Vice-versa

Viver junto é viver sozinho. Viver sozinho é viver junto. Tal como uma mosca chata e mole, que descreve armilas acima de nós – a mosca incomoda, não pelo zumbido, mas pelo que os outros possam pensar de nós, caso não tomemos nenhuma decisão relativamente à mesma.
De qualquer forma, nunca estamos satisfeitos com a vida. Quem está junto sente, sempre, falta de qualquer coisa: uns dos amigos, outros das noites passadas em claro, outros ainda das surpresas a que estavam habituados – em todos sopra uma nostalgia.Quem está sozinho sente, sempre, falta de qualquer coisa: de uma longa e profunda conversa a dois, de se sentir seguro, do que fazer aos domingos ou de um (a) confidente…- em todos sopra ansiedade.
Quem está junto abomina a necessidade de relatar todos os passos que dá, quem está sozinho abomina não ter ninguém para se justificar ou desabafar. Uns vociferam à comodidade, outros discutem com a instabilidade. Os juntos tratam mal a rotina, os outros desejam-na.Quem está junto tende a relacionar-se com amigos na mesma condição.Inician-se, obrigatoriamente, os jantares com casais. Já quem está sozinho só se relaciona entre pares, não há cá espaço para fazer de “vela”. Os juntos procuram aventuras nas suas vidas, os outros estão saturados e denominan-as desventuras.
Os sozinhos procuram qualidades em todos, os outros procuram implicar com os defeitos de seu par. Uns falam mal de si, ou outros desviam este discurso a 90 graus. Em determinada altura, os juntos entendem ter morrido cedo, já os sozinhos que só vão viver tarde. Uns demoram mais para sair, os outros muito mais para voltar.
Uns já voltavam para a casa dos pais, outros fugiam dela. A dificuldade de quem estar junto tem de ser dono da última palavra, o que sofre quem está sozinho para bloquear a primeira.
Quem está junto é cão de guarda, os outros são cães de caça. Uns despedem-se com beijos, outros não se despedem. Quem está junto é um sozinho egoísta. Quem está sozinho é um junto magnânimo.

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