A Flauta de Mozart – Crônica de Fernando Canto (republicada por conta do Dia Nacional do Maçom)

 

Por Fernando Canto

Foi ouvindo pela enésima vez um Andante Cantabile de uma Sonata para Piano de Mozart que pude perceber verdadeiramente a força musical desse gênio do século XVIII. Tão grande é a sua pujança e força que remete o ouvinte para obras mais significativas produzidas por ele desde a mais tenra idade. Conta-se que aos cinco anos escreveu com facilidade um concerto para piano de difícil execução, aos seis aprendeu violino por si mesmo e aos oito já era um compositor tecnicamente seguro. Diziam que encarnava duas personalidades: uma como o menino igual aos outros que fazia suas brincadeiras e travessuras e outra em que era visitado pelo gênio sagrado da música e ficava em êxtase, aprisionado unicamente pela música. Em suas cartas dizia que não sabia explicar sua forma e método de compor, mas que quando estava em boa disposição, e só, os pensamentos musicais assaltavam-lhe a mente com abundância. Ignorava de onde precediam esses pensamentos e como chegavam a ele, e que nisso a sua vontade não tinha a menor intervenção. Ora, Platão dizia há muito tempo: “Aprender é recordar-se!”

No filme “Amadeus”, o compositor austríaco nascido em Salzburg parece ser um grande e irresponsável gozador, com a sua risada irônica e inesquecível. Seu talento despertou invejas e ciúmes. E entre os seus inimigos estava o Príncipe-Arcebispo de Salzburg, uma fonte de vaidade que se contrariava em saber que alguém pudesse ser mais famoso do que ele próprio. Evitava a todo custo o crescimento da notoriedade do compositor, que já era grande. Após alguns episódios despóticos em que Mozart e seu pai ficaram em estado de penúria, a Maçonaria de Viena, fiel aos seus postulados de Fraternidade, foi ao encontro de Mozart, dando-lhe amparo moral e financeiro. Segundo Fernandino Barbosa (Jornal O Liberal, de Goiás) o compositor foi recebido na Loja “A Caridade” em 1784 e se tornou um maçom exemplar, alcançando graus elevados e progresso, pelo seu trabalho. Maynard Salomon, no seu livro “Mozart, uma vida”, cita que quando da sua iniciação o Venerável Mestre daquela Loja, Aloys Blumaer, vaticinou em seu discurso: “Abençoada seja neste dia a humanidade. Para o teu bem e tua glória entra hoje um membro para esta grande Irmandade; nos degraus deste solene altar, um dos teus filhos faz o juramento inquebrantável de a nos unir, consagrando-se na virtude e na sabedoria!”

Mozart fez parte de outras Lojas e compôs inúmeras músicas referentes à Maçonaria, entre as quais, “Pequena Cantata Maçônica”, “Hino da Maçonaria”, “A Viagem do Companheiro”, “Tu, Alma do Universo” e a famosa “A Flauta Mágica”, que para Sylvio Soares in “Vultos da Humanidade”, é um verdadeiro ato de fé maçônica e expressão total de sua filosofia, pelo incentivo que sentimos de progresso e de amor divino.

Salomon informa que Mozart era maçom e illuminati, pois nesse tempo as duas Ordens eram unidas nos mesmos ideais e se baseavam no mesmo princípio. Seu fundador, Adam Weishaupt, dirigiu por muitos anos a maçonaria austríaca. E ao que tudo indica, ainda de acordo com o autor acima citado, o compositor pertenceu a outras sociedades secretas. Dizia manter contato com os “Irmãos Asiáticos” (?) e a Rosa-cruz, cujo rei da Prússia, Friedrich Wilhelm II, seu amigo íntimo e confidente, era o Imperatur, ou seja, o dirigente maior da Ordem Rosa-cruz. Mozart se envolveu em muitos episódios envolvendo a Maçonaria, inclusive defendendo os Illuminati, quando o imperador Joseph II proibiu essa Ordem na Baviera, em 1785, devido atritos entre Estado e Igreja.

O compositor morreu aos 35 anos num dia de violenta nevasca. Seu túmulo ficou ignorado para sempre, mas sua genialidade ungida pelo espírito da música jamais se apagará da memória da humanidade. Essa foi a mágica de sua flauta.

CAMALEÕES URBANOS – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Por morar próximo a mata da Infraero minha casa vive cheia de passarinhos e abelhas em busca de alimento e água. Vez por outra uns sapos dão as caras. Mas um dia desses apareceu um camaleão que ficou hospedado mais de três dias entre o jardim e um açaizeiro, vindo, talvez, por um terreno baldio atrás do meu quintal.

O bicho parecia um dinossauro saído de um filme de Spilberg, com seu andar imponente. De repente corria rápido, fugindo ao olhar curioso dos habitantes da casa. Ficou dias no alto do açaizeiro, contemplado até pelas visitas que o admiravam sem incomodá-lo, ali, impressionantemente imóvel, olhando o tempo, aventando uma possibilidade de fugir pelo muro alto ou talvez do faro esperto dos cachorros da rua. Ao meio do quarto dia sumiu. Mas não sei se sobreviveu, pois a sua cauda de cerca de um metro e meio estava com a ponta quebrada e assim mesmo ele reagia aos que chegavam muito próximo para lhe fotografar, abanando-a com violência para se defender.

O interessante é que veio logo à memória um “ladrão” de Marabaixo muito cantado e antigo, cujos versos dizem:

“Eu vim neste Marabaixo
Você não me dá alimento
Eu não sou camaleão
Que enche o papo de vento”

A estrofe do cantador-compositor mostra logo o seu protesto contra o festeiro de alguma comunidade distante da sua, que deve ter lhe oferecido comida, bebida e todas as mordomias da festa para que ele fosse cantar, e não lhe deu o essencial na hora da fome, querendo dizer que vento não enche barriga.

Mas quem é esse réptil que a televisão mostrou servindo de alimento a famílias flageladas na mais recente seca do Nordeste? Quem é esse inofensivo animal, cujos ovos, chamados “ovas de camaleoa”, são tão apreciados na dieta alimentar de pessoas aqui na Amazônia? O Aurélio nos diz que se trata de um réptil lacertílio, da família dos iguanídeos. A maioria tem uma prega mento-faríngea capaz de se encher de vento, crista serrilhada no dorso, língua curta, grossa e não protrátil. É arborícola e muda de cor e também é conhecido por papa-vento, senembi, sinimbu, tijibu, etc. Por desconhecerem a sua importância para o equilíbrio ecológico das nossas florestas, caçam-no e lhes comem a carne impiedosamente. No sentido figurado é o indivíduo que assume o caráter conveniente aos seus interesses; o indivíduo que adapta sua opinião ao interesse do momento.

E neste justo momento que vivemos um processo de transição política é que surgem, sem dúvida, bandos de camaleões políticos infiltrados nas diversas campanhas. Oportunistas, traíras (coitado do peixe!) e cães (“coitado do melhor amigo do homem”!) subservientes, sem terem nada a contribuir, a não ser com fofocas e intrigas, enchem o papo de vento para dar a impressão que tudo sabem. Entretanto querem mesmo é a atenção dos líderes políticos para poderem viabilizar seus interesses econômicos, políticos e até familiares, posto o exemplo das oligarquias decadentes do Amapá.

Já vi esse filme. Certamente não se chamava “O Camaleão Invisível” nem era algum documentário ecológico sobre mimetismo. Era, talvez, a arte de grudar dissimuladamente em qualquer campanha política, cujos protagonistas estejam viajando na penumbra sem que disso saibam.

Então, rendo aqui minha homenagem ao camaleão visitador do meu quintal pelo seu porte aparentemente grotesco; louvo a forma crassa em que ele veio ao mundo e pelo seu grau na escala evolutiva dos animais, que desconheço. Ora, eu não o admiro apenas pelo papel que exerce no meio da floresta. Eu o tenho na memória como um extraordinário ser que, imóvel, acompanhava o sol na sua trajetória todos os dias aqui entre os perigos da cidade, sem que soubesse que homens inescrupulosos roubam-lhe o nome e suas características naturais para se darem bem na vida.

O Lago encantando e a árvore de dinheiro – Crônica de Mariléia Maciel

Crônica de Mariléia Maciel

Era o tempo em que entendíamos e repetíamos: 31 “alesta” e “alunou”, em vez de “alerta” e “anulou”. E assim as brincadeiras divertiam nossos dias e me levava a crer que o importante na vida era somente a diversão na rua, de onde só saíamos quando os gritos de “….vem pra dentro!” doíam no ouvido. O local preferido era no final da rua em que eu ainda moro, a Mãe Luzia, próximo ao lago, não só pela falta de opção, mas porque era lá o espaço dúbio onde viviam dois extremos, os nossos medos e a curiosidade pelos mistérios e lendas, que o tornavam um tesouro que podia ser descoberto aos poucos. Rodeado de aningas e com poucas casas na margem, era como um santuário, guardado pelo seu Anastácio e pelos seres místicos como o Pretinho do Lago e o Bode Preto. Estes dois imaginários, depois das brincadeiras das noites, se metiam embaixo do mosquiteiro e me atormentavam os sonhos.

Os vizinhos mais antigos, cujas famílias vieram do centro de Macapá pros campos do Laguinho, contavam que no princípio o lago era um poço, mas alguém jogou dentro um jacaré, que se transformou em um gigante que alargou suas paredes até que virou o lago. Não era grande, mas, diante da minha pequenez, parecia com Ness, e seu monstro marinho. A molecada do bairro fazia jangada e papai colocou uma canoa, a Saideira, que usava para sua diversão preferida, que era pescar. Foi na beira do lago que passei a maior parte da infância, nadando, correndo, pescando e inventando quanta brincadeira a imaginação conseguia criar.

Eu morria de curiosidade de chegar do outro lado. Bolava mil maneiras de chegar até lá, desde que não fosse rodeando pela Nações Unidas. A emoção tinha três caminhos: atravessar pelo cano, ir de canoa, ou beirando a margem, entre as inúmeras árvores e as cortantes tiriricas, que nos deixava com as canelas lanhadas. O problema com o cano era minha falta de habilidade em percorrê-lo, correndo, como os outros. Tinha que passar a humilhação de ir de gatinho, me agarrando no tubo, enquanto os outros riam. Nunca cheguei até o final da aventura, na metade o arrependimento tomava conta da minha alma e eu voltava engatinhando, pior, de costas. De canoa eu não podia, papai só a colocava na água quando ia usá-la. Então me aventurei pela margem.

Queria confirmar se a árvore que eu enxergava da veneziana de casa, era da espécie que me contaram: um pé de planta que dava dinheiro no lugar de folhas. Saí com alguns amigos que foram vencidos pela minha insistência e hipnotizados pela ideia de encontrar a tal árvore da riqueza. Seu Anastácio não podia nos ver, porque se intitulava proprietário do lago. Então descemos pelo lado da casa da Dinalva, que o quintal emendava com o lago, e fomos munidos de pedaços de madeiras e uma faca pra nos livrar do mato afiado. Vi então, de perto, as árvores de mucajá, taperebá e tucumam, que eu só enxergava de longe as copas e seguimos adiante.

Depois de uma longa estirada, rezando pra não encontrar o Pretinho do Lago, desviando de carapanãs, com as pernas em sangue, suados e com sede, finalmente chegamos em nosso destino. Sonho realizado, e corremos pra pegar as cédulas que brotavam dos galhos. Foi então que olhei pra árvore da fortuna, e depois pro chão, e tive a certeza que a Casa da Moeda não era no Laguinho. Voltei decepcionada e forçando o pensamento pra lembrar quem começou a mentira. Pegamos o mesmo caminho, os mesmos mosquitos e capim, e eu, mais um contratempo dolorido. Com a raiva na garganta e pressa, porque estava escurecendo, tropecei em um tucumanzeiro derrubado no chão e caí com as coxas em cima do tronco espinhoso. Terminei a aventura em casa, depois de levar um ralho de mãe, que ficou com pena do estrago nas minhas pernas e não me deu umas boas rimpadas. Dormi com a perna pintada de iodo, cheirando a azeite de andiroba e com o sonho de encontrar a árvore do dinheiro frustrado. Apenas uma certeza: o Pretinho do Lago existia, e defendeu sua riqueza de moleques curiosos, por isso não achamos a árvore. Ele foi enterrado junto com seu tesouro quando o lago foi aterrado de lixo e fezes, e com eles, minha infância bem vivida no Laguinho.

Mariléia Maciel

*OBS: a foto é de quando o lago não havia sido invadido

A MAÇÃ E AS ESCOLHAS (crônica de Dia dos Pais de Fernando Canto )

Por Fernando Canto

A primeira vez que comi maçã devia ter uns doze anos. Até então só ouvira falar dela pelos relatos bíblicos ou através de revistas que a mim chegavam eventualmente na escola ou na Biblioteca Pública. Lembro como se fosse hoje minha mãe repartindo a fruta que meu pai trouxe da sorveteria onde trabalhava à noite, após dura jornada de trabalho como funcionário público. Não sei como, mas ela a cortava em sete pedaços, pois esse era o número de filhos que os dois tinham, todos ainda crianças. E ainda hoje cada um deles certamente guarda em sua memória o gosto e o cheiro da maçã como a lembrança do amor que nossos pais nutriam por nós enquanto viveram.

Simbolicamente a maçã representa o fruto da Árvore da Vida ou da Árvore do Conhecimento do bem do mal: conhecimento unificador que confere a imortalidade, ou conhecimento desagregador, que provoca a queda. Mas há inúmeras interpretações. Aquela, por exemplo, em que cortada em dois, no sentido perpendicular, se encontra um pentagrama desenhado e por isso representa o saber; e aquela que simboliza a eterna juventude.

Para Paul Diel (1966) ela significa os desejos terrestres. “A proibição de Jeová alertava o homem contra a predominância desses desejos, que o levavam rumo a uma vida materialista, por uma espécie de regressão, opostamente à vida espiritualizada, que é o sentido de uma evolução progressiva”. O autor diz ainda que “A advertência divina dá a conhecer ao homem essas duas direções e o faz optar entre a via dos desejos terrestres e a da espiritualidade. A maçã seria o símbolo desse conhecimento e a colocação de uma necessidade: a de escolher”.

Na verdade todos nós escolhemos. No dia-a-dia decidimos o que queremos e o que não queremos face às maçãs dos desejos e estímulos que a serpente mídia nos oferece desde que acordamos até a hora de dormir. Se não escolhermos alguém decide por nós, num processo repentino de acomodação que concordamos pelo cansaço.

Não caberia só isso na simbologia da maçã: ela está mesmo ligada á ambição, à desobediência, à astúcia do mal e à expulsão do paraíso, sem contar que a história de Adão e Eva serviu para estigmatizar na humanidade o mito da mulher curiosa e traidora.

Ser expulso do Éden significa percorrer caminhos tortuosos, o resultado da escolha de comer a fruta da Árvore da Vida ou do Conhecimento do bem e do mal. Significa também experimentar o outro lado da liberdade, aquela em que o sofrimento e o trabalho de se sustentar é o produto da dignidade humana, da obrigação de suar para merecer a comida e o sono. Quer dizer também que uma escolha dessas possibilita fazer a diferença entre os indivíduos, que vivem em sociedade, mas competem; se matam e sobrevivem. Fazem sua história e propõem novas escolhas, porém sempre lembrando suas origens, aquelas que formam identidades.

A imagem de um anjo munido de uma espada expulsando nossos avôs primordiais trajando folhas de parreira do Jardim do Éden, não só é o símbolo do abandono como a lembrança de que nós muitas vezes nos expulsamos interiormente quando achamos que erramos em nossas escolhas. É possível que essas escolhas, pelas quais optamos na vida, se deem em razão de múltiplas oportunidades que nos chegam e nos “oprimem”. Optar às vezes pelos “desejos terrestres” ao invés da espiritualidade me parece ser necessário, embora tenhamos que buscar na essência das coisas, algo de deidade, algo que transcenda e nos faça pensar e acreditar que somos mais que isso.

Fico a pensar que quando meu pai levou a fruta do pecado para conhecermos não foi só um ato de amor corroborado por minha mãe. Foi, talvez, uma metáfora da escolha que teríamos de fazer pela vida. Não apenas entre matéria e espírito, mas entre ser ou não ser, o que chamamos hoje de bons ou maus cidadãos. Obrigado, pai.

Frases, contos e histórias do Cleomar (Parte II)

Meu amigo Cleomar Almeida é um competente engenheiro. O cara também é a personificação da pavulagem e gentebonisse, presepeiro e boçal como poucos que conheço. Um figura divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade. Quem conhece, sabe. Na mesma linha da PRIMEIRA PUBLICAÇÃO sobre seus papos no Facebook, selecionei alguns de seus relatos na referida rede social. Boa leitura:

“Não vem dar teco no meu açaí, toma o teu que eu tomo o meu”. Pra eu deixar de ser enxirido.

Se eu, Cleomar, pego uma cagada que nem a que o Gilmar Mendes pegou do Ministro Barroso ontem, aproveitava o apagão e mandava avisar: Gente, queimou uns bagulhos aqui em casa e tô tentando arrumar, não poderei ir na repartição hoje. Pense numa lapada. (Em março de 2018, sobre o “mau sentimento).

Como é a vida! Lembro de um episódio nessa lida de engenheiro em que um potencial cliente me chamou pra acompanhar uma obra e que, por ser um serviço simples, ele me pagaria com “o da gasolina”. Na hora fiquei puto da vida, perguntei pra ele se achava que eu tinha cara de motor, virei as costas e saí dali indignado. Se tal proposta fosse feita hoje, nem ele teria condições de me pagar o prometido e nem eu me encheria de frescura em aceitar. (Durante a falta de combustível, em maio de 2018).

Ia comprar o AmapaCap pra ver se diminui essa lisura mas acho que primeiro vou me mudar pra Santana, pense num povo de sorte, só dá eles.

Já tô mordido com essas porcarias de goteiras, pior que só aparece quando tá chovendo. Parece o gás, que só acaba quando a gente tá cozinhando.

São estilo “Walking Dead” os carapanãs da minha casa, só pode. Tu entopes o quarto de veneno e vai caindo um por um, em meia hora já começam a se levantar, só que agora totalmente transformados, possuídos, com ódio no coração, dá pra ver a ira em seus olhos esbugalhados e sedentos de sangue. Coisa do Belzebu mesmo.

Nenhum “Fake news” foi tão devastador quanto o da faca no boneco do Fofão. Tinha até fogueira pra queimar o boneco do capeta. Tédoido!

Coisa boa mesmo é o cara ser desembargador federal, dia que tu acordas de cu sujo, tu bagunças com o domingo da galera toda. (Sobre o habeas corpus concedido ao ex-presidente Lula, pelo desembargador Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, no dia 8 de julho de 2018).

Você foi chegando aos poucos, ocupando cada espaço em minha cabeça, quando percebi já era tarde. Sai de mim calvíce da peste, logo eu, que era o Urso do Cabelo Duro.

Fala a verdade, tu tá mais puto por conta das folgas que tu perdeu, no fundo a gente sabia que não ia ganhar porra nenhuma. (Sobre a eliminação do Brasil na Copa do Mundo 2018).

Quer encontrar gente aru, é só ir na fila do caixa eletrônico, fôlego.

No meu entendimento, se o cara fez a comida, ele tá livre de qualquer obrigação com as louças, se eu cozinho, eu não lavo.

Se a vadiagem fosse remunerada, já teria feito uma grana preta, só nesse sábado.

Já tô cansado de tanto descansar, amanhã vou trabalhar de qualquer jeito. Meeeeentheeeera, ainda aguento ficar nessa vadiagem mais uns dez dias. Pra melhorar só faltava uma rede e uma frieira.

Ninguém, eu afirmo ninguém, teve um domingo mais tiricento de que eu. Sai de mim.

Tá decidido, vou votar no Dr Rey, ele tá prometendo que vai deixar todo mundo bonito, bora comigo bando de feio.

A FORTALEZA E A GÊNESE DA OCUPAÇÃO – Crônica de Fernando Canto

Fortaleza de São José de Macapá – Foto: blog Amapá, minha terra amada.

Crônica de Fernando Canto

Na continuação das nossas observações sobre a Fortaleza de São José de Macapá, temos a considerar que a memória é o deciframento do que somos à luz do que não somos mais (Nora, 1993), ela fixa os sentidos e a identidade, permitindo à sociedade traçar suas origens e reconhecer suas permanências independentemente do tempo. Mas ela também possibilita o reencontro com o sentido de pertencimento e tem a capacidade de viver o hoje, tornando-se princípio e segredo da identidade.

Fortaleza bicentenária – Foto: Floriano Lima

Desta forma, há uma necessidade de se observar o monumento, hoje, sob o olhar de uma memória coletiva, com suas significações que a levaram a ser um ícone da identidade macapaense e não mais exclusivamente como arquitetura militar ou obra de segurança e proteção da região. Faz-se necessário saber como foi construído e modificado o discurso de ocupação da Fortaleza de São José, hoje considerado espaço de preservação. Ela é o único monumento edificado que faz a vinculação com o passado, em que pese a igreja de São José ser mais antiga, mas que sofreu inúmeras descaracterizações. Apesar de ter surgido muito depois da fundação de Macapá ela, a Fortaleza, é a gênese do discurso de ocupação e de formação da cidade. Ao longo de mais de dois séculos o eixo de ocupação e a conotação do discurso artístico e histórico da cidade foi mudando. No presente momento, por exemplo, ela foi eleita uma das maravilhas do Brasil como monumento edificado. Daí sua dinâmica no tempo e no espaço.

Fortaleza de São José de Macapá – Foto aérea de Mateus Brito

A cidade de Macapá, como qualquer cidade de seu porte, por ser um lugar de alternâncias e de condições diversificadas que dão dinamismo ao cotidiano (e onde se situam tempos de transformação e de continuidade) é, também, o lugar das alteridades e transformações da Fortaleza de São José. Isso nos permite e nos possibilita enxergar e decodificar os significados das marcas impressas nesse tempo de quase dois séculos e meio, onde estão presentes inúmeros olhares, rupturas e imbricações.

Fortaleza de São José de Macapá – Foto: Manoel Raimundo Fonseca

A conquista da Amazônia pelos portugueses suscita uma história diversificada e rica de detalhes. As fortificações por eles construídas são marcos dessa luta por expansão de fronteiras. No bojo de tudo está a Fortaleza de São José de Macapá, na qual – repetimos – inúmeros olhares se fixaram e se desvaneceram pela memória quase diluída, pelas deslembranças expurgadas pelo nascimento do novo. Da sua construção até hoje as transformações nela operadas foram significativas (curral, quartel, museu, etc.), mitificadas pela mídia (“lugar bonito”), conflitivas (acordos pecuniários para derrubar os prédios da sua área de entorno, prisão de presos políticos) e espetaculares nas mudanças urbanísticas realizadas ao longo dos anos dentro e fora da sua área original.

Fortaleza de São José de Macapá – Foto: Manoel Raimundo Fonseca

Há nessa idéia um imbricado processo de análise a ser observado, porque a história da Fortaleza de Macapá traz também uma história não-oficial daqueles que foram supostamente vencidos, a história registrada pelos vencedores e suas estratégias de sobrevivência e hegemonia, onde está expressa a relação do homem com a natureza de forma significativa, pelo que experimentaram na construção daquela obra (Bhabha, 2007).

Fortaleza bicentenária – Foto: Max Renê

E essas estratégias são muito bem produzidas no longo período da sua construção. Não apenas do ponto de vista do colonizador militar como pelas astuciosas fugas e “ausências” que os trabalhadores braçais e escravos usavam para minimizar seus sofrimentos (Castro, 1999). Os papéis ocupados pelos colonizadores de manter a construção, a ordem e o controle eram dialeticamente contrapostos nas adjacências da obra da Fortaleza por negros, índios e soldados desertores, que protagonizaram uma “original aventura para conquistar a liberdade. Com suas próprias ações reinventaram significados e construíram visões sobre escravidão e liberdade” (Gomes, 1999).

POESIA NÃO DÁ VOTO (*) – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Poucas vezes vi uma casa de shows lotada para ouvir poetas declamando seus textos como em um dia 25 passado, no Teatro das Bacabeiras. Por obra e graça de pessoas iluminadas como Carla Nobre e seu grupo, do movimento poético Abeporá das Palavras, aproximadamente vinte poetas mostraram suas poesias numa noite não muito longa, onde pouquíssimos espectadores saíram antes da hora. Ora, ouvir poesia depende de gostar muito. E tanta era a diversidade de estilo que só mesmo quem entende e gosta ficou até o final. Um final interessante, diga-se, pois contou com a participação especial do cantor e poeta guianense Moise Culture, que cantou um reggae, acompanhado pelos presentes. No mais a brilhante participação de Eliakim Rufino, poeta roraimense investido de mestre de cerimônia, fez do evento um espetáculo valorizado, onde os poetas convidados se tornaram estrelas como qualquer show-man num palco iluminado.

Talvez seja hora de fazer um balanço sobre a poesia amapaense. Por incrível que pareça raros são os livros editados anualmente em Macapá nessa área. Não obstante existir tantos poetas, conhecidos ou não, a ausência de divulgação da produção poética é patente. Não vi até hoje nenhum Governo do Estado, enquanto “incentivador da cultura”, promover e incentivar absolutamente nada para que esse segmento se tornasse até mesmo mais popular. Não fossem eventos como esse, os trabalhos escolares, as feiras e exposições periódicas dos colégios, é possível que nunca viéssemos a ter alguma produção nova, descobertas de talentos ou mesmo reafirmação de talentos já consagrados em nossa terra.

Se o trato que os setores competentes dessem à poesia (e à literatura de modo geral) como dão à música e ao teatro a coisa fatalmente mudaria de figuração. Nunca vi, reitero, nunca vi mesmo alguma instituição cultural oficial se preocupar com esse sonho louco de nefelibatas e doidivanas. Há quem diga que é preferível que esses malucos pratiquem suas salabórdias inúteis pelos cantos do que virem aborrecer os secretários e presidentes com suas artes não-recomendáveis para menores e pedir apoio para encherem a cara de cana. É, tem gente que ainda acha que a poesia é uma arte marginal, feita por marginais e viciados.

Felizmente convivi com os mais importantes poetas do Amapá. Até os mais velhos eu conheci pessoalmente. Destes, o único sobrevivente é o poeta concretista (nas décadas de 50 e 60) Ivo Torres, habitante da cidade do Rio de Janeiro e ainda na ativa com seus 77 anos. Tão honrado e sensível como ele foram os mestres Alcy Araújo, o prefaciador do meu primeiro livro, e Álvaro da Cunha, de quem guardo 14 poemas inéditos, que me mandou antes de partir para a eternidade, onde vagam os poetas. Passaram em minha mesa de bar Cordeiro Gomes, Aluísio da Cunha, Arthur Nery Marinho e Jeconias Araújo, bem como Isnard Lima, Poeta Galego, Saulo Mendes, Sílvio Leopoldo e Raimundevandro Salvador. Todos eles, grandes inteligências. Com rara exceção não publicaram livros.

Mas não é fácil publicar um livro. Ou se usa recurso próprio ou se vai atrás de patrocinadores, que normalmente preferem outras formas de divulgarem seus produtos. E é aí que a porca torce o rabo, porque quem deveria ter uma política editorial não tem e não terá, principalmente porque a poesia, já me disseram, não dá voto. E fica por isso mesmo?

(*) Jornal do dia, 2007.

Uma luminária pensa no céu – Por Mayara La-Rocque

Por Mayara La-Rocque

Navego, pesco relíquias na margem do tempo, reorganizo os horizontes – olhos feitos de água e imagens que nascem de estrelas caídas e pedras diluídas. Que mundo corre por abaixo desse mar de outras épocas em que homens suspendiam velas e guiavam naus sob a luz dos astros enquanto mulheres pariam no breu? Que fluxo inundou os caminhos, alterou as rotas e os destinos da história, alastrando feito maremotos os campos sitiados dos sonhos, os deixando em uma cidade submersa e abandonada?

Navego por esses mares esquecidos, vejo a fundo os corais em pó e em brilho, assemelham-se a espantalhos e espigas de milho dum campo dourado, das colheitas do passado, ou a caravelas náufragas das viagens seculares e solitárias pelos os oceanos de outrora.

Revolvem-se as águas e lançam sobre a margem, conchas que guardam e reviram outro tempo. Que mundo percorre a beira da praia e as veias de novas terras? Ao acostar à orla, os terremotos avançam em trânsito, entre pessoas e bichos, já não distingo os personagens dos meus sonhos daqueles que inventei no mundo real, os monstros de caras pintadas, máscaras de todos os tipos, as lantejoulas e os olhos tão negros; os vejo nas esquinas e nos bares, nos homens com seus bafos e falas vazias, as alegorias do medo nas revistas e nos telejornais, o alucinado discurso das ditaduras que aprisionam gentes e gestos, e aqui não me refiro a políticos ou governantes senão e somente às gentes e gestos, com seus desgostos e dores, distâncias e esquecimentos, onde o humano tornou-se um campo minado de guerras. E aqui não me refiro tão somente a Hiroshima e Nagasaki, Irã, Iraque, Cisjordânia, mas ao vizinho da casa ao lado que acimentou o jardim, cortou a árvore, construiu o muro, esqueceu-se de recolher o lixo da frente e que por isso deu mosca, acumulou estrume, gás metano, explodiu e incendiou a vila inteira.

Mas enquanto as casas pegam fogo, há – uma luminária pensa no céu. São tantas fantasias que habitam entre os olhos! São murmúrios oníricos que nascem de madrugada e só culminam na alvorada, quando o orvalho alcança a folha mais grávida de neblina derramada. É nessa hora que se ouve, em um fisgar milimétrico de não tempo e lugar algum, o tombar do silêncio sobre o mundo. Nada de estrondo, explosão, bólidos ou fogaréus. Há quem diga o princípio do mundo, ser de fundo negrume e vazio, e há outros destros de ciências mais antigas e ocultas, do tempo de Delfos e da esfinge, que alegam algo a mais: nada tem principio nem fim.

De todo feito, o que nos resta e não menos nos custa lembrar é que, hoje, enquanto as barragens se erguem sobre rios e sobre moradas de deuses para, então, se acenderem os luzeiros elétricos e as maquinarias da cidade, tudo o que ainda se move e resiste entre terras, águas, flores e constelações reina sobre uma só órbita soberana, onde se alinham entre os glóbulos oculares e as íris terrestres, a memória, a terna lembrança – quase uma saudade infinda – o mistério – de onde viemos, para onde vamos depois daqui, quem somos – e claro: O Sonho. E assim caminha a humanidade.

*Mayara La-Rocque é paraense, educadora, escritora. Publicou a plaquete literária “Uma luminária pensa no céu”, pela Editora Escriba, em 2017. (além de velha amiga minha e colaboradora deste site).

Carta para Osmar Jr. (De Obdias Araújo para Osmar Júnior).

Os poetas Obdias Araújo e Osmar Júnior – Foto: Flávio Cavalcante

Arquipélago do Marajó, 29 de julho de 2018.

Osmar Júnior, meu irmão de folia e brincadeira:

Às dez e cinquenta e um do dia vinte e oito de Julho de dois mil e dezoito a campainha toca por três vezes. O paquiderme escarra bolas de fumaça diesel, estremece e dispara.

Para trás fica o Porto de Santana com sua multidão de putas, escreventes, engraxates, jogadores de porrinha, jesuítas, um mergulhão entontecido e um imenso telhado de madeirite onde se leem fonemas de quatro metros por um e quarenta e cinco: Peter Von Schupemberg.

As redes se revoltam entrechocantes e um cheirinho bom de camarão frito é a tua mãe desaba insubitamente assaranhando os cabelos da moça bonita que usa óculos porque a cachorra é quase invisivel a olho nu.

Tudo é divino tudo é maravilhoso até por ser uma viagem de vinte e quatro horas que a poesia não explica complica e o leitor almejando vida mansa tem mais é que lamber sabão, enxugar gelo ou chupar um canavial de pregos!

Estou te escrevendo esta carta porque neste lado desfilam intermináveis acres de açaizeiras esguias e na margem esquerda se vê um pequeno cemitério com suas lápides de pau mulato ucuúba e sucupira escoradas na lama. Aposto que está cheio de curumins natimortos.

São 16 e 52. A chuva purifica as sarnefas do velho Breno que avança paranás acima bufando feito o burro do Pitaíca na temporada de equino cio. O clima é propício e velhas lembranças cochicham em meus ouvidos.

Você lembra? Sentados em roda na sala da tua casa na Av. F.A.B NÓS chorávamos sorrisos da mais genuína satisfação, posto que nos víamos nos sentíamos e nos amávamos poetas. Eu era o ancião do Grupo. O cara que estava ali só de passagem. Eu já sabia de cor e salteado a trêbada cartilha de Baco. Vocês, não. Eram imberbes. Franguinhas do primeiro ovo. Efebos. Putinhas de primeira quaresma. Seminovos! Semivirgens! Léguas de possibilidades escancaradas à frente.

Eu sabia, Osmar. Te juro que eu sabia que tu não mudarias de voz sem que teus talentos fossem todinhos eles vistos e revistos à exaustão. Sabia que teu nome ficaria escrito ad æternum no mármore das sapopembas dos ipês e samaúmas deste norte daqui.

O Amadeu (ou teria sido o Zé?) oraculou naquela tarde. Disse mais ou menos estas palavras: “vai chegar o dia e este dia virá em que cada um de nós irá proclamar o evangelho na sua peculiar maneira. Cantará sua própria modinha! E as montanhas dançarão até cair no mar!”.

Poetas Osmar Jr., Obdias Araújo e Bruno Muniz. Foto: Arquivo Pessoal do Obdias.

Hoje por volta das treze horas ainda havia metade da Baía de Macapá para vencer e eu lia o livro do Bruno Muniz. Moleque bom! Mais um que chega! Fico feliz à beça quando sou testemunha da surgimentação de um novo Poeta. Novo, não. O Poeta sempre esteve lá. Atemporal e belo. Magnífica gema que o soluçar dos tempos irá lapidar. O Bruno Muniz bem que merece este parêntese.

O sofrimento, meu poeta, o sofrimento cansa. O desamor, a perfídia, a traição te solapam por debaixo. Vêm das florestas intocadas e dos abismos subterrâneos. Das colinas do Strong Foot. Das masmorras dos anjos decaidos. Senão, como explicar o fato de que as canções expressas em tom relativo menor são as que tratam de angústia, solidão, tristes adeuses, desilusões e infidelidades?

Houve um tempo em que minhas dores eram de cristal. Acho que te chorei sobre isso. Meu coração estava todo pichado de tanto gemer! As meninas jogavam seus patacões sobre ele. Pulavam macaca nos meus sentimentos.

Hoje isso tudo mudou. A trilha musical de minha vida é tudo o que eu queria. Um acorde perfeito maior.

Uma angelina mulher de todas as idades desenha cafunés em minha cabeça. Tatua meiguices em meu grisalho coração. Ela é branquinha como a branca lã desfilando a sua tez amorenada pelo Saara de seus antepassados.

Você, Osmar, é um poeta no mais sublime conceito desta palavra. Você é humano! Revolucionário! Formalmente bom!

Você é Macapá! É Lino e Waldir Lira! Pavão e Dona Onça! Zé Crioulo e Pintão!

Agora, Poetinha, vou rezar um terço e dormir. O Scania 650 Horse Power respira alto um interminável mantra qume induz ao sono. Amanhã te falo do cardume de guarás voando baixo demandando o ninhal.

Por tudo isso que te digo, sei do impossível de conjugar o verbo Poesia sem lember teus versos. O resto, eu não conto. Metam as unhas na argila do Cassiporé! Țá tudo lá!

-Sem mais para o momento, vai para ti um beijunda deste velho de embornal vazio. Deste menino com olhos de goiaba. Deste poeta que soluça ternura.

-Teu fã e amigo
OBDIAS Alves de ARAÚJO.

História do Kairo Moto Taxi o Melhor de Macapá!!! Diretamente de Mazagão!

Kairo – Foto: Maksuel Martins

Uma crônica de Kairo Moto-taxi

Depois de um longo tempo sem contar minhas histórias estou retornando, mas Kairo, porque estava sumido? Isso é fácil de explicar! Eu estou focado na faculdade, TCC, Estágios outras 7 ou 8 matérias que confesso que nem sei o nome de todas, tive que parar um pouco e centrar, simplesmente porque eu sei onde quero chegar e vou conseguir, vocês me entendem! Afinal meu sonho depende desse momento, lembre-se que “Depois da chuva, vem bonança”. Agora estou de férias, o que talvez meus professores e coordenadores ainda não saibam, mas eu me dei férias, meu curso minhas regras. Pah !!!

Lazer? quando falamos em lazer lembramos logo de domingo e essa história é de um domingo maravilhoso, daqueles que o sol está deslumbrante e o céu parece que foi pintado à mão, o vento e o balanço das árvores estão na mesma sintonia dos cantos dos passarinhos e os típicos desenhos nas nuvens estão lá esperando por sua imaginação. As ruas? nossa! Parece que não vivemos em Macapá, o trânsito organizado, as pessoas trafegando com calma e paz, como se o relógio não existisse, como se o amanhã não fosse chegar. Pra mim moto – taxista, é um dos melhores dias para se dirigir, até porque as melhores ruas (asfaltadas) estão vazias, claro que não são muitas as ruas boas de nossa cidade, 5 ou 10 no máximo, o resto está do jeito que tá.

Eu vinha na rua Padre Júlio, devagar, sem pressa alguma, sentindo o vento no rosto e o sol no corpo, estava vindo no sentido CENTRO/ALVORADA, ao chegar próximo ao 34º BIS, na parada de ônibus, vi uma moça, sentada, de certo ia pra Santana pensei, fui me aproximando e a moça se levantou, logo meu coração se alegrou, corrida pra Santana é uma raridade e é um dinheiro bom, tirando é claro os buracos das ruas de lá e o engenheiro de trânsito que anda complicando a vida dos santanenses ( mas ele é profissional, não somos dignos de reclamar). Ela timidamente acenou pra mim e eu com o meu grande sorriso me aproximei.

Os Cabelos tinham uma cor natural, um cinza de causar inveja a qualquer um, era fácil de notar que não era pintado pelo simples fato da raiz do cabelo combinar com o resto e as pontas estarem super bem hidratadas (cabelo pintado é uma desgraça pra deixar pontas duplas, nunca vi!), no cabelo um laço vermelho Carmin com alguns arames dourados, os arames davam forma a um laço perfeito, olhos claros um tom à menos da cor de mel, mas existiam raízes escuras no olhos da moça, sabe quando você olha microscopicamente para um olho humano, era desse jeito, só que sem o microscópio, o nariz era o que a minha avó chamava de Afiladinho (o que ao meu ver é um nariz proporcional ao tamanho do rosto), usava um brinco simples, um única pedra (imitação de um diamante, já tinha visto um idêntico nas lojas de bijuterias no centro), os lábios, esses sim chamavam atenção, ela usava um batom rosa pink, sabe aquele rosa que não é legal (Sei que é uma questão de gosto, mas eu não achei super mega legal para um look que ela vestia, achei que fugiu do contexto) era um rosa tipo de trabalho escolar ( pra facilitar a sua imaginação era o rosa das laranjinhas de morango, sabe? Aquelas que o tiozinho passa vendendo na rua da sua casa? Era esse tom de rosa!) Usava um colar daqueles que você compra no catalogo da Hermes, Aqueles que vem um coração e uma chave e você da a outra parte para alguém que você acha “especial” o que de fato me vez pensar que ela fosse comprometida, uma saia rodada (indiana envelope), presa por um único elástico na cintura, a saia ia até a ponta dos pés, e escondia uma tatuagem, um nome! (Se for o nome do namorado é mandinga, para que o bofe fique sempre aos pés dela, você não sabia dessa neh ? Rs) uma blusinha branca, sem detalhes, ela cortou a etiqueta (isso é fácil de notar, geralmente a etiqueta de blusas brancas são pretas e quando você corta fica um listra pretra na costura), uma sandalinha rasteira daquelas feita com coro de bode (25 reais no mercado Central) tirando o cabelo que era um pouco mais liso, poderia dizer que ela era parecida com Maria Bethânia, antes da fama é claro e antes da idade chegar.

Então ela me pergunta!

Ela: -Quanto o senhor me leva em Mazagão? (Meu coração bateu tão forte, se é bom ir pra Santana, imagina ir pra Mazagão).

Eu: (Com a voz tremula respondi) 45,00 reais, Boa tarde!

Ela: Poxa moço! Tá muito caro! Senhor poderia fazer um desconto?

Eu: Claro! Vamos por 40 reais, pode ser?

Ela: Poxa, ainda continua caro, mas eu estou desesperada, estou com muita pressa e a van vai demorar, então vou ter que aceitar.

Eu: Tudo bem, vamos chegar rapidinho.

Ela: vá o mais depressa possível!

Começamos uma conversa tímida, ela me falou que tinha um compromisso, algo relacionado a igreja. Engraçado que quando passamos o cabralzinho ela segurou na minha cintura, disse que estava com frio, achei estranho, o sol torrando na moleira e ela com frio? Perguntei:

Eu: – Você está bem? Tá doente?

Ela me disse que não, mas que era pra eu reduzir a velocidade, fiquei sem entender! Mas o mundo feminino têm dessas coisas, continuamos dentro da velocidade permitida, mas as vezes ela apertava a minha cintura, eu comecei a pensar que ela não tinha resistido ao meu corpo e de vez enquanto tirava uma casquinha! Mas a medida que íamos nos afastando da cidade ela me apertava com mais força e confesso que tenho um corpo sensível e já tava começando a doer aqueles apertos, mas continuei a viagem.

Em um determinado momento parei a moto porque já não aguentava ela me apertando, falei:

– Moça o que está acontecendo? Você tá me apertando!
– Ela respondeu em um tom de susto e timidez: Nada não senhor!

Eu: Como nada? Você tá pra quebrar meu espinhaço (vovó falava assim), tá doendo! Não sei se é fetiche!? Mas se for me avise pra eu entrar na brincadeira, porque sem saber parece mais agressão. Rsrsrs

Ela: desculpe, não foi minha intensão! É que eu tô com vergonha de falar mas acho que não vou aguentar!

Eu: Minha filha me conte então! Deus só trabalha nas coisas reveladas.

Ela: Eu tô com dor de barriga!!!

Nesse momento eu juro, juro que pensei que ela estava transportando drogas no estômago pra Mazagão, já imaginei ela vomitando tudo ali mesmo no meio da rua, a polícia chegando e até eu explicar que nariz de porco não é tomada eu já tava lascado.

Eu: Mana! Mas dá pra aguentar até sua casa? Estamos no meio do nada!

Ela: Moço, eu acho que não! Tô tentando segurar, tô morta de vergonha!

Eu: Xuxu, não fique com vergonha, todo mundo caga (Mas por dentro eu tava rindo litros), não se preocupe, vamos conseguir chegar.

O problema nessa situação é que o Cú tem uma espécie de GPS e a medida que vamos chegando perto de casa ou de onde vamos parar, vai apertando o negócio, vamos perdendo o controle da situação e eu comecei a imaginar a minha moto destruída de merda. Você já deve ter passado por isso, você chega na frente da sua casa, vai abrindo a porta, aí vai tirando a roupa, começa o desespero… kkkk ….só de imaginar eu me espoco na risada.

Resolvi então perguntar:

Eu: Xuxu, sei que não é legal mas tô vendo que você não tá bem! Estou preocupado com você!

Você já percebeu que nessas situações, essas perguntas, só aumentam a vontade ?

Ela: Moço, eu não tô aguentando! Me ajuda. O que eu faço, se eu chegar em casa assim meu marido vai desconfiar!

Eu disse: Oi? Hein? Como assim seu marido vai desconfiar?

Ela desconversou, mas aquilo ficou gravado no meu coração como os dez mandamentos ficaram gravados naquela tábua, pensei, vamos resolver uma merda de cada vez.

Perguntei: você acha que não vai aguentar?

Ela: Não moço! Não aguento… me ajude.

No caminho lembrei de um antigo matadouro de bois, fica bem próximo da fábrica de Coca-Cola, eu conhecia bem o local pois jogava Airsoft lá, então disse para ela que poderíamos parar e deixar fluir o fluxo normal da vida.

Ela concordou em ir, chegamos no local com ela se contorcendo parecia uma cobra! Ela disse que estava com medo de entrar sozinha, eu disse:

– Moça vai ser constrangedor pra ambos se eu entrar com você!

Ela: Mas moço eu tô com medo (com a aquela cara do gato de botas) me ajuda que eu te pago o valor que você quiser.

Eu: Moça, não é pelo dinheiro, mas vamos lá! (era pelo dinheiro sim).

Entramos no local, era cheio de Mato, tem várias construções abandonadas e à medida que eu ia entrando fui imaginando a merda que eu estava fazendo na minha vida “E se alguém visse eu entrando ali e chamasse a polícia” e ” se entra alguém ali” mas enfim… fomos!

Falei pra ela: Ali!!! Naquela casinha, ela correu em direção de lá como Forest Gump naquela corrida no começo do filme, corre forest, corre! Corre! Só quem assistiu vai entender essa referência, eu com aquele sorriso cínico no rosto pude escutar a miséria que ela fez ali dentro, meu Mano, o negócio tava tenso.

Sabe quando pato tá na lama e caga, era assim, só que pior, muitooooooo pior.

Eu ria, ria tanto, aquele riso em silêncio! Por dentro.

Afinal não poderia constranger a moça, ela já tava na merda.

Ela terminou mas aí então lembramos de um detalhe muito importante como ela ia se limpar?

Ela me perguntou: Moço! E agora?

Nessa hora lembrei de uma brincadeira de escola, gente juro que foi involuntário, mas eu fiz!

Respondi: Caga na mão e joga fora!

Até ela riu, rimos da situação, era o que restava.

Pensei, pensei… até que lembrei da flanela, disse: – Moça, a única coisa que eu tenho aqui é uma flanela!

Ela: Serve!

O problema é que minha flanela tava velha, e se você não sabe, fique sabendo. Flanela boa é flanela velha! Fiquei com pena de dar.

Mas não tinha outro jeito! E vinha a pior parte, entregar a flanela pra ela, iria vê aquela cena trágica, antes de entrar expliquei, moça! Você só tem um tiro!

Ela: tiro?

Eu: Sim! Pois só tem uma flanela, você não tem outra chance, então pense bem como vai fazer isso.

Fui, prendi a respiração e fui!

Mar menino, como pode uma menina com o rosto tão angelical fazer uma desgraça daquela, parecia que tinha 10 pessoas ali com ela. Nessa hora não aguentei e ri! Acabei soltando a respiração com o riso, ohhh fedor da miséria, será que ela tava comendo carniça?

Pedi desculpas!

Ela: Tudo bem! Eu no seu lugar também iria rir.

Eu: Moça, precisamos ir! Aqui pode ser perigoso.

Ela se limpou, acabou com minha flanela, viemos andando juntos, parecíamos grandes amigos, pra você vê como as situações unem as pessoas.

 

Ela começou a contar sua história… tinha ido de Mazagão para Macapá encontrar o Boy Magia (Amante), no motel ele pediu um tira gosto (coisa que eu acho muito estranho, cara vai no motel pra comer tira gosto) e ela pra não fazer desfeita comeu.

Ele não pôde deixar ela em Mazagão, porque segundo ela, o pessoal de lá é um tanto curioso acerca da vida dos outros e ao verem ela chegar em um carro diferente a notícia iria se espalhar que nem rastro de pólvora, então ela sempre faz isso, volta de van.

Ela: Moço! lá todo mundo sabe da vida de todo mundo, até o fato de eu chegar com você… todo mundo vai saber.

Eu: Curuzes!!! Tá nesse nível…

Ela: tá!

Eu: Mas você acha que vai lhe trazer problemas?

Ela: Não! Meu marido é bem compreensível!

Não aguentei e ri: Sei!

Ela: Moço e agora? Quanto você vai me cobrar por tudo isso?

Eu: Vai ficar 80 reais tudo!

Ela: Moço eu só tenho 50 aqui, quando chegar lá eu pego o resto com meu marido!

Eu: Mas ele não vai ficar chateado?

Ela: Não! Não!

Eu: Mas me dê logo esses 50,00 porque eu já passei por tanta coisa nessa vida que agora eu tô vilhaco.

Ela: ela me entregou os 50,00 e seguimos viagem.

Ela ia me agradecendo, dizendo que fui muito gentil, que nenhum outro motorista iria fazer isso por ela.

Eu disse: É… Gentileza Gera Gentileza!

Ela: verdade!

Já estávamos chegando no local onde ela disse que morava, infelizmente eu não posso descrever muito o local, porque a galera de Mazagão vai saber onde é e quem é a moça.

Mas era uma casa até bonita!

Parei a moto, ela entrou, voltou dizendo que o marido não estava! E por incrível que pareça era notável que os vizinhos estavam nos observando, estava me sentindo no Big Brother Mazagão.

Foi aí que ela me disse: Senhor não quer entrar? Vou só tomar um banho.

Eu disse: Não! Não! Só queria meu dinheiro mesmo.

Ela disse: Deixa eu te fazer uma gentileza!

Eu: Moça, eu te ajudei, só quero meu dinheiro e pronto.

Foi aí que apareceu o marido dela, estatura mediana, cabelo cortado estilo militar, olhos era bem fechadinhos, parece olhos de japonês, nariz bem fino, era um nariz com aquele osso bem no meio (parecido com o do Luciano Hulk) a barba por fazer, uma camisa do Brasil, a camisa tava velha já, uma bermuda preta, as unhas estavam horríveis, especialmente a dos pés.

Ela disse: amor! É um moto taxista.

Ele: Isso eu tô vendo!

Quando eu vi ele respondendo daquela forma pra ela eu descobri porque ela ia atrás do Boy Magia, ela com sorriso cínico, pediu para que ele pagasse o restante da minha corrida.

Ele: Mas pra onde você tava ?

Ela: Ela riu! Depois eu te conto.

Ele olhou pra mim com cara de raiva e disse: Eai cara! Quanto é que falta?

Eu: 30 reais, senhor!

Ele: Tudo isso cara? Pow tá de sacanagem?

Ela piscou pra mim, como se explorasse pra eu não contar nada.

Ele continuou reclamando, xingando, enquanto tirava o dinheiro da carteira.

Chegou perto de mim com a quantia e me entregou.

Eu peguei o dinheiro, criei coragem já com a moto ligada, em ponto de partida e disse:

Senhor, sua esposa vale muito mais que 30 reais, cuide dela, respeite e dê amor.

Afinal todo mundo recebe aquilo que oferece!

O homem ficou me olhando, como se não soubesse o que fazer e eu parti rumo a Macapá Cyte.

Fazendinha: bronzeado com manteiga, paquera e farofa (Crônica firmeza da @MarileiaMaciel)

Foto encontrada no blog Alcinéa Cavalcante

Por Mariléia Maciel

Domingo era dia de ir pegar um bronze na Fazendinha, a nossa praia inventada. Se fosse mês de julho, os preparativos começavam cedo pra poder pegar uma barraquinha, porque de tão lotada, os cotovelos se esbarravam, e não sobrava um só metro quadrado desocupado, nem cadeiras nos bares dos insuperáveis camarões no bafo. Era o roteiro mais procurado e o ponto de encontro dos que estudavam fora e só vinham aqui nas férias. Fazendinha era sinônimo de bronzeado e paquera, não tinha férias melhor que as curtidas no Macapá Verão.

Pra quem não tinha carro, nem dinheiro pra sentar em um restaurante, o trabalho era dobrado. Tinha que fazer farofa, arroz e alguma comida pra não passar fome antes de enfrentar uma quilométrica fila na praça Presidente Vargas pra entrar no Estrela de Ouro. Quem conseguia ir sentado era sortudo, ou tinha que ir pendurado no corredor que cheirava a comida ensacada ou algo parecido com suvaco abafado. Depois da longa viagem era preciso andar mais um estirão, porque o ônibus não descia até a praia, e ainda procurar um lugar pra estender a toalha e esperar ser atingida por areia jogada a cada instante.

Foto encontrada no blog Repiquete no Meio do Mundo

O buraco ainda não existia na camada de ozônio, então, quanto mais quente o sol, melhor. A moçada levava a sério o “deixa o sol beijar você”. Era um desfile de corpos lambuzados de bronzeador, mas também de receitas inusitadas, como manteiga, coca-cola e água oxigenada com amoníaco. Se deitasse na areia ficava no ponto pra ser fritada empanada pelo sol. Era raro quem tinha o “ Haito de Sol”. Na hora da fome começava o abre sacola pra tirar as marmitas e talheres pra comer ali mesmo, no meio da vuca que virava a Fazendinha após o meio dia.

Foto encontrada no blog Repiquete no Meio do Mundo

A cada verão criavam uma moda que pegava até a próxima temporada. Houve a época do violão na areia, das rodas de samba, da boate, do Acaraluando, que pra chegar tinha que atravessar o igarapé até o outro lado. Em umas férias uns amigos inventaram de colocar caiaques em Fazendinha. Formavam filas pra andar no solitário e apertado barquinho depois de pegar uma aula-relâmpago de como usar um remo com duas pontas e se equilibrar naquele barco que pra usar, tem que vesti-lo. E lá iam remando com o corpo tão próximo da água que dava pra ver de perto as vísceras que vinham do matadouro municipal e boiavam no igarapé que cruzava o amazonas.

Tinham também os medos que cada ano só aumentavam. Eu abandonei minhas aventuras de caiaque quando inventaram que nesse igarapé tinha uma pirarara com a boca tão grande que engolia um adulto de uma só vez. Ninguém ligava muito pra poluição ambiental, então não existia o medo de entrar no rio por causa de coliformes fecais, no entanto havia o medo do canal, que diziam que sugava quem chegava perto. Tinha ainda a draga que foi colocada no canal e que, disque, triturava gente.

Foto encontrada no blog Alcinéa Cavalcante

Mas o melhor de Fazendinha era a paquera. No meio da farofada, bronzeador e camarão, sempre tinha alguém pra namorar. Quando a tarde chegava ao fim era a hora de preparar a volta pra casa e reforçar aquele pedido de encontro mais tarde nas tertúlias ou na praça Zagury. Arruma tudo e enfrenta mais fila com o corpo tão ardido que quem desse um beliscão corria o risco de ser agredido.

As filas, o sol no couro, a areia no rosto, a pele ardida, os medos, as vísceras, tudo era recompensado nas memoráveis tertúlias do Macapá, Amapá Clube, Star Club e Círculo Militar, quando os encontros marcados eram concretizados e, com as marquinhas do bronzeado com manteiga, o beijo no portão estava garantido. No domingo seguinte, ninguém lembrava mais das dificuldades e repetiam tudo de novo. Assim acabavam os melhores domingos de verão em Macapá, quando as portas ficavam somente encostadas, as festas terminavam meia-noite e não havia aparelhagem nos carros.

Os motivos de eu escrever…(Republicado para alguns perguntadores entenderem)

Escrevo ao longo dos últimos 13 anos. Nove deles para este site, que já foi um blog. Sempre tento me ater a verdade. Redigir textos onde dados e fatos me levam. Com exceção de sandices, devaneios e contos, que são escritos mágicos para mim. Pois ficção exercita a criatividade.

Um dia, há aescrevendolguns anos, me perguntaram: “Elton, porque você perde tempo com esse papo de blog. Porque não faz algo útil com o tempo gasto nessa página de besteiras”. Neste instante, consegui evitar um surto psicótico e palavrões a esmo para o meu questionador.

Aí expliquei para o pateta porque escrevo. Escrevo porque amo a noite, futebol, samba, rock and roll, minha família, meus amigos e amo ser eu (com todos os defeitos e chatices), não necessariamente nesta ordem, claro. No meu caso, leituras alternativas tornam o dia menos tedioso. Principalmente quando tais escritos são sobre cultura em geral.

Gosto de usar um senso de humor cortante nos meus textos para este site, assim como muita nostalgia, sentimentalismo barato (que pra mim é caro), transformar relatos em memória da minha cidade, do meu estado. Vez ou outra, até fazer velhas piadas com novos idiotas, ser um tanto antipático, chato ou adorável encrenqueiro. E sempre amoroso com minhas pessoas do coração. Sim, gosto disso.

fantasmaCerta vez, li a frase: “escrever não é desistir de falar, é empurrar o silêncio para fora”, do poeta Fabrício Carpinejar. É esse o papo mesmo, escrever é uma válvula de escape, vicia e extravasa.

Escrevo até sobre o que finjo que acredito. Sabem aquelas pequenas porções de ilusão e mentiras sinceras de que o Cazuza falou? Pois é. Às vezes, detritos do cotidiano, grandeza desprezada, coisas bobas que parecem socos na cara, é bem por aí.

Mas gosto muito mais de escrever sobre o amor, sobre atitudes legais, sobre manifestações pública de afeto e sobre pessoas admiráveis. Falar ou escrever sobre positividade é tão melhor.

Antes redigia um texto ou mais por dia e com muita facilidade. Agora, a falta de tempo e os períodos de entressafra de inspiração tornam os autorais mais raros. Quem dera fosse só querer e baixasse o espírito de Rui Barbosa, Charles Bukowski, Mário Quintana, Drummond ou o meu amigo Fernando Canto, e eu começasse a redigir como um gênio. Seria firmeza. Acreditem, um dia lançarei um livro de crônicas e contos.

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Em tempo, escrevo para não deixar meus pensamentos parados. Queria poder escrever como Carlos Drummond de Andrade, que disse: “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos ,na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.”

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Como não dá, sigo rabiscando minhas certezas, achismos, incertezas, chatices, amor, entre outro tantão de coisas que vivem neste meu universo particular que gosto de expor aqui. E fim de papo.

Elton Tavares

 

As palavras vivas! – Crônica de Jaci Rocha

Crônica de Jaci Rocha

São 21h23 no relógio de bordo de painel. Olho para o carpete do carro e vejo pontas de um jornal amassado por debaixo do tapete. Algo incomoda na cena: sei, são apenas recortes de jornal.Com palavras aleatórias, esquisitas. Aliás, mesmo juntas, não fazem sentido! sim, o abecedário inteiro está ali, desperdiçado.

Explico.

Não gosto de palavras mortas. Gosto de poemas, pois as palavras voam e se eternizam. De canções, pois elas dançam. Gosto de palavras como: Quintal…

Eu caibo inteirinha em um quintal.
Ou em uma varanda.
Um varal.
Poesia…
Coração.
Amor. 
Abraço.
Saudade.
Oração…
Felicidade!

Palavras nos chamam para dançar. Aliás, gosto de gente que baila com as palavras e forma mundos. Por isso, o amor pela literatura. Paixão antiga: Lembro que me apaixonei pelas palavras através do uso do dicionário, algo vivo e divertido, pois me foi apresentado como riqueza, e como era bonito ver no olhar de meu pai a alegria por ensinar o valor e o significado das palavras. Por outro lado, nunca gostei de quem fala difícil para esconder a mensagem. Mensagem tem de ser coisa clara, bem dita, eis outra palavra bonita: Bendita.

Também não gosto de gírias de laboratório, aquelas criadas por agências de publicidade para testar seu poder das “massas”. Aquelas coisas atuais,meio grotescas. Falta à elas a originalidade do impulso criativo. Mas acho bonitas as regionalizadas, as criadas sob contexto e acho que tem que ter atitude para sustentar um bom vocabulário “sujo”.

Pensei quantas palavras já usei e quantas me valeram, as muitas palavras repetidas, geralmente as minhas preferidas…e no quanto certas palavras nos levam diretamente à lembrança de algumas pessoas. É como uma playlist linguística!

…Olho novamente o jornal, na parte debaixo do banco.

Retiro aquela coisa estranha de lá, mais parece um corpo, morto, no porta-malas. Graças a Deus não tenho estes instintos (rs). São só palavras. Só? Não. São palavras! as amadas palavras, letrinha por letrinha de um alfabeto, dispostas aleatoriamente. Confesso que isso me dói um pouco, a prostituição da palavra: “Vendo palavrinhas rasas,em textos pequenos,para leitores amenos” – é o título do jornal.

Se você chegou até aqui, neste texto com bem mais do que 140 caracteres, sabe como é chato coisas resumidas. Aquela coisa espremida no espaço.

É que bom mesmo são versinhos à vontade, em meio a rua, praças,nuvens… é, sou daquela gente que escreve para se salvar do mundo. Sou da ‘tribo’ que quer que a mensagem chegue, se aconchegue, faça coisas bonitas no corpo das pessoas.A roda que se salva e se enamora, por isso escreve…aliás, pensa em outra palavra amada: E….s….c….r….e….v…e….r….

A falta que o Projeto Botequim faz nas terças-feiras de Macapá

Foto: Amapá da Minha Terra

Hoje é terça-feira e por mais de 20 anos, nas terças, o macapaense tinha uma opção cultural: o Projeto Botequim. Realizado de 1994 a 2016 pelo Serviço Social do Comercio (SESC – AP), por mais de 20 anos a iniciativa fez a alegria dos amantes da música na capital amapaense.

Dos anos 90 até a primeira metade da década seguinte, o projeto rolou no Sesc Araxá e posteriormente, o Botequim migrou para o Sesc centro. Há uns dois anos, nós, notívagos de Macapá que adoramos boas canções, arte e cultura, ficamos órfãos dessa opção, extinta pela atual administração do Sesc.

Conversei com músicos, frequentadores e servidores do Sesc, eles disseram que o Projeto não dava prejuízo e nem lucro. Então por qual motivo o Serviço “SOCIAL” do Comércio acaba com um bem tão importante para o comerciário e para a sociedade como um todo como o Projeto Botequim? Perguntei a eles e responderam:

“O Sesc promove exposições, festivais, saraus sobre tema populares às nossas múltiplas culturas, realidades e sociedades. Na área musical realiza eventos para levar ao público instrumentos e ritmos que traduzem um universo rico e genuíno. No Estado do Amapá, gerou o Projeto Botequim, que ofertou por mais de 20 anos oportunidades aos artistas locais um palco para expor sua arte e a população à oportunidade gratuita de apreciação da melhor produção cultural musical tucuju.

Em 2017, infelizmente, o Botequim ainda não teve continuidade, visto que aguarda aprovação do Departamento Nacional com o custeio e apoio financeiro para subsidiar o referido projeto. O Regional Sesc Amapá continua com o compromisso na difusão da cultura, principalmente na modalidade de música, através dos demais projetos: Sesc Canta, Sonora Brasil, Sesc Partituras, Aldeia de Artes Sesc, Amazônia das Artes e Saraus para as todas as tribos (Em 2018 idem!).  

O regional Sesc Amapá, principal agente a querer o retorno do projeto, segue trabalhando para voltar a celebrar a cultura amapaense por meio de tão bonito e importante projeto”.

Bom, é verdade que o Sesc segue no trabalho cultural descrito aí em cima, mas será que precisava mesmo extinguir o Projeto Botequim? Será que um espaço tão importante para jovens talentos amapaenses, com uma nova programação realizada semanalmente, precisava deixar de acontecer? Tinha que cortar na carne logo essa iniciativa essencial para a inclusão de novos músicos, que agora não possuem um evento tão necessário. Ali sempre foi sucesso de público e crítica. Sim, pois o Botequim vivia lotado.

Era sempre assim, de 20h à meia-noite das terças-feiras, sabíamos para onde  ir. A gente amava o Projeto!

E assim como o Botequim, as boas práticas de Macapá parecem ter um prazo de validade. Os bares com o modelo violão e voz já são escassos nestes tempos.

Espero realmente que o Sesc volte com o Projeto Botequim nas terças -feiras e que o órgão volte a ser um agente de democratização do acesso à cultura semanal. Não se trata somente de entretenimento e diversão com educação, mas a promoção de cultura com qualidade como sempre foi e não deveria acabado.

Eu sempre divulgava e ia ao Sesc nas noites de terça desde 1994. Fica a nossa crítica e apelo para que o Projeto Botequim seja retomado o quanto antes. E fim de papo.

Elton Tavares

*Republicado por hoje ser terça-feira.