URDIDURA (ENIGMA AMAPÁ) – @fernando__canto

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Por Fernando Canto

Des/vendar tua terra, teus sonhos, Amapá. Des/vendar teus olhos, teus textos não escritos. Des/velar tua alma circunscrita sobre um rio de prantos que se espraia para a foz e lava sortilégios no oceano.

O teu estado é o de ausente nas necessidades. Essas que emergem quando o tempo lento das tuas tardes flana no teu dorso como a vida descaindo à chuva nos barrancos e re/velam teus segredos: a construção de pedra ainda esmaecida na paisagem e o ofício de viver uma inócua pedagogia da espera.

Desgarrar das guelras, relatar os mistérios das entranhas, desfibrar as teias, manusear teares para fabricar tecidos de ouro e aço e de cores rutilantes como as mãos habilidosas de Penélope até a volta do herói na hora exata.

Quando és só tu és nada, Amapá. Nada te adianta se ao calor não refrigeres e se ao frio não acenderes a teus filhos. O fogo do amor e da paixão que de ti tantos esperam.

Quando és só equinócio, Amapá, parece não temeres o jogo equidistante dos solstícios nem a força das vozes nos quadrantes onde estão os mitos, a fé e os gritos vindos lá do fundo da floresta em busca de respostas que as saciem.

Tu só sentirás a ruptura ao ouvir a voz gestante das ciências e o anseio ainda latente no clamor de homens e mulheres sem os receios dos silêncios obscuros, sem o medo de arder velhas memórias, sem a escória a deformar os teus caminhos e os passos do teu povo em agonia.

Terás, assim, a urdidura do algodão e da lã por aqueles que te tocam com ternura do meio-dia à meia-noite em tempo de contrários, até que as sombras sejam luzes transparentes para que surjas radiante após a cerração.

Mas dobrarás, decerto, as pontas da Rosa dos Ventos para o coração, num círculo de luz: Um gesto a agradecer eternamente.

Verás, então, que desvendar-se é pôr o lume sobre a mente, é libertar-se já do que te oprime, é trazer o mar de volta para os Andes, é revolver a vida em ondas inquietas de um novo rio que surge para sempre

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