UMA VIAGEM ÀS ORIGENS – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

Canhão da Fortaleza Gurjão (Serra da Escama) – Óbidos-PA

Minha proveitosa viagem a Óbidos/PA, em julho de 2009, serviu para despertar mais um pouco em mim o sentimento grande de pertencer à natureza amazônica. O lugar, belíssimo, caracterizado por uma arquitetura colonial ainda conservada, cheio de ladeiras e ruas calçadas com paralelepípedos, lembra as cidades setecentistas das Minas Gerais.

Mas isso não é tudo. A cidade fica à margem da parte mais estreita do maior rio do mundo, que faz com que seu leito estreito se aprofunde e a água corra com uma velocidade incrível. Ela tem uma topografia ondulada, cheia de colinas e serras. E nesta época do ano o povo ribeirinho local sofre com a enchente. No entanto, esse fenômeno da natureza se transforma em condição cultural perfeitamente contornável, já que é esperado. Às vezes ela chega grande, como uma colcha de água a cobrir lentamente a cama. Causa problemas no desembarque dos navios e lanchas, visto que o trapiche praticamente fica submerso e os passageiros são obrigados a descer em balsas de ferro, atravessar o centro do comércio e finalmente subir as ruas enladeiradas. Mas o comércio não pára e, mesmo com a cheia, a população fica abastecida de peixes.

Aspecto da cidade de Óbidos-PA

Do alto de uma roda gigante pude observar a exuberância de uma cidade que cresce obrigatoriamente para o norte, em terras que um dia abrigarão novos aparatos urbanos e certamente pode vir a conurbar com o igarapé Curuçambá, se não houver Lei municipal que preserve sua vocação turística e ambiental.

Sua primeira vocação, aliás, como a das demais cidades coloniais da Amazônia portuguesa, era a de salvaguardar as terras do Reino e de evitar invasões estrangeiras. Tanto que ali há vários prédios militares que marcaram a história da cidade para sempre, como o Forte Pauxis, a Fortaleza Gurjão e o belo trabalho de arquitetura, o Quartel neocolonial, restaurado, que salvo engano completou 100 anos de fundação em 2009. O Forte Pauxis data do século XXVIII e fica em um ponto privilegiado e alto da cidade, parecendo um mirante. Sabe-se lá quantos não tombaram em sua construção e quantos soldados não estenderam seus olhos perscrutadores na vigília constante em busca do inimigo. O mesmo acontece com a Fortaleza Gurjão, um pouco mais nova, localizada no alto da Serra da Escama, aonde três enormes e pesados canhões de fabricação alemã, capazes de girar 180º, ali se encontram, silenciosos e semidestruídos. Quem quiser vê-los terá que atravessar o lago que circunda a montanha e subir por uma trilha estreita e difícil até chegar às casamatas, que também um dia abrigaram os soldados vigilantes, estes que talvez num esforço sobre-humano, aliados a uma tecnologia militar incipiente, plantaram as armas de guerra no local. O Quartel, no centro da cidade é um alívio para os olhos. Possui uma arquitetura que lembra os castelos mouriscos, com suas torres, portais e janelões. Nele está atualmente instalada a Secretaria Municipal de Cultura e a Biblioteca Pública. Além disso, podemos observar as construções religiosas como a Prelazia e a igreja de Santana, a padroeira do lugar.

Canhão da Fortaleza Gurjão (Serra da Escama) – Óbidos-PA

Em julho chegam os estudantes e os exilados involuntários nascidos na cidade. Vêm devolver seus olhos à paisagem por gratidão, rever amigos e familiares e se envolver na festa da padroeira, em devoção constante. Somam-se a isso as manifestações culturais do período.

Apesar de haver completado nove anos de recusa voluntária a comer carne de caça, quelônios e afins, não resisti ao convite de provar, meio desconfiado, uma “mixira”, em plena Barraca da Santa. É uma espécie de conserva feita antigamente de carne de peixe-boi, com o próprio azeite do animal, mas hoje adaptada à carne de boi. Depois acabei comendo um “paxicá”, picadinho feito do fígado e carnes gordurosas do peito da tartaruga, preparados no casco do quelônio. Todos eles fazem parte da culinária milenar do indígena amazônico. Confesso que achei uma delícia.

Fernando Canto em frente ao Quartel Militar, onde hoje funciona a Secretaria Municipal de Cultura de Óbidos/PA.

Como visitante me senti feliz de poder ter observado as práticas culturais dessa gente tão hospitaleira e a beleza arquitetônica da cidade. Como obidense, que deixou sua terra natal aos sete anos de idade, me senti orgulhoso de poder compartilhar com meus parentes e novos amigos, toda a estrutura e a cultura do lugar. Despertei ainda mais para o compromisso e a responsabilidade de fazer parte deste mundo tão bonito, mas ainda cheio de coisas por fazer. Talvez por isso tenha experimentado uma mistura de sentimentos que me tornou mais humano e grato a todos que me permitiram essa aventura antropológica de volta às minhas origens.

*Publicado no jornal “A Gazeta” de domingo, 18/07/10.
**Fotos de Alacid Canto

CORNUCÓPIA DE DESEJOS – Conto muito porreta de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Por querer expressar meu pensamento sobre as coisas em meu idioma, às vezes arrebato o próprio coração em sofridas angustiosidades e dissentimentos infaláveis. Por isso monologo no granito e lavo em água este contraste, esta antagonia de imprescindível falação que ponho em tua trompa de eustáquio para te martelar suavemente a dentro.

É o caso do amor ensolarado que sinto agora, neste mirífico momento. Um assunto ressoante, uma prosa-cornucópia (onde a abundância reina) a refratar-se sem a culpa do inexpressável parlar.

Não vejo como não ensopar-me de enluação neste conto de candura quase irrevelável, posto que o meu amor possa entender-me ou espumar-se para sempre para o inevitável espanto que a declaração enseja. Paresque um salto com vara numa olimpíada de abismos.

Assim eu declaro: a cobra norato, o boitatá e as luzes do fogo-fátuo se expiram na noite cadente. Oh, teus olhos não! Teus olhos ternuram a medida do dia, solfejam histórias e cantam paisagens inescrutáveis para os sonostortos dos mortais. Eu sou o arauto deste cenário-testamento a castigar retumbantemente o couro dos tambores; eu anuncio a sublime compreensão do “amooor” que ecoa em gargalhadas sobre as ondas do Amazonas, aqui na Beira-rio, sob um céu azul intensificado de lilás quando anoitece. Eu declaro ainda: a pedra em sua bruta forma tem dentro de si os elementos primordiais que suprem tua sede de amar. Ora, Balance a pedra e sinta o gutigúti da sua oferenda. Lapide-a, pois ela provém da terra, e então perceberá o calor do fogo da paixão libertadora e o ar morno que movimentará o sangue pelas entranhas.

Num átimo, um áugure qualquer (que são muitos e banais) lerá tua sorte: dirá augúrios, claro. Um áuspice (que estão cada vez mais raros) dirá tua sina no raro voo dos louva-deuses. E te auspiciará de boas-novas e de valores inequívocos.

Ora, dizendo isso afirmo que sou aquele que nem sabe discursar suas dores, inda que saiba do futuro, pois habito o limiar do tempo. Eu sou a timidez em prosa e verso, aluno de poesia, mas prenhe de pecados, porque ingiro virtudes nos bares da noite e não sei segredar projetos inexequíveis. Não sei, juro pueril e ludicamente (mas com toda a sinceridade de uma parlenda) pela fé da mucura, torno a jurar pela fé do guará, torno a repetir pela fé do jabuti, que não sei mentir ao sabor do vento dos ventiladores que me sopram fumaça de charutos cubanos.

Descobri que sei de ti mais do sabes da pedra em teu caminho. Sou teu (adi)vinho incontestável, ad-mirador de tua trajetória. Por isso do alto da minha velada arrogância sei que tu também me amas.

Mas é de ti que quero o conteúdo dessa bilha onde Ianejar – aquele heroi dos índios waiãpi – e seus pareceiros se abrigaram do fogo ardente e do dilúvio. É por ti que generalizo a farsa da criação sem pesadelos cosmogônicos. Eu me agonizo em mistérios. Eu eternizo o meu olhar nessa paixão. E me enleio como as borboletas que viajam ao paraíso pelo buraco sem-fundo do fim da terra.

Por isso eu sei que te amo.

Por isso vago ainda em fluidos imemoriais sempre presentes, antes do esquecimento das vitórias que juntos comemoramos.

Por isso a ternura há de ser o mais farto elemento da imensa cornucópia de desejos que realizamos juntos.

Os cães do Campus da Unifap – Crônica porreta de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Aproximadamente dez cães moram no campus da Universidade. São vira-latas que dormem durante o dia e à noite se tornam verdadeiros vigias. Rosnam para os desconhecidos que se aventuram por lá de forma suspeita, mas reconhecem os vigilantes pela farda que usam e alguns professores mais antigos, talvez pelo cheiro de livros velhos.

Deitam pelos corredores sem que ninguém lhes incomode, pois descansam após o trabalho de uma noite inteira, em que seus argutos olhares e latidos alarmistas com certeza foram úteis. São cães fortes, uns completamente negros e outros com manchas marrons. Às vezes se levantam com o forte cheiro das queimadas no cerrado do campus, mostrando-se impotentes diante dessas devastações tão próprias dos seres humanos.

No meio do mundo os cães trabalham na noite como se revigorassem a missão permanente do ancestral Cérbero, o demônio do abismo da mitologia grega, com suas três, cinqüenta ou cem cabeças, que vigiava as almas no Inferno. Para amansá-lo, os mortos tinham que oferecer-lhe um bolo de mel, acrescentando o óbolo destinado ao pastor Caronte. Cérbero devorava sem piedade todos aqueles que tentavam forçar a porta do Inferno: atacou Pirito e Teseu que queriam levar Perséfone de volta; foi enfeitiçado pela lira de Orfeu quando o mesmo foi reclamar Eurídice; deixou passar Eneu, que lhe deu o bolo de mel preparado pela Sibila. Mas foi derrotado e acorrentado por Héracles (Hércules), que o levou a Trezena antes de levá-lo de volta ao Inferno.

Não há dúvida, afirmam os mitólogos, que mitologia alguma não tenha associado o cão à morte, aos infernos subterrâneos e aos impérios invisíveis regidos pelas divindades ctonianas ou selênicas. Sua primeira função mítica, universalmente atestada é a do “psicopompo”, guia do homem na noite da morte, após ter sido seu companheiro no dia da vida. O cão emprestou seu rosto a todos os grandes guias de almas, em todos os escalões de nossa história cultural ocidental.

Ele existe em todo o universo e aparece em todas as culturas, com variantes que enriquecem esse simbolismo fundamental, como os cinocéfalos (macacos de cabeças semelhantes a do cão), da iconografia egípcia, que têm por missão aprisionar ou destruir os inimigos da luz e guardar as Portas dos locais sagrados. Na mitologia Romana a loba que amamentou Rômulo e Remo, bem como outros canídeos, são heróis civilizadores e estão sempre ligados à instauração do ciclo agrário.

Apesar de a sua fidelidade ser louvada pelos muçulmanos, o Islã faz do cão a imagem daquilo que a criação comporta de mais vil. È o símbolo da avidez e da gula. Sua carne é utilizada como remédio contra a esterilidade, a má sorte, etc. Segundo uma tradição do Profeta, este declarou que um recipiente no qual tiver bebido um cão deve ser lavado sete vezes, sendo que a primeira lavagem deverá ser feita com terra. Diz-se que o Profeta proibia matar os cães, salvo os cães negros que tivessem duas manchas brancas por cima dos olhos, pois essa espécie de cão era uma encarnação do diabo. Já os monges dominicanos eram os cães do Senhor, aqueles que protegem a Casa pela voz ou os arautos da palavra de Deus.

Os cães do campus também trazem o seu simbolismo. São alimentados carinhosa e diariamente pela dona Nilza. E como Cérbero protegem a entrada da Universidade daqueles que nele querem entrar sem merecerem. O conhecimento e a luz estão lá, protegidos pelas trevas do desconhecido, envolvidos pela mão de muitos Lucíferes. Aqueles que quiserem o saber terão que dar aos guardiões o bolo de mel e o óbolo de Caronte nessa travessia que não terá retorno.

Feliz Equinócio para todos! (em especial para Fernando Canto) – Por @MarileiaMaciel

No Brasil, iniciou hoje o outono, e aqui, no meio do mundo, ocorre o fenômeno Equinócio das Águas, batizado assim, por causa da atração astral, é a estação chuvosa, que faz traz para nossa região, uma quantidade maior de chuva e água grande.

O fenômeno é o alinhamento do sol com a linha imaginária do equador, que divide os hemisférios Norte e Sul do planeta, perfeitamente visíveis do monumento Março Zero do Equador. Ele pode ser visto através da sombra do sol que reflete em seu obelisco. A principal característica do equinócio, é que o dia e a noite têm a mesma duração.

Mariléia Maciel – Jornalista

O DIA DA TRAVESSIA – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

O canal se estendia à minha frente. Toda manhã, ao abrir a janela, lá estava ele, num permanente desafio.

Do outro lado do canal ficava a fonte da juventude, bem ao lado do castelo da mulher com mais de 300 anos que, segundo diziam, todo dia bebia da fonte e assim mantinha seus traços de 16 anos. Muitos homens tentavam atravessar o canal para vê-la. A maioria retornava depois de poucas braçadas. A correnteza era muito violenta. Muitos morreram na travessia. Todos os homens da cidade tentavam. E estava chegando a minha vez.

Sempre que se entrava na adolescência era o momento de se tentar a travessia. Antes disso, a vida se resumia em treinar. Meu cachorro Madrugada me acompanhava nos treinamentos e quando me senti preparado para realizar o feito, Madrugada se mostrou muito interessado em ir comigo:

– Você não precisa ir. Deixe que eu trago um pouco da água da fonte da juventude pra você. E à mulher do castelo eu digo que você mandou saudações.

Madrugada não entrou em acordo e, no dia da travessia, lá estava ele ao meu lado, recebendo os cumprimentos e as recomendações de toda a população.

Mergulhamos no canal e percorremos uma grande distância até Madrugada se afastar. Ele tomou a dianteira e eu o perdi de vista. Eu já estava exausto quando cheguei ao outro lado. Andei pela praia, em direção à fonte da juventude e a encontrei seca. Fui ao castelo e percebi que ele era de areia e se desmanchava com o sopro da minha respiração.

Saí procurando Madrugada e a menina de 300 anos. Só os vi quando olhei para o outro lado do canal, de onde eu havia saído. Lá estavam os dois passeando pela tarde, acenando para mim. Ao retribuir o aceno foi que reparei em minhas mãos se tornando flácidas, a pele e a carne se desmanchando igual ao castelo de areia, igual ao sonho de encontrar a juventude, igual a este conto e a tantas coisas que chegam ao fim.

A FORTALEZA E A GÊNESE DA OCUPAÇÃO – Crônica/resgate histórico de Fernando Canto

Fortaleza de São José de Macapá – Foto: blog Amapá, minha terra amada.

Crônica de Fernando Canto

Na continuação das nossas observações sobre a Fortaleza de São José de Macapá, temos a considerar que a memória é o deciframento do que somos à luz do que não somos mais (Nora, 1993), ela fixa os sentidos e a identidade, permitindo à sociedade traçar suas origens e reconhecer suas permanências independentemente do tempo. Mas ela também possibilita o reencontro com o sentido de pertencimento e tem a capacidade de viver o hoje, tornando-se princípio e segredo da identidade.

Fortaleza bicentenária – Foto: Floriano Lima

Desta forma, há uma necessidade de se observar o monumento, hoje, sob o olhar de uma memória coletiva, com suas significações que a levaram a ser um ícone da identidade macapaense e não mais exclusivamente como arquitetura militar ou obra de segurança e proteção da região. Faz-se necessário saber como foi construído e modificado o discurso de ocupação da Fortaleza de São José, hoje considerado espaço de preservação. Ela é o único monumento edificado que faz a vinculação com o passado, em que pese a igreja de São José ser mais antiga, mas que sofreu inúmeras descaracterizações. Apesar de ter surgido muito depois da fundação de Macapá ela, a Fortaleza, é a gênese do discurso de ocupação e de formação da cidade. Ao longo de mais de dois séculos o eixo de ocupação e a conotação do discurso artístico e histórico da cidade foi mudando. No presente momento, por exemplo, ela foi eleita uma das maravilhas do Brasil como monumento edificado. Daí sua dinâmica no tempo e no espaço.

Fortaleza de São José de Macapá – Foto aérea de Mateus Brito

A cidade de Macapá, como qualquer cidade de seu porte, por ser um lugar de alternâncias e de condições diversificadas que dão dinamismo ao cotidiano (e onde se situam tempos de transformação e de continuidade) é, também, o lugar das alteridades e transformações da Fortaleza de São José. Isso nos permite e nos possibilita enxergar e decodificar os significados das marcas impressas nesse tempo de quase dois séculos e meio, onde estão presentes inúmeros olhares, rupturas e imbricações.

Fortaleza de São José de Macapá – Foto: Manoel Raimundo Fonseca

A conquista da Amazônia pelos portugueses suscita uma história diversificada e rica de detalhes. As fortificações por eles construídas são marcos dessa luta por expansão de fronteiras. No bojo de tudo está a Fortaleza de São José de Macapá, na qual – repetimos – inúmeros olhares se fixaram e se desvaneceram pela memória quase diluída, pelas deslembranças expurgadas pelo nascimento do novo. Da sua construção até hoje as transformações nela operadas foram significativas (curral, quartel, museu, etc.), mitificadas pela mídia (“lugar bonito”), conflitivas (acordos pecuniários para derrubar os prédios da sua área de entorno, prisão de presos políticos) e espetaculares nas mudanças urbanísticas realizadas ao longo dos anos dentro e fora da sua área original.

Fortaleza de São José de Macapá – Foto: Manoel Raimundo Fonseca

Há nessa idéia um imbricado processo de análise a ser observado, porque a história da Fortaleza de Macapá traz também uma história não-oficial daqueles que foram supostamente vencidos, a história registrada pelos vencedores e suas estratégias de sobrevivência e hegemonia, onde está expressa a relação do homem com a natureza de forma significativa, pelo que experimentaram na construção daquela obra (Bhabha, 2007).

Fortaleza bicentenária – Foto: Max Renê

E essas estratégias são muito bem produzidas no longo período da sua construção. Não apenas do ponto de vista do colonizador militar como pelas astuciosas fugas e “ausências” que os trabalhadores braçais e escravos usavam para minimizar seus sofrimentos (Castro, 1999). Os papéis ocupados pelos colonizadores de manter a construção, a ordem e o controle eram dialeticamente contrapostos nas adjacências da obra da Fortaleza por negros, índios e soldados desertores, que protagonizaram uma “original aventura para conquistar a liberdade. Com suas próprias ações reinventaram significados e construíram visões sobre escravidão e liberdade” (Gomes, 1999).

Ninguém lê! – Crônica de Lulih Rojanski

Crônica de Lulih Rojanski

O que você está lendo? Qual foi o último livro que leu? Onde está o último livro que comprou? Quando o comprou? Onde está o último livro de cujo lançamento participou? Na estante, intacto, ignorado? Eu sinto muito por tudo isso. Honestamente, sinto muito, porque conheço as verdadeiras respostas a estas perguntas, por mais que nas redes sociais a maioria prefira dizer orgulhosa que está atolada em leituras, que tem dormido com Honoré de Balzac debaixo do travesseiro, que gastou em livros boa parte do décimo terceiro salário, que não vive sem Fernando Pessoa… Livros estão ficando no tempo do era uma vez. Editoras estão fechando as portas. Editores estão negociando selos com distribuidoras de literatura vendável e meia-boca. Escritores estão morrendo de desilusão com a cara enfiada na poeira de velhos livros, em arcaicas bibliotecas.

O grande leitor está morrendo. Ele sabe que só é importante para uma geração que está se extinguindo, vagando espaço para os grandes leitores de palavras abreviadas e emoticons sorridentes. Poesia é uma coisa de que o grande leitor de agora ouviu falar mas não sabe exatamente o que significa, como funciona, em que botão se aperta. Conto e crônica são coisas que um professor mencionou, mas ele não se lembra se foi na aula de geografia ou no último filme que baixou no computador. Ele pensa que romance é apenas uma anacrônica história de amor, mais desusada que um rádio de pilhas.

Estou contrariada. Não pertenço a este tempo em que redes sociais influenciam mentes mais do que os livros…

Eu não me preocupo com quem vai se ofender com o que digo. Os ofendidos estão de carapuça. Os que não estão compartilham da minha dor.

Fonte: Para-raio

Escrita a esmo na luz do fim de tarde

Me deu vontade de escrever, mas não sabia sobre. Aí comecei a esmo e deu nisso aí:

Gosto da luz de fim de tarde para fotografar, de exagerar na dose ou em muitas delas. Também curto um pouco de indecência. Não sou dado a uma vida normal ou viver igual a todo mundo. Sou um tanto inquieto, brigão, incandescente, glutão, sem modos, desbocado, politicamente incorreto, entre outras coisas tortas.

Gosto de beber e conversar com meu irmão, tios e amigos. Do amor e do carinho da minha mãe. Gosto de ver minha avó saudável. Gosto de brincar com minha sobrinha e escutar a risada da Maitê. Na verdade, amo esses gostares ditos neste parágrafo.

Adoro ir a shows de Rock and Roll, de assistir séries confinado em um quarto frio e escuro. Gosto também de coisas desnecessárias, até levemente venenosas como biritas e comidas nada saudáveis.

Fico feliz em lembrar histórias do passado, mas sigo em frente sempre, já deixei de ficar preso a memórias há tempos.

Sou obcecado por fazer quem amo feliz, ironicamente firo essas mesmas pessoas por conta de pedras em minhas mãos, como disse o Renato, tudo por falta de paciência (que se vendesse em farmácia, eu seria viciado em tais comprimidos).

Sofro de ansiedadeade e sou refém de horários. Odeio esperas, sejam elas de toda ordem. Filas e senhas então, cruzes!

Às vezes, tenho que voltar para os trilhos, por conta de minha natureza rude, quase doentia. O que não combina com a sede de conhecimento, espiritualidade, discernimento e dedicação profissional (sem nenhuma modéstia, gabo-me dessa última, pois é a única coisa em que sou bom, de fato).

Ao mesmo tempo em que adoro figuras inteligentes, que falam de tudo, misturam elementos do cinema, literatura e músicas, detesto a arrogância da maioria delas. Mesmo erro recorrente deste jornalista, que hipocritamente repete tal comportamento.

Ah, aprendi que sempre há algo de podre no Reino. E não é só na Dinamarca, não!

Como eu disse, este escrito é desconexo, sem muito sentido, texto nada a ver. Eu só queria dizer que gosto da luz de fim de tarde para fotografar.

Elton Tavares

A LIRA LIGEIRA DO SÍLVIO LEOPOLDO – Crônica de Fernando Canto

Poetas Silvio Leopoldo e Fernando Canto – Foto: blog da Sônia Canto

Crônica de Fernando Canto

Com a morte de Sílvio Leopoldo, o Amapá perde mais um dos seus melhores poetas. A notícia chegou fulminante através do amigo Mário Corrêa em pleno sábado, 13 de outubro, dentro de um supermercado do Laguinho, bairro cantado aos quatro ventos pelo compositor que tinha verdadeira adoração pela Escola de Samba da Nação Negra, a Boêmios do Laguinho.

Eu havia escrito aqui neste espaço que já não achava mais tão difícil falar em morte, sobretudo a de meus amigos, que foram como garças voando “com as penas que Deus lhes deu”, no dizer do ladrão de marabaixo lá de Mazagão. Portanto não posso deixar de comentar sobre um dos mais talentosos poetas com quem convivi em Macapá e depois em Belém.

Conheci o Silvio através de Manoel Sobral, em 1971, no III Festival Amapaense da Canção, quando ele conquistou o terceiro lugar com a música “Cantiga”, interpretada por Graça Pennafort. Mas Sílvio Leopoldo já tinha uma história: foi o idealizador e realizador do I FAC, em 1968, e bem antes publicara o opúsculo “Primeiras Poesias”, aos 14 anos de idade. Precoce como compositor e poeta Sílvio era uma promessa excepcional. Aos 17 publicou “Velas do meu Mar”, que teve duas edições. Chegou a estudar no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e fez o curso de Biblioteconomia na UFPA, onde também iniciou o curso de Direito, que logo abandonou. Em 1975, a pedido do Sobral, fiz os arranjos e acompanhei duas músicas de sua autoria, “Problemática” e “Água Benta”, que ganharam o primeiro e o segundo lugar, respectivamente, no V FAC, em detrimento até da música “Geofobia”, de minha autoria e de Jorge Monteiro, que daria início à formação do Grupo Musical Pilão. Nesse ano Sobral foi o Melhor Intérprete.

Meu tio Paulo, meu saudoso pai, Zé Penha, minha mãe Lúcia, tia Maria e o amigo deles, o poeta Silvio Leopoldo (também falecido). Graças a Deus, meus tios e mãe ainda fazem nossa felicidade por aqui. (Elton Tavares)

No decorrer de sua carreira recebeu várias premiações na área da música e da poesia e em 1977 publicou o livro “Lira ligeira”, quando morava na cidade de Altamira, no Pará. Figura em algumas antologias e muitas de suas composições foram gravadas por cantores regionais, inclusive por Manoel Sobral e pelo Grupo Pilão, como as músicas ”Zanga dos Rios” e “Saga”, única que chegamos a fazer em parceria. Em 1990 saiu editado pelo Governo do Estado do Amapá o livro “Era uma Vez Num Fundo de Gaveta”, no qual reuniu poemas novos e outros já publicados. Em Belém fui convidado por ele para fazer a apresentação de sua obra no lançamento na biblioteca da Embrapa, onde trabalhava. Houve show do Pedrinho Cavalero e muitos canapés, do jeito que ele gostava.

Na última terça-feira, 09 de outubro ele lançou seu último livro “Evocação de Ajuruteua”.

Dos seus poemas destaco “Evocação de Macapá”, uma espécie de passeio ao seu tempo de adolescência, e “Acorda João”, poema social muito bem elaborado. E é do fundo da gaveta, no poema “Holocausto II, Pesadelo”, que o poeta tira os versos: “Todos os meus amigos partiram (…)./ Levaram consigo a terrível dúvida/ E o pálido receio. Levaram consigo a resignação/ Predestinada dos profetas./ Ainda ontem estavam comigo.” Depois ele arremata num aniquilamento radical que “Todos os meus amigos partiram…/ Nunca mais os vi, nunca mais. Ouvi dizer que em algum lugar a terra se abriu/ com o sangue quente dos meus amigos./ Ouvi dizer que meus amigos/ Não tiveram nenhuma chance,/ e que na hora inexata da morte/ Ainda falavam da Grécia”.

(*) SÍLVIO LEOPOLDO LIMA COSTA (1953-2007), poeta, bacharel em Direito e Biblioteconomista da Embrapa-Pa, em Belém. Era compositor e foi premiado em diversos festivais, como o Festival Amapaense da Canção (FAC), de 1975, quando levou o primeiro e segundo lugar com músicas interpretadas por Manoel Sobral, e com arranjos feitos por mim. Publicou vários livros de poesia, entre os quais “Lira Ligeira”.

Leva, poeta, a tal resignação predestinada dos profetas, encontrada ao lume da leitura de Alcy, Cordeiro e Álvaro, na rebeldia de Isnard, Raimundevandro e Saulo, no cromatismo de Azarias, Aluísio e Arthur, e de tantos que se foram, como bem disseste, e que choraram pelas suas sinas de “Alimentar esperanças/ Entre as dores e os desenganos”.

(*) Jornal do Dia. Out/2007

 

A CASA DO EZEQUIAS – Por do Fernando Canto

Foto: Blog Porta Retrato

Crônica de Fernando Canto

A metade dos anos 80 trazia a grande expectativa de mudanças no caminho político do Brasil. Após a anistia de 1979 restava ainda o término do Governo Figueiredo e a transição democrática que se estabeleceria com a eleição de Tancredo e a posse de Sarney.

No Amapá tudo isso era motivo de conversa e os jornais emitiam opiniões bem diversificadas sobre o destino de nossa terra, causando certo frisson entre os leitores. E com a possibilidade de transformação em estado o antigo Território Federal cedeu espaço a centenas de aproveitadores políticos que para cá vieram em busca de uma vaga no parlamento. Foi nesse contexto que ressurgiu o Amapá Estado, fundado por Haroldo Franco, Silas e Ezequias Assis.

Governador Henning – Foto blog Repiquete no Meio do Mundo

Esse jornal havia sido editado pela primeira vez durante o governo de Henning, que segundo eles, quando leu o primeiro número o amassou e jogou fora dizendo que a pretensão dos jornalistas não passava de um engano,de uma utopia. Foi, também, nesse contexto que posteriormente foi lançado o jornal Fronteira, onde trabalhei com uma coluna informativa, ao lado de grandes expressões do jornalismo local como Alcy Araújo, Luís Melo, Jorge Herberth e Wilson Sena, por sinal o primeiro presidente da Associação dos Jornalistas do Amapá. Antes disso o Silas fechou o Amapá Estado e foi se estabelecer em Belém com um jornal maior.

Humberto Moreira – Foto: Blog Porta Retrato

Mas os grandes assuntos da pauta semanal do Fronteira eram discutidos na casa do Ezequias. Todos os sábados ele nos recebia com aquele jeito brincalhão, mostrando um exemplar que o Ricardo, seu filho, pegava no aeroporto (Naquela época era impresso em Belém.) e não economizava o orgulho de ver editado mais um número. E o que era para ser apenas informação virava celebração, pois nunca faltava uma boa dose do melhor uísque, uma carne de caça que o Baleia fornecia para o dono da casa desde que ele fora chefe de Gabinete da Secretaria de Obras e a viola do Nonato Leal, às vezes em duo com a do Sebastião Mont’Alverne. Ao lado disso, apreciadores da boa música, como o Alcy, se deleitavam ouvindo o Humberto Moreira interpretar Taiguara. Artistas e intelectuais chegavam como se estivessem ligados a uma rede invisível e automática, num tempo em que não havia celulares. Aimorezinho era um espetáculo tocando bossa nova com a sua escaleta e o inesquecível bandolim do Amilar parecia pousar em uma partitura mágica vinda das Brenhas de Mazagão. Ritmos se fundiam numa democracia musical crescente que só acabaria quase no início da noite com o sorriso sempre aberto da ilustre e querida amiga Nazaré Trindade. Antes, porém, Ezequias, Nonato e Sebastião faziam um coral com a música “Saci Pererê” de autoria dos três. Depois cantavam “Tauaparanaçu”, de Nonato, e arrematavam com “Rio Amazonas”, de autor desconhecido. A audiência não poupava elogios ao trio e se despedia de mais uma seresta tropical que a todos encantava.

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Ezequias Assis, Jorge Herberth e Fernando Canto. Professor Munhoz ao fundo – Foto encontrada no blog da Sônia Canto.

Tanto Ezequias como Nazaré já se despediram deste mundo. Mas o dom da generosidade que neles havia fica na memória e na eterna gratidão pelo que ensinaram e pelo que foram.

Certa vez, num tempo de vacas magras do jornal, Ezequias me chamou e disse que não podia me pagar naquele mês, mas que iria dar um jeito. Falou que estava querendo “ajeitar” seu carro e que decidira deixar para o outro mês. Foi lá dentro e voltou com quatro pneus novos e 120 dólares e me disse: – Toma. Troca os pneus carecas do teu carro e fica com esse dinheiro pra quebrar o galho. No mês que vem a gente se acerta.

Depois ele me abraçou e pediu ao Ricardo para preparar uns uísques. Ficamos bebendo em silêncio.

*Fotos: 2-Governador Artur de Azevedo Henning (o que amassou o jornal) – encontrada no blog da Alcilene. 3 – Jornalista e cantor Humberto Moreira (blog Porta Retrato).

Depois do Carnaval a gente recomeça (Crônica sensacional de Fernando Canto)

Por Fernando Canto

Não tenho nenhuma dúvida que quem gosta do carnaval é hedonista, e nesse caso guarda a obrigação para depois do prazer. O carnaval é o tempo em que se tira o uso da carne, no seu sentido literal do latim carnelevamen, mas que é tempo também em que se promove a licenciosidade, a crítica, o erotismo e a voluptuosidade.

Deixar as coisas para depois desse grande acontecimento na vida do brasileiro é prática normal. Tudo se resolve depois do carnaval. O tratamento daquela gastrite, a construção da calçada, o pagamento da luz e do cartão de crédito e até o abastecimento da geladeira. – Ora, ainda tem muita coisa pra se aproveitar na despensa. Pensa o guerreiro fantasiado. – Depois a gente resolve isso, fica frio, diz o chefe da repartição. O Governo abre o orçamento bem pertinho do carnaval, mas só depois é que as ações deslancham e se encaixam, após a imprescindível curtição da ressaca. Às vezes até adianta o pagamento dos funcionários públicos para que estes possam ser felizes e não se esquecerem jamais o quanto os governantes são legais. Depois que acaba o dinheiro do salário, o folião não tem o menor pudor de pedir fiado no mercantil da esquina, no boteco da praça e até no ambulante que conheceu um dia desses no ensaio da escola de samba. Pagará depois, se assim o dono da birita ou da comida aprovar.

O depois do carnaval pode ser espichado para muito longe, depende do valor do fiado, dos interesses do chefe da repartição ou do Governo, que sempre aproveita essa época para encaminhar projetos ao Legislativo, sem alarde, porque o povo nem vai saber. O povo não está nem aí, quer curtir o carnaval. E só. Se souber, diz: – Depois a gente pensa no assunto e tenta resolver.

Soube pelo jornal que o Governo e a Prefeitura vão mudar o secretariado logo que termine a quadra momesca, porque se mexer muito agora pode ter prejuízos políticos. Desde pequenos damos ouvidos a expressões idiomáticas como “Não se deixa para depois o que se pode fazer hoje” e “Deus ajuda quem cedo madruga”, que ensejam a necessidade do trabalho bem feito, com tempo e disposição ou aquela que trata do mau trabalho, daquilo feito com má vontade, onde o tempo também é elemento necessário: “o preguiçoso trabalha duas vezes”. Ideólogos dizem que elas são frases carregadas do espírito capitalista que desde o início da colonização tentou mudar o rumo da vida brasileira a dizendo que o índio era indolente.

Que besteira, dizem uns, por que iria querer trabalhar feito um cão para ganhar dinheiro se a natureza dava tudo a ele? O peixe, as caças, as frutas da floresta, a água… Talvez por isso tenha sido escravizado em algumas regiões. Mal sabiam, porém, os portugueses, que eles mesmos iriam introduzir o carnaval do Brasil e com isso deixar a festa rolar. Assim abandonaram a grosseria do entrudo para depois, em 1852, trazerem a novidade do Zé Pereira, que era “um conjunto de bombos e tambores capitaneados pelo sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes”, segundo o musicólogo Edigar de Alencar. Por ser ruidoso e contagiante logo se alastrou pelo Rio de Janeiro e depois por todo o país.

Para muitos de nós, brasileiros, as resoluções que tomamos no ano novo só iniciam mesmo depois dessa festa, quando pensamos em criar vergonha e caminhar para perder uns quilinhos, quando decidimos sobre o que precisamos e queremos há tempos, para depois realizarmos algumas ações hipocritazinhas como se nada tivesse acontecido no carnaval, embora sempre haja a conivência de alguém. Eu poderia ir bem mais longe com estas elucubrações, porém hoje é dia de desfile e a minha escola me chama.

Não posso deixar esse desfile tão esperado por um ano para nele faltar, assim vão falar mal de mim até depois do carnaval. Talvez nem venha a concluir este artigo, por causa da agitação que precede um acontecimento importante como este, onde minha agremiação é uma das favoritas para ser a campeã. Também não posso de jeito nenhum deixar de assumir minha responsabilidade que é escrever este artigo. Mas hoje é sábado e posso concluí-lo mais tarde. Ou talvez depois das 12h00 da quarta-feira de Cinzas quando me recolho, como milhões de outros brasileiros, a uma quase santa meditação.

É que vem o tempo da Quaresma e depois da Semana Santa, no Domingo da Páscoa, rompendo a Aleluia, inicia o ciclo do Marabaixo.

Publicado em 2008. Jornal do Dia

Depois que A Banda passa – Texto porreta de @heluanaquintas

Por Heluana Quintas

Passa a Banda com toda a gente da cidade. Estranhas figuras reptilianas respiram água no mormaço e transpiram sob tecidos coloridos. Para cada penacho molhado, há um milhão de gotinhas de suor varando o poro das lantejoulas e explodindo no choque, no chacoalho e no chão.

A marcha pirada, foliã do improvável, do cenário verde-molhado, conduz uma alegoria movida a vapor de asfalto e um sentimento de disposição para o inesquecível. Acenam galhofeiros, fanfarrões, lambisgoias e no destaque uma mulher de meia rasgada côa assovios entre os dentes.

Chega a noite e todas flores de mangue já estão carnívoras. Sobram pela FAB os brigões, os bêbados e os blefados. Pela manhã, passa nas avenidas, o bloco das sandálias perdidas. É a banda da sandália. No seu curso ímpar, ela é a piada do amigo, o resto da briga, o passo incompleto. Ela é parte do conto inesquecível de alguém, é a prova de que a Banda passou mais uma vez com seu antigo sucesso de mormaço aos cinco dias do mês de março.

Calças de Linho Flutuantes e os Nomes dos Blocos- Crônica porreta de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Na constelação de brilho intermitente do carnaval você pode se tornar uma estrela. Basta querer. Quem não se identificar com o samba tem a opção de sair no meio de um bloco carnavalesco, onde os brincantes se esbaldam no frevo rasgado ou ao som das tradicionais marchinhas que trazem temas diversos na competição anual entre eles.

Dada a sugestão está feito o convite. Um pouco tardio, creio, mas feito com o carinho de quem quer ver o carnaval macapaense brilhar mais do que do que brilhou no passado. “Um passado de glórias”, como diz um antigo samba dos Boêmios do Laguinho. Um passado feito de desfiles e batalhas de confetes que encantavam as crianças nos domingos de fevereiro em diversos pontos da cidade e faziam a alegria da juventude.

É inesquecível para mim a figura da porta-bandeira Telma e do mestre-sala Sucuriju rodopiando no asfalto da avenida FAB sob o calor dos holofotes e do aplauso do povo laguinhense. O povo aplaudia e gritava quando o grande passista, o Mestre Falconeri dançava, balançando as largas calças de linho que pareciam fazê-lo flutuar sobre o chão.

Mas o povo delirava mesmo era cantando o samba aprendido às pressas nos últimos dias que antecediam ao desfile, uma prática usual de todas as escolas. Era a partir do samba que se faziam os enredos. Então ele era guardado a sete chaves até próximo do dia do desfile oficial para que as escolas concorrentes não o plagiassem e nem ao enredo. Francisco Lino, o Menestrel, que o diga.

As escolas da déuntitledcada de 60 e parte da de 70 eram parecidas com os blocos de hoje que almejam serem escolas de samba: traziam apenas um carro alegórico e um pequeno contingente de brincantes. A diferença é que a maioria dos instrumentos musicais era fabricada por aqui mesmo. Os próprios brincantes faziam seus querequexés e agogôs, frigideiras e tamborins. Minutos antes de entrarem na passarela acendiam fogueiras para esticar o couro dos tambores a fim de evitar que murchassem devido ao tempo ou a uma chuva inesperada. De acordo com o Pedro Ramos, o maior repiquinista dos Estilizados, o instrumentista tinha que levar uma folha de jornal no bolso para esquentar os tamborins feitos de couro de cobra pelo seu Joaquim Suçuarana. Sambistas e passistas mirins, como o Neck e o Kipilino, se revelavam novos talentos e se tornaram o orgulho de sua escola.

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Antigo Carnaval na Avenida Fab. A multidão amanhecia e ia atrás da última escola a desfilar

Enquanto Luís do Apito (pai do Bababá, atual mestre de Bateria dos Boêmios) organizava a batucada, R. Peixe se preparava para trazer a sua recém-criada Embaixada do Samba, uma dissidência da Piratas da Batucada. Esta, por sua vez, trazia em suas hostes os incansáveis e pouco reconhecidos compositores Jeconias Araújo e Juriel Monteiro. Lá atrás Pelé e Fifita, Neusona e Escurinho aguardavam sua vez de desfilar ao som dos sambas de Izar Leão ou de Nonato Leal e Alcy Araújo, apaixonados que eram pela verde-rosOLYMPUS DIGITAL CAMERAa macapaense.

Nos anos 80 surgiram as escolas de samba de 2º grupo, como a Piratas Estilizados (que foi bloco por muitos anos) a Unidos da Coaracy Nunes, a Quilombo dos Palmares, Emissários da Cegonha e a Solidariedade. Daí, então, o carnaval amapaense teve outra formatação até o advento do sambódromo, que foi o território do Piratão por um longo reinado. De 1997 para cá, o brilho do carnaval foi mais intenso.kubalanca_2005_thumb[2]

Mas uma coisa marcante, hoje, é o desfile dos blocos. Eles estão em todos os bairros e todo ano se multiplicam levando suas temáticas e irreverências pelas ruas da cidade até se encontrarem no desfile da terça-feira na Banda. Creio que são a cara do nosso carnaval, ainda que queiram embotar-lhe o brilho com falso moralismo, em função dos nomes de dupla conotação que carregam. Carnaval em São Paulo no início do século XXOra, o carnaval amapaense é muito brasileiro. É irreverente e feliz. Traz como características a eliminação da repressão e da censura e a liberdade de atitudes críticas e eróticas. Realça o sorriso das crianças e não descarta nem esconde a sensualidade das mulheres tão sensualmente amapaenses, tão lindas e alegres, que optaram por brilhar no carnaval.

66 anos de Zico, o melhor jogador de futebol da história do Flamengo

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Hoje é aniversário de Arthur Antunes Coimbra, o popular “Zico”, o melhor jogador de futebol da história do Flamengo e um dos maiores do Mundo. Atualmente, Zico trabalha como treinador (no Japão) e é ex-dirigente do Mengão. O nosso eterno craque completa 66 anos de vida. E que vida!!

Zico liderou a vitoriosa trajetória do Flamengo nas décadas de 1970 e 1980. Ele ganhou campeonatos brasileiros, a Taça Libertadores da América e o Campeonato Mundial de Clubes e vários títulos cariocas. Jogou pela Seleção Brasileira nas Copas Argentina 1978, Espanha 1982 e México 1986, com boas atuações mas sem títulos com a camisa canarinho.59742_529648887080237_1194555587_n

Também passou pelo pelo Udinese (ITA) (aliás, chorei copiosamente quando Zico partiu pra Udinese) e foi para o Japão, atuar pelo Sumitomo Metals, que depois se tornou Kashima Antlers, onde o jogador foi atleta e iniciou sua carreira como treinador. Ele foi o melhor jogador da história dos dois clubes.

Quem resumiu brilhantemente a passagem de Zico pela Udinese foi o jornalista do “Il Gazzettino de Veneza”, profissional encarregado de segui-lo, Luigi Maffei: “Para nós, friulanos, Zico tem o mesmo significado de usocrates-zico-selecao-brasileira-1982-size-598m motor da Ferrari colocado dentro de um fusca. Sentimo-nos os únicos no mundo a possuir um carro tão maravilhoso e absurdo”.

Além do Kashima Antlers (Japão), onde jogou, Zico fez sucesso como técnico no CSK Moscou (RUSS) e Fernebace (TUR).
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“O cobrador corresponde a um atirador de elite, aquele que fica no telhado com a mira do rifle esperando a mínima movimentação do goleiro para surpreender as redes” – Fabrício Carpinejar. Zico era o nosso atirador de elite. O melhor que tivemos. Além disso, sempre foi sinônimo de decência sem ser um chato arrogante ou preconceituoso.

Apesar de comandar aquela Seleção Brasileira (para muito “A seleção”) em 1982 e ter participado de três Copas do Mundo, Zico nunca se sagrou campeão mundial.

O cara atuava como meio-campo, mas sempre foi artilheiro. Bater falta para ele então, era pênalti. Zico foi rotulado no exterior de “Pelé Branco”. Foram 970 jogos e 703 gols, destes, 509 pelo Flamengo. “Zico foi o líder do melhor time que vi jogar. Ele é um mito e não haverá outro como ele” – Romário.

535612_620035064680540_1079036989_nMeu saudoso pai, Zé Penha, sempre dizia que Zico foi o maior depois de Pelé. Discordo, a história do futebol teve Maradona, Romário e Ronaldo. Mas é verdade que Zico é ídolo de muitos ídolos, como o também ex jogador italiano Roberto Baggio (aquele mesmo que perdeu o penal em 1994, quando nos tornamos penta).

Acredito que existem e existiram muitos craques no futebol mundial, mas poucos gênios. Zico foi um destes gênios. Além de felicitações, minha gratidão, respeito e admiração, pois o vi jogar e fazer a alegria da nação rubra negra. Enfim, palmas para o cara, que ele foi e é PHoda. Parabéns Zico!

Elton Tavares