Voilà – Texto poético de Luiz Jorge Ferreira

Voilà 

Era seu o perfume, era seu o chocolate, era minha a caixa de chiclete, e o frasco de molho de tomate.
A saudade plastificada sobre a estante quase sem verniz, era intrusa.
Não dançava conosco nenhum Bolero
Não admirava o balé do Quero Quero na propaganda da tv.
Nem ouvia Jair Rodrigues cantar com Elis, no entanto era a que mais sabia de nós.
Sabia da cor do teu preferido esmalte, da minha paixão por livros e jornais, e dos nossos momentos irracionais sob a cobertas e edredons.

Quando ela foi embora, uma tarde fria de dezembro, o gato de louça ficou eriçado arranhou o espelho do lado e riscou sua face refletida com três arranhões enviesados.
Eu corri ao banheiro vizinho do quarto e trouxe a toalha úmida no desespero de não ver se esvair teu cheiro…
E com ela embrulhei a mim, ao espelho, e todos os apetrechos e todas as pedrinhas do aquário os peixinhos as suas escamas translúcidas as estrelas vagabundas que se banhavam nas minhas lágrimas, e o passado lilás que arranquei do muro do quintal todo manchado de sol.
Feito o fato… me abracei com o teu retrato e dancei “dois p’ra lá e dois p’ra cá…”
Como fosse voar p’rá outrora.

Luiz Jorge Ferreira

Osasco (SP) – Brasil – 13.05.2022

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