Túnel do Tempo – Crônica de Lulih Rojanski

Crônica de Lulih Rojanski

Levei trinta anos para aprender a letra de uma das canções que mais me encantaram na época que eu considerava quase o meio da vida: lá pelos 14 anos. Se, por aqueles dias, alguém com poderes para previsões tivesse me dito “você vai aprender a cantar esta música daqui a trinta anos”, eu teria tido um arrebatamento, uma crise existencial. Como é que eu ia saber o que seriam trinta anos adiante? Era a mesma noção que eu teria hoje de trezentos.

Testei isso em minha filha mais nova, minha pequena bailarina, quando ela pediu pela trigésima vez sua sonhada sapatilha de ponta. “Você vai ganhar daqui a trinta anos”, disse, e fiquei esperando a reação. Foi de total descrédito. Os adolescentes não acreditam em mais nada do que a gente diz, mas fazem menos dramas. Ou talvez eles tenham se dado conta que, com a rapidez com que as coisas têm andado, 30 anos vão se passar num zás.

Pois quem imaginaria? Aprender aquela música foi um dos meus maiores desejos, quando meu acesso aos discos, aos aparelhos eletrônicos e à sintonia das boas rádios era difícil. Trinta anos depois, e assim, quase do nada, pesquisando sobre a vida de Oswaldo Montenegro nas veredas do Google, me encontro com ela, clara e transparente, com todas as mágicas palavras que fizeram o encanto da minha meninice. Embora na época eu não percebesse, já era a letra que me atraía mais que a melodia.

Eu deveria saber que ela haveria de me chegar um dia. Estava escrito. Não preciso dizer que agora a tenho cantado diariamente, envolta em uma espécie de espiral de túnel do tempo. Para muitos, pode não ser uma grande canção. Pra mim, sua beleza está no sentido que o tempo lhe deu, no que ela representa para minha história particular. Ei-la:

Drops de hortelã – Oswaldo Montenegro e Glória Pires

Eu andava meio estranho
Sem saber o que fazia, eu não sei
Andava assim, eu não sei
Se era feliz
Eu achava que faria uma canção
E a melodia, eu não sei
Andava assim, eu não sei
Se era feliz
Eu achava que faria aquilo que não sei
Que amaria, eu não sei, fazer desenhos com giz
Eu achava que faria uma canção nissei
Eu me sentia, eu não sei, um americano em Paris
Eu achava que tamanho
Tinha a ver com poesia, eu não sei
Mas toda vida eu deixei
A vida entrar no nariz
Eu me mandei pra Curitiba
E como gosto dessa vida!
Eu não sei
Mas a paixão que eu falei
Me lembra o anis
Fiz um drops de hortelã da bala que eu te dei
Para atirar no porém da frase que eu nunca fiz
Eu andava meio estranho
Sem saber o que fazia, eu não sei
Andava assim, eu não sei
Se era feliz
Eu achava que faria uma canção
E a melodia, eu não sei
Andava assim, eu não sei
Se era feliz
Fiz um drops de hortelã da bala que eu te dei
Para atirar no porém da frase que eu nunca fiz

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *