Um pequeno ensaio sobre os dias – Lorena Queiroz – @LorenaadvLorena

Por Lorena Queiroz

Ultimamente ando especulando se não estamos vivendo em um grande purgatório, como na série Lost, em que, apesar de toda aquela patacoada, estavam mortos. Desculpem, meus conhecimentos sobre a série só vão até aqui. Mas a seguir, surgiu um outro pensamento que também me incomodou: que realidade distópica é esta que estamos vivendo?

A pandemia nos colocou em uma posição de prisioneiros de circunstâncias, reféns da política, esta que, claro, sempre acabando mais com a gente. Mas, no englobamento de tudo isso, nos colocou como reféns de nós mesmos. Como aprender a viver consigo mesmo dentro de um cenário cadavérico?

Em tempos tão difíceis em que as redes sociais mostram a dor em sua forma mais pessoal. O choro de um irmão, ou o sofrimento de um filho e a perda de uma mãe. Como lidar com questionamentos e sensações sobre nossa própria existência mediante a notória fragilidade da vida? Eu não sou psicóloga, portanto, não espere ler aqui uma resposta para suas perguntas. Eu sou apenas uma pessoa curiosa, cheia de dúvidas e sem a menor pretensão de um dia ser portadora de alguma certeza.

Foi no dia em que recebi a notícia de que duas pessoas queridas haviam morrido. Neste dia eu percebi o roedor, no dia do brigadeiro. Àquilo que me remoía por dentro e eu ainda não tinha tido tempo de processar. Eu estava há algum tempo evitando o açúcar, por questões estéticas mesmo, se saúde fosse minha justificativa, acabaria como diabética e hipócrita.

Quando olhei para o chocolate brilhante na tigela de vidro marrom, o doce ao qual eu vinha evitando, eu comi. Dei uma colherada generosa e desavergonhada. No princípio achei que estivesse com vontade, mas, conforme eu avançava na minha gula, eu percebia que não comia por vontade e sim por protesto. Eu estava protestando o absurdo de se conservar um corpo saudável e bonito se o destino de todos é, irremediavelmente, a morte. Mas, calma, minha cabeça funciona de um jeito muito divertido no fim das contas.

Este questionamento me levou até o Absurdo de Albert Camus. Lembrei de O estrangeiro e a indiferença de Mersault. Só que, uma coisa leva a outra. Será que a condição em que nos encontramos agora, enquanto sobreviventes, nos coloca mais de encontro à perguntas como: será que essa vida está valendo a pena? Será que vale a pena exercer o mesmo trabalho e com o mesmo resultado? Minha opinião é que o medo ou a iminência da morte nos coloca de cara com a vida. Nos faz perceber melhor a passagem do tempo e até tentamos criar uma maneira melhor de aproveita-lo, as vezes. Então, será a morte ou o tempo o nosso problema?

Na canção A lua e eu, Cassiano traz o trecho ’’...Quando olho no espelho, estou ficando velho e acabado’’. Vamos avançar um pouco no tempo e ouvir a banda Kid Abelha cantando: ‘’As entradas do meu rosto e os meus cabelos brancos, aparecem a cada ano no final do mês de agosto”. O que tudo isso tem em comum? Creio eu que, o tempo. Aquele que é percebido com os pelos brancos, uma ruga a mais na testa ou com o sua filha te perguntando o que é outsiders. Mas, acima de tudo, é o tempo.

O filosofo Henri Bergson diz que somos criaturas feitas para desaparecer e que, na vida, tudo que muda, muda em direção ao seu desaparecimento através de um processo, e o tempo é este processo. Albert Eistein disse que o tempo é relativo e varia com a velocidade e a gravidade de quem o observa. Desvende agora você, o que um físico quis dizer. O fato é que o tempo é quem nos leva rumo ao fim da história, e quanto mais caminhamos nele, nos deparamos mais de perto com o a face do fim, do desconhecido.

Sendo assim, somos forçados a voltar a Camus, mais precisamente no mito Sísifo, que tem o castigo de rolar a pedra até o topo da montanha e, após todo trabalho da subida, a ver cair novamente, repetindo assim o mesmo trabalho, todos os dias e pela eternidade. E neste instante a gente se pergunta: tá valendo a pena?

É importante esclarecer que Camus escreveu este ensaio em 1942, em plena segunda guerra mundial. O absurdo das coisas, o absurdo da guerra e, ouso atualizar para sensações vigentes e atuais, o absurdo da pandemia. Seria eu, como em A Náusea de Sartre, apenas contingente? E, portanto, através do tempo, me encontro com o outro desconhecido; a morte.

Como em a Tabacaria de Fernando Pessoa, a dinâmica acelerada de Álvaro de Campos, busca por uma verdade, um porto seguro. Uma verdade permanente e eterna que preencha sua vida sem sentido. E acredito que, talvez seja assim que nos vemos mediante o correr do relógio. Seria e lá se vai mais um dia, ou e lá se vai menos um dia? Minha opinião é que tudo isso seja acelerado pelo que disse Suassuna, por aquilo que reúne tudo que é vivo em um só rebanho de condenados.

Exatamente porque a morte é inerente á vida. Algo que é parte fundamental da existência humana, e da qual, nada sabemos. E não é nada confortável concluir que sabemos tão pouco de algo que é a única real certeza da vida. E, voltando em Camus, acho que ele tinha muita razão quando disse que ‘’… Cultivamos o hábito de viver antes de adquirir o de pensar. Nesta corrida que todo dia precipita um pouco mais em direção a morte’’’. Será que estes questionamentos estão percorrendo um número maior de mentes porque hoje somos todos semelhantes em desgraça? Memento mori?

Eu revisei toda minha vida por conta de um brigadeiro. Escutei Beto Guedes e lembrei da sala da minha infância em Belém (PA). Percorri uma época e vi muitas vidas, não só a minha, mas de muitos. Vi seus amores e suas despedidas. Momentos e amores que só vivem ainda através das lembranças que um cheiro ou uma música trazem. Acredito que isso seja um singelo exemplo de eternidade.

O que eu concluo de tudo isso é bem pessoal. E devo lhe adiantar que eu, na verdade, nunca fui uma boa influência, mas creio que é válido dizer que, seria sensato agora parafrasear Nietzsche e dizer que, o que importa não é a vida eterna, mas a eterna vivacidade.

* Lorena Queiroz é advogada, amante de literatura, devoradora compulsiva de livros e crítica literária oficial deste site.

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    Absurdamente belo esse Ensaio sobre a finitude de (eu)…nós
    E a perseverança de continuar lutando contra o continuar se não há para onde continuar…
    Aplaudi …claro que de pé…atirei longe os chocolates da mesa.
    E se essa mesa e os chocolates sobreviverem a mim?
    …Que se toque um Tango!

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    Que se tornem um tango, pois um tango Argentino me vai bem melhor q um blues. Obrigada, Luiz Jorge. ❤

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    Uau, finalmente um texto que “dá a real” sobre o que muitos pensam e sentem. Eu, pelo menos, estou neste constante estado de questionamentos. Acredito que muitos também estejam. Em tempos de sofismas neoliberais e coachs espirituais é bom ler algo mais realista e ao mesmo tempo sensível.

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    Eu ando refletindo em demasia estes tempos. Isso se dá em virtude de estarmos em quarentena. Penso qual é o privilégio, a condição da vida em escolher quem vive ou morre em virtude da pamdemia. Então eu decidi viver com vivacidade. Como disseste no texto. Sendo grato e, de certa forma, fazer valer o “estar aqui” quando muitos perderam essa oportunidade.

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    Lorena é incrível! É impossível não se identificar, se sensibilizar… toca as fibras mais profundas. Deveria lançar um livro.

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    Além de arguto observador, sou participante direto da COVID-19; estou no “OLHO DO FURACÃO” como médico que trata dos sobreviventes, sequelados de guerra quer física ou emocional, quer espiritualmente. Trato daqueles que perderam algo imaterial importante, até mesmo a esperança. Jamais eu havia testemunhado algo assim. Para ser ter uma idéia da seriedade do momento, para cada 10 pacientes ligados direta ou indiretamente à COVID-19, absolutamente TODOS levam receituários controlados ou o chamado genericamente TARJA PRETS para casa.

    Dito isso, a despeito de mecanicamente bem elaborado, citando vários autores para dar fundamento ao seu pensamento, ainda que a autora, nota-se intelectual e inteligente, tenha nos advertido que não esperemos que ela apresente resposta (nem ela tem), a decepção é que “o leitor esperava encontrar pelo menos uma luz ou um caminho”.

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    Boa noite, Paulo Rebelo.
    Início lhe agradecendo pela leitura e lhe parabenizando por ser mais um dos profissionais valiosos da linha de frente em tempos sombrios.
    Este texto, infelizmente, não é um texto de resolução ou luz. Como vc mesmo disse, eu não estou propondo resoluções, meu foco é o questionamento, este q se dá dentro do tempi histórico dos filósofos, poetas, autores. E dentro do atual panorama q vivemos, q daqui há algum tempo, também será tempo histórico, e, retirar destes sentimento comum, os questionamentos q vem à tona nestes momentos de necessidade. Questionado o q é inerente à vida. Eu encontro alento na vivacidade, assim desejo à todos os leitores.

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