4 De soslaio – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Por mim a gente tocava fogo e queimava todos os barracos.

O tenente olhou-me como se me visse pela primeira vez. Não estamos mais na guerra da Alemanha. Em seguida cuspiu mais uma vez no chão, um cuspe cheio de saliva e tabaco. E fulminou-me com o olhar.

Os homens continuam lá dentro, esbravejou. Mas tocar fogo nos barracos vai matar muita gente inocente.

Eu tirei o boné e o bati na palma da mão levantando a poeira acumulada desde a Segunda-feira, quando saímos de Lagoa dos índios. Maldita hora que não aproveitei minha folga e sumi das proximidades do Quartel. Fora aquele maldito alerta e estávamos agora deitados cercando uns malditos aglomerados de matutos, que teimavam em se acharem donos daquelas terras secas e amaldiçoadas.

Os urubus caminhavam saltitantes pela terra cercando os corpos das montarias mortas há três dias, quando do primeiro tiroteio.

O tenente rastejando era cômico, manchara a calça num monte de esterco e hoje aquela laca parecia uma tatuagem seca no fundo azul de sua farda.

Por mim tocávamos fogo, ergui a mão soltando um punhado de capim seco que voou rumo ao povoado levado pelo vento que soprava forte.

Com um pouco de sorte e um palito de fósforo estes cabras vão ter que se entregar ou assam como cabritos.

Um rosto assomou pelo vão da janela. Estava com o rifle em mira, avistei os olhos encovados, abertos, assustados, em cada lado da mira, fiz pressão no dedo e tum… tum…

O rosto saiu de nossa visão como atingido por um soco.

“Bom tiro, Cabo! Este não come mais feijão.”

Olhei para o soldado ao lado, mostrava todos os dentes manchados de cárie e um pedaço de palito dançando neles. O cartucho saltou no meio de umas pedras e peguei-o com a mão para cheirar seu perfume de pólvora queimada.

Daí então caiu a tarde e ninguém viu mais ninguém. A ordem da capital era não avançar, eles estavam sitiados, a água que tinham não podia durar muito e a cacimba que ficava a meio quilometro distante do povoado, fora dinamitada e coberta de pedras. Um sargento mais desalmado trotou com nossos animais sobre a plantação de milho e feijão destruindo tudo e colocou veneno na carne que atirou para os cães, espantou as aves. Morreriam de fome ou de sede.

Levantei as mãos. Aproximei do rosto o palito de fósforo aceso e acendi o cigarro, traguei a fumaça. Éramos uns cinqüenta homens armados até os dentes, até mesmo um pequeno canhão que permanecia adormecido na praça do Quartel fora amarrado em dois burros velhos, e trazidos, há muito custo. Notei que a barba crescera e que aquela paisagem hostil parecia agora, minha velha conhecida. No dia anterior, viera o Coronel dono das terras e nos oferecera um bom almoço, distribuíra pinga, carne de sol, rapadura e uns rolos de tabaco. – Um homem fino, disse o Tenente, muito a vontade entre a cachaça e o tabaco. E entre uma cuspidela e outra o abraçava como se faz a um velho conhecido. Depois de tanta festa hoje parecia triste nosso acampamento.

Furei uma Joaninha que corria pelo chão com a ponta da faca.

O resto do cigarro lancei longe com um movimento de catapulta nos dedos médio e polegar. À noite o fogo tomou conta do cerrado e os homens morreram abraçados com suas mulheres e filhos.

De manhã cedo o burro da direita que puxava o canhão, caiu num buraco e tivemos que sacrificá-lo. Voltamos os dois, revezando sobre o único cavalo sobrevivente, chegamos exaustos. O tenente morreu.

Em Agosto, fui promovido.

* Do livro de Contos “Antena de Arame” – Rumo Editorial (2° Edição) – 2018.

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