade de escrever não baixava no meio de uma transa. Já perdi muitas transas por causa disso. A garota da vez não entende, nenhuma entende. Ela se veste e vai embora. Eu fico escrevendo, escrevendo, escrevendo. Até gozar.

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