Um certo dia me esqueci de ficar – Texto Poético de Luiz Jorge Ferreira

Texto Poético de Luiz Jorge Ferreira

Derrubaram as casas da Vila do Seu Abdala, onde criei cães vira-latas com suas pulgas tão magras, como os moleques que junto comigo atravessavam a Rua Ernestino Borges correndo contra o vento que nos balançava as costelas…como se todas dançassem um Bolero de Bienvenido Granda…

O homem atirou ao chão a última telha deixando o Sol beijar o assoalho que ele só via entre as frestas das telhas afastadas uma das outras.
Havia vestígios da lua que namorava as pulgas escondidas nos trapos postos nos cantos.

Longe dali, mas não longe de mim , as telhas atingiram os anjos da igreja de São Benedito, ouvi seus gritos, ouvi os rangidos dos gatos do Pacoval reclamando das nuvens de chuva lhes respingando…

Escutei Deus de cima da Antena da Rádio Difusora de Macapá, me prometendo saudades. Olhei a fotografia colorida na parede da sala, não saia sala, não vire notícia nas manchetes d’alma…

Não me revire do avesso pois o avesso é vesgo, e a tudo embaraça.
Não me estenda a noite porque ela se encolhe, e me esconde entre insônias insossas.
Deixa que eu corra para socorrer os Anjos…
Limpar suas asas, pulir suas pálidas faces, desembaraçar seus cabelos, e as penas das asas destrançar, de modo que logo voem…

Eu não…volto de volta a casa onde fui Fauno e Rei de um Reino ímpar, feito de rimas pobres, moleques magros, e cães sonhadores, e lentamente é onde recolho do chão farto de Ontens, a última telha da Vila do Seu Abdala, ferida e fraturada, que em si, em um silêncio calado, começa a criar asas também.

  • Muito prazeroso de ler o seu texto nobre poeta, vai nos levando de volta ao seu passado, onde mergulhamos na simplicidade das cenas, entre os cães em seu universo famíliar e o menino talvez já poeta tendo contato com o que lhe abarcam saudades. Tudo é lírico e belo na construção das memórias, – me senti flutuando entre as nuvens do alto nas cenas! Rememorando com beleza assinala os dias, faz um apanhado só seu dentro dos versos e depois nos encanta, como quem corre livre em sua Infância pelas ruas de Macapá.

  • Gostei muito dos comentários e se são construídos com os olhos cheios de sentimentos, se poetizam também …
    Vlw !

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