Uma vitória dos deuses… e da defesa (Chelsea x Barcelona)

Por Emerson Gonçalves
                                                                                                                                                                             
Nas grandes religiões modernas, Deus é um ser supremo, perfeito, onisciente, onipresente.

Os deuses gregos eram diferentes. Podemos dizer que eram humanos elevados a alguma potência, com todas as qualidades e, também, todos os defeitos dos homens. Amavam, odiavam, tramavam, traíam, divertiam-se, embebedavam-se, apostavam, empanturravam-se, até, e lutavam pelo poder.

Modernamente, os deuses que mais se aproximam das divindades gregas são os deuses do futebol, os deuses dos estádios. E, acreditem, são todos uns pândegos, grandes gozadores, amantes da ironia. Tenho comigo que são invejosos, muito invejosos. E, por que não, meio que do contra. São os responsáveis por ser o futebol o esporte apaixonante que é. Em que um pobre vence um milionário, um pequeno vence um gigante, um limitado vence um genial.

Assim foi nessa semifinal de Champions League: o limitado, mas rico, Chelsea de Roman Abramovich, venceu o genial Barcelona de Pep Guardiola e Lionel Messi. Ao fim e ao cabo, 3×2 para as camisas azuis do chique bairro londrino, no placar agregado dos dois jogos. Apesar do nome, porém, os Blues são do vizinho não tão chique, Fulham. Embora inglês, seu dono é um milionário russo, que já queimou alguns bilhões de dólares com sua paixão.

Estou reticente em dizer que o Barça foi derrotado pelo Chelsea. Lamento, mas é assim que me sinto. Tenho comigo que a derrota da melhor equipe do mundo deu-se para os caprichos dos deuses dos estádios. No primeiro jogo, duas bolas nas traves. No segundo jogo, mais duas bolas, ambas de Messi, uma no pé da trave esquerda de Peter Cech, graças às pontinhas das luvas do grande goleiro, e a outra no travessão, na cobrança do pênalti.

E as divindades todas estavam sentadinhas justamente no travessão, divertindo-se com a angústia de Messi, o “arrancar de cabelos” de Guardiola, trocado por um arrancar do elegante blazer, depois jogado sobre o banco, a expectativa nervosa e maluca de Di Matteo, o interino, que deverá ser efetivado, graças à “forcinha” da rapaziada que veste azul e parece não gostar de professores que tem o português como língua materna.

Não há time invencível

Ao contrário do que pensam alguns torcedores de times brasileiros, não há, realmente, um time invencível. Di Matteo armou sua equipe para defender-se, o que fez com maestria. Inspirou-se no bom trabalho do treinador do Milan, Massimiliano Allegri, contra esse mesmo Barcelona e aperfeiçou-o. Messi não teve espaço, logo, não teve liberdade. Os espaços foram encurtados e as tabelas curtas do Barça foram, em boa parte, inviabilizadas. Espertamente, principalmente por Daniel Alves não ter começado a partida, Di Matteo não se preocupou muito com as laterais, pois o Barça há muito tempo vem fazendo a maior parte de seu jogo pelo meio. A maior parte, não todo. Com Daniel em campo, a ação pela lateral foi dificultada naturalmente pelo acúmulo de defensores na área. Isso levou o time a alçar algumas bolas sobre a área inglesa, com aproveitamento nulo: esse não é o jogo que o Barcelona sabe jogar.

Aqui cabe uma observação importante: não basta recuar o time, não basta colocar “todo mundo” e mais o presidente para defender. É preciso que esses jogadores saibam jogar bola, sejam inteligentes e tenham, principalmente, excelente comportamento tático, vale dizer, disciplina tática. Não vou perder tempo falando da imbecilidade – mais uma – de Terry. Melhor falar de Ramires, o artífice da classificação do Chelsea com Lampard e Drogba. Ou de Meirelles, discreto e limitado, mas que sufocou Lionel, o Messi. Ashley Cole e Ivanovic estiveram igualmente muito bem e o time todo entregou-se à marcação, seguindo o exemplo de Drogba.

No fim, em mais um dos raros contra-ataques, o estigmatizado Fernando Torres caminhou sozinho pelo campo blaugrano até entrar na área, evitar Valdés e marcar o gol do empate, o terceiro na contagem agregada. Torres, quem diria, hein? A propósito, comentei sobre ele e seu processo de recuperação e reencontro com o gol no post “Um jogo agradável e só…”, em 18 de março, nesse OCE.

O gol de Ramires já dava a classificação, mas, pelo sim, pelo não, o de Torres sacramentou. Pode ter sido, também, o gol que ele precisava para voltar à forma que o consagrou.

O melhor time do mundo perdeu. Acaba a temporada sem um único título. Mas continua sendo o melhor do mundo, disparado. As traves de Stamford Bridge e do Camp Nou que o digam. Além, é claro, dos deuses dos estádios, dando risadas até agora.

Post scriptum 

Sim, a temporada ainda não acabou, a Liga ainda tem alguns jogos e há o jogo contra o Athletic Bilbao, pela Copa do Rei. Pois é…


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