Uma crônica De Rocha – Texto sensacional de Kairo Moto Táxi

Kairo mototaxi – Foto: Maksuel Martins

Era uma dessas manhãs cinzentas, por volta das 5h45, eu vinha subindo a Rua 13 de setembro, sentido Buritizal – Centro. Nesse horário as ruas estão completamente vazias e o silencio se apodera de nossa mente, é como andar de moto sobre as nuvens, mas a esperança de pegar uma corrida nunca acaba.

De longe vejo alguém e à medida que vou me aproximando consigo ver uma senhora, bem baixa, deveria ter no máximo 1.20cm de altura, o cabelo curto, não era um cabelo volumoso, o penteado era um rabo de cavalo, amarado com um pompom listrado nas cores vermelho, branco e azul e pelo fato de não ser um cabelo volumoso o rabo de cavalo ficava mais ou menos da grossura de um lápis, o rosto tinha algumas rugas, o que é normal devido a idade, um par de argolas de “ouro”, uma blusa branca com uma frase em inglês escrito: “ I am alive”, uma bermuda desbotada e uma sandália dessas rasteirinhas, com um detalhe em pedrarias.

Quando parei a moto notei que se tratava de alguém muito humilde; ela então sorrindo me disse:

– Meu filho, quanto é uma corrida daqui ao igarapé das mulheres?

Para quebrar o gelo eu sempre uso essa estratégia, então disse assim:

– Baratooooo! Não vai passar de R$10,00 reais.

Ela sorriu e disse:

– E ida e volta, faz um desconto!?

Eu: – Claro que faço, nem pra mim e nem pra senhora, me dê R$18,00 reais.

E por incrível que pareça ela me respondeu com a seguinte expressão:

– Já é!!!

E montou na moto com uma agilidade que nem essas novinhas de 18 anos têm. Ao longo do percurso, ela puxou assunto e me disse que estava indo comprar peixe e uma melancia, porque na feira perto da casa dela os peixes não prestavam, os vendedores passam colorau na guelra dos peixes para ficarem com aspecto de que o peixe é novo (fresco). Eu sempre concordando com tudo, afinal ela não estava falando nenhuma mentira. Então, pediu que eu parasse em um posto de gasolina para trocar o dinheiro e assim o fiz.

Lá, desceu da moto, meteu a mão por dentro da blusa com certa delicadeza, como se fosse a coisa mais normal do mundo guardar dinheiro dos seios, tirou duas sacolas, uma tinha um bolinho de dinheiro, deveria ter uns R$ 300,00 e na outra uma carteira de Derby Prata ( Cigarros ). Aí disse:

Guardo aqui pra não molhar! E o dinheiro guardo aqui também, porque ninguém quer pegar em peito de velha.

Nessa hora todos rimos, eu, ela e o frentista do posto!

Abasteci a moto, coloquei R$10,00 de gasolina e entreguei o troco, seguimos viagem…

Chegando ao local desejado, eu disse:

– Fique à vontade!

Ela me entregou o capacete e foi andando em direção ao vendedor de peixe, escolheu, escolheu, escolheu até que, pelo que pude notar de longe, encontrou o peixe ideal. O peixe pra falar a verdade não foi o problema, a dificuldade foi pra escolher a melancia, bateu nem todas, sabe quando você bate na porta de alguém? Pois é, foi assim mesmo! Fez em todas as melancias, até encontrar a perfeita! Tudo isso ela descobriu somete escutando o som das melancias (esse ouvido deve certamente ser estudado).

E quando já caminhava em minha direção, foi abordada por um homem, cabelo grande, encaracolado, estilo do Cazuza no começo de carreira, uma regata branca, uma calça branca e um chinele muito desgastado, o rapaz segurava na mão uma cédula de R$ 50,00 reais, pensei: – ele deve está pedindo pra ela trocar o dinheiro!

Então ela colocou a sacola de peixe e a melancia no chão, segurou a nota de R$ 50,00 reais do rapaz na mão, e com aquela destreza de sempre meteu a mão em seu sutiã para tirar o dinheiro, trazendo a luz uma de suas sacolas tão bem guardadas.

De repente aquele rapaz, que parecia ser uma boa pessoa, pulou na mão da senhora e tomou o que ela tanto guardava, correu, mas correu tão rápido que parecia Forrest Gump. Meu primeiro pensamento foi:

-Essa corrida eu não recebo! (Desculpa, eu não deveria ter pensado isso, rs)

Mas logo fui tomado por uma força, uma raiva, então disse para mim, eu sei que se for atrás dele e conseguir pega-lo, vou apanhar (devido ao meu porte físico, reconheço que não é o meu ponto mais forte), mas eu vou. Quando coloquei o capacete na cabeça e já ia ligar a moto, a senhorinha grita de lá:

– Ei Mano, Ei, Ei, Moto Táxi, espera!

Ela chegou perto de mim muito nervosa e disse:

– Mano, um bora embora, que eu roubei o ladrão!

Me entregou a sacola de peixe, montou na moto e disse:

– Mano, chuta!!!

Eu, mais que depressa fiz o que ela estava me mandando sem entender nada, resolvi ir pela orla, era mais rápido. Quando chegou lá perto da primeira rotatória do Santa Inês, perguntei:

– Mana,o que foi que aconteceu?

– Ela: Mano, o caboco pediu pra trocar um dinheiro pra ele, quando ia puxar a sacola com dinheiro, ele pulou da minha mão e levou, correu. só que ele levou a sacola com o cigarro e o dinheiro tá aqui ainda, e eu ainda fiquei com os R$ 50,00 reais que ele pediu pra trocar.

-Roubei o ladrão!!! Roubeiiiiii o ladrão !!!!

Nessa hora começamos a rir, mas rir muito! Ela ria e dizia:

– Caboco Burro! Burroooooooo!!!!

Chegamos até a frente da casa dela, quando me disse:

– Mano, tu foi ‘’De rocha!’’, então vou fazer o seguinte, fica com os R$50,00 reais do burro.

Falei: – Sério? Num boto fé!

Fiquei feliz, R$ 50,00 reais assim, rápido! Mas disse pra ela ter mais cuidado.

Foi então que ela disse, sorrindo:

-É… agora vou guardar o cigarro e o dinheiro em um só peito, em sacolas separadas, afinal, meu filho, ninguém quer pegar em peito de velha.

Eternos risos!

Canção do Filho Agradecido* – Crônica de Fernando Canto

Por Fernando Canto

Minha mãe está ali, do outro lado da rua ao lado de minha irmã, me olhando. Mas eu não posso atravessar porque muitos veículos passam constantemente em alta velocidade. A alegria de reencontrá-las é grande e o coração palpita na possibilidade de abraçá-las, afinal faz tempo que eu não as vejo.

Elas estão lá e esboçam sorrisos de ternura, como que convidando para uma conversa longa ao redor da mesa onde um café fumegante feito em casa, saindo do coador, explode em seu odor. Os carros não param. Não há semáforos nesse cruzamento. Elas percebem meu desespero e espalmam as mãos pedindo calma, porque é perigosa a travessia e eu devo esperar o movimento dos veículos para poder passar. Fico agoniado e não tiro os olhos delas. Mas os carros dão lugar à manadas de animais em estouro, e quando a poeira passa, um trem se segue em seu lugar. É grande o movimento. E agora uma chuva fina molha os caminhões em comboio veloz no meio da rua, ensopando o som de suas buzinas barulhentas. Do outro lado da rua duas figuras diáfanas desaparecem progressivamente, indiferentes ao meu chamado, enquanto os obstáculos móveis pouco a pouco somem da minha vista.

Então eu acordo com os batimentos cardíacos fora do normal e uma imensa saudade rompe abruptamente os globos dos meus olhos embotados, formando milhares de gotículas cristalizadas no chão. É um dia de sol e chuva, mas de luz intensa varando os vapores no céu azul equatorial.

Sobra um espanto materializado na parede do quarto. Fecham-se as cortinas…

Restou-me a sensação do nada, um vazio cheio de alguma coisa, o sentido da ausência, não da falta, pois “não há falta na ausência”, diria Drummond inventando exclamações alegres por aí. Ficou ainda a lembrança das criaturas que desafiaram a vida e puseram filhos no mundo, predispostas que estavam a romper círculos enfadonhos e mesmices tentaculares que enredam a normalidade do ciclo vital.

E no interlúdio do sonho e da memória, do nascimento e da morte, do dia e da noite, uma canção renova-se mergulhada na saudade da planta e da flor. Uma canção encarna a melodia magnificamente soprada pelas ruas, onde só a escuta quem tem o ouvido treinado para ouvir sob o barulho dos carros da cidade. Dentro dessa canção se pronuncia o amor, palavra-escritura indecifrável para alguns ou guardada nos bolsos de outros. É uma canção que se inscreve em mosaicos, que venta e fustiga esconderijos de metal e é tecida com agulhas de ouro. Quem assobiá-la será feliz e descansará em macias almofadas de seda do oriente, recheadas de penas de ganso.

Por garantir essa promessa é que me alardeio proprietário de palavras inventadas, de músicas compostas em nome do amor e da memória. Eu narro essa façanha improvisada de fazer-me condutor do lume da saudade, a fim de vê-lo sempre aceso dentro do coração.

Inominada rutilância és tu, Mãe. Anjo astral, iluminadora. Grato eu sou pela concessão da espada nesta onírica epopeia inacabada em que me encontro e venço diariamente. Agradecido fico pelo indisfarçado crescimento das abelhas que colhem o pólen das hortênsias, dos jasmins e das papoulas que ainda florescem em teu jardim. Aqui teu filho lavra a terra, planta e separa o trigo onde lhe salpicam o joio. Aqui teu filho ainda pule a pedra bruta posta ao meio do caminho. Aqui ele canta a canção que lhe ensinaste para limpar os obstáculos e carregar os fardos inevitáveis que surgem nas ruas por onde passa.

Inefável rutilância tu és, Mãe. Fulcro lírico, bálsamo dos dias funestos, porto necessário ao barco sem destino. Grato eu sou pelos rios que atravesso nas pontes que me ensinaste a desenhar e transpor. Agradecido fico pelas metáforas da vida que Deus mandou-me e que eu, por ti, pude interpretar.

*Publicado em 2008, no Jornal do Dia. Macapá-AP.

O RETRATO AZUL – Conto de Fernando Canto sobre sua mãe

Conto de Fernando Canto

E agora estou aqui, engolindo este silêncio seco, sem saber o que dizer para você.

Por tantas vezes você me acariciou os sonhos e os cabelos e me aparou de quedas vertiginosas, falando em anjos guardiães. Às vezes, em pequenos pedaços de iracúndia você me insultou. – Burro, não é assim, é assado, é grelhado. Eu ouvindo, eu burro. Você me ralhava, dizia até com ponta de aspereza para que eu não me importasse com a perda das coisas, as que considerava tolas. Eu parado ouvia, mas dentro a cachoeira vinha abrupta e profusa. Havia de sentar ou fugir, me rebelando do trato ou a enchente me afogava.

Agora estamos nós dois sem saber o que fazer… Você aí sentado nessa rede com olhos brilhosos de lágrimas, olhando fixo o quadro que lhe demos de presente de aniversário. E você tem vergonha de chorar porque homem não chora, ainda mais um homem como você que sempre foi forte e capaz de transpor os obstáculos e desarmar, sorrindo, tantas armadilhas.

Você tem lembranças e elas são fantasias de nuvens. Você quer concreta a sua lembrança. Ela surge na forma que você quer. Ela vive em sua memória de um jeito estranho, pois o cenho não esconde a projeção e você a sente como se tivesse medo. Mas medo você não tem nem está triste, apenas lembra.

Eu ao seu lado toco em seus cabelos e na sua dor. Você me abraça. Nós, é óbvio, não temos a mesma idade nem a mesma opinião sobre os golpes que o tempo deixa, pois os ventos mudaram para outras pontas da grande rosa e os valores brilham em forma e conteúdo ou, como se diz comumente, qualitativa e quantitativamente. Hoje você vale o brilho que sabe demonstrar com sua esperteza. Hoje os fios do bigode são meros adornos de vaidade e moda. – E não culpe somente as mãos do mundo. Cuspa, se lhe aprouver. Eu vivo a contragosto esses valores e trago em mim a amargura do meu tempo. No entanto, estou aqui junto a você, agora sentindo uma reação esquisita, frente a essa tela.

Minhas lembranças não são mais nítidas que as suas porque o amor que eu sinto é diferente. Você esteve mais perto, então uma imagem lhe traz uma série de outras mais claras, mais tangíveis.

Para mim muita coisa é confusa. Os sentimentos da monocromia em azul saltitam sobre o retrato emoldurado. Consigo ver um tempo que não é meu e me sinto intruso perscrutando o que pertence a seu mundo, me metendo, penetrando no interior de seus sentimentos e elaborando apenas fantasia.

O retrato espelhado em seus olhos mexe com você até a alma. Um doce para mim se sou capaz de adivinhar. Você segura a minha mão com força como se de longe estivessem lhe chamando. Você está em dúvida. Eu respondo. Não quero que você vá. Mas quem sou eu para lhe impedir a vontade se você ama, se você quer ir.

Minha lembrança migra para uma tonalidade tênue e vejo você sentado no pátio de nossa velha casa de madeira conversando com ela sobre as atividades dos filhos, sobre a TV em preto-e-branco que desejam comprar, e especialmente sobre sua situação financeira que não está nada boa, desde que foi obrigado a vender seu comércio pra pagar dívidas contraídas pelo sócio mau-caráter.

Vejo vocês saindo da missa. Uma, duas, mil esperanças a cada domingo. Um almoço farto é imprescindível nesse dia da semana. Você diz orgulhoso:

– Em minha casa nunca faltou comida. E agradece a Deus. E come as delícias que ela fez.

Embora sua risada fosse discreta, os olhos demonstravam a cor do seu pensamento feliz. Havia tristeza, é claro. Ninguém vive sem sentir o gosto dos diferentes venenos que ingere. Porém, há remédio para tudo, isso até hoje você diz. Você pratica e ensina que há antídoto para as agruras; que existem meios e formas para superar qualquer barreira da vida; que não é necessário beber veneno, mas se for inevitável engole-se aos poucos para depois vomitá-lo todo. Então você vomita. Muitas passagens da vida são venenosas e a ação do tempo é emética, aprendo.

Não posso me arriscar a duvidar. Você foi feliz e sofre hoje. Todavia, a sua felicidade acabou no momento em que a paixão incrustou definitivamente, acho, assim como a tinta na parede, como o asfalto no leito da rua, como a cola no papel. Ora, você sabia da durabilidade das coisas porque consertou mil objetos. Sabia que nem tudo é resgatável, gastou horas e sentimentos lidando com minúcias para não esgotar a paciência. Perseverava sempre, até o limite técnico de sua vocação de engenheiro e alma de artesão incomparável. Sim, você sabia que a parede tomba com a violência do temporal, que a tinta escurece e descasca com as intempéries, que o asfalto rompe com o tráfego dos veículos, que a rua desnivela com as erosões, que a cola desgruda com as variações da temperatura, que o papel rasga e amarelece com o manusear constante. Você sabia tudo isso, mas levou tempo para admitir.

Você embala a rede que me roça as pernas. Eu afago seus cabelos brancos com uma ternura de me causar surpresa. Nós sempre fomos amigos, mas havia uma barreira. Talvez a do excesso de respeito, pelo que a aproximação arrefecia. Foi preciso tempo e esta situação para que eu me decidisse amá-lo com toda a força do meu coração, entendo-o agora, dizendo dentro de mim e, se eu quiser, bem alto e retumbante, um Eu Te Amo para impregnar este quarto onde mora a intimidade de sua memória, onde você cultiva sua solidão particular.

Há uma relação inquebrável, uma linha, um foco de luz entre seus olhos e a tela. Nela você penetra aos poucos. Eu deixo, porque a luz é sua, a transcendência é clara. Suas mãos emitem uma aura azul.

Você não percebe que eu desliguei a luz. Você enxuga uma lágrima cadente com a mão esquerda no rosto brônzeo e transmigra com os olhos fixos para dentro da figura tão bem pintada por um artista amigo da família. Com as mãos em seus cabelos acaricio, talvez, a necessidade de seu sonho. Sinto que alimento sua satisfação, embora a sua dor esteja explícita no cenho errado, duro, mas substancialmente alinhado agora. Você não parece ter a idade que tem. Eu observo seu rosto pelas réstias de luz fugidas da sala vizinha, através das frestas das tábuas. Há nele inevitáveis rugas. Mas um sorriso paira em sua boca. Um enigma.

O passado corre no quarto como um rio de volta para a nascente. Recordo suas velhas histórias. Longas e quase inacreditáveis. Histórias amazônicas, histórias que, sabemos, são verdadeiras, pois você nos ensinou que a mentira não é necessária, é sempre uma coisa dispensável. Todas elas traziam a liberdade sonhada nos quintais. Todas abrangiam um mundo particularizado, impenetrável porque aconteceram antes da devastação da floresta, o que tanto o entristece e o preocupa quando assiste aos jornais da televisão. Fogo, antes, só o fátuo – a ilusão. Eu criança e mesmo já adulto absorvia os mistérios dos seringais, as técnicas descobertas por extrema necessidade no meio da selva, e o idolatrava quando contava das farras feitas com seus irmãos, sempre aprontando alguma. Ríamos muito no final dessas histórias.

Um sentimento enorme tomava conta de nossa família. Você encanecia rápido, dizia que não era de preocupação, era genético. Mas eu sabia. Sabia quando você se preocupava, porque depois do almoço, quando mamãe saía para o trabalho, você ficava se embalando numa rede larga, de cor branca, fixando a vista em algum ponto da parede, assim como o faz agora na direção deste quadro. Depois saía sozinho, de bicicleta, ganhando a tarde.

Só você e ela sabiam das dificuldades que nos afligiam. Nós, os filhos, tínhamos o que queríamos e o que pedíamos no limite de nossa pobreza. Nunca reclamamos de nossa infância. Éramos felizes e tentamos até hoje dar um sentido racional a ela, sem, contudo, perdermos o vínculo do encantamento pretérito com a chuva de desencantos que às vezes caía sobre nós. Há um remédio para cada veneno. Lembra? Você não lembra. Está quintessenciado.

Será que erramos com a ideia do presente? Assim você sofre demais, deixando transparecer a debilidade do corpo que balança a rede. Você ainda me abraça e olha o perto/longe. Está lá dentro conversando com ela, caminhando nos paralelepípedos da cidadezinha do interior, de mãos dadas, com seu termo de linho branco, galante e contente, demonstrando o seu amor, inclusive às solteironas invejosas das janelas coloniais. Você sobe a ladeira com um sorriso de homem maduro. Mais alegre, ainda, é ela, a professorinha da Prefeitura Municipal, a desfilar com a graça de seu andar miúdo e um sorriso fulgurante, ajeitando de vez em quando a rosa amarela presa aos cabelos negros. É final da tarde de domingo.

Você a imagina assim, como no retrato. O retrato azul, transposto e ampliado de uma velha foto da década de 40. Minha impressão é que você confunde o real e o imaginário. Permanece o silêncio. Nós dois aqui.

Ah, falta o violão, imagino eu, para que você dê uns acordes harmônicos e cante músicas do seu tempo. Valsas, valsas. Mas o silêncio é seco. É áspero. É doído. Acho então que não estou errado. Seu semblante está feliz, está tocando, está ouvindo músicas. Não há amor sem música. Para ela havia muitas, dessas que entrelaçam e fortalecem uma relação aparentemente ingênua.

De repente você escuta o apito de um navio passando longe. E a convida para viajar, conhecer outras terras, começar a vidinha a dois. O apito do navio transporta o engano do futuro. Você é um aventureiro nato. Não desiste nunca. Mas não impõe. Os dois vão viajando trinta e poucos anos. E gostam. Não enjoam jamais da cara do outro. As brigas que se sucedem são só de vocês. Ai daquele que meter a colher.

Até parece que ela vive. Você devaneando me faz acreditar. Eu acredito. Você me diz: – Eu não estou triste, só lembro.

Lembrar é fato legítimo. É viver o presente com lucidez. E você vive. Apenas viajou.

Paro de afagar sua cabeleireira branca. Você me abraça e não me olha. Sei, no entanto, que está sorrindo, que está feliz. Você levanta, me dá três tapinhas nas costas e vai assuar o nariz no banheiro.

Acendo a luz fluorescente. Olho o retrato mais uma vez. O quarto está repleto de luz. Mamãe está sorrindo na tela com os olhos molhados de ternura.

Hoje é Dia Nacional do Reggae (em homenagem à Bob Marley , que partiu em 11 de maio de 1981)

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Hoje é Dia Nacional do Reggae e como temos uma sessão chamada “datas curiosas”, é claro que não deixamos passar batido. A data foi instituída oficialmente, pela presidente Dilma Rousseff , no dia 15 de maio de 2012. É uma homenagem ao cantor jamaicano Robert Nesta Marley ou Bob Marley, que faleceu no mesmo dia, há 38 anos atrás, aos 36 anos de idade em um hospital de Miami, nos Estados Unidos.

Se vivo, Bob Marley teria 74 anos, completados em 6 de fevereiro deste ano. Apesar de não ser fã de Reggae, gosto dos clássicos. E nada é mais clássico em Reggae do que as canções do extraordinário artista jamaicano.

A música do cantor e compositor foi influenciada pelas questões sociais de sua terra natal. Ele deu visibilidade política e cultural a Jamaica, muitas vezes cantando seus problemas, angústias ou em protesto.

Bob foi brilhante. Uma daquelas almas iluminadas que marcaram presença, deixaram uma mensagem e seguiram a luz. Não somente na música, mas também como figura política. Marley saiu de um país pobre e ganhou o mundo ao cantar a paz, o amor e ideais do rastafári. A sua imagem e a sua música com letras contra a opressão e a injustiça são influencia direta no comportamento das pessoas de bem ao redor do planeta.

Marley foi uma das figuras mais importantes da música mundial, considerado internacionalmente um dos melhores compositores do século XX, comparado a nomes como Bob Dylan e Lennon/McCartney. Ele morreu no dia 11 de maio de 1981, vitima de câncer. O cara deixou um legado musical fantástico e uma mensagem de amor eterna.

Portanto, viva Marley, viva o Reggae e sua mensagem de paz.

“Emancipem-se da escravidão mental. Ninguém além de nós mesmos pode libertar nossa mente” – Bob Marley, na canção Redemption Song.

Elton Tavares

Jogos e cooperação social – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Certa vez, ao falar para um grupo de jovens sobre cultura e lazer, citei Câmara Cascudo, um dos estudiosos brasileiros mais cultos do seu tempo, folclorista e etnólogo, que costumava afirmar que o uso do jogo, o desejo de brincar é uma permanente necessidade humana. Para ele o exercício lúdico é a expansão do saldo energético que o homem (ou a criança) não pôde aplicar a uma atividade produtora, e essa disponibilidade de brincar não abandona o homem em toda a sua existência. A brincadeira, diz o folclorista, é o processo iniciador da criança nos domínios da psicologia, da dinâmica fisiológica, memória, inteligência, raciocínio, vontade, virtudes de honra, disciplina, lealdade e obediência às regras. A terminação de um brinquedo, para a criança, é sempre um momento tirânico, insuportável e incompreensível.

Historicamente essas observações já eram compreendidas pelos povos mais antigos. Nas cidades gregas os jogos eram considerados como essenciais para o treinamento de guerra, tendo, para isso treinadores especiais. Mas nem sempre a chamada “união do corpo e mente” fera respeitada. Às vezes os atletas eram proibidos de frequentar jantares sob o argumento que as conversas inteligentes lhes dariam dor de cabeça.

Para os historiadores os jogos olímpicos eram uma espécie de combinação de rito religioso e esporte, e só os vitoriosos ganhavam prêmios financeiros de vulto. Os perdedores eram ridicularizados e humilhados. Por isso era compreensível que muitos atletas estivessem dispostos a lutar até morrer para ganhar jogos como a “corrida de carruagens” e o “pancratium”, uma luta livre muito sangrenta.

Em certas sociedades os jogos são realizados mais para promover a cooperação. O antropólogo Dennis Werner nos conta que os índios Xavantes, do Mato Grosso, também gostam muito de esportes. Eles vão para o mato em duas equipes, cortam uma tora de buriti, de aproximadamente 1,0 metro, colocam-na nos ombros de um de seus membros e correm para a aldeia, passando, de vez em quando, a tora para outro membro da equipe. A “corrida de toras” é um rito cerimonial, mas ao contrário dos gregos, os índios não têm o espírito competitivo. Para eles não importa qual é a equipe que alcance primeiro a aldeia. O que importa é que cada homem dê o melhor de si para carregar a tora, e que a cooperação entre eles seja boa. Entre os Xavantes não existem jogos “até a morte”, afirma o antropólogo, que explica ainda que em sociedades pequenas as pessoas se conhecem muito bem e não precisam de “concursos” para distinguir habilidades de pessoas diferentes. E, como a competição poderia prejudicar a cooperação necessária para muitas tarefas comunitárias, é melhor evitá-la.

Entre os Mekranoti, existe uma curiosidade: quando jogam futebol brasileiro os gols não são contados. Eles apenas notam, informalmente, que está se esforçando bem e quem não está. Assim um esporte pode ser combativo sem ser competitivo. Em algumas tribos se praticam lutas corporais, mas ninguém é declarado vitorioso. Essa correlação, segundo Sipes, desmente o argumento de que os esportes servem como “válvula de escape” para sentimentos agressivos. Serok e Blum afirmam em suas pesquisas que os delinquentes juvenis preferem jogos físicos e de acaso (bingo), enquanto os não-delinquentes preferem os de estratégia, como o xadrez.

Diante disso seria interessante motivar os delinquentes para jogos que envolvem mais estratégias e menos fatores de casualidade. Útil seria, quem sabe, até se mirar no exemplo dos nossos índios.

A força das águas e os bares do Araxá – Crônica porreta de Fernando Canto

Por Fernando Canto

As águas têm uma importância tão grande para a nossa região que certa vez, há alguns anos antes das mortes causadas pela violência dos tsunamis na Ásia, em 2004, imaginei, numa condição extremada, alagamentos catastróficos em Macapá causados por ondas gigantescas num futuro próximo. Como o texto foi publicado num livro meu, me perguntaram se eu tinha informações científicas sobre essa possibilidade. Claro que tudo era ficção. Mas a pororoca e as águas grandes do nosso inverno nunca deixaram de atemorizar os ribeirinhos e ameaçar suas frágeis moradias, principalmente nos lugares sujeitos às influências das marés.

Por causa da força das águas que iniciam neste período e que chegaram a destruir partes do muro de arrimo em alguns pontos da orla macapaense e dos estragos causados na antiga praia do Aturiá, fui verificar in loco a situação e fiquei assustado. No Jandiá, próximo do antigo Bar do Maguila enormes blocos de concreto do muro foram arrebentados pelas águas, as pedras dos gabiões de sustentação jazem na lama do mangue, fato que não permite a presença de banhistas, a não ser na maré baixa, apesar de que na maré alta também tem uns malucos que se machucam ao serem jogados no muro. O mesmo ocorre na área do Araxá, um dos lugares mais românticos e mais bonitos de se passear da orla. Ali já existiu praia. Até o início da década de 1980 o Araxá e a Vacaria do Barbosa eram pontos freqüentados por famílias, que não podendo se deslocar para Fazendinha, nelas faziam seus piqueniques aos domingos. A rapaziada se concentrava para tocar ao violão os últimos sucessos da Jovem Guarda, tendo ao redor a o riso feliz das fãs, enquanto a criançada corria na areia da enseada. Isso mesmo, na areia da praia, onde deitavam plácidas ondas que traziam sementes e mistérios do outro lado do rio-mar. Árvores enormes como as samaumeiras, soltavam suas painas no ar e sombreavam o ambiente para os primeiros namoros dos adolescentes, inundando suas mentes de poesia e o corpo de desejo.

Mas o Araxá sempre foi um belo local de concentração de banhistas, boêmios e bares. Um deles, talvez o mais famoso daquela época fosse o “Bang Bar”, nome por sinal muito sugestivo. Um outro era a “Casa da Música Popular Brasileira”, que vez por outra oferecia aos clientes belos shows de música dançante com cantores regionais. O grupo “Café com Leite”, levava samba e música romântica nas vozes de Zenaide, Sobral e Maria Tavares, acompanhados por Chico Cara de Cachorro, Zé Crioulo, Jaci, Ricardo, Fifita e Pelé. O grupo fazia muito sucesso e sempre estava lá às sextas-feiras à noite e nas tardes de domingo. No Bang Bar às vezes surgia um quiproquó para fazer jus ao nome do estabelecimento: era quando macho que era macho se escondia das balas em qualquer mesa de madeira que lhe servisse de escudo protetor. Algum tempo depois surgiu um bar de nome engraçado, situado no início da Eliezer Levy, um tal de “Xiri Molhado”, onde o pessoal ia tomar a saideira. Até quem vinha de Fazendinha encostava para um último gole porque também rolava um pagode e dava muita “cocota”, no dizer da época. Na orla do Igarapé das Mulheres, perto da feira do Pescado também existiu um bar muito perigoso, onde os frequentadores jogavam sinuca e bebiam muito. Mas eles tinham uma regra infelizmente não muito obedecida que era a não-provocação. Só caboclo corajoso frequentava e ganhava dinheiro no jogo no tal de “Cutuca Morte”.

Lembranças à parte, quando as águas do verão e as do inverno não atingiam tanto a cidade, porque não havia muro de arrimo e nem muito aterro nas baixadas e ressacas esses problemas não existiam. Mas a cidade precisou se modernizar e resolveram começar pelo saneamento. O planejamento dos antigos governos visava deixar Macapá com uma bela frente e com um traçado que permitisse o alongamento das vias sem o entrave das áreas alagáveis. Então milhares de toneladas de aterro foram depositados nesses lugares para compactar e dar lugar no futuro aos quase oito quilômetros de orla asfaltada que temos hoje em Macapá. Lutar, entretanto, com a fúria do rio Amazonas é lutar praticamente em vão, porque ele só é igual a si mesmo. Mesmo assim, ora a vitória é da terra ora é da água, essa mesma água que dá e tira a vida. No fim vence o homem e sua tecnologia.

Hoje é o Dia Mundial de Star Wars – Que a Força esteja conosco!

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Hoje, 4 de maio, é o Dia mundial de Star Wars! A data foi escolhida devido a um trocadilho com a célebre expressão “May the Force be with you”. May (maio) the Fourth (dia 4) be with you.

A primeira alusão ao termo “May the 4th” aconteceu em maio de 1979 quando o Partido Conservador parabenizou a eleição de Margaret Thatcher como a primeira mulher Primeira Ministra da Inglaterra, com um anúncio no jornal The London Evening News que dizia: “May the Fourth Be with You, Maggie. Congratulations.”

my1111111-660x350Durante uma entrevista em 2005, para o canal N24 de notícias da TV alemã, pediram ao criador de Star Wars, George Lucas, que ele falasse a famosa frase “Que a Força esteja com você.” O intérprete simultâneamente interpretou a frase em alemão como Am 4. Mai sind wir bei Ihnen (“We shall be with you on May 4”, em português, “Vamos estar com você em 4 de maio”). Isso foi captado pela TV Total e foi ao ar em 18 de maio de 2005.[Wikipédia]

Em 2011, a primeira celebração organizada do Dia de Star Wars aconteceu em Toronto, Ontário, Canadá no Cinema Subterrâneo de Toronto. As festividades incluíram um Game Show de Trivia sobre a Trilogia Original; um concurso de fantasias com os juri composto por celebridades; e a exibição em tela grande dos melhores filmes, mash-ups, paródias, e remixes da web. A segunda edição anual aconteceu na sexta-feira, 4 maio de 2012.

De fato, é uma data em que a Força está presente nos fãs de Star Wars. Neste dia costuma-se rever os filmes, falar as frases mais famosas dos personagens, ou cantarolar Imperial March. Coisas simples, mas que fazem o 4 de maio uma data memorável para todos os fãs, pois são mais de 40 anos de fascínio pela série de filmes fantásticos. Portanto, que a Força esteja conosco!

Elton Tavares

CABA NO BICO (Crônica de Fernando Canto)

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Crônica de Fernando Canto

Certa vez, no sítio de um amigo nas terras quilombolas do Curralinho, acompanhei a professora Raquel fazendo um dos mais difíceis pratos da gastronomia nordestina: a buchada de bode. Foram aproximadamente quatro horas de trabalho até a refeição deliciosa esperada por todos os que ali se encontravam, num sábado ensolarado.

Nessa feitura entre o tempo e o desejo angustiado da água na boca a professora assobiava uma antiga modinha do cancioneiro popular. Então veio o comentário infeliz: “ah uma caba nesse bico”. Ela redarguiu com toda a calma: “por que quando a gente assobia sempre dizem isso”? E completou: “eu assobio porque estou feliz”. E continuou seu trabalho, deixando o interlocutor perplexo com a resposta.

Assobiar porque se está num estado de felicidade… Que frase mais bonita, solta em uma época em que é cada vez mais raro encontrar alguém assobiando na rua ou silvando por aí sem incomodar as pessoas. Assobiar não é tão somente soltar um som agudo, exprimir irritação vaiando algo ou alguém, mas a expressão pura da alma ao manifestar a alegria. A mata assobia, o rio assobia, a natureza lança com o vento sibilante sua forma manifesta de nos avisar sobre alguma coisa que vem.

A cultura amazônica deixa na figura fantástica da Matintaperera a inesquecível marca de um assobio que incutia o medo às criancinhas, através de uma melodia simples plenamente associada a essa lenda. Até hoje lembro a melodia que minha mãe assobiava para chamar a Matinta, que era uma velha fumante de cachimbo e que exigia tabaco dos que se arriscavam na floresta densa.

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Lendas à parte, o desejo do outro de transformar a alegria do assobio em dor labial, posto que a caba (do Tupi kawa) é um vespídeo temível (um marimbondo de peçonha forte, que tem uma ferroada de fazer inchar a pele de qualquer cristão), é uma reprimida vontade que vem à tona quando a alegria do assobiador se manifesta. É impressionante como as pessoas dificilmente evitam dizer ou pensar a frase infeliz. Não é que eu pense que isso seja apenas uma ação ou um pensamento sádico, mas parece que o propósito – inconsciente ou não – é atrapalhar a felicidade do outro ao desejar uma grande dor causada pela ferroada do inseto. É uma coisa que já está calcificada em nossa memória coletiva, como se quiséssemos também ser felizes e não pudéssemos por pura incompetência ou inveja; como se quiséssemos também a própria dor transferida num processo amargo e masoquista, um castigo desejado pelos nossos mais recônditos pecados cometidos e acumulados pela vida. “Ah uma caba nesse bico” também exprime a uma espécie de rancor contra o inseto que apenas se defende naturalmente se provocado. Já vi casos de moleques que esperavam pessoas passarem perto do ninho de caba para atirarem pedras com baladeiras; li relatos de igrejas e casas que se incendiaram durante a queima de ninhos e conheci vítimas da peçonha da caba tatu. Disseram-me que a dor é terrível. Imaginemos então o ferrão de uma caba de igreja na boca de alguém. E o inchaço seguido. Possivelmente uma pessoa alérgica morreria em algum lugar sem assistência médica como a maioria dos lugares dessa Amazônia imensa.

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A simples resposta da professora Raquel ensina a lição do calar-se diante de uma poética expressão de felicidade. Remete, sobretudo, para a necessidade de penetrar a fundo nesse arcabouço de preconceitos que herdamos coletivamente em nosso inconsciente. E nos faz refletir que o assobio é um estado de espírito que poucos alcançam quando seus bicos soltam melodias para encantar o mundo. Experimente assobiar uma música e seja feliz.

JABUTI NÃO SOBE EM ÁRVORE – Crônica de Fernando Canto

 
Paulo lopes Paulinho Lopes, piloto dos bons, já guiou políticos e jornalistas por sobre a imensidão da selva amazônica, sob o azul do céu amapaense. É daqueles profissionais da aviação que também já passaram por muitas situações de perigo embaixo de trovoadas e turbulências, na calma, levando passageiros e aeronaves a seu destino.
 
Sempre que posso encontro com o dito cujo no bar do Abreu. Conversar com ele é desopilar o fígado, pois o seu repertório de piadas e citações e tão grande e renovado que ninguém aguenta. Toda vez tem alguma coisa nova para contar, isso quando ele não inventa suas próprias anedotas tirando sarro dos frequentadores que ficam do lado de dentro do balcão do bar. O baterista “Bolachinha” é o seu foco predileto, juntamente com a sua famosa acompanhante “batgirl”. Expressões como “Tá tudo escorrendo bem?”, “Teu borga” já fazem parte do “dialeto” ali falado, no qual as frases fesceninas ou mesmo consideradas chulas fazem parte de um repertório que até dicionarista vai lá beber na fonte.
 
A assistência ri das frases mais eloquentes e das mais óbvias. Ele conta, por exemplo, que um migrante chamado Ivan Macaco convidou o Mapíngua para ir trabalhar em Caiena: “- Bora pra Caiena, rapaz, que lá o dinheiro tá correndo solto.” E o Mapíngua respondeu: “ – Tu é doido, é? Se aqui em Macapá que ele tá parado eu não consigo pegar ele, imagina lá em Caiena…” O repertório do homem tão grande que a gente se esquece de muitas histórias.

Ele eventualmente filosofa ao dizer assim: “Dá a razão para quem não tem, porque quem tem não precisa”. É uma forma de “equilibrar a balança”, diz o mestre. Por outro lado traz novidades do seu amigo, o professor João Maria Barros, que conceitua cultura como “tudo aquilo que você consegue lembrar depois de esquecer tudo aquilo que aprendeu”. Paulinho faz releituras e intertextualidades de expressões muito usadas por estas plagas como “Meu nome não é osso para andar em boca de cachorro”, e as remete para “nem milho para andar em bico de galinha” ou “nem ração para andar em boca de porco”. 
 
Mas é nos apelidos puxados pela sua memória que a assistência ri e informa outros bem engraçados. Para todos há uma história singular como os magrinhos que ficaram marcados pela alcunha de “Carapanã de Cueca”, “Filé de Gia”, “Filé de Borboleta”. Os mais feios são apelidados de “Sapo Virado do Avesso” ,“Caranguejo de Ganho”, porque são baixinhos e magros, “Cabelo de Boneca Velha”, “Bibelô de Funerária”. “Abelha”, “Pavulagem” e “Rolha de Poço Artesiano”, são interessantes, assim como os impagáveis “Diabo Assado” e “Tamaquaré no Choco”.
 
Logicamente que sob uma análise mais acurada esses apelidos denotam preconceito, e até discriminação e racismo. Mas como no ambiente de bar o que é sociológico não se mensura por categoria social ou freqüência estatística nessas horas, e sim pela alegria contagiosa que uma boa piada tem, os clientes riem e se congratulam aumentando o rol do anedotário que os homens criam para viverem mais alegres.
No bar o tempo passa rápido quando um bom contador de histórias como o Paulinho Piloto energiza o ambiente. E ali tem contadores como o Bira e o Aníbal Sérgio que entram na roda e nos tornam também possuidores desse élan que move a vida amapaense. Por isso mesmo o Paulinho conta até fábulas para que possamos meditar criticamente sobre a política local, como esta: “Dois compadres conversavam lá no rio Maruanum. O primeiro pergunta meio espantado. – Mas como o jabuti tá ali, compadre, se jabuti não sobe em árvore? O segundo responde. – Das duas uma: ou ele foi pra lá com a força da maré ou colocaram ele lá.”
 
( Do livro Adoradores do Sol – Novo Textuário do Meio do Mundo. Scortecci, São Paulo, 2010).

 

Hoje é o Dia Mundial da Dança

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Hoje é o Dia Internacional da Dança, uma das três principais artes cênicas da Antiguidade, ao lado do Teatro e da Música.

Criado em 1982, pelo Comitê Internacional da Dança da Organização das nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), a data homenageia o mestre francês Jean-George Noverre (29/4/1727 – 1810), considerado o precursor do balé moderno, que sistematizou o seu método revolucionário, em um conjunto de cartas sobre esta manifestação artística, intitulado Letterssurladanse (amálgama de palavras, cujo significado é “cartas sobre a dança”).

Por feliz coincidência, a data é também a do nascimento de Márika Gidali, a revolucionária bailarina, nascida em Budapeste – Hungria, radicada em São Paulo, que, com Décio Oteo, fundou o Ballet Stagium em 1971, em São Paulo, que inaugurou no Brasil, em plena ditadura militar, uma nova maneira de se fazer e apreciar a dança.

Apesar de ser um grande perna de pau, admiro quem sabe dançar. Falando nisso, só Deus sabe o quanto sofri com as festas de escola, no auge na famigerada “Lambada”, era osso! Só de lembrar me dá asco.

Falo dos que sabem dançar o nosso Marabaixo, Samba, Salsa, Bolero, Balé, aquela parada que os russos dançam, Valsa, Dança de Salão, Break, Dança do Ventre e até o Forró (apesar de não ser tão fã do estilo, reconheço a importância dele para a cultura nordestina). Tango então? Apesar de achar os argentinos uns boçais, aquilo é bonito de se ver. Ah se é.

Lembro-me de uma antiga história da família, que é natural do município de Mazagão. Meus tios contam que o meu saudoso pai vinha para Macapá, nos anos 60, passar o fim de semana (ele era o mais velho de cinco irmãos) e voltava para a cidade natal dizendo que dançava Twist na capital, só para se gabar para as meninas de lá. O negão era figura mesmo.

Enfim, quem for de dança, que dance. E quem for de apreciar, como eu, tome sua cerva e observe. Tenham todos uma ótima semana. É isso.

Elton Tavares

NEM LÍNGUA DE CACHORRO AJUNTA – Crônica de Fernando Canto ( e recado pros manés de plantão)

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Crônica de Fernando Canto

As más línguas, quando querem, destroem qualquer situação, pessoa ou relação aparentemente estável. Já vi coisas se transformarem da noite para o dia em verdade absoluta, bastando para isso uma pequena interrogação irônica ou uma afirmação leviana, por um balançar de cabeça de pessoas consideradas sérias.

Em muitas dessas situações inventadas está escondida a verdadeira intenção do difamador, que lança seus “diabinhos” e deixa que eles corram como rastilho aceso em direção à banana de dinamite. Daí, os pedaços voam e se esmiúçam cada vez mais na cabeça dos ingênuos que se convencem dos fafofoca1tos e espalham a falsa notícia, para a satisfação do interessado. A estratégia do caluniador conta sempre com o apoio das “rádios cipós” que se ancoram pelos corredores das repartições públicas, pelas esquinas e bares. Elas são fontes secundárias de informações pelo princípio empírico e popular de que “onde há fumaça há fogo”, e, aliás, aproveitada com muita competência por apressados comunicadores locais, nem um pouco interessados em checarem a “notícia” plantada.

Muitas vezes, e sem querer, somos atores nesse processo, que é da natureza humana, uma vez que vivemos em grupo, nos comunicamos por diversos meios e temos interesses comuns e particulares. levianoTemos desejos e conflitos políticos e portamos uma conduta psicológica calcada em personalidades próprias e bem diferentes uma das outras. Talvez por isso nem nos damos conta que ao recebermos uma mensagem, seja de onde e de quem vier, nos tornamos personagens que vão beneficiar ou maltratar alguém ou alguma coisa.

Os políticos, de modo geral, se valem desses expedientes quando querem salvaguardar seus interesses, mormente na hora que os argumentos se esgotam. 1355812829Já descrevi aqui neste espaço invenções articuladas com o propósito de inverter o jogo das eleições. Lembro que ouvi pessoas sérias afirmarem ter visto o marido de certa candidata a prefeita sangrando no Pronto Socorro, por causa de um tiro dado pelo irmão do candidato que venceria as eleições. Lembro ainda que em outra eleição deu no rádio que o candidato mais velho a prefeito da capital havia falecido. O boato crescera tão rápido logo pela manhã que um batalhão de repórteres saíra à cata do suposto morto. Quando ele se manifestou nas rádios já era tarde. Seus eleitores não queriam “perder o voto” e já haviam votado em outros candidatos. Esses são apenas pequenos episódios que envolvem boatos e fofocas no meio político, onde um criativo mundo se articula diariamente em permanente conflito na busca da estabilidade e poderes.facefofoca

A calúnia, a difamação e a injúria são crimes previstos em lei. São palavras diferentes para ações legais muito semelhantes que tiram o sono dos “bocudos” quando têm de pagar indenizações na justiça a alguém a quem ofenderam moralmente de forma leviana e irresponsável. São elementos do controle social necessários à estabilidade da sociedade, dada à variabilidade e às diferenças das influências ambientes.cachorro_calor[6]Nosso comportamento é motivado pelas necessidades psicológicas herdadas e pelos anseios sociais adquiridos. Somos induzidos a agir por isso e conforme nossas necessidades, ambições e interesses de ordem pessoal. Daí, também, advém os desvios de conduta, os excessos temperamentais e a ausência de educação e controle que fazem as pessoas disseminarem suas opiniões ofensivas à dignidade de alguém. A Lei serve para controlar e punir esses crimes. Mas, uma vez feito o estrago, difícil é a reparação. Segundo o seu Jurandir, do Bailique: “Depois que o caldo cai no chão nem língua de cachorro ajunta”.

* Crônica de novembro de 2007 e publicada no livro Adoradores do Sol, de 2010.

Poema de agora: A Maiakovski. Poeta Russo – Luiz Jorge Ferreira

A Maiakovski. Poeta Russo

Um dia eles nem chegam!
Já estão escondidos nas sombras que nos acompanham, por todos os lugares.
E nós não vimos, nem sentimos seus cheiros podres, nem sentimos suas mãos nos pescoços.

Simplesmente porque ainda fazem isto só com os outros.

Certo dia em que estamos comprando ovos da Páscoa.
Eles entregam armas aos moleques sem cor dos aglomerados.
Mas com medo neste momento levantamos do sofá, e desligamos a Televisão para não saber mais disto.

Uma noite eleito por nós mesmos, eles se reúnem, e criam facilidades para o domínio.
Empilham placas na rua,
para que indefesos andemos a mercê dos sádicos.

Criam leis para retirar nossas armas, e facilitam a liberdade dos ladrões, e assassinos.

Mas como o domínio ainda nos permite ir a praia – Não protestamos.

Certo dia acordamos com eles em nossas casas, em nossas mesas, em nossas camas, em nossas almas.

Nesse dia, sentiremos seus cheiros podres, seus dentes podres, seus gestos bruscos, e seus torniquetes no pescoços.

Seremos proibidos de ir a praia, caminhar sob o sol, e inocentemente tomar sorvete.

Ansiosos vamos procurar reunir todos para criar uma saída.

Mas então! – Todos serão ninguém, e eternamente!
Será muito tarde.

Luiz Jorge Ferreira

* Do livro Tybum.

Hoje é o Dia do Goleiro – meu saudoso foi/é o meu goleiro preferido

No Brasil, em 26 de abril é comemorado como o Dia do Goleiro. A data foi criada há quase 40 anos para fazer uma homenagem para aqueles atletas que por muitas vezes não tem o reconhecimento devido do seu trabalho. A ideia foi do tenente Raul Carlesso e do capitão Reginaldo Pontes Bielinski, que eram professores da Escola de Educação Física do Exércitopapaifutebo do Rio de Janeiro, e começou a ser comemorada a partir da metade dos anos 70, segundo relata Paulo Guilherme, jornalista que escreveu o livro “Goleiros – Heróis e anti-heróis da camisa 1”.

Como eu já disse aqui, por diversas vezes, amo futebol. Goleiro é posição maldita do esporte bretão (chamado assim por ter sido inventado na Grã-Bretanha). Meu saudoso e maravilhoso pai, José Penha Tavares, era goleiro. Posso afirmar, sem paixão (talvez com um pouquinho dela), que ele foi muito bom.

Papai agarrou pelos times amapaenses (quando o futebol aqui era amador) do São José e Ypiranga Clube. Também foi amigo de um monte de conhecidos boleiros locais. Infelizmente, meu amigo Leonai Garcia (que também já virou saudade), esqueceu-se dele no seu livro “Bola da Seringa”.tumblr_static_9eba61d4970b4b3f53a3b42882880ef8

Quando moleque, acompanhei papai em centenas de peladas. Torcia e sofria quando ele levava gols, principalmente quando falhava. Aprendi a admirar goleiros com ele. Lembro bem de expressões como: “Olha essa ponte!”, “Que defesa, catou legal!” ou algo assim, bons tempos aqueles.

Bem que tentei jogar em todas as posições, inclusive o gol (sempre era o último a ser escolhido), mas nunca consegui me destacar pela bola, mesmo antes de engordar. Não sei se as crianças de hoje ainda escolhem o pior dos meninos (ou meninas) para agarrar, aquilo é burling (risos). Digo isso com conhecimento de causa.

Goleiro-Barbosa-254x300Quando me refiro ao goleiro como “posição é maldita”, falo de uma série de injustiças que vi goleiros sofrerem ao longo dos meus 42 anos, mas uma é mais marcante, a crucificação do arqueiro Barbosa, da seleção de 1950. Há alguns anos, assisti a um documentário sobre a derrota para o Uruguai na final daquele mundial. Aquele homem foi estigmatizado até o fim de sua vida.

Em 2010, durante uma entrevista, Zico (não preciso dizer quem é, né?) declarou que o Barbosa, no fim da vida, disse a ele: “desculpe, mas gostei de ver você perder aquele pênalti em 1986, pelo menos me esqueceram um pouquinho”. Imaginem como o velho goleiro sofria pela falha de 1950? É a maldição do goleiro.

Vi grandes goleiros jogarem. Raçudos e classudos, voadores, pegadores de pênaltis. Foram tantos que é difícil enumerar, mas lembro bem do Buffon, Gilmar, Taffarel, Raul, Dida, entre tantos outros arqueiros que nos encantaram com a segurança debaixo da trave. Mas para mim, meu pai foi o melhor de todos eles.

Este texto é uma homenagem aos goleiros profissionais e peladeiros, que se machucam em saltos destemidos, levam chutes meteóricos, além de divididas violentas. Em especial ao meu pai, meu goleiro preferido para sempre. Amo-te, Zé Penha. Um beijo pra ti, aí nas estrelas!

Elton Tavares

O dia que o Godão morreu – Crônica legal de Cíntia Souza – (@hccintia)

Por Cíntia Souza

O nó na garganta deixou meu corpo mole. Acordei em luto. A tristeza é algo que nos enfraquece de dentro para fora, sem nos dar chance de reagir. “Foi de repente”, “Eu falei com ele ontem”, “Disseram que foi o coração…mas também, mano!”, “É, a boemia cobra o preço”.

Meu amigo morreu. Meu parceiro morreu e a gente nunca viajou junto, digo, ao menos não para outros lugares. Por isso, não quero ficar com as lembranças, muito menos pirar com aquela lista de tudo o que não fizemos ou me punir por não saber aproveitar melhor o nosso tempo. Só a ideia me irrita. Está certo! Tenho problemas com a morte. Invejo kardecistas. Eles são tão serenos na hora da passagem. Eu acho que eles fingem.

Godão, Godão, se você estivesse aqui com certeza iria tirar um barato. O povo chorando, contando histórias, rindo, contando histórias e chorando. Interessante, todos têm algo para contar. E agora, como eu vou saber qual parte dessa biografia é real? Vai virar lenda, hein.

Além dos amados, da família firme e forte, será que você imaginaria que fulano viria até aqui? Beltrano também veio! Vixi, foram muitos encontros e desencontros. Eu queria que você pudesse ver isso. Tenho certeza que já imaginou o próprio funeral. Afinal, quem nunca?

Não faz muito tempo, talvez dois ou três meses, você postou algo sobre a sua rotina no trabalho e eu comentei citando a letra de uma música que a gente curte: “Eu desejo que você ganhe dinheiro, pois é preciso viver também. E que você diga a ele, pelo menos uma vez, quem é mesmo o dono de quem”. E você emendou: “Eu te desejo muitos amigos, mas que em um você possa confiar”.

A gente nunca foi do tipo que compartilha frases de Caio Fernando Abreu no Facebook (Hahaha). A gente vivia na vera…e como vivia. Éramos Carpe Diem total! Não sei se pelo fato de sermos jornalistas, mas fazíamos questão de registrar tudo. Tinha quem nos considerasse exibicionistas. Comédia! É injustiça tirar a vida daqueles que tentam aproveitá-la ao máximo. É isso o que revolta! E nós sabíamos aproveitar a vida como poucos.

Não sei por que conjuguei o verbo no passado. Afinal tudo isso foi apenas um sonho. Acordei fraca, com sede e com aquela aflição entranhada na alma. Passei a manhã pensando se aquele sonho teria algum sentindo, um significado especifico. Não encontrei nada até agora.

Eu e Cíntia – 2018

Durante a manhã falei com você pelo Messenger e fiz você prometer que não vai morrer. Você jurou.

O fato é que as pessoas morrem. Para quê, né?! Mas acontece. E sempre foi assim desde o começo. Dizem que teve um cara que foi e voltou, rasgou o véu, desceu a mansão dos mortos, mas depois ninguém nunca mais o viu. Há quem espere seu retorno.

Diante de tudo penso se há uma solução para encararmos a morte com naturalidade, simplesmente como a fase final e derradeira desse ciclo chamado vida, ou outro meio para anestesiar a dor da partida. Mas não sei se queria ver alguém retornar do lado de lá… Creio na cruz!

Cíntia Souza, jornalista, sócia proprietária da Crível comunicação e amiga minha. Texto republicado, pois tem dias que a gente morre um pouco mesmo.