Uma carta para você

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Eu sei o que se passa bem lá no fundo dos seus corações! – Me diz a mosca, já decolando do meu corpo morto, à procura de outro corpo.

Não sei como estou aqui relatando isto, já que estou morto. Depois da explosão da última bomba nuclear, estamos aqui, todos mortos. As baratas não sobreviveram, esclarecendo um erro milenar que dizia que só as baratas sobreviveriam às explosões atômicas.

Nós, sim, sobrevivemos! – Me diz outra mosca que veio pousar em meu corpo morto. Ela também não fica por muito tempo. Durante estar aqui, um batalhão de moscas já pousou e levantou voo. Elas ficam fazendo esse rodízio. Não sei qual o motivo, mas deve haver um. Já entendi que as moscas não fazem nada em vão.

Estou morto, igual aos outros. Será que eles também estão conscientes? Será que eles também estão incomodados com as moscas? Será que elas estão falando com eles? Morri com o rosto virado para baixo, meus olhos direcionados ao chão. Outra coisa que não entendi. Achava que, expostos à radiação atômica, os corpos se desintegrariam, não sobraria matéria. Mais um engano. Será que algum estudo do passado está certo? Não dá pra saber.

Em todo caso, deixo aqui estas palavras para quem as encontrar. Talvez tenha utilidade no futuro. Se as moscas deixarem, é claro. Também não sei em que formato está escrito, mas não tenho tempo para pensar nisso. Vou parar de pensar agora e me entregar à morte. Antes que as moscas mudem de lugar.

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