Eu me inventei (crônica sincera)

73314_441126779273692_574911700_n

“Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir”, disse Winston Churchill. Quando criança e adolescente, alardeei qualidades que não tinha. Mas as minhas invenções passaram de ficcional para real. Sim, uma coisa espantosa sobre mim (sim, este texto é sobre este jornalista, portanto, se não quer saber, pare agora e vá fazer algo útil) é que inventei um personagem e virei ele.

Não me acho e nunca me achei superior a ninguém, muito menos especial. Mas não quis ser um tipinho anônimo e insignificante que era na infância. Por isso, me inventei. É tipo fazer figa ou morder o beiço pra caba não lhe ferrar, se você acreditar, acontece!

Cansado de piadinhas idiotas, inventei que perdi a virgindade aos 13 anos, mas aconteceu aos 14, em 1990. O motivo da mentira? Detestava ser o único moleque virgem da sétima série. Aí comecei a ter mesmo sucesso com as meninas. Hoje, acredito que a maioria mentiu naquela época.

Depois inventei que era bom de briga, até ter que brigar. Se tivesse me acovardado, ia ficar esquisito. Depois da terceira ou quarta surra que peguei, me tornei, de fato, bom de porrada. E depois disso ganhei muitas lutas de rua.

Mas o papo aqui é sobre o jornalista. Demorei muito pra ser um profissional mediano em algo. Fui vadio, office boy, auxiliar de escritório, auxiliar contábil, vendedor de seguros, porteiro de escola e, enfim, jornalista.

Não dá pra se inventar jogador de futebol ou músico (quem dera), mas jornalista, deu! Vou explicar. Basta ler, estudar, apurar um fato e ser ético, além de possuir discernimento crítico sobre temas diversos. Não, não é fácil. O tal de pensar fora da caixa. Pois bem, eu me inventei jornalista.

Claro que aprendi com muita gente, desde os professores da faculdade aos colegas de trampo. Errei muito, ainda erro e sempre errarei. Aliás, todos nós, sempre.

Creio que a vida, o cosmos, Deus ou seja lá qual o nome da força que rege tudo isso conspira a favor de quem trabalha e acredita em si mesmo. Por isso, resolvi ser esforçado e focado quando quero algo. Como disse um sábio que conheci: “Quem me escolheu fui eu mesmo!”.

Otimismo, sorte, coragem e batalho, muito batalho. De tantas experiências vividas, trampo pra caramba e lições tiradas, aprendi esse ofício. Nesse âmbito, tento ser correto, original, sincero e justo. Nem sempre consigo, mas, quando não ajo dessa maneira, é porque não deu.

No final das contas, me dei melhor que muitos dos sabichões da época do colégio, que me parecem infelizes em seus ofícios. Tomei gosto por estar sempre bem informado e escrever virou algo prazeroso. Dá até pra viver disso (risos).

A verdade é que, com o tempo, todo mundo saberá quem é você realmente. Me tornei o que decidi ser: às vezes, sou contista; noutras, cronista, contador de histórias e sempre jornalista. Eu inventei essa porra e muita gente acredita nisso. Até eu. É isso!

Elton Tavares

Saco de frases – Crônica sensacional de Fernando Canto

Fernando_Canto_GM_thumb[2]
Meu amigo Fernando Canto quando moleque. Foto encontrada no blog Canto da Amazônia

Por Fernando Canto

Cresci num bairro segregado na geografia da minha cidade em formação. Era um local de densas matas e lagos de águas verdes abundante de aningas e buritis. Enquanto nossos pais trabalhavam nas repartições públicas, nós, crianças, jogávamos bola nas ruas empiçarradas, ou caçávamos com tiros certeiros de baladeiras os pobres passarinhos. Crianças implacáveis!

Entre as aulas e as brincadeiras, porém, eu andava pela doca da fortaleza, e pelas ruas do comércio vendendo jornais, escutando histórias e as aspirações das pessoas. A cidade tinha grandes esperanças. Mas de vez em quando eu ouvia vozes reclamantes tirarem seus lençóis sujos e descobrirem seus ranços pelosFortaleza década 60 coaradores dos quintais: “caboclo preguiçoso”, “velho caduco” “Japonês é traiçoeiro”, “juiz ladrão”, “branco ensebado”, “preto retinto do Laguinho”, “mulher burra”, “arigó assassino”, “prefeito ladrão”, “judeu sovina”, “índio fedorento”, “moleque safado de uma figa”, “todo político é corrupto”, “puta escrota”, “libanês esperto”. Pessoas se xingavam, se machucavam.

Um dia comecei a ordenar essas frases e perguntei a uma freira o que significavam. Ela pediu que eu escrevesse uma a uma em pedaços de papel de embrulho, que as pusesse num saco e que o levasse até a lixeira para queimar. No trajeto o saco foi ficando cada tumblr_msiortxQVo1sbg858o1_500vez mais pesado e eu sem forças. Só consegui arrastá-lo. Mas ele foi se gastando e se rasgando e algumas das frases saíram pelo rasgo e se perderam voando com o vento. Ao chegar à lixeira o saco estava leve. Só consegui incinerar umas poucas.

Hoje, quando percorro pelo antigo local da lixeira, sempre espero que o vento deixe pousar na minha frente uma daquelas frases escritas para que eu posimages (2)sa queimá-la, e assim extirpar do universo mais um preconceito que eu não deveria ter tido na caminhada da vida.

Publicado no livro EquinoCIO – Textuário do Meio do Mundo, Ed. Paka-Tatu, Belém – PA. 2004 e utilizado no vestibular da Universidade Estadual do Amapá, em 2008.

11 de setembro: A Torre e o Dragão da Contemporaneidade (18 anos do atentado)

Por Fenando Canto
 
“Quando o Terror chegar (e ninguém nega que ele chegará)/ degradando, exaltando/ quando a terra tremer/ e as montanhas se desmoronarem/ convertidas em pó disperso,/ então serás três grupos – Companheiros da Direita, Companheiros da Esquerda e os Vencedores (“Alcorão”. LVI, 1-55).
 
Por certo os prédios do World Trade Center não foram inspirados nos zigurates mesopotâmicos, que por sua vez inspiraram a torre de Babel. Os zigurates eram construções que simbolizavam a pretensão dos homens em igualar-se aos deuses, e que se imaginavam capazes de subir ao céu por meios materiais. Algumas dessas construções chegavam a cem metros de altura, elevando-se em até sete patamares cada vez mais estreitos. Elas facilitariam tanto a descida dos deuses à terra como a subida dos homens ao Céu. O simbolismo do zigurate tem relação com a montanha onde o peregrino que nela sobe busca a purificação espiritual gradual até encontrar a luz.
 
A torre de Babel foi construída com betume e tijolo cozido, mas apesar da aparente fragilidade sua fundação prolongava-se solo adentro, representando ainda a união de três “mundos”: Céu, Terra e Mundo Subterrâneo. Babel é a “Porta do Céu”, talvez a maior entre as tantas torres que dominavam as cidades babilônicas. Como eram sinais de politeísmo foram condenadas pelo monoteísmo hebraico. E foi Jeová, que a partir daí acabou com a uniformidade universal da língua dos homens, para confundi-los e dispersa-los no espaço, formando o caos da comunicação entre eles.
 
A Nova Iorque cosmopolita que abrigava o World Trade Center absorvia diariamente milhões de frases em centenas de idiomas, embora nas famosas torres gêmeas a linguagem prevalecedora tenha sido sempre a dos computadores vorazes, a do dinheiro e a do poder.
 
Nessa ótica, Babel existia na modernidade substituindo a necessidade de buscar o divino pela procura do poder incomensurável, aquele que decide a vida de milhões de seres humanos do planeta, no simples digitar de códigos num teclado de computador.
 
Os tristes episódios que marcaram a vida americana pelo terrorismo em 11 de setembro não só representam uma assumida “morte” simbólica do capitalismo e do poder bélico universal, como também apontam para uma espécie de tentativa de “frear” ações heréticas do ocidente em que tentam “igualar-se” a Deus, quando o homem ocidental constrói para a infinitude do Céu.
 
Como cada moeda tem duas faces, o outro lado da destruição das torres é a arma que a destruiu: o avião. Para Jung, nos sonhos dos homens contemporâneos os aviões substituem os animais fabulosos e os monstros dos tempos remotos. O avião pode ser o Pégaso, o cavalo alado dos mitos gregos que está relacionado à água e cuja significação simbólica leva em conta no seu eixo interpretativo ser “a nuvem portadora da fonte fecunda”.
 
O avião, ao decolar (no sonho), conduz ao êxtase, à “la petite mort”, antiga expressão coloquial que as mulheres usavam para o “orgasmo total”. Entre tantos aspectos analíticos, digamos, bastante complexos, o avião elevando-se também se assemelha ao comportamento da vida, sua aventura iniciática, tendo ou não carga ou combustível e mesmo ao chocar-se com outro avião ou obstáculo.. Nesse caso a análise revela tendências opostas ou choque de contrários. É Dialética, é ideologia povoando o inconsciente e o significado do “sonho”, registrado na memória histórica dos homens.
 
O avião, por pertencer ao domínio do ar, pertence ao domínio das idéias, do espírito e do pensamento. Quem nele vai pertence a Terra (Matéria) e quer se lançar em sonho ao Céu (Espírito). Ele tem a força materializada no elemento ar.
 
O avião é um dragão.O dragão é o guardião dos tesouros ocultos.Como símbolo do mal e das tendências demoníacas identifica-se com a serpente. Na realidade é um símbolo ambivalente. Para a doutrina hindu ele é o Princípio. Produz o soma, que é a bebida da imortalidade. Para os chineses os dragões voadores são Montaria de Imortais, eles os elevam até o Céu. É, ainda, associado ao raio (cospe fogo) e à fertilidade (traz a chuva), trata das funções e ritmos da vida que garantem ordem e prosperidade. Enquanto relâmpago simboliza o espírito e o esclarecimento da inteligência: é a fonte da verdade. Quando é raio desencadeado representa a cólera de Deus, a punição, o castigo, a autoridade ultrajada: é o justiceiro.
 
Obviamente que o fato ocorrido nos EUA. proporcionou uma grande soma de interpretações. Não é demais juntar a elas mais uma informação para se somar aos motivos gerais que moveram os suicidas na destruição do WTC e do Pentágono. É bem verdade que o mundo ainda está atônito com o acontecimento. Quem sabe um dragão não está imbricado nessa história, posto que faz parte de todas as culturas e religiões conhecidas, aparecendo das mais variadas formas, inclusive no materialismo dialético, simbolizando a luta de classes.
 
A torre foi destruída, mas o dragão é feito do elemento ar. Pode ressurgir. Do mesmo modo a nação atingida e suas aliadas também ousarão quando vestirem a armadura e a lança de São Jorge na eterna luta do bem contra o mal.
 
Texto de Fenando Canto. O escrito também faz parte do livro de crônicas “Adoradores do Sol”, Ed. Scortecci, 2010.

O tempo das paradas escolares – Outra crônica porreta do Fernando Canto

1960 004 Macapá Desfile 7 de Setembro Tropa da Marinha do Para

Crônica de Fernando Canto

O rufar dos tambores da escola vizinha a minha casa troa mais forte que a chuva de verão que acabou de cair. É um barulho salutar, bem compassado e ritmado que tem o objetivo de marcar o passo dos alunos desfilantes do dia sete de setembro, dia da Pátria. A banda ensaia no entorno da escola, mas é uma banda de fanfarra, onde não faltam notas desafinadas de clarins e seus sons amorfos e jovens balizas ensaiando, em busca da perfeita harmonia que por certo terão no dia do desfile, no Sambódromo…1979 006 Macapá Desfile de 7 de Setembro

Quando a época de comemoração da nossa Independência se aproxima eu sempre pergunto aos amigos da mesma faixa etária se sentem saudade dos desfiles a que éramos obrigados a participar. Eles não só dizem que sim como acreditavam que era um tempo de disciplina, que os ajudou a tomarem “tento” na vida. Depois me confessam que foi só por um momento, quando ainda estavam no ginásio. Mais tarde, porém, já no colegial, é que foram perceber o quanto viveram isolados e alienados da realidade do país. Não só eles, como os educadores, diretores e principalmente os pais. Quase todos eram filhos de funcionários públicos, que vivam sob a dependência dos governantes militares que vinham para o Amapá como poderosos vice-reis.1963 014 Macapá Desfile dos escoteiros 7 de Setembro de 1963

Os estabelecimentos escolares tinham praticamente duas semanas de preparativos e ensaios para os desfiles. E eram categorizados: as escolas e grupos primários desfilavam no dia 5 de setembro, o Dia da Raça, que creio nem mais se comemorar no Brasil; os ginásios e colégios faziam seus desfiles no dia sete, precedidos pelos militares e, no dia 13 de setembro, dia da Criação do Território do Amapá, era realizada a grande parada escolar, com desfile de carros alegóricos temáticos e ricamente enfeitados. As bandas da Guarda Territorial ou do Exército acompanhavam os desfiles dos colégios que não possuíam bandas de música. Mas só o Ginásio de Macapá atravessava a passarela da Avenida FAB com o garbo peculiar que lhe dera fama e um público fiel que o aplaudia do come1963 010 Macapá desfile de 7 de Setembro de 1963ço ao fim. Seus pelotões e carros alegóricos criativos enfrentavam o sol e o vento de setembro sob a batuta do Mestre Oscar Santos. E nós alunos vivíamos sob a marca de um tempo que não imaginávamos sua dimensão histórica para o resto do Brasil e do mundo.

Apenas mais tarde, já em outros desfiles, mas ainda sob a égide da ditadura militar, é que começamos a recusar a obrigatoriedade, do papel servil que nos impunham por tabela os ditadores, lá do planalto central. Os desfiles eram obrigatórios, sim. Quem não respondesse a chamada na área de concentração podia ser suspenso se não justificasse a ausência depois. Os professores de educação física, responsáveis pelos desfiles eram que faziam a fiscalização. Um grande amigo meu, hoje radialista famoso na cidade, me contou que por ter errado o passo numa situação dessas ficou três dias suspenso. Só não foi expulso depois do quiproquó que fez graças à intervenção firme do seu pai, um açougueiro muito respeitado. Mesmo assim ficou marcado como “um meninão que não amava a Mãe Pátria”.images

Os colégios costumavam representar os estabelecimentos militares em função dos seus diretores e professores que acompanhavam cegamente os ditames dos ditadores e governadores da época. Ninguém podia “ser do contra”, sob pena de sofrer as sanções impostas pelos regulamentos especialmente preparados para os alunos considerados “rebeldes”.

images (2)Ainda bem, tudo passou. A saudade dos desfiles continua na cabeça de muita gente, assim como a ditadura também está presente na mente de muitos governantes que crêem que só pela força podem continuar mandando. Ainda bem, a vida segue seu curso sem precisar que o vento negro da morte e da tortura caminhe novamente sob a paz do nosso país. Viva a Independência e nossa melhor memória.

*Fotos cedidas pelo jornalista (e amigo) Edgar Rodrigues. As outras imagens são do Google mesmo.

Setembro dos desfiles na Fab – Crônica de @MarileiaMaciel

Crônica de Mariléia Maciel

Depois de junho, época das quadrilhas, o mês mais esperado era setembro. Isso no tempo em que os desfiles na Fab tinham a grandiosidade do carnaval, e a avenida enchia de alunos e as arquibancadas de familiares e amigos. Dia da Raça, 5, só as escolas de 1ª a 4ª série, 7, dia da Pátria, vez das escolas de médio porte, e no glorioso dia 13, o mais esperado, quem entrava em cena eram as grandes, com bandas marcais, carros alegóricos, muitos pelotões com balizas na frente e todos artifícios possíveis na época, das bicicletas enfeitadas aos apelos de atrações nacionais. Vi em cima do carro do CA o Maguila e outra vez no palanque oficial a então miss Brasil, Dayse Nascimento.

Desfiles eram bons de assistir e de participar. Só passei a curtir mesmo a partir da 5ª série, no IETA. Dia 5 eu sempre ia pra ver a escola Augusto do Anjos desfilar com papai no comando, sempre alinhado e marchando junto com os alunos. As arquibancadas não lotavam tanto e as bandeirinhas do Brasil e cataventos não coloriam completamente a avenida de verde e amarelo. No dia 7 a coisa melhorava. Lá vinham os militares com suas cabeças carecas cobertas pelas boinas. A meninada gritava, jogava beijos e sonhava andar de mãos dadas com um, vestido de preferência de branco, mas quando uma de nós conseguia paquerar um militar, era sempre um PM, da Marinha, nem pensar.

Desfilei uma vez com uma enxada. Quando lembro me dói a costa. Empolgada com a disciplina de Técnicas Agrícolas, em que plantávamos pepino e alface, que depois iam parar na sala de Educação para o Lar, resolvi atender ao convite do professor. E lá fomos nós com um short branco e uma camisa de xadrez branca e vermelha amarrada na cintura. O problema era o acessório que nos arrumaram pra representar melhor, enxadas, mangueiras, regadores e outros utensílios. Me sobrou a enxada no ombro com a qual atravessei, suada, a Fab. Não podia trocar de ombro e nem perder a cadência.

Mas o melhor foi quando descobri que o sonho de desfilar na banda podia ser aliado às horas de alforria na rua por causa dos ensaios, que começavam em junho. Antes da quadra ser construída, ensaiávamos onde hoje fica a nova Catedral, mas quando se aproximava a data do desfile ou do festival que escolhia a melhor banda, tínhamos que manter segredo e o ensaio era em lugar incerto, só se ouvia o barulho dos instrumentos. A disputa maior era entre GM, CCA, CA e IETA, que tinham as melhores e maiores bandas. Minha estreia foi com o instrumento pra quem não tinha muito talento, o prato.

No dia do desfile, nervosa, fui apertar o nó que prendia o prato e acabei afrouxando. Quando o IETA já entrava, com o público ansioso e aplaudindo, um dos pratos soltou e caiu justamente em cima do meu dedão. Desfilei em prantos, mas cumpri minha missão e jurei que no outro ano não passaria por aquilo. E assim foi. No ano seguinte estava eu tocando, desafinadamente, a caixa, fruto da minha insistência com o maestro Ronaldo. Logo depois, subi mais um degrau e andava pra lá e pra cá com as baquetas do meu tarol. O passo seguinte era o trompete, que nunca toquei, mas desfilei com as bochechas infladas, sem que nenhum som saísse.

E assim passava setembro, com as escolas em alvoroço de professores e alunos pra fazer o melhor desfile, o barulho dos instrumentos, os muitos namoros que duravam até o dia 13, as quadras com os chassis de carros para colocarmos as alegorias de papel celofane, as bicicletas com os raios cheios de papel verde e amarelo, os bambolês e bolas que sempre eram usados nas coreografias dos professores de educação física. O melhor de tudo era que o desfile era feito com amor, não tinha competição, isso ficava para o concurso de bandas, onde a premiação era um troféu de latão, mas que tinha um valor inestimável na estante da escola. Não tinha injustiça nem jurado comprado, a campeã era sempre a nossa escola.

Os desfiles de setembro – Crônica porreta de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Machado de Assis dizia: “há certas memórias que são como pedaços da gente, em que não podemos tocar sem algum gozo e dor, misturas de que se fazem saudades”. Então saudade é uma lembrança boa, algo que queremos apalpá-lo para provar que vivemos, é desejo legítimo de recordar cenas episódicas, reviver aqueles instantes mesmo sabendo que o filme acaba.

José Penha Tavares, meu saudoso pai,em desfile pela banda do Colégio Amapaense.

Mas se um acaba outros começam. E essa legitimidade de penetrar no passado por certo suscita o intangível e apura a virtualidade do sonho. Os olhos riem de satisfação quando os rostos suados dos adolescentes enfrentavam o sol da manhã de verões duros que o vento do Amazonas amenizava. A fome, a sede, qualquer pendência se resolveria depois do desfile. O importante era o garbo e o compromisso de passar na frente do palanque da Avenida FAB, onde cabiam as autoridades e suas famílias. Mal sabíamos, na nossa santa ingenuidade, que da cabeça daqueles homens não só irradiava o sentimento de amor pela Pátria, mas também a satisfação de verem milhares de pessoas reunidas ali para apreciarem suas mãos de poderosos. E entre galardões e medalhas, sob o pálio, davam o circo ao povo.

Acordar às cinco da manhã para tomar café, vestir a farda de mescla azul (engomada cuidadosamente pela mãe na noite anterior), luvas e polainas, sempre dava nervoso. Afinal, um desfile era uma estreia, e valia pontos na eterna disputa intercolegial. Nós do Ginásio de Macapá levávamos certa vantagem porque tínhamos a banda do Mestre Oscar Santos que interpretava hinos patrióticos magnificamente, inclusive dobrados de compositores locais, como “O Artífice” do saxofonista Cícero Melo. Ao chegar ao ginásio mais um reforço de café, pão e o famoso leite “peidão”. A caminhada para a concentração, o constante corre-corre dos inspetores e professores, que entre apitos estressantes e gritos de ordem tentavam organizar os pelotões. Mas só depois das oito, quando se encerravam as solenidades de hasteamento do Pavilhão Nacional na Praça da Bandeira é que o desfile iniciava. Não sei quem passava por primeiro, se os militares ou os colegiais, pois a gente, os mais altinhos da “turma da graxa” só queria mesmo mostrar que havíamos ensaiado bem e que nosso uniforme era impecável, bem como o garbo que caracterizava os estudantes do GM.

É certo que vez por outra um aluno perdia o casquete azul na marcha contra o vento, mas jamais perdia a pose. Depois vinha a compensação pelo belo desfile: um refrigerante com a família, uma conversa com colegas de turma, uma volta pela praça no rescaldo dos acontecimentos e, quem sabe, um encontro tímido com a linda morena de olhos graúdos do colégio rival. Os olhos abaixados, porém cheios de paixão, corriam furtivos sob o sol do equador, num quase equinócio de desejo pela moça. Os rostos vermelhos de calor e agonia, a vontade de tocar naquelas mãos de anjo e a realidade da presença dos pais e irmãos que a conduziam para casa. Um último olhar para trás, todavia, parecia o convite para um encontro que se realizaria, talvez, num domingo qualquer na segunda sessão da tarde do cine João XXIII, ou em frente ao velho Macapá Hotel.

As paradas de Macapá dos anos de Território Federal trazem mesmo essas lembranças tão férteis como o solo que adubamos para fazer nascer o que queremos plantar. Mesmo com o amor por esta terra “pegando de galho”, como foi meu caso, o passado das manhãs de setembro não é feito de fotografias guardadas num álbum confeccionado na Imprensa Oficial pelo Sabá Ataíde. Continua sendo um filme de moto perpétuo, que apanho sempre na locadora da vida quando quero espantar a tristeza e reencontrar um mundo tão bom que eu nem sabia.

Ora, o mesmo Machado também diz com sabedoria que saudade não é nada mais que uma ironia do tempo e da fortuna. Para mim, nessa ironia, cabe a sorte de vivermos as alegrias e os perigos da memória, posto que relembrar com saudade só é saudável se valeu à pena não nos arrependermos de nossas ações.

*Fotos do acervo das jornalistas Alcinéa Cavalcante e Graça Penafort

E se? (como seria se eu tivesse feito escolhas diferentes?)

Escrever/dizer que “todos somos produtos de nossas escolhas” é chover no molhado, ok? Ok. Entre tantos caminhos, certos ou errados por conta das decisões que tomamos, chegamos aqui. É como disse o filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre: “ser é escolher-se”. Pois é, mesmo com muitos erros, poucos fracassos e muitas reviravoltas, quem me escolheu foi eu mesmo (ou inventou), consequentemente, meus rumos.

Assim como em uma crônica do escritor Luís Fernando Veríssimo, intitulada “Alternativas”, resolvi escrever novamente (de forma sintetizada) sobre escolhas (aventuras e desventuras). Aí saiu esse devaneio aí debaixo:

Todos esses “EU’s” pensavam que sabiam da vida. Nem imaginavam quantas aventuras e desventuras ainda viriam. A juventude é divertida, mas engraçada.

Tenho 42 anos, sou jornalista, assessor de comunicação e editor deste site, mas como seria se tivesse feito escolhas diferentes?

Se tivesse escutado mais os meus pais e passado direto em todas as séries e me formado em Belém (PA)? Talvez não tivesse me envolvido em tantas brigas e furadas, mas saberia do que os maus são capazes? Certamente não. Ah, se tivesse continuado com a natação ou o basquete, ao invés de ter começado a beber aos 14 anos? A única certeza é que seria mais saudável e não estaria tão porrudo.

Se não tivesse ido morar com aquela menina em 1996? E se tivesse me empolgado ao ponto de ir para a Bolívia (BOL) em 2000? Se não tivesse ido para a Fortaleza (CE) em 2006? Se não tivesse me enrolado com quem não conhecia de verdade? Se não tivesse me envolvido com tanta gente de lá pra cá…Feito e desfeito laços afetivos? E refeito? Nunca será possível saber.

E se tivesse lido mais livros do que ouvido discos de rock e assistido filmes? Não, prefiro do jeito que foi mesmo. Deu para sorver conhecimento divertindo-me e ainda li bastante, para um cara meio marginal na juventude.

Se tivesse topado aquele convite da chefe de redação do Portal Amazônia e ido morar em Manaus (AM) estaria lá ainda? Não tenho certeza, mas se estivesse, seria doloroso, pois sou muito apegado aos meus.

Se não tivesse dito a dura verdade tantas vezes e magoado amigos? Não, prefiro a verdade, doa a quem doer. Arrependimentos ou desculpas não desatam nós ou colam o que se quebrou. Seja lá qual foi a sua escolha no passado, seja nostálgico, triste, feliz ou engraçado. O importante é o hoje e o amanhã, mas isso não impede de pensar como seria?

Se aqueles tiros, em 2001, tivessem me acertado? Se aquele carro na estrada, em 2011, tivesse capotado, aos invés de somente girar várias vezes e sair da rodovia? Estaria vivo ou sequelado? Se não tivesse me metido em tantas brigas de rua, teria aprendido a me defender?

E se em universos paralelos, ou outras dimensões, cada um de nós possui vidas vivendo as outras escolhas? Quem sabe? Não, já é doidice minha.

Se não vivêssemos tantos momentos eufóricos e decepcionantes? De volta aos escritos de Sartre, que falou sobre as consequências de “ter escolhido algo/alguém ou deixado de escolher algo/alguém”. O único arrependimento? Não ter cuidado da saúde e ter virado este gordão. O resto está melhor do que eu pensava.

Eu, hoje, em agosto de 2019.

Com todas as escolhas ao longo da jornada, aprendi que, se você trabalha, faz o bem e não interfere na felicidade alheia, tudo se ajeita com o tempo. E ainda há tempo para muita vida. Sejam quem vocês querem ou pelo menos lutem por isso.

Sua vida não é feita de decisões que você não toma, ou das atitudes que você não teve, mas sim, daquilo que foi feito! Se bom ou não, penso, é melhor viver do futuro que do passado” – Luís Fernando Veríssimo.

Elton Tavares

Há 30 anos, morreu Raul Seixas

raul_seixas

Raul Seixas foi encontrado morto em seu apartamento no dia 21 de agosto de 1989, há 30 anos. Nascido em Salvador (BA) em 28 de junho de 1945, ele foi um dos pioneiros do rock no Brasil. O músico baiano teve divraul-2ersas fases ao longo de sua carreira. Na Bahia, ainda jovem, foi defensor do rock’n’roll – que naquela época pregava uma mudança radical nos costumes. Com versões de Dick Glasser e dos Beatles, lançou com a banda Os Panteras o LP “Raulzito e Os Panteras”, em 1968.

No restante dos anos 70, a popularidade de Raul só fez aumentar. Em 1973 saiu o primeiro álbum como artista solo, ‘Krig-ha, Bandolo’, já com músicas escritas em parceria com o escritor Paulo Coelho, no qual continha os hits ‘Metamorfose Ambulante’, ‘Ouro de Tolo’, ‘Al Capone’ e ‘Mosca na Sopa’.hqdefault (1)

Longe de ser só musical, a dupla com Paulo Coelho fez com que Raul aprofundasse o seu interesse por questões místicas. Em 1974, criaram a Sociedade Alternativa, baseada nas ideias do bruxo inglês Aleister Crowley. Os principais preceitos da crença foram divulgados na música Sociedade Alternativa, lançada no LP Gita, de 1974.

Raul ainda lançou 2 discos em que a parceria com o “mago” produziu canções famosas: Novo Aeon e Há 10 Mil Anos Atrás.

A partir de 1977, os discos do músico baiano ganharam menos atenção da crítica e em 1978 o cantor passou por complicações decorrentes do consumo excessivo de álcool que lhe acompanhariam pelo resto da vida.tumblr_m9opqfNEQL1r8v3wxo1_1280

Já em 1987 surge a canção ‘Muita Estrela, Pouca Constelação’, a primeira música em parceria entre Marcelo Nova e Raulzito. Um ano depois, já em carreira solo, Marcelo convidou Raul para participar de um show que faria na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador. O que seria uma participação virou uma turnê de 50 shows por todo o Brasil, e terminou no lançamento de um dos discos mais importantes do rock nacional, ‘A Panela do Diabo’. O disco vendeu 150 mil cópias e rendeu a Raul um disco de ouro póstumo.

Músicaraul-seixas9

Raul criou uma mistura entre blues, folk e música brasileira que o distinguiu de outros artistas que faziam rock na época, como a Jovem Guarda. Já em seu primeiro disco solo, o cantor misturava baião, country rock e música gospel em canções como Ouro de Tolo e Metamorfose Ambulante.

raulzito-2Btra-C3-A7oPassou pelo brega, pelo rockabilly, pelo blues, pela MPB e diversos outros estilos que ampliaram o conceito de ‘roqueiro’, como Raulzito era visto na adolescência. Longe de ser só um representante da Sociedade Alternativa, ele se questionava, fazia crônicas, dialogava com canções da MPB e tinha consciência de que precisava se dividir entre a verdade do universo e a prestação a pagar, como canta em Eu Também Vou Reclamar.

Em 26 anos de carreira ele lançou 21 discos. Com toda a certeza, foi um dos maiores gênios da música brasileira. E lá se vão 30 anos de saudades. A obra deste artista sensacional inspirou e inspira muitos de nós, fãs. Tanto pelo fascínio da linha tênue entre a feliz loucura da autenticidade, quanto pela sinceridade à bruta, sempre poetizada em um rock and roll dos bons. Viva Raul!

13537526_1222588884460807_3703435350625311378_n

Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz. Coragem, coragem, eu sei que você pode mais” – Raul Seixas

Elton Tavares, com informações de sites de música, revistas de rock e documentários sobre Raul Seixas.

Amigos & Inimigos- Crônica firmeza de Fernando Canto

images (3)

Crônica de Fernando Canto

Sempre tive muitos amigos: de infância, de escola, de bar, amigos que fiz no decorrer de uma vida cheia de altos e baixos e que sempre pude contar com eles nas horas que precisei. Não se têm amigos só para jogar conversa fora, brindar em uma comemoração ou para fazer (in)confidências, às vezes mentirosas e desnecessárias. Nesse caso sempre a amizade vai por água abaixo quando uma confidência é espalhaddownloada pelos sete cantos da cidade. Já tive “amigos” que supus serem Amigos, que ajudei pensando estar fazendo um bem, e que a ingratidão deles brotou como espinhosa árvore na lavoura que tentei cultivar.

Não falo de inimigos, pois como os ex-amigos, eles não merecem a minha ira. Apenas desprezo o que não quero prezar. Eles são meramente pontos obscuros de referência na encarnação de um
images (5)maniqueísmo torpe, trivial e vulgar. Amigo mesmo é para contar com ele na hora da necessidade, para se divertir, criar junto e imaginar um mundo melhor. Amigos bons nós desenhamos para que se tornem o modelo da nossa própria utopia.Luis_XVI_no_cadafalso

Talvez fosse desnecessário este preâmbulo para falar de gente que gostamos de graça e nem fosse conveniente registrar numa crônica o apreço que sentimos por certas pessoas que às vezes, por gestos naturais e descomprometidos, nem sabem a extensão do bem que fizeram a nós em determinados períodos de nossa história pessoal. É verdade que nesse caminhar encontramos amigos dos amigos que não são nossos amigos, mas que os toleramos por respeito à admiração pessoal ao amigo titular. Assim também é verdade que falseaArquivoExibirmos nossa conduta para não decepcioná-lo, embora acreditando que de falso em falso se chega ao cadafalso.

Machado de Assis dizia em “Ressurreição” que o tempo não conta para a amizade: “Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos”. Talvez o tempo seja o que conta para quebrar os obstáculos que surgem na vida. E dizem que muitas amizades rompidas, um dia voltando, passam a ser mais do que eram, independentemente das diferenças do passado. Voltam mais sólidas e mais maduras. E passam a ver que sempre existiu alguém interessado nesse rompimento. Coisas de novela, mas também coisas da vida.

images (4)Pessoas que estimamos passam por provações e se tornam sábias sem saber se são, ou pelo menos não demonstram isso. Há as que têm as almas simples e vivem num mundo aparentemente sofisticado. Mas as almas dos amigos muito se assemelham a casas: algumas delas são cheias de janelas abertas, onde corre ar puro e luz, outras são como prisões, fechadas e escuras, mas que merecem nossa consideração e respeito, porque a alma entende-se a si mesma e o amigo vale a afeição que fazemos valer por ele. Uma alma, mesmo fechada, sempre traz uma luz que pode nos iluminar antes de banhar-se a si própria.

BONS-AMIGOS-220x220Amigos têm defeitos e mazelas. Por essa imperfeição mútua é que normalmente amizades se atraem, bem como pela admiração recíproca de cada um no seu desempenho social. Uns moldam outros, outros se espelham em alguém. Porém, na amizade só não pode existir a incorporação da personalidade do amigo. Ela deve ser autêntica e eivada de respeito às idiossincrasias, inclusive pela solidão e ao silêncio do outro. Afinal somos seres em alteridades. Espíritos amigos voam na mesma direção da fonte original e bebem da mesma água fresca. Devem saciar sua sede bem antes que ela seja poluída pelos interesses pessoais de qualquer conspirador. A amizade só é possível pela oportunidade do encontro.rivais

Meu amigo R sempre diz que os inimigos são necessários, pois nos ajudam a refletir para que melhoremos. Não discordo, porque entendo que a vida é uma constante dialética. Mas não ando à caça de inimigos. Alguns cruzam meus caminhos em momentos que não criei. E, como não tenho um cemitério para enterrá-los como um certo personagem de Jorge Amado, eles que cavem suas próprias sepulturas e façam de suas mortes um renascimento.

13935093_1258145920905103_6672763556401222230_n
Eu e meu querido amigo, Fernando Canto. 03/08/2016

A MAÇÃ E AS ESCOLHAS (crônica de Dia dos Pais de Fernando Canto )

Por Fernando Canto

A primeira vez que comi maçã devia ter uns doze anos. Até então só ouvira falar dela pelos relatos bíblicos ou através de revistas que a mim chegavam eventualmente na escola ou na Biblioteca Pública. Lembro como se fosse hoje minha mãe repartindo a fruta que meu pai trouxe da sorveteria onde trabalhava à noite, após dura jornada de trabalho como funcionário público. Não sei como, mas ela a cortava em sete pedaços, pois esse era o número de filhos que os dois tinham, todos ainda crianças. E ainda hoje cada um deles certamente guarda em sua memória o gosto e o cheiro da maçã como a lembrança do amor que nossos pais nutriam por nós enquanto viveram.

Simbolicamente a maçã representa o fruto da Árvore da Vida ou da Árvore do Conhecimento do bem do mal: conhecimento unificador que confere a imortalidade, ou conhecimento desagregador, que provoca a queda. Mas há inúmeras interpretações. Aquela, por exemplo, em que cortada em dois, no sentido perpendicular, se encontra um pentagrama desenhado e por isso representa o saber; e aquela que simboliza a eterna juventude.

Para Paul Diel (1966) ela significa os desejos terrestres. “A proibição de Jeová alertava o homem contra a predominância desses desejos, que o levavam rumo a uma vida materialista, por uma espécie de regressão, opostamente à vida espiritualizada, que é o sentido de uma evolução progressiva”. O autor diz ainda que “A advertência divina dá a conhecer ao homem essas duas direções e o faz optar entre a via dos desejos terrestres e a da espiritualidade. A maçã seria o símbolo desse conhecimento e a colocação de uma necessidade: a de escolher”.

Na verdade todos nós escolhemos. No dia-a-dia decidimos o que queremos e o que não queremos face às maçãs dos desejos e estímulos que a serpente mídia nos oferece desde que acordamos até a hora de dormir. Se não escolhermos alguém decide por nós, num processo repentino de acomodação que concordamos pelo cansaço.

Não caberia só isso na simbologia da maçã: ela está mesmo ligada á ambição, à desobediência, à astúcia do mal e à expulsão do paraíso, sem contar que a história de Adão e Eva serviu para estigmatizar na humanidade o mito da mulher curiosa e traidora.

Ser expulso do Éden significa percorrer caminhos tortuosos, o resultado da escolha de comer a fruta da Árvore da Vida ou do Conhecimento do bem e do mal. Significa também experimentar o outro lado da liberdade, aquela em que o sofrimento e o trabalho de se sustentar é o produto da dignidade humana, da obrigação de suar para merecer a comida e o sono. Quer dizer também que uma escolha dessas possibilita fazer a diferença entre os indivíduos, que vivem em sociedade, mas competem; se matam e sobrevivem. Fazem sua história e propõem novas escolhas, porém sempre lembrando suas origens, aquelas que formam identidades.

A imagem de um anjo munido de uma espada expulsando nossos avôs primordiais trajando folhas de parreira do Jardim do Éden, não só é o símbolo do abandono como a lembrança de que nós muitas vezes nos expulsamos interiormente quando achamos que erramos em nossas escolhas. É possível que essas escolhas, pelas quais optamos na vida, se deem em razão de múltiplas oportunidades que nos chegam e nos “oprimem”. Optar às vezes pelos “desejos terrestres” ao invés da espiritualidade me parece ser necessário, embora tenhamos que buscar na essência das coisas, algo de deidade, algo que transcenda e nos faça pensar e acreditar que somos mais que isso.

Fico a pensar que quando meu pai levou a fruta do pecado para conhecermos não foi só um ato de amor corroborado por minha mãe. Foi, talvez, uma metáfora da escolha que teríamos de fazer pela vida. Não apenas entre matéria e espírito, mas entre ser ou não ser, o que chamamos hoje de bons ou maus cidadãos. Obrigado, pai.

Caetano Veloso chega aos 77 anos. Nossos parabéns ao gênio da MPB!

Sou fã de muitos músicos e compositores, brasileiros e gringos. Um dos maiores letristas, poetas e cancioneiros do Brasil é Caetano Veloso, que hoje completa 77 voltas em torno do sol. Um gênio ícone da Música Popular Brasileira (MPB) e um ativista lutador pelos direitos do cidadão. Sobretudo, um grande expoente da musicalidade nacional.

Filho da lendária dona Canô e mano mais velho de Maria Bethânia e mais seis irmãos, Caetano sempre viveu com “Alegria, Alegria”! É, são 75 anos de uma invejável vida e deles 52 de carreira. “Beleza pura”!

Com Gilberto Gil, Gal Costa, Nara Leão, Mutantes e Maria Bethânia, fundou o Tropicalismo, o movimento de modernidade da música brasileira e abriu um caminho sem volta rumo ao sucesso. Foram os “Doces Bárbaros” “Transcendentais”. Para a sorte dele e nossa, “Baby”.

Caetano, ao lado de Chico Buarque e Gilberto Gil, é uma das figuras mais importantes da música popular brasileira e considerado internacionalmente um dos melhores compositores do século XX, aliás, comparado a nomes como Bob Dylan, Bob Marley, John Lennon e Paul McCartney.

Maravilhado com “Sampa”, cantou a “Lua e Estrela” no cotidiano da velha metrópole. Chegou a ficar “Reconvexo” por conta de suas “Vacas Profanas”. Em razão de uma milica “Força Estranha” foi morar em “London London” e fez sua linda “Queixa” por meio da música. Veloso é sem dúvida um de nossos heróis.

Caetano embalou muitos momentos felizes de minha vida. Principalmente em reuniões familiares. Ele também me emocionou muitas vezes em mesas de bar. O tropicalista com sete décadas e meia de vida (que vida!) merece nosso reconhecimento, respeito e gratidão.

Enfim, por tudo que representa este espetacular artista, meus parabéns, votos de saúde e longevidade ao monstro da MPB. Feliz aniversário, Caetano Veloso!

Elton Tavares

As recordações, os cheiros e o gosto dos sábados em casa

Ir à feira dia de sábados é andar pra trás na linha do tempo e visitar uma época gostosa que levarei para sempre em meu coração. Lembrar do papai e mamãe saindo cedinho para a feira, de mãos dadas, sacola de náilon, ele de bermuda, camisa de botão e sandálias nos pés, ela, de saia e camisa florida ou com a imagem de Nossa Senhora ou vestido. Atravessavam a ponte que liga a Mãe Luzia com São José com a maestria de quem já andou muito em cima de madeira no interior. Voltavam com sacolas de peixes, carnes, verduras, e iniciavam o ritual de sábado: temperar comida para semana toda, som ligado com chorinho, de vez em quando papai interrompia o corte da carne e a mamãe a mistura de temperos para dar uma “rascunhada” pela cozinha.

Como bons ribeirinhos, eles estavam acostumados com peixes, e diferenciavam só de olhar, o pescado novo do moído. Papai foi pescador, e navegou muito atravessando o Amazonas em barco à vela do Bailique até Belém, com a embarcação cheia de mercadorias, ou com o carregamento de madeira. Para ele o rio não tinha mistérios, e conhecia todos os peixes da região, e deles falava com detalhes que deixavam a boca com saliva. Eram estes pescados e mariscos escolhidos com zelo que embelezavam nossa mesa, especialmente aos sábados.

Meu olfato foi treinado para o cheiro de sábado, mais do que dos outros dias da semana, é o que mais faz falta, eles estimulam as recordações e permanecem em minha memória. Cheiro da comida, da caipirinha do papai, do vinho da mamãe, das frutas do quintal, da limpeza feita na casa com capricho, da cera cachôpa ou cardeal passada no piso, do óleo de peroba nos móveis, da carne assando no fogareiro, mujica de camarão, da banana frita, mingau de banana e de tapioca, as coisas de sábado, que até podiam ter outros dias, mas no sábado era feito diferente.

Papai temperava muito bem, mas mamãe cuidava de peixe e carne como ninguém, seu tempero era inconfundível, e o cheiro de sua comida ficava na casa toda e atravessava os muros, fazendo inveja em quem sentia o odor de comida caseira. Fomos acostumados a comer de tudo em casa, de peixes do mato à vísceras, de caça à carne de primeira. Dificilmente comíamos comida congelada, até o frango era abatido em casa, assim como o porco, que também criávamos no quintal. Tudo era muito saudável, a comida sempre fresquinha na nossa mesa, por preferência deles. Mamãe gostava mais de urucum do que colorau, a pimenta ela trazia em grãos, e em casa batia em um pano, torrava no fogão e eu passava espirrando pela cozinha, porque o cheiro dava cócegas no meu nariz.

E os sábados seguiam assim, até a hora do almoço, quando a mesa ficava linda de tanta gente de casa, que vinham comer a comida da mamãe, cozida no fogão ou na brasa, era um entra e sai que se estendia até de noite, porque invariavelmente o almoço emendava com o lanche e a janta. Quando papai comprou o Santa Maria, final dos anos 80, esses costumes de sábado passaram para nosso paraíso, com direito a banho de igarapé e horas de alegrias, união e felicidade da molecada e dos adultos. Era uma carinhosa confusão de redes, moleques atentados, gritaria e muitas, mas muitas gargalhadas. Estas lembranças estão tatuadas em meu corpo e alma. Acho que nossos filhos nunca irão esquecer dessa época, e sinto pena de nosso netos, que não viveram esta experiência de passar dias no meio do mato, brincando de caçar, pescar, jogar bola, alimentar o gado e as galinhas, colher verduras e comer frutas tiradas na hora.

Sempre que posso vou aos sábados na feira, aquecer a saudade. Não aprendi a diferenciar peixe fresco do moído, infelizmente não herdei a aptidão para a cozinha, e mesmo que tivesse facilidade, nunca iria fazer o tempero da mamãe, aquele gosto inconfundível, que não senti mais. A casa não fica mais com o cheiro das comidas e dos costumes da sábado, às vezes eles me vêm do nada na cabeça, já acordei no susto sentindo o gosto do passado e com o nariz empesteado do cheiro da nossa casa, principalmente aos sábados. É nesse dia que eu paro em casa e a saudade aperta o peito e escorre pelos olhos. Sinto uma enorme saudade de nossa vida aos sábados, da casa com quintal e desse depois da reforma que concretou nosso espaço, mas que nunca deixou de ser um local de afeto e reunião da família e amigos.

Mariléia Maciel

Só por que é sábado! – Por @hmoreiraap

10390078_746891588722089_1934593028134957380_n
Humberto Moreira

Por Humberto Moreira

Sábado. Outrora dia de perambular pela minha cidade. Visitar alguns lugares mágicos da minha amapalidade. Descer a doca da Fortaleza para ver o colorido das canoas à vela entrando no igarapé. Frutas, cerâmica, peixes, pequenos animais, carregadores e carroceiros num burburinho familiar e o vento que ainda hoje sopra do Amazonas.

No Mercado Central revejo açougueiros a pesar a carne que alimenta a cidade. Fiscais, marreteiros, vendedores, sapateiros e japoneses na faina diária. Gente que entra só pra olhar como eu e gente que veio para comprar. Verdura fresquinho que veio de Fazendinha, garapa com pão doce no Brotinho, mingau de milho, donzela.

A Candido Mendes das Lojas Flor da Síria e Beirute na América. A fila no clipe para pegar o Bossa Nova e o pessoal da pesca que sobe da Baixa da Maria Mucura vindo do Remanso. Macapá se abria pra vida naqueles tempos que não voltam mais. A cidade mudou, mas as lembranças estão encravadas na minha memória. Bom sábado a todos!

* Humberto Moreira é jornalista, radialista, cronista e vocalista dos Cometas, além de amigo que admiro. 

Os motivos de eu escrever…

Escrevo ao longo dos últimos 13 anos. Nove deles para este site, que já foi um blog. Sempre tento me ater a verdade. Redigir textos onde dados e fatos me levam. Com exceção de sandices, devaneios e contos, que são escritos mágicos para mim. Pois ficção exercita a criatividade.

Um dia, há aescrevendolguns anos, me perguntaram: “Elton, porque você perde tempo com esse papo de blog. Porque não faz algo útil com o tempo gasto nessa página de besteiras”. Neste instante, consegui evitar um surto psicótico e palavrões a esmo para o meu questionador.

Aí expliquei para o pateta porque escrevo. Escrevo porque amo a noite, futebol, samba, rock and roll, minha família, meus amigos e amo ser eu (com todos os defeitos e chatices), não necessariamente nesta ordem, claro. No meu caso, leituras alternativas tornam o dia menos tedioso. Principalmente quando tais escritos são sobre cultura em geral.

Gosto de usar um senso de humor cortante nos meus textos para este site, assim como muita nostalgia, sentimentalismo barato (que pra mim é caro), transformar relatos em memória da minha cidade, do meu estado. Vez ou outra, até fazer velhas piadas com novos idiotas, ser um tanto antipático, chato ou adorável encrenqueiro. E sempre amoroso com minhas pessoas do coração. Sim, gosto disso.

fantasmaCerta vez, li a frase: “escrever não é desistir de falar, é empurrar o silêncio para fora”, do poeta Fabrício Carpinejar. É esse o papo mesmo, escrever é uma válvula de escape, vicia e extravasa.

Escrevo até sobre o que finjo que acredito. Sabem aquelas pequenas porções de ilusão e mentiras sinceras de que o Cazuza falou? Pois é. Às vezes, detritos do cotidiano, grandeza desprezada, coisas bobas que parecem socos na cara, é bem por aí.

Mas gosto muito mais de escrever sobre o amor, sobre atitudes legais, sobre manifestações pública de afeto e sobre pessoas admiráveis. Falar ou escrever sobre positividade é tão melhor.

Antes redigia um texto ou mais por dia e com muita facilidade. Agora, a falta de tempo e os períodos de entressafra de inspiração tornam os autorais mais raros. Quem dera fosse só querer e baixasse o espírito de Rui Barbosa, Charles Bukowski, Mário Quintana, Drummond ou o meu amigo Fernando Canto, e eu começasse a redigir como um gênio. Seria firmeza. Acreditem, um dia lançarei um livro de crônicas e contos.

carlos-drummond-de-andrade-594x376-2

Em tempo, escrevo para não deixar meus pensamentos parados. Queria poder escrever como Carlos Drummond de Andrade, que disse: “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos ,na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.”

19297602

Como não dá, sigo rabiscando minhas certezas, achismos, incertezas, chatices, amor, entre outro tantão de coisas que vivem neste meu universo particular que gosto de expor aqui. E fim de papo.

Elton Tavares