Uma luminária pensa no céu – Por Mayara La-Rocque

Por Mayara La-Rocque

Navego, pesco relíquias na margem do tempo, reorganizo os horizontes – olhos feitos de água e imagens que nascem de estrelas caídas e pedras diluídas. Que mundo corre por abaixo desse mar de outras épocas em que homens suspendiam velas e guiavam naus sob a luz dos astros enquanto mulheres pariam no breu? Que fluxo inundou os caminhos, alterou as rotas e os destinos da história, alastrando feito maremotos os campos sitiados dos sonhos, os deixando em uma cidade submersa e abandonada?

Navego por esses mares esquecidos, vejo a fundo os corais em pó e em brilho, assemelham-se a espantalhos e espigas de milho dum campo dourado, das colheitas do passado, ou a caravelas náufragas das viagens seculares e solitárias pelos os oceanos de outrora.

Revolvem-se as águas e lançam sobre a margem, conchas que guardam e reviram outro tempo. Que mundo percorre a beira da praia e as veias de novas terras? Ao acostar à orla, os terremotos avançam em trânsito, entre pessoas e bichos, já não distingo os personagens dos meus sonhos daqueles que inventei no mundo real, os monstros de caras pintadas, máscaras de todos os tipos, as lantejoulas e os olhos tão negros; os vejo nas esquinas e nos bares, nos homens com seus bafos e falas vazias, as alegorias do medo nas revistas e nos telejornais, o alucinado discurso das ditaduras que aprisionam gentes e gestos, e aqui não me refiro a políticos ou governantes senão e somente às gentes e gestos, com seus desgostos e dores, distâncias e esquecimentos, onde o humano tornou-se um campo minado de guerras. E aqui não me refiro tão somente a Hiroshima e Nagasaki, Irã, Iraque, Cisjordânia, mas ao vizinho da casa ao lado que acimentou o jardim, cortou a árvore, construiu o muro, esqueceu-se de recolher o lixo da frente e que por isso deu mosca, acumulou estrume, gás metano, explodiu e incendiou a vila inteira.

Mas enquanto as casas pegam fogo, há – uma luminária pensa no céu. São tantas fantasias que habitam entre os olhos! São murmúrios oníricos que nascem de madrugada e só culminam na alvorada, quando o orvalho alcança a folha mais grávida de neblina derramada. É nessa hora que se ouve, em um fisgar milimétrico de não tempo e lugar algum, o tombar do silêncio sobre o mundo. Nada de estrondo, explosão, bólidos ou fogaréus. Há quem diga o princípio do mundo, ser de fundo negrume e vazio, e há outros destros de ciências mais antigas e ocultas, do tempo de Delfos e da esfinge, que alegam algo a mais: nada tem principio nem fim.

De todo feito, o que nos resta e não menos nos custa lembrar é que, hoje, enquanto as barragens se erguem sobre rios e sobre moradas de deuses para, então, se acenderem os luzeiros elétricos e as maquinarias da cidade, tudo o que ainda se move e resiste entre terras, águas, flores e constelações reina sobre uma só órbita soberana, onde se alinham entre os glóbulos oculares e as íris terrestres, a memória, a terna lembrança – quase uma saudade infinda – o mistério – de onde viemos, para onde vamos depois daqui, quem somos – e claro: O Sonho. E assim caminha a humanidade.

*Mayara La-Rocque é paraense, educadora, escritora. Publicou a plaquete literária “Uma luminária pensa no céu”, pela Editora Escriba, em 2017. (além de velha amiga minha e colaboradora deste site).

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