A Operação – Conto de Jaci Rocha sobre o apagão no Amapá -Égua-moleque-tu-é-doido!

Conto de Jaci Rocha sobre o apagão no Amapá

Devem ter caluniado Thor, pois logo após acordar com uma p* dor de cabeça, tomar a água mais gelada que poderia ter em Asgard, foi surpreendido com uma Operação da Polícia Intergaláctica.

Ao que parece, acusaram-no de, em meio a uma bebedeira, arrumar confusão em uma taverna, com dois ou três ‘mau elementos’ e soltar seu martelo sob eles. Segundo a acusação, no retorno, ao que parece, seu martelo bateu nos céus de Macapá.

Macapá na noite de terça-feira (3/11) – Foto: Aog Rocha

Acusaram Thor de perturbação da paz social e descumprimento das normas de boa convivência entre os mundos. Diziam que, ao cair sob os céus de Macapá, um de seus raios recaiu sob uma subestação de fornecimento de energia elétrica para a cidade, causando um enorme incêndio, o que deixou 800 mil brasileiros no escuro.

Levado à Superintendência da Polícia Federal em Macapá, na Zona Norte – oitiva só possível graças a uma deportação intergaláctica – negou veementemente o feito.

Explicou que retornou para casa e que lembrava-se de portar seu martelo, intacto, e que, embora ébrio, na noite anterior, sabia que não chegou a resvalar seu martelo sob a cidade. Alegou absoluta inocência.

Macapá na noite de terça-feira (3/11) – Foto: Aog Rocha

Não negou, entretanto, a enorme briga e o uso de seu indispensável elemento de defesa e ataque. Pesou em desfavor do Deus do Trovão a enorme chuva torrencial que recaiu sobre a Cidade.

Infelizmente, não foi possível aferir as alegações de Thor, mesmo porque, sem energia, a cidade de Macapá perdeu seu pequeno elo com o País Brasil – ‘o que dirá’ com os demais mundos.

A OAB compareceu para pedir autógrafos. Autoridades também pediam seu minuto de ‘sol’, sob o céu do Deus do Trovão. Ao que parece, apenas a Polícia Técnica e Científica dos mundos compareceu mesmo ao local do suposto incidente .

Após 10 dias convivendo sob forte opressão e reprimendas públicas de todos os Universos, isso sem contar as pragas e maus dizeres de mais de 800 mil amapaenses, soube que finalmente concluiu-se que não havia possibilidade de Thor ter influenciado no incidente.

Em verdade, a polícia científica intergaláctica concluiu tratar-se de falha na manutenção do local, ou seja, de eventual possível irregular prestação de serviços, o que é mais comum do que parece, naquela pequena província do Brasil.

Mjolnir, o martelo de Thor – Foto: site Hypescience.com

Apesar da prova conclusiva em seu favor, o martelo de Thor permanece apreendido na Superintendência da Polícia Federal. O decurso do Inquérito permanece em andamento, mas será remetido no prazo de 90 dias à Superintendência da Polícia Intergaláctica: Burocracias de um mundo onde a magia fica quase esquecida, dada a aridez de existir.

*Referências ‘devem ter caluniado’, extraídas do livro ‘O processo’, de Franz Kafka.
**Jaci Rocha é poeta, contista e advogada.

Frases, contos e histórias do Cleomar (V Edição Especial Coronavírus, Política e Apagão)

Tenho dito aqui – desde fevereiro de 2018 – que meu amigo Cleomar Almeida é cômico no Facebook (e na vida). Ele, que é um competente engenheiro, é também a pavulagem, gentebonisse, presepada e boçalidade em pessoa, como poucos que conheço. Um maluco divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade, além de inventor do “PRI” (Plano de Recuperação da Imagem), quando você tá queimado. Quem conhece, sabe.

Em 2020, assim como a primeira, de março passado, a segunda de maio, a terceira em junho, a quarta em agosto, segue a V Edição Especial Coronavírus (agora com campanha política e apagão), cheia de disparos virtuais do nosso pávulo e hilário amigo sobre situações vividas e legendadas por ele mesmo. Boa leitura (e risos):

Arroz caro

A única certeza em aniversário na casa de pobre é o risoto, nessa caristía, a gente fica como?

Não vem de garfo

Tu pedes aquele combo de sushi, na esperança de que a falta de habilidade da moçada com os “pauzinhos” amenize o desespero na hora de comer, quando tu te espantas, tá todo mundo de garfo. Oh raiva!!

Máquina de lavar

Aqui em casa é assim, se vc esqueceu algum documento no bolso da calça, procure na máquina de lavar, se esqueceu cartão do banco, pen drive, chaves, procure na máquina de lavar. Agora se vc esqueceu algum trocado no bolso, te despede dele meu amigo, já era! Vou trocar essa máquina, ela tá de malandragem pra cima de mim!

Planos frustrados

Fiz tantos planos pra essa semana. Não ganhar no Amapacap jogou todos eles na merda.

Carne e risco de infarto

Aí tu vais cedo no mercado, escolhe aquela paulista bonita, capa de gordura certinha e pede pra patroa fazer um assado de panela ao estilo Ana Maria Braga. Trabalha a manhã toda pensando na gostosura que aquilo vai ficar. Na hora do almoço a decepção, na panela, a carne que vc comprou não existe mais, está limpa, sem um grama de gordura, sem brilho. A explicação: A carne tava muito gorda, tirei a gordura, vc vai acabar infartando. Vou sim, se tiver umas três raivas dessa na semana, com certeza eu infarto.

Calor

Hoje em Macapá a temperatura a tarde era de 39 graus, a sensação térmica era de que o capeta tinha tomado posse de tudo.

Pira

Tem dois dias que tô com uma coceira na palma da mão, minha mulher diz que é dinheiro, eu digo que vou no Dr. Palheta amanhã, acho que é pira mesmo.

Racismo

Só pra vocês ficarem espertos, tem uns preto aí, que tem raiva de preto, tipo aquele preto do DiCaprio no filme Django.

Linguajar

Nortista, quando fica nervoso e não sabe o que falar, manda logo um “eiiiita”.

Vacina

Eu tô parece a vacina de Oxford esse mês, achei que ia arrebentar e já me apareceu um monte de problema.

Sobre tomar ou não a vacina, se vcs não quiserem é até melhor. Menos gente pra vacinar, chega mais rápido pra mim.

Dinheiro e felicidade

Não posso perder o Globo Repórter de hoje, o tema: Menos dinheiro, mais felicidade ! Menos dinheiro eu já tenho…

Tratamento

Homem se apaixona sim pela forma que é tratado. Experimenta tratar que nem um fdp pra ver se a gente não gama.

Balanço do ano

Tivesse eu vinte cus, poucos seriam pra tomar neles em 2020.

Aporrinhação

Aqui em casa não existe esse negócio de “sem aporrinhação”. Aqui a gente resolve as coisas com aporrinhação, e muita.

Apagão

Precisou de um apagão pra tu perceberes que o cara da vendinha do bairro, o dono do posto de combustível, o do grande supermercado e até a dona do salão de beleza, estão cagando pra tua agonia.

Alguém sabe me dizer se a história de “Os humilhados serão exaltados” vale pra amapaense, ou também estamos fora da promoção?

Maior prejudicado fui eu, que perdi 5 kg de tamuatá nessa frescura de ficar sem energia.

Beleza

Se tivessem me falado que essa eleição ia ser na base da belezura, teria me candidatado. Garanto que não ia ser o fona.

Política

Se o Guaracy prometer que vai cuidar da cidade, com o mesmo carinho que cuida dessas sobrancelhas, meu voto tá garantido.

Só a nível de esclarecimento, o debate entre os candidatos à PMM ficou pra depois das eleições? É isso mesmo?

Ninguém lembra do Pastor Everaldo do PSC, aí tu falas: Aquele que peidou! Na hora todo mundo se lembra.

Tem uns candidatos que são até bem mais ou menos, aí tu vais ver os apoiadores, foooolêgo! Dá vontade até de rasgar o título de eleitor.

Auto-conhecimento

Quando vejo as merdas que eu postava a cinco anos, penso que eu era retardado. Quando vejo as que posto hoje, tenho certeza.

Comentários nas mesas de Bar (no período que antecede as Eleições)

No bar a gente resolve os problemas do mundo todo em algumas horas, regados a muita cerveja e teorias mirabolantes. A filosofia de boteco é ampla, mas nestes tempos de campanha política, o pessoal questiona, critica, engrandece, crê, descrê etc. Sim, não só no boteco, mas nas tocas, nas ruas, nos becos, escritórios, gabinetes etc. Mas bom mesmo é no botequim.

Entre uma conversa e outra sobre todo tipo de candidato, várias opiniões são emitidas nas mesas. Entre os muitos comentários impublicáveis sobre o dia-a-dia destes tempos estão:

“Aquele limpeza!”; “Mais puxa-saco logo”; “Me rouba logo!”; “Tudo mentira, que eu sei!”; “Tá escrevendo e falando merda”; “Depois de velho, se expõe ao ridículo”; “Tá, pra caralho!”; “Logo tu, surucucu”; “Me admira de ti”; “Até tu, rapá?”. “Fulano é traíra” e por aí vai (risos).

Ou como disse a poeta Patrícia Andrade: “isso sem falar nos caras que viram candidatos, mesmo… às vezes amigos da gente, achando que vão mudar o mundo… Chega lá, o mundo acaba mudando os caras. Ô, tristeza!“. Verdade, Pat.

Como sou do grupo sem grupo algum, dou risada e mais escuto do que falo. Realmente, me divirto. Pois convenhamos, esse período é hilário e acho muito porreta ouvir as estratégias, “engenharia política”, planos malucos, alianças inusitadas, probabilidades impensáveis dos cientistas políticos bêbados e profetas embriagados.

Elton Tavares

“Trovão Azul”, o Chevette do Bruno (uma crônica minha sobre um carro, amizade e boas lembranças)

Trovão Azul, o chevette do Bruãno

Ao procurar curiosidades sobre a data de hoje, li que o último Chevrolet Chevette, carro da General Motors que foi lançado no Brasil em 1973, saiu de fábrica em 12 de novembro de 1993. E lá se vão 27 anos.

Meu pai teve esse modelo de automóvel. Aliás, meu velho possuiu dois Chevettes: um branco, que comprou zero Km na Sevel, todo bonitão, com painel emadeirado e tudo, e outro na época de vacas magras, amarelo e todo corroído, que apelidamos de “fuinha”. Era horrível aquele carango!

Mas sobre Chevettes, lembrei mesmo foi do “Trovão Azul” (em alusão à série de TV na qual um helicóptero era chamado assim), o carro do querido amigo Bruno Jerônimo. A gente aprontou muito naquela viatura de doidos.

O Trovão Azul era igual a coração de mãe, sempre cabia mais um maluco. Ali não pegava mau olhado, era protegido por São Raul Seixas e devidamente defumado. Bons tempos aqueles do Chevette do Brunão, Quiosque Norte Nordeste (na Praça Floriano Peixoto), da antiga turma.

Meu velho amigo Brunão.

O Trovão Azul não tinha acessórios e nem ar condicionado. Nem era superconfortável, mas todos queriam andar naquele Chevette. Ora, senão!

Lembro de uma vez que íamos, eu e Bruno, para a casa da Giselda, lá no Boné Azul, era niver da Luíza, filha dela. Dois motoqueiros bateram com capacete em cima do Trovão Azul… deu muita raiva, quase sai porrada, mas eles foram embora. “Tantas emoções”, já diria o Roberto Carlos.

Ilustração de Ronaldo Rony

O Trovão Azul percorreu Macapá e nos levou em várias aventuras e poucas desventuras. Ele era um carro velho, mas cheio de histórias bacanas, totalmente impublicáveis.

Os anos passaram, o Brunão vendeu o Trovão para o Samuel (que o transformou num Chevette de playboy), as coisas mudaram muito, cada um da velha turma cuidou de si e a vida seguiu.

Naquela época, a gente vivia contanto moedas para nossas reuniões etílicas regadas a rock. E isso é uma lembrança feliz. E como é!

Livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bençãos e Canalhices Diárias” – Foto: Flávio Cavalcante.

*Do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bençãos e Canalhices Diárias”, de minha autoria,lançado no último dia 18 de setembro. A obra tá linda e está à venda na Public Livraria ao preço de R$ 30,00 ou comigo. Contato: 96-99147-4038.

Elton Tavares

A chegada do Banana no céu – Crônica de João Lamarão (contribuição de Fernando Canto)

Banana – Foto: Chico Terra

Por João Lamarão

Um mês já havia se passado daquela noite fatídica, tempo mais do que suficiente para que os tramites burocráticos do Purgatório se processassem normalmente, contando é claro, com o jeitinho brasileiro, instrumento fundamental para que qualquer processo corra rapidamente em qualquer lugar e o Banana foi autorizado a ingressar no átrio que dá acesso a porta do Céu. O ambiente normalmente tranqüilo, nesta hora estava altamente congestionado. Filas intermináveis, parecia mais com o pronto socorro durante os finais de semana do que a ante-sala do Paraíso.

Como era de se esperar, a situação mexeu com os brios do Banana que esbravejou aos quatro cantos que aquilo era uma esculhambação geral e que até ali, não havia respeito com as almas que aguardam a redenção eterna, por isso, iria se queixar diretamente a Ele. Deus, seu amigo intimo, que já o salvara de poucas e boas, de forma que a BACOL não deixaria aquilo barato.

Antigo Bar Xodó

Em um cantinho apertado, tipo 3×4, pois o preço do aluguel no Céu está pela hora da morte e onde foram implantadas as modernas instalações do Xodó Celestial, várias almas disputavam uma vaga no exíguo espaço a fim de conseguirem tomar uma cerveja geladinha enquanto aguardavam a vez de serem chamados pelo assessor especial de São Pedro, um negro alto e forte, ar de bonachão, que pela sua estatura sobressaia a turba, impondo respeito ao ambiente. Era nada mais, nada menos que o Pururuca.

Numa área reservada àqueles do regime semi-aberto que podem sair e entrar no Céu a qualquer hora, ao redor de uma mesa estrategicamente colocada, Paulão, Waldir Carrera, Marlindo Serrano e Bode, jogavam conversa fora. Faziam conjecturas de como estava a vida pelas bandas daqui de baixo, se haveria ou não carnaval, se a micareta na orla seria liberada, entre outras coisas.

O saudoso Albino Marçal, dono do Xodó

Pela parte interna do balcão de mármore branco italiano, entre santinhos, velas e terços postos a venda, o Albino muito p… da vida meio a confusão peculiar, reconheceu nosso amigo ao longe, perdido meio a multidão e esbravejou:

– P.Q.P., taí o motivo da minha cuíra. Acabou o nosso sossego. Vejam quem acaba de chegar prá me aporrinhar.

Todos se viraram rapidamente na direção indicada. A alegria foi geral e imediatamente uma festa foi armada para receber o novo hóspede, gerando grande confusão, todos ávidos por notícias da terra, uma vez que por aquelas bandas não tem televisão e nem pega celular. Sabedores de que o Banana era onipresente, conseguia a proeza estar em vários lugares praticamente ao mesmo tempo, teria portanto, muita informação a dar.

Passada a euforia inicial, as coisas foram acalmando, mas ao largo, um grupo de almas francesas xingava até em patuá, a falta de organização do ambiente, exigindo providencias urgentes. Ao fundo, uma voz em fluente francês tentava acalmar o agitado grupo dizendo:

Franky de Lámour

Monsiers et mademoiselles, calma, calma… aqui as coisas são assim mesmo. Não se preocupem que vou ajeitar tudo pra vocês. Se há necessidade de dar um jeitinho, daremos; para isso, sou a alma certa, conheço todo mundo aqui no pedaço; tenho até autorização do Todo Poderoso para trabalhar como lobista e, mais rápido do que o pensam, vocês estarão rezando um terço com Senhor. Mas antes, preciso de um adiantamentozinho prá molhar a mão do porteiro.

Ouvindo isso e intrigado com a presença de tantos franceses, o Banana virou-se rapidamente e deu de cara com nada mais nada menos que o Franky de Lámour que tentava resolver a questão:

– Franky, que bagunça é essa, cara? Aqui não é o Céu, onde tudo é mil maravilhas?

– Não Banana! Aqui não é o Céu, aqui é Caiena.

– Valha-me Deus! Dancei.

João Lamarão

*”Essa crônica sobre o Banana é antológica. Foi escrita pelo nosso parceiro João Lamarão, engenheiro e escritor que também já foi pra Caiena, infelizmente. Ele é o autor do livro “No tempo do Ronca,- Dicionário do falar Tucuju”. Essa é uma singela homenagem àqueles que fazem parte da vida macapaense e que partiram deixando saudades e para não esquecer o quanto ele também fez parte de nossa história. Sua simplicidade, bom-humor (às vezes mau-humor, mas sem ser grosseiro) e profundo amor por esta terra” – Fernando Canto.

**Fotos encontradas nos blogs “O Canto da Amazônia”, do Chico Terra e da Sônia Canto.

JABUTI NÃO SOBE EM ÁRVORE – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Paulo lopes Paulinho Lopes, piloto dos bons, já guiou políticos e jornalistas por sobre a imensidão da selva amazônica, sob o azul do céu amapaense. É daqueles profissionais da aviação que também já passaram por muitas situações de perigo embaixo de trovoadas e turbulências, na calma, levando passageiros e aeronaves a seu destino.

Sempre que posso encontro com o dito cujo no bar do Abreu. Conversar com ele é desopilar o fígado, pois o seu repertório de piadas e citações e tão grande e renovado que ninguém aguenta. Toda vez tem alguma coisa nova para contar, isso quando ele não inventa suas próprias anedotas tirando sarro dos frequentadores que ficam do lado de dentro do balcão do bar. O baterista “Bolachinha” é o seu foco predileto, juntamente com a sua famosa acompanhante “batgirl”. Expressões como “Tá tudo escorrendo bem?”, “Teu borga” já fazem parte do “dialeto” ali falado, no qual as frases fesceninas ou mesmo consideradas chulas fazem parte de um repertório que até dicionarista vai lá beber na fonte.

A assistência ri das frases mais eloquentes e das mais óbvias. Ele conta, por exemplo, que um migrante chamado Ivan Macaco convidou o Mapíngua para ir trabalhar em Caiena: “- Bora pra Caiena, rapaz, que lá o dinheiro tá correndo solto.” E o Mapíngua respondeu: “ – Tu é doido, é? Se aqui em Macapá que ele tá parado eu não consigo pegar ele, imagina lá em Caiena…” O repertório do homem tão grande que a gente se esquece de muitas histórias.

Ele eventualmente filosofa ao dizer assim: “Dá a razão para quem não tem, porque quem tem não precisa”. É uma forma de “equilibrar a balança”, diz o mestre. Por outro lado traz novidades do seu amigo, o professor João Maria Barros, que conceitua cultura como “tudo aquilo que você consegue lembrar depois de esquecer tudo aquilo que aprendeu”. Paulinho faz releituras e intertextualidades de expressões muito usadas por estas plagas como “Meu nome não é osso para andar em boca de cachorro”, e as remete para “nem milho para andar em bico de galinha” ou “nem ração para andar em boca de porco”.

Mas é nos apelidos puxados pela sua memória que a assistência ri e informa outros bem engraçados. Para todos há uma história singular como os magrinhos que ficaram marcados pela alcunha de “Carapanã de Cueca”, “Filé de Gia”, “Filé de Borboleta”. Os mais feios são apelidados de “Sapo Virado do Avesso” ,“Caranguejo de Ganho”, porque são baixinhos e magros, “Cabelo de Boneca Velha”, “Bibelô de Funerária”. “Abelha”, “Pavulagem” e “Rolha de Poço Artesiano”, são interessantes, assim como os impagáveis “Diabo Assado” e “Tamaquaré no Choco”.

Logicamente que sob uma análise mais acurada esses apelidos denotam preconceito, e até discriminação e racismo. Mas como no ambiente de bar o que é sociológico não se mensura por categoria social ou freqüência estatística nessas horas, e sim pela alegria contagiosa que uma boa piada tem, os clientes riem e se congratulam aumentando o rol do anedotário que os homens criam para viverem mais alegres.

No bar o tempo passa rápido quando um bom contador de histórias como o Paulinho Piloto energiza o ambiente. E ali tem contadores como o Bira e o Aníbal Sérgio que entram na roda e nos tornam também possuidores desse élan que move a vida amapaense. Por isso mesmo o Paulinho conta até fábulas para que possamos meditar criticamente sobre a política local, como esta: “Dois compadres conversavam lá no rio Maruanum. O primeiro pergunta meio espantado. – Mas como o jabuti tá ali, compadre, se jabuti não sobe em árvore? O segundo responde. – Das duas uma: ou ele foi pra lá com a força da maré ou colocaram ele lá.”

* Do livro Adoradores do Sol – Novo Textuário do Meio do Mundo. Scortecci, São Paulo, 2010.

Desconfortáveis encontros casuais – *Texto republicado, pois sempre rola algo assim.

A arte de Ronaldo Rony

Encontro um velho conhecido.

Ele: “cara, você tá muito gordo!”. Eu, (em pensamento, digo eu sei caralho, vai tomar no cu!): Ah, cara, sabe comé, sem exercícios físicos, sem tempo pra muita coisa, muita cerveja e porcarias gordurosas (que amo).

Sem nenhum assunto, fico em silêncio.

Ele: virei médico e você?

Eu: sou jornalista.

Ele: ah, legal (com um ar de desdém que vi ao encontrar outros velhos conhecidos advogados, administradores, contadores, ou alguma outra profissão mais rentável).

Aí um de nós subitamente diz que está atrasado e marca uma gelada qualquer dia com nossas respectivas esposas ou namoradas e vamos embora. Com certeza, passaremos mais 10 anos sem nos falarmos, graças a Deus.

Elton Tavares

*Texto do livro “Crônicas de Rocha – Sobre bençãos e canalhices diárias”, de minha autoria.

Mundo cão – conto de Lulih Rojanski

Conto de Lulih Rojanski

Vestiu-se de Maria, donzela desamparada, vestido de laço e flor no cabelo, para ver a Banda passar. Ninguém, nem o Batman, quando passou atrás do trio elétrico, alisando as flores de seu vestido com um olhar de sarjeta, suspeitou de que aquela fosse a identidade secreta da Mulher Gato.

Do meio da profusão das marchas do carnaval, o Superpateta encontrou o olhar I believe in angels de Maria, a donzela desamparada, e não soube jamais explicar por que, naquele instante ad infinitum, desejou ser um Negro Gato de arrepiar.

O Negro Gato passou no meio da Banda, entre Frajolas e Mandachuvas… grisalho, quase calvo, hipnotizado pelo pó e pelo único trio elétrico que se rebelava em Racionais MC´s. Um cara que é da noite, da madrugada – ele cantou, absorto, ao passar sem ver o olhar de fera livre que lhe lançava Maria.

De laço de fita e flor no cabelo, Maria, desamparada na terça-feira gorda, sentiu-se tentada a cair nos braços do Gato de Botas, de lhe entregar seu calor animal. Isto antes de perceber que, em plena avenida, ele lambia o pelo translúcido de uma Thundercat – muito mais bela, embora bipolar.

Naquele último dia de carnaval, quando a Banda passou de passar, Maria arrematou a última cachaça de um ambulante perdido entre serpentinas e restos mortais de canções, e virou a dose de um gole só, pensando sobre o mundo cão… que poderia ser salvo pelos gatos. Então sentiu o convite de uma garra pousando tigresa em seu ombro, e se virou devagar, slow motion em trilha imaginária, para gozar felina o olhar daquele a quem entregaria, antes do fim da noite, a sua identidade secreta.

*Conto do livro Gatos Pingados

Pequena heresia sem nome – Crônica de Silvio Neto

Croniqueta de Silvio Neto

Pagou a conta da luz: e eis que foi o primeiro dia. Pagou a conta da água: e eis que foi o segundo dia. Pagou a conta da mercearia, onde comprava ervas e todos os tipos de alimento: e eis que foi o terceiro dia. No quarto dia, pagou a conta do clube, onde se banhava ao sol e o fiado do bar, onde namorava a lua e as estrelas de suas noites solitárias. No quinto dia, pagou o peixe e o frango que estava devendo no açougue. No sexto dia, levou o cão para passear e brigou com a ex-mulher, aquela falsa ardilosa. No sétimo dia resolveu descansar e tomou um porre daqueles. No dia seguinte, de ressaca, Ele criou o domingo…

*Silvio Neto é jornalista e pilota o blog “A Vida é Foda” (aliás, recomendo, saquem lá).

Sobre Fernando Canto – Por Renivaldo Costa – @renivaldo_costa

Nosso querido amigo Fernando Canto.

Por Renivaldo Costa

O Fernando Canto é um dos seres humanos mais extraordinários que conheci até hoje. Me permito chamar de “irmão” a poucos amigos. Fernando é um deles. Nos conhecemos há 25 anos, quando ele ainda morava em Belém e desde então estabelecemos uma relação de amizade e apreço. Muito daquilo que escrevo tem forte influência de Fernando. Afinal, cresci lendo seus livros.

Em maio Fernando Canto completou 66 anos, data que nem pudemos comemorar como de praxe em razão da pandemia. Ele nasceu em 29 de maio de 1954 em Óbidos, mesma terra que gerou outros ícones da cultura brasileira como Inglês de Sousa. Suas incursões pela música e literatura são conhecidas pelo Brasil afora, mas creio que o Amapá precisa redescobrir ainda Fernando Canto.

Outro dia, numa conversa com o ex-deputado Antônio Feijão, ouvi o seguinte comentário: “Se tivesse nascido em qualquer outro lugar do mundo, o Fernando Canto seria considerado um legado cultural pelo seu povo. O Amapá precisa olhar mais pelos seus heróis”. De fato. A contribuição dado por Canto ao longo de sua trajetória no Amapá é um legado do qual temos que nos orgulhar. Obras como “O Bálsamo” e “Eqüino Cio” são dignas de premiações internacionais.

Este editor com o Canto. Meu amigo e herói literário.

Ademais, foi somente na gestão de Fernando Canto que a Confraria Tucuju ganhou notoriedade.

Provavelmente uma das maiores contribuições de Fernando Canto à cultura amapaense tenha sido a “marabaixeta”, um marabaixo fora de época que ele idealizou num momento em que esta manifestação passava por momento agônico e corria o sério risco de desaparecer. À época, Fernando sofreu críticas mas hoje – quase 23 anos depois – sua iniciativa pode ser melhor entendida. Hoje proliferam grupos de marabaixo e até já se promoveu um festival dessa manifestação, ideia aliás que nosso sociólogo defendia há mais de 20 anos.

Renivaldo, com Fernando e outros ilustres cidadãos do Laguinho, na “marabaixeta”.

Por fim, encerro esta homenagem relembrando uma história ocorrida com o Fernando Canto e contada pelo saudoso amigo Hélio Pennafort. “Levado por amigos, o Fernando Canto participou de uma animada festança lá para as “blelbas” do furo do Assacu. Conhecendo a rígida disciplina que nesses lugares impera no salão, Fernando, depois de muita excitação, conseguiu aproximar-se de uma brejeira cabocla, triste e solitariamente encostada na desnivelada parede de paxiúba:

A senhorita me permite esta contradança?
– O que ?
– Vamos dançar?
– Num dá. Eu só danço abenetando.

Fernando encabulou. Desencabulou. Novamente convidou. Mas qual… a dama encasquetou: – Já disse, só danço abenetando.

Sociólogo de vastos recursos, imaginou tratar-se de algum passo novo e, quem sabe, poderia adaptar-se a ele no decorrer da contradança. Insistiu: – Mas sim, vamos dançar?

– De novo? Puxa, só danço abenetando.
– Pois eu sei dançar abenetando.
Mas quando?… A Bené num tá.”

Hoje é o Dia do Gordo – Meu texto sobre nós (os gordos)!

Arte do amigo Jorge Júnior (o “Sombra”).

Hoje (10) é o Dia do Gordo. Li que o principal objetivo da data é a conscientização sobre a importância de se manter o respeito por aqueles que estão acima do peso, ou mesmo aquelas pessoas que apenas possuem uma estrutura corporal mais avantajada. Como sabemos, a obesidade pode ser prejudicial à saúde. Porém, não significa que a pessoa que apresenta uma constituição física maior tenha necessariamente alguma enfermidade. Afinal, existem pessoas magras que convivem com diversos problemas de saúde, e nem por isso são vistas com desprezo.

Portanto, o Dia do Gordo visa para desconstruir preconceitos, alterar os padrões de beleza estereotipados e combater a gordofobia, que recai principalmente sobre as mulheres.

Sobre o adiposo estado, sou (não estou, estar é temporário) porrudo desde 1998, quando deixei de ser uma garrafa e virei um freezer de cerveja. Costumo dizer que engordei muito, mas fiquei mais esperto. Ainda bem que, para muitos, o feio bonito lhe parece.

Sem qualquer tipo de apologia à obesidade, admiro gordos bem resolvidos. Eu não sou assim, mas também não me esforço como deveria para melhorar minha forma física. Sigo feliz ignorando preconceitos e cobranças. Mas confesso, é duro não poder usar algumas roupas ou bater bola com os amigos (só lembro do Bussunda, humorista gordo que morreu ao jogar uma pelada com amigos, em 2006).

A maioria dos gordos são alvo de piadas ofensivas, o que enche o saco de qualquer um que não é um babaca. Minha autoestima só não é mais abalada pela forma de geladeira por conta da sorte que sempre tive, depois de arredondar, com as mulheres. Disso posso me gabar. Afinal, gordo tem que se garantir!

Ah, uma coisa é fato, gordo só faz gordice. Somos desajeitados, gulosos, calorentos, engraçados, entre outras coisas. Sei que é preciso maneirar, pois a saúde cobra caro. Quem dera diminuir de ultramegagordo para somente gordo, mas isso é um processo dolorido e exige sacrifícios. A não ser que você tenha coragem de encarar uma cirurgia bariátrica, mas mesmo assim existe sofrimento no pós operatório e adaptação à nova vida.

E os apelidos? Já fui chamado de rolha-de-poço, barriga de lama, corpo de pipo, corpo de coxinha, sargento Garcia, entre tantos outros. O que pegou mesmo foi “Godão”. E eu até gosto desse apelido.

Já tive um corpinho bonito, que enterrei embaixo de toneladas de comidas deliciosas, aliadas a zero prática esportiva. Eu adoro quando um gordão ganha de um figura metido a maromba e quando a gordinha gente fina é mais interessante que a rata de academia sem cérebro.

Enfim, feliz Dia do Gordo a todos os que sofrem com a tiração de barato, encaram com bom humor e muitas vezes conseguem ser mais fodas que muitos idiotas magros ou bombados. Viva nós!

Elton Tavares

O Milagre – Conto de Mauro Guilherme

Conto de Mauro Guilherme

O pastor chegou no velório acompanhado de inúmeros fiéis da igreja, todos vestidos de preto. Pediu para que todos os presentes rezassem junto com ele, pois iria ressuscitar o morto. O alvoroço foi grande. Alguns protestaram, outros ficaram meio que atordoados, e o cochicho só terminou quando o pastor gritou: “Ó homens de pouca fé!” Então se fez silêncio.

O pastor começou uma oração fervorosa, segurando uma Bíblia. Os seus acompanhantes rezavam com ele, mas os outros presentes estavam mudos, estupefatos com o que estava ocorrendo. Em sua prece citava os milagres de Jesus, especialmente o referente a Lázaro, e lembrava que Jesus ressuscitara no terceiro dia. Depois ele começou a falar em outras línguas.

De repente, alguém disse que vira o morto se mexer. Foi quando luz se apagou. Algumas mulheres desmaiaram, outras correram, de modo que a confusão se estabeleceu. Quando a energia voltou, o corpo não estava mais no caixão, nem o pastor estava mais no velório.

A polícia foi chamada, mas não conseguiu descobrir como o corpo sumira, até porque os testemunhos eram na maioria muito estranhos, havendo gente que dissera que vira o finado sair caminhando pela porta, e outros que o viram subir numa carruagem de fogo ao céu.

No outro dia o templo do pastor estava lotado, com cinco vezes mais pessoas do que o habitual. O pastor curou um cego de nascença, fez um mudo falar e tirou o demônio de uma pessoa. Nunca o templo arrecadou tanto em um só dia de pregação.

Frases, contos e histórias do Cleomar (IV Edição Especial Coronavírus)

Tenho dito aqui – desde fevereiro de 2018 – que meu amigo Cleomar Almeida é cômico no Facebook (e na vida). Ele, que é um competente engenheiro, é também a pavulagem, gentebonisse, presepada e boçalidade em pessoa, como poucos que conheço. Um maluco divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade, além de inventor do “PRI” (Plano de Recuperação da Imagem), quando você tá queimado. Quem conhece, sabe.

Assim como a primeira, de março passado, a segunda de maio, a terceira em junho, segue a IV Edição Especial Coronavírus, cheia de disparos virtuais do nosso pávulo e hilário amigo sobre situações vividas em tempos de Covid-19 no mês de abril. Boa leitura (e risos):

Polpa

O cara que armazena a polpa de goiaba, junto com a de acerola no supermercado, deveria pegar uma surra.

Fim de mês

Aí, no fim do mês, o cara volta pra casa com seis notas no bolso. Rezar pra não perder nenhuma no caminho.

Em caso de premonição

Não gosto nem de pensar no que aconteceria, se no Carnaval eu soubesse que passaria os próximos cinco meses dentro de casa. Credo!

Bares na pandemia

Meu comportamento é inadequado para frequentar buteco em tempos de pandemia, quero logo abraçar todo mundo; cada um que chega é aquela sequência de dezoito toques com a mão. Na despedida, não saio sem falar com geral, até com quem não conheço. Definitivamente, não estou preparado.

Abuso

Quando envelhecer, quero ser um velho bacana, daqueles que dá gosto sentar ao lado e ouvir as histórias; tipo aqueles coroas maneiros que a gente admira. Recuso-me a ser um velho filho da puta, como o senhor desembargador.

Medo vence a sede

Descobri, depois da liberação do funcionamento dos bares, que tenho mais medo, do que sede.

Devassidão

Acordado em plena manhã de domingo, absorto em meus pensamentos, a única coisa que me vem, é a preocupação com o tamanho da devassidão que vai ser, se até o Carnaval, já estivermos livres disso tudo. Eu mesmo, já penso em ir nu logo.

Carapanãs

As vezes tenho a impressão que os carapanãs aqui de casa, também saíam pra trabalhar antes da pandemia, tipo, trabalhavam fora e retornavam no fim do expediente, na hora da “refrega”. Agora, obedecendo ao decreto, não saem nem pra cuspir. Tá lotado.

RAPADURA – Crônica de Flávio Cavalcante (@PedraDeClariana)

Foto: Tribuna Rural

Crônica de Flávio Cavalcante

Hoje, no sitio Macacos, distrito de Mangabeira, Município de Lavras da Mangabeira, visitamos um dos últimos engenhos de rapadura em funcionamento na região centro-sul do Ceará. Segundo o proprietário, senhor Gabriel Holanda Nunes, conhecido como Bié, de 79 anos, a “moagem” funciona desde à época do seu avô, quando ainda movida pela força animal, por juntas de boi. Dos 36 engenhos que funcionavam em Mangabeira, apenas o do sítio Macacos continua ativo, produzindo a tradicional e deliciosa rapadura.

Fotos: Tribuna Rural

Em meio roças, moendas e fornalhas, vários profissionais desempenham suas atividades na produção do saboroso tijolo, tais como os plantadores da cana, bagaceiro, caldeireiro e cacheador. Entre eles, o mestre, que, com sua experiência e prática, decide o momento exato em que o mel pode se transformar em rapadura.

Além dos conhecimentos práticos, adquiridos ao logo de séculos de observação e experiências, várias crenças e superstições envolvem o funcionamento do engenho. Uma delas consiste em parar toda a produção na primeira segunda-feira de agosto, pois esse dia é considerado de “má sorte” e pode causar um acidente ou uma pane nas máquinas.

No engenho dos Macacos, ao contrário de outras indústrias modernas, não há a adição de produtos químicos para aumentar o teor de sacarose na rapadura. Utiliza-se apenas as misturas tradicionais, como a cal, logo após a moagem da cana, que serve para limpar a garapa. No fim do processo, o mestre da rapadura também adiciona o sebo de gado, para endurecer o mel e fazer jus ao conhecido nome do produto final.

Ouvindo atentamente a explicação, meu tio Paulo Danúbio, professor aposentado, perguntou:

Seu Bié, o sinhô vende esse balde de Sebo de Gado?

– E o senhor vai botar um engenho de cana? – indagou o simpático proprietário da moagem.

– Não, seu Biê, quero ver se esse sebo serve pra endurecer outras coisa…