VADIA – Por Mariana Distéfano Ribeiro

Por Mariana Distéfano Ribeiro

Eu já notei que o machismo só vai deixar de ser endeusado e o feminismo só vai deixar de ser um tabu daqui algumas várias gerações.

É que as pessoas ainda são apressadas em se meter na vida dos outros e carregar os próprios princípios, cheios de preconceito e estereotipados, em julgamentos de casos das vidas particulares alheias.

Vamos falar aqui sobre a repercussão da história da Luiza Sonza, do Vitão e do Whindersson.

Não vou discutir sobre o aconteceu, como ou quando aconteceu, porque eu não sou confidente de nenhum deles (quem me dera ser amiga desses famosos), não presenciei os fatos e, acima de tudo, adoro as músicas da Luiza e do Vitão e adoro a comédia do Whindersson.

Interessante que, desde sempre, eu vejo comentários pejorativos direcionados apenas à Luiza. No começo da carreira dela as pessoas falavam que ela só estava com o Whindersson pra chamar atenção e ficar famosa.

Aí, a Luiza separou sem conflito do Whindersson e as pessoas se apressaram em continuar dizendo que ela só tinha usado ele pra impulsionar a carreira de cantora, além de dizer que ela canta mal. Eu, particularmente, adoro os funks que ela faz.

E o Whindersson ainda foi publicamente defender a Luiza e disse que ela devia ser forte porque ele sabia que as pessoas iam julgar apenas ela.

Certo. Mas vamos ao cenário dos estereótipos atribuídos a cada um deles.

A Luiza era, e continua sendo, a vadia da história; o Vitão ficou como o espertinho pegador de mulher dos outros (como se mulher tivesse dono, um objeto que possa ser carregado pelos cabelos); e o Whindersson o coitado que foi enganado pela mulher interesseira.

Eu sempre tive ojeriza a esses rótulos preconceituosos sobre a vida afetiva alheia.

Perceberam que o único rótulo pejorativo é o que foi atribuído pra Luíza?

Isso é porque a sociedade em que vivemos ainda é extremamente machista! É cultural! É porque uma mulher não pode jogar limpo e ficar com quem e quantos homens ou mulheres ela quiser!

A questão do relacionamento entre ela e Whindersson não é da minha conta, nem da sua e nem de ninguém.

Aliás, vadia é um termo que eu acho que tem que ser revisto.

Lembra da música “Todo dia” da Pablo Vittar? O refrão diz assim: “eu não espero o carnaval chegar pra ser vadia. Sou todo dia! Sou todo dia!”.

Tá aí um tabu que deve ser quebrado sobre esse padrão comportamental de taxação de mulheres como vadias.

Na verdade, esse conceito de o que é comportamento padrão para uma mulher e o que é comportamento padrão para um homem nunca foi assimilado pela minha mente.

A gente, que é mulher, cresce ouvindo coisas do tipo: não brinque correndo, você é uma menina; você não pode arrotar, você é uma mocinha; você não pode falar palavrão porque você é uma mocinha; você não pode sair com vários homens porque você é menina, se não vai ser taxada de vadia. Isso sempre me pareceu uma falácia.

Qual é a diferença entre o comportamento que deve ter uma mulher e o que deve ter um homem? Não tem diferença! Não deve ter! E pra mim não tem.

Então vamos abrir mente e expandir o conceito semântico da palavra vadia.

O adjetivo vadia não deve ser utilizado com sentido pejorativo. Muito pelo contrário! Vadia é aquela pessoa segura de si, autoconfiante, que conhece seus medos, seus defeitos, suas qualidades e as explora de forma liberal, sem preconceito e sem culpa.

A vadia sabe o que quer porque não tenta se esconder atrás de rótulos sociais enfiados goela abaixo. A vadia conhece muito bem seus princípios e não se deixa levar por ondas extemporâneas de modismos comportamentais.

A vadia age de acordo com sua própria consciência, sem se prender aos fuxicos, ao que outras pessoas podem pensar e sem qualquer preocupação com sua imagem perante a sociedade. Porque a imagem que interessa mesmo é a que a vadia tem de si mesma. Afinal, o que é mais importante do que a gente se olhar no espelho e enxergar alguém a quem se admira?

Vadia é gente que não tem vergonha. E não ter vergonha é tão libertador! É bom quando a gente pode ir onde a gente quer ir, vestindo o que a gente quiser vestir, e falando o que a gente achar que tem que falar.

A vergonha tolhe primeiro as ações, depois as palavras, e aos pouquinhos vai tolhendo a vida.

A gente tem é que ser sem vergonha mesmo!

E as vadias não têm medo de não ter vergonha!

Aliás, a palavra vadia devia ser mesmo um termo unissex, sem gênero, que nem alface ou jacaré. Um adjetivo assim, que expressa confiança, liberdade, ausência de preconceito, autonomia de vontade, não devia estar vinculado a um único gênero.

Então, vamos parar de falso moralismo e falso puritanismo porque a gente sabe que a maioria dos casais por aí traem uns aos outros, mentem e fingem uma vida inteira que se gostam. Não consigo pensar em uma infelicidade maior do que viver uma vida de mentira.

Eu bato é palmas pra Luíza e pro Whindersson por terem encarado com sabedoria o fim da relação. O resto, e tudo o que tiver no meio dessa história toda, não é da conta de ninguém.

*Além de feminista com orgulho, Mariana Distéfano Ribeiro é bacharel em Direito, servidora do Ministério Público do Amapá e adora tudo e todos que carreguem consigo o brilho de uma vibe positiva.

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