Algo a dizer (pedaço de uma possível autobiografia) – Texto de Ronaldo Rodrigues – Ilustração de Ronaldo Rony

Nasci em janeiro de 1966 e lá se vão 56 anos e alguns quebrados (quebrados por conta da vida instável em alguns pontos do caminho). A cidade de Curuçá, no Pará, foi o lugar que me recebeu no mundo (não sei se a contragosto, espero que não).

Minha família rumou para a capital Belém quando eu, o último dos seis filhos da dona Darlinda e do seu Rodrigo, tinha seis anos de idade e muita memória já, pois lembro perfeitamente da infância vivida até então, entre as árvores de um imenso quintal e uma casa sempre alegre.

Em Belém, a vida seguiu amena, entre jogos de futebol (esporte no qual jamais me destaquei, assim como em todos os outros), as brigas de moleque (em que eu sempre era o que apanhava) e o encanto pela literatura, que na minha casa era farta e variada.

Lembro de alguns livros que se perderam no tempo e nas mudanças de casa e não vi mais depois de adulto. Li alguns livros fortes para uma criança, como O Exorcista (William Peter Blatty) e Os Miseráveis (Victor Hugo), sem escapar, ainda bem, de O Menino do Dedo Verde (Maurice Druon), O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry) e O Meu Pé de Laranja Lima (José Mauro de Vasconcelos). Malba Tahan me encantou com suas Lendas do Deserto. Sim, e muito Monteiro Lobato, que atualmente leva fama de racista. Li as histórias bíblicas. Até hoje as aventuras daquela galera do Antigo Testamento me fascinam, assim como os deuses e heróis da Mitologia Grega.

Tinha também a literatura, digamos, mais popular do começo dos anos 1970. Livros de bolso com histórias de faroeste e espionagem. Li também fotonovelas, Almanaque do Biotônico Fontoura e, claro, histórias em quadrinhos de todos os gêneros: Zorro, Luluzinha, Mônica, Brotoeja, Gasparzinho, Bolota, Recruta Zero, Tio Patinhas, Conde Drácula, Tex, Fantasma, Mandrake, Gato Félix, Homem-Aranha, Tarzan, Batman… Devorava as páginas dominicais dos jornais que traziam tiras do Brucutu, Capitão César, Pinduca, Dick Tracy, Snoopy… Mais pra cá no tempo, Conan e Ken Parker ocuparam papéis importantes. Os quadrinhos foram definitivos para mim, como escritor e como o cartunista que vim a ser, mas essa é outra história*. Por falar nisso, foi num gibi do Mickey que a descoberta das letras se fez. Quando consegui ler frases inteiras, o universo da leitura se abriu e me arrebatou, causando um alumbramento que vivo até hoje.

Depois de começar a ler, bateu a vontade de também experimentar essa forma de expressão. Passei a observar a estrutura dos textos, o conteúdo, os voos da imaginação dos escritores e logo estava arriscando meus primeiros poemas, tentando textos mais longos em prosa e caprichando nas redações escolares, que foram bons laboratórios.

Em 1995, participei de um concurso promovido pela Universidade Federal do Pará e tive um conto publicado pela primeira vez (As que se chamam Flávia…) na coletânea que reunia alguns escritores já experientes e outros iniciantes.

Hoje, morando em Macapá/AP desde 1997, mantenho uma produção de contos e crônicas com alguma frequência, outras vezes nem tanto quanto gostaria. Publico com mais fôlego no Blog De Rocha!, cujo editor, Elton Tavares, é um dos responsáveis por eu me manter ativo na arte de escrevinhar. Sempre que vem o bloqueio criativo, a entressafra, ele me instiga, me cutuca com uma mensagem tipo: “E aí, mano? Nada?”. Eu sempre aceito a provocação e acabo entregando um texto.

Num país que pouco lê, ser escritor é como a voz que clama no deserto, mas creio que é uma missão que nos escolhe, antes que possamos escolhê-la. Como observadores do mundo, vamos desbravando os mundos e os vários personagens que entre nós transitam e só a alguns é dado reconhecê-los e reinventá-los.

Mas, como escreveu o poeta da minha vida, Carlos Drummond de Andrade, “lutar com palavras é a luta mais vã, entanto lutamos mal rompe a manhã”, eu sigo lutando e creio que, em certos (ou incertos) momentos, consigo sentir o sabor de uma efêmera vitória.

*A outra história – Escrevi acima que sou também cartunista e, como tal, assino Ronaldo Rony, usando o nome Ronaldo Rodrigues apenas para a atividade de escritor (coisa de artista ou mero capricho, não sei. Alguns acham que é só frescura). Como cartunista, já tenho três livros publicados: Ícaro, Liberdade Ainda que Nunca! (história em quadrinhos – Belém, 1990); A Chave da Porta da Poesia (literatura infantil para crianças de todas as idades, em parceria com a poeta paraense Roseli Sousa – Belém/Macapá, 2005); e Papo Casal (cartuns sobre relações amorosas que chamo de fugas emocionais – Macapá, 2008). Também já ilustrei vários livros, como Lugar da Chuva (Lulih Rojanski); Crônicas De Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias e Papos de Rocha e Outras Crônicas no Meio do Mundo, ambos de Elton Tavares; o CD Pelos Cantos de Belém, de Sergio Salles, entre vários outros trabalhos gráficos.

De forma artesanal, via impressão xerográfica, já lancei vários fanzines e mantenho, com certa regularidade, a produção da revista Capitão Açaí, um super-herói amazônico que é meu mais famoso personagem. Para concluir, ressalto o trabalho em conjunto das duas personas que me habitam. Ronaldo Rodrigues e Ronaldo Rony já assinaram participações no jornal Folha do Amapá e na revista Vanguarda Cultural, além do jornal satírico vert!gem.

Texto de Ronaldo Rodrigues – Ilustração de Ronaldo Rony
Junho/2022

Histórias de Camapu: stand-up para maiores de 18 anos acontece dia 5 de maio no Cúpido bar

Por Pérola Pedrosa

Sexo, humor e amizade fazem parte do Iº Stand-up adulto em Macapá, àqueles para maiores de 18 anos, denominado “Histórias de Camapu: Como eu faço para espocar teu camapú”, que acontecerá neste dia 5 de maio, no Cupido Bar, a partir das 20h.

Apresentado por Ingrid Iolli, editora da Revista Camapu Sexy e produzido pela empreendedora cultural Priscila Mori do Grupo On Produções, o Stand-up é sobre sexo e contará também com apresentações de cantores locais, como Ingrid Sato e Raffaela Steffans.

“A ideia surgiu na mesa de bar, entre amigas e seguidoras de redes sociais, em conversas sobre sexualidade. Enquanto todas estavam com suas histórias intensas, românticas e extasiantes, a Camapu sexy (Ingrid Ióli), sempre contando sobre suas frustrações na hora H e as pessoas ao redor se espocavam de rir”, explica Priscila Mori.

Após pesquisas do segmento, do mercado e planejamento, Priscila concluiu por desenvolver o projeto pioneiro no Estado, que representa o anseio da população por novos tipos de entretenimento.

Haverá também sorteio de brindes de apoiadores, feitos na hora do evento.

Serviço:

Data: 05/05
Horário: 20:00
Local: Cupido Bar
End: AV. Mendonça furtado n° 576 – Centro
Informações e vendas ingressos antecipados:
Priscila Mori (96) 98133-1677

Fonte: Café com Notícias.

Como Mestre Yoda falar devemos, mas falar assim fácil não será! – Crônica de Elton Tavares (do livro “Papos de Rocha e outras crônicas no meio do mundo”) #MayThe4thBeWithYou

Ilustração de Ronaldo Rony

Yoda, o grande mestre Jedi, é uma das figuras mais marcantes da cultura pop. Mestre Yoda foi um guerreiro extraordinário da Ordem Jedi, e acima de tudo, um professor que marcou gerações de fãs da saga. Seus pensamentos filosóficos foram ensinamentos emblemáticos do cinema, transmitidos ao Luke e ao público, sobre disciplina, dedicação máxima e a Força.

Yoda falava uma versão incomum do Básico. Ele usualmente colocava os verbos (principalmente verbos auxiliares) após o objeto e do sujeito (um formato objeto-sujeito-verbo).

Cheguei à conclusão que seria muito mais prático se falássemos todos como o Yoda, colocando a ideia central – o que interessa – no início da frase e o sujeito no final. Muito mais simples seria se todos os Humanos assim falassem. Prática esta ideia irão achar. Resistentes a esta sugestão não devem ser, uma maior compreensão dos assuntos as pessoas iriam atingir.

Exemplos de fala de Yoda:

“Quando 900 anos você tem, ter aparência boa difícil é”.
“Aliada minha é a Força. E poderosa aliada ela é.”
“Por 800 anos treinei eu jedi. A mim decidir cabe quem treinado deve ser. Um Jedi precisa um profundo compromisso ter. A mente mais séria.”
“Iniciada, a Guerra dos Clones está.”
“A tempestade está piorando, temo eu.”
“Em um estado sombrio nós nos encontramos… um pouco mais de conhecimento iluminar nosso caminho pode.”
“O medo é o caminho para o Lado Escuro. O medo leva à raiva, raiva leva ao ódio; ódio leva ao sofrimento. Eu sinto muito medo em você.”
Algumas expressões legais colocadas na forma de falar do poderoso Mestre:
“Gelada, esta cerveja está!”
“Comigo cabreiros eles ficaram.”

Se expressar assim legal como Mestre Yoda falar devemos, mas fácil não será!

Estranheza sente vocês? Fácil é a adaptação, achar isto vocês irão em breve. Mais divertidas as conversas se tornariam, mais cedo o assunto perceberíamos e reduzida a especulação seria, muitas discussões desnecessárias evitar-se-iam assim. Pensar nisto devem vocês, mais prático, direto e interessante seria, não concordam vocês comigo?

Que a Força esteja conosco!

Elton Tavares

*Do livro “Papos de Rocha e outras crônicas no meio do mundo”, de minha autoria, lançado em novembro de 2021.

**Republicado por motivos de ser 4 de maio. 

Show de humor, de Adilson Alcantara, acontece nesta quinta (24), em Macapá

Músico, humorista, cantor e compositor Adilson Alcantara – Foto: arquivo pessoal do artista.

Nesta quinta, feira, 24, tem show “Quem quer rir comigo” do humorista, cantor e compositor Adilson Alcantara, a partir das 19h, no espaço cultural Gastrobar Farofa Tropical, em Macapá.

O humorista paraense está de volta a Macapá e na apresentação contará com o humo amapaense Nilson Borges, conhecido pelo seu personagem Vardico da dupla que fazia com seu irmão Lurdico, dos Cabuçus, como participação especial.

Na parte musical terá os músicos Enrico de Miceli e Fineias Nelluty, este último além da parte musical, também conta com a veia humorista.

O show foi lançado em setembro de 2021 em Belém, um mix de humor e música, divido em 12 atos, em que cada um faz referência a um mês do ano e a partir de datas marcantes surgem histórias, causos e paródias, mostrando o cotidiano.

“O show é recheado de humor e música, por 4 anos com o colega de humor Epaminondas Gustavo, que faleceu vítima de Covid-19. E voltei a fazer e estou estendendo ele a outras cidades e estados, como Manaus, agora Macapá e toda a região Norte”, explica o artista.

Dirigido pela jornalista Márcia Freitas, o show marca mais um desafio na carreira de Adilson Alcântara: cantar e fazer humor ao mesmo tempo de forma leve a partir de situações vivenciadas no dia-a-dia das pessoas.

Serviço:

Show “Quem quer rir comigo” do humorista Adilson Alcantara
Data: 23-03 e 24-03
Horário: a partir das 20h
Local: Farofa Tropical
Endereço: Rua São José,1024, Centro
Informações e reservas: 98137-3130

Fonte: Blog da Alyne Kaiser.

De Santana-AP, Relson Cardoso sobe nos maiores palcos da comédia de São Paulo

As risadas das plateias já acompanham o santanense Relson Cardoso desde 2019, quando iniciou sua trajetória na comédia Stand Up, mas agora vão além do público conquistado entre seus conterrâneos e ecoam das maiores casas de shows de São Paulo (SP), onde o humorista passa a primeira temporada interestadual de sua carreira.

A princípio eram dias para conhecer o cenário e fazer contatos, mas Relson já ganhou notoriedade e pôde se apresentar nos comedy’s paulistas. “Viemos passar 15 dias para conhecer a cena e fazer networking com os comediantes daqui. Já consegui me apresentar em alguns locais aqui e um deles, inclusive, é a maior casa de comédia do Brasil, mesmo palco que já pisaram Whindersson Nunes, Afonso Padilha, Thiago Ventura, entre outros”, conta.

O humorista do Amapá conta que o momento do encontro com Whindersson Nunes ficará marcado em sua história, assim como a resposta de Thiago Ventura em uma de suas piadas.

“O ponto alto dessa nossa turnê por aqui, sem dúvida, foi ter encontrado com o Whindersson, ter conversado um pouco com ele. Outra coisa muito legal que aconteceu foi o Thiago Ventura ter curtido e comentado um vídeo meu que eu postei no meu Instagram”.

Tudo começou com as publicações do seu cotidiano como eletricista, o tom bem-humorado de Relson conquistou novos espaços e chegou aos vídeos produzidos na sua conta no Instagram (@relsoncardoso) obtendo mais de 100 mil visualizações em algumas postagens. O humorista também já se apresentou em diversos shows em Macapá e Santana, todos com casa cheia e a resposta de gargalhadas garantida.

Agora, o santanense tem percorrido as casas de shows paulistas sob a orientação da agência que compõe. A ideia central é justamente divulgar seu nome e abrir portas.

“Nesse tempo aconteceu muita coisa boa. Conheci muitos comediantes que antes eu só via pelo YouTube. Quando a gente fala que é do Amapá, eles dão muita atenção. São muito simpáticos, na sua maioria. Já dividi o palco com humoristas que tem no currículo participações em shows na Netflix”, conta.

O amapaense segue na temporada em São Paulo, mas tem planos para o futuro: “Fiz uns contatos muito importantes por aqui, com produtores de artistas a nível nacional. Voltarei com uma bagagem de conhecimento muito vasta”, conclui.

Marcelle Nunes – Jornalista
Contato: (96) 98106-4232
Assessoria de comunicação

É, eu gosto! – Crônica de Elton Tavares – (do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bençãos e Canalhices Diárias”)

Ilustração de Ronaldo Rony

Eu gosto de fotografar, de beber com os amigos e de ser jornalista (talvez, um dia, um bom). Gosto de estar com minha família, do meu trabalho e de Rock And Roll. Eu gosto de café, mas só durante o trabalho, enquanto escrevo. Gosto de sorvete de tapioca, de cerveja gelada e da comida que minha mãe faz. Também gosto de comer besteira (o que me engorda e depois dá um arrependimentozinho).

Gosto de sorrisos e de gente educada. Eu gosto de gente engraçada. Gosto de bater papo com os amigos sobre música, política e rir das loucuras que a religião (todas elas) promove. Eu gosto de chuva e de frio. Gosto de futebol. Gosto dos golaços e da vibração da torcida.

Gosto de ir ao cinema, de ler livros e de jogar videogame. Gosto de rever amigos, mas somente os de verdade e de gente maluca. E gosto de Macapá, minha cidade.

Eu gosto de ser estranho, desconfiado, briguento e muitas vezes intransigente.

Sim, confesso que gosto.

Gosto de viajar, de pirar e alegrar. Gosto de dizer o que sinto. Às vezes, também gosto de provocar. Mesmo que tudo isso seja um estranho gostar.

Gosto de encontros casuais, de trilhas sonoras e de dar parabéns. Gosto de ver o Flamengo ganhar, meu irmão chegar e ver quem amo sorrir. Também gosto de Samba e do Carnaval. Gosto de ouvir o velho Chico Buarque cantar – ah, como eu gosto!

Eu gosto de explicar, empolgar, apostar, sonhar, amar, de fazer valer e de botar pra quebrar. Ah, eu gosto de tanta coisa legal e outras nem tão legais. Difícil de enumerar.

Eu gosto de ler textos bem escritos, de gols de fora da área, de riffs de guitarra bem tocados, de humor negro e do respeito dos que me cercam.

Gosto de me trancar no quarto e pensar sobre a vida. Gosto quando escrevo algo que alguém gosta. Gosto mais ainda quando dizem que gostaram.

Eu gosto também de escrever algo meio sem sentido para a maioria como este texto. Eu gosto mesmo é de ser feliz de verdade, não somente pensar em ser assim. Gosto de acreditar. Como aqui exemplifico, gosto de devanear, de exprimir, de demonstrar e extravasar.

Pois é, são coisas que gosto de gostar. É isso.

Elton Tavares

*Texto do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bênçãos e Canalhices Diárias”, de minha autoria, lançado em setembro de 2020.

CARTAZISTA: Um olhar urbano da crise econômica na pandemia (Por Fernando Canto)

Por Fernando Canto

Depois das perguntas de praxe, o delegado encara o preso e pergunta:

– O que é que tu fazes na vida além de vender drogas por aí?
– Sou letrista eu, falou Tinzinho, cheio de empáfia.
– Quer dizer que tu és compositor igual ao Osmar Júnior… o Zé Miguel…?
– Não, só letrista, com muito orgulho.
– Huumm! Ah é, é. Mas onde é que tu publicas teus trabalhos, malandro? Na baixada?
– Não, doutor, lá no centro.
– Como assim? É na banca do Dorimar? Em alguma livraria ou na boca de fumo?
– Não, doutor, é nas esquina.
– Como assim?
– Sou letrista e cartazista eu.
– Diz logo, seu féla. Não me deixa ficar enfezado.
– É que eu tô desempregado. Faço qualquer negócio.
– Para com a mentira. Olha a palmatória….
– É que eu me divido entre vender droga e fazer as letra eu.
– Quer dizer que és universitário, hem? Tu também vende drogas pros intelectuaisinhos da Universidade?
– Não, doutor.
– Me dá essa mão aqui.
– Pelamor, doutor. É com essa que eu faço as letra.
– Que letras, caralho?
– Dos cartaz.
– Que cartazes, filho de uma égua?
– Ai, ai, ai, doutor, não me bata.


– Não vou bater. – Ô Alcinão, dá-lhe um sapeca aiai nesse traficante safado e mentiroso. Olha só a conversa do malandro…
– Por favor, por favor, seu doutor delegado…
– Diz logo, seu corno. – Pra quem é que tu vendes essas porcarias.
– Eu pego com o Papacu lá do PHelp. E com o Cleoinsano da baixada Pará. Pronto. Falei. Não me bata doutor nem mande esse monstro aí me bater também de novo.
– Porra, Alcinão o artista aí te chamou de monstro… Se eu fosse tu não alisava.
– Ai, ai, ai, doutor não deixe ele me bater.
– Tá bom, mas tu vais me dizer que cartazes são esses. É propaganda pra vender drogas? Ou tu és cafetão de alguma putinha de menor?
– Não, seu delegado. Longe de mim ser isso.
– E como é que tu faturas, como ganhas teu l’argent?
– O que é esse tal de larjan, delegado.
– Não enrola, rapá. Olha o Alcinão só te abicorando com a palmatória. – Diz logo, porra!
– Eu escrevo os cartaz de papelão pros meus amigo desempregado que ficam pedindo nas esquina do centro da cidade. Cobro dez real. Pode ver, doutor, a caligrafia é a mesma…

O delegado coça a cabeça, respira fundo e fala:

– Ô Alcinão, libera esse artista filho da mãe. Cada um que me aparece…

Criança diz cada uma…- Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

“Criança diz cada uma” era uma seção da revista Pais & Filhos que eu gostava de ler, no começo dos anos 1980. A página, assinada por Pedro Bloch, jornalista e médico foniatra, pioneiro na área de fonoaudiologia, era um painel humorístico que explorava muito bem a lógica que só criança tem. Ele anotava tudo o que as crianças consultadas por ele diziam/faziam. Eu também tinha essa mania, anotar coisas que meus sobrinhos diziam/faziam, e sabia que um dia iria publicar. Acrescentando tiradas dos meus filhos, filhos e sobrinhos de amigos, apresento aqui e agora esses flagrantes de inteligência infantil.
——————————————————————————
Meu sobrinho Rodrigo, após longa reflexão:
– Tio! Dinheiro custa caro, né?
——————————————————————————
Meu filho Pedro: Pai, droga não é proibida?
Eu: Sim, filho. É proibida.
Pedro: E por que tem tanta drogaria na cidade?
——————————————————————————
De novo o Pedro. Era período de horário eleitoral gratuito na televisão, o Pedro trocando de canal e vendo sempre a mesma programação: o candidato falando das suas propostas. Aí, vendo que só tinha aquilo em todos os canais, me saiu com esta:
– Pai, estamos cercados!
——————————————————————————
Meu filho Artur, naquela fase de imitação de bichos.
– Como é que o cachorro faz, Artur?
– Au! Au!
– E o gato?
– Miaaau!
– E a vaquinha?
– Muuuuuuu!
– E o pintinho?
– Tá ati! Falou o Artur, apontando para o próprio.
——————————————————————————
Esta foi com o Lucas, sobrinho do Manoel. Cheguei à casa dos dois quando o Manoel tinha saído pra tirar cópia da chave:
– E aí, Lucas? Cadê teu tio?
– Foi tirar xerox da chave!
——————————————————————————
O Arthur, filho da Telmah, vendo os garis recolhendo o lixo:
– Mãe! Tão roubando todo o nosso lixo!
——————————————————————————
Diálogos entre a mãe Karen e a filha Clarice.
Clarice: Voxê vai tabalhar de novo?
Karen: Vou sim!
Clarice: Eu quero tabalhar também… como pinxesa!

Karen: Clarice, você tá com sono?
Clarice: Não! Tô feliz!

Karen: Clarice, que música é essa que estás cantando?
Clarice: A música da tua vida!
——————————————————————————
Gabriel, filho da Tânia e do Marcelo.
Gabriel chegou da escola descabelado, com a roupa suja e amassada.
Tânia: Gabriel, eu vou à tua escola ver como andas.
Gabriel: Precisa ir à escola pra ver como eu ando? Eu ando assim, mãe, ó…
Deu uns quatro passos e disse:
– Mãe, a senhora fala cada besteira…

Tânia estava dirigindo e ouvindo Legião Urbana. No carro, estavam a mãe e a tia da Tânia, duas senhoras muito recatadas, e o Gabriel. Eis que entra a parte em que o Renato Russo diz “Se não for masturbação, use camisinha”. Gabriel virou para a avó:
– Vó, o que é masturbação? A senhora pode me ensinar com detalhes?

Tânia e Gabriel entram num ônibus lotado e uma senhora, muito solícita, se oferece para que Gabriel prossiga a viagem sentado em seu colo. A senhora puxa conversa com Gabriel:
– E você gosta de fazer o quê?
– Gosto de ouvir música.
– Que bom! Eu também adoro música! Gosto do Calipso, gosto do Luan Santana, gosto da…
Gabriel, com a franqueza brutal das crianças, interveio:
– Poxa! A senhora só gosta de música ruim!
E a cara da Tânia ficou onde?
——————————————————————————
Vem história da Espanha, onde vivem a mãe Ana Cláudia e a filha Ana Belén.
Ana Belén estava com um pouco de tosse e ouviu Ana Cláudia dizer que, dependendo de como passasse aquela noite, iria ou não pro colégio no dia seguinte. Quando amanheceu, ela começou a tossir (forçando a tosse) e a mãe Ana reclamou:
– Ana Belén, você não tossiu a noite toda! Como começou a tossir só agora, justo na hora de ir pro colégio?
– Claro, mamãe! Eu estava dormindo, como ia tossir?
——————————————————————————
Andréa falando sobre o sobrinho Leonardo.
Eu estava vestida com uma daquelas roupas velhinhas e confortáveis que gostamos de vestir em casa. Ele me olhou seriamente e disse:
– Coitadinha da titia, tão pobrezinha! Usando um vestido toooodo furado!

Uma criança reconhece a inocência de um animal. A Amanda, enquanto brincava com o Aslam:
– Tia Andréa, às vezes eu esqueço que o Aslam é um cachorro. Ele parece uma gente criança.
——————————————————————————
Cleia contando histórias da Laura.
Laura havia se afastado da gente na praia e ficamos 20 minutos procurando por ela. A encontramos brincando com areia debaixo de uma mesa, distante de nós.
Depois de termos falado sobre isso por uma semana, voltamos à praia e, num momento em que Laura estava novamente brincando na areia, alguém vai até ela e pergunta:
– Está bem, Laura?
Ela olha pro alto e, com toda a inocência, pergunta:
– Tô perdida?

Outra da Laura.
Mãe e filha passeando pela cidade.
– Mãe, bora comprar sorvete?
– Não temos dinheiro!
– Então, bora comprar dinheiro?

Cleia e o sobrinho Herbert.
Em visita ao filho da Cleia, que tinha acabado de nascer, Herbert olha o bebê no berço e logo pergunta:
– Quanto custou?
——————————————————————————
Quem vai querer refrigerante? E a Luana responde:
– Eu quero uma Santa Uva!
——————————————————————————
O Enzo, após dar um arroto daqueles:
– Ops! Amarrotei!
——————————————————————————
– Mãe, me dá um irmãozinho?
– Mas como vou te dar um irmãozinho?
– A gente compra! Passa no cartão e depois a gente recebe na portaria!
——————————————————————————
E os dialetos que as crianças inventam? O Rauan quando queria tomar água:
– Gapiaga!
E quando queria jogar videogame:
– Gapiogôgo!
Bom, a família tinha que se esforçar um pouco, mas acabava entendendo.
——————————————————————————
Mateus falando para o pai Marcelo:
– Pai, tô com uma África na boca!
Era afta, mas ele não deixa de ter razão. A África está mesmo por toda parte de nós.
——————————————————————————
Meu grande amigo e agora vovô, Euclides foi interpelado pela Maria Eduarda, de 4 anos:
– Vô, por que você não arruma sua mesa de trabalho como pede pra eu fazer com as minhas coisas?
Euclides se recolheu a um silêncio envergonhado, mas sorridente, e tratou de arrumar a mesa.
——————————————————————————
– Tio, o senhor vai brincar comigo ou ficar bêbido com o meu pai?
Perguntou a Maitê, sobrinha do Elton. O meu amigo, claro, preferiu brincar com a menina. Sábia escolha.
——————————————————————————
Nesta história, personagens reais, nomes fictícios. Vai que a criança, hoje adulta, fique constrangida.
José Nilson levou seu filho Eduardo para o trabalho. Ficaram os dois na sala, José Nilson trabalhando e o filho lendo uns gibis. O menino ficou tão distraído que não notou a moça da limpeza entrar. De repente, ele fala para o José Nilson:
– Pai, eu quero pei…
Antes de terminar a frase, ele nota a presença da moça, fica envergonhado e sai correndo da sala. Até hoje permanece esse mistério: o que será que ele queria fazer?
——————————————————————————
É isto. Vou recolher mais histórias e, quem sabe, não sai uma continuação desta crônica? Mandem aí.

Corrida Maluca: um exemplo PARA A VIDA – Crônica de Marcelo Guido

Clássicos nunca morrem, eu costumo dizer. Por muito tempo nos acostumamos a acreditar que o passado passou e não pode ser relembrado. Discordo!

Relembrando fatos da infância, divago por coisas que marcaram para sempre a minha existência. Uma delas, com certeza, são os quadrinhos, dos quais sou fã até hoje, e os desenhos animados (disco de rock, por serem especiais demais, nunca me atrevi a deixá-los de lado).

Tive muitos heróis cujo tempo, covardemente, fez questão de colocar em segundo plano em muitas fases de minha vida. Como pude esquecer, por exemplo, dos GALAXY RANGERS?, CENTURIONS, ZONO RAIDERS?

Mas antes vieram os básicos, minhas lembranças me levam aos primórdios aonde o que interessava mesmo era a diversão. Joseph Barbera e William Hanna eram especialistas nisso.

Os caras se conheceram em 1947 e tomaram um cano do Walt Disney, que prometeu contratá-los e nunca apareceu. Talvez por isso o Mickey seja tão chato.

Dessas duas mentes privilegiadas e brilhantes saíram “Tom & Jerry”, “Zé Colmeia e Catatau”, Fred Flintstone e Barney Ribble, dentre outros.

Em 1968, os caras resolveram se basear em um filme e lançar um desenho com 11 personagens principais, isso sim merece uma menção honrosa; imagina a dificuldade para que nenhum personagem ficasse em segundo plano. E assim nasceu a “Corrida Maluca”.

Inspirado no filme “A Corrida do Século” (1965), a “Corrida Maluca” era uma espécie de campeonato de carros que tinham os mais malucos participantes possíveis.

As corridas eram disputadas por esses caras no melhor estilo “vale-tudo”, e tinha de tudo… Imagine uma corrida com um carro que é um Avião pilotado pelo Barão Vermelho (carro nº 4) no mesmo Grid de largada de híbrido de tanque com carro (carro nº6), comandado por um cara chamado Meekley e com Sargento chamado Bombarda no Canhão? Ou com um cara com um carro de F1 que atente pela alcunha de Peter Perfeito (carro nº 9) (tem uma banda legal com esse nome) – era a formalização do herói perfeito, junto do Carro Mágico (nº 3) do Prof. Aéreo (um cara com feições de cientista maluco, mas que era do bem).

Ainda tinha o “Cupê Mal-assombrado” (nº 2) guiado por Medonho e Medinho, que ainda tinha uma torre (hummm) de onde saía um dragão, uma serpente, etc.; tinha o “Carrinho pra frente” (nº5) da Penélope Charmosa, o “Carro à prova de balas” (nº7), que muitos chamam de “Chicabum” e era comandado pela Quadrilha de Morte, “Serra Móvel” (nº 10) do Rufus o Lenhador, e do Dentes de Serra, a “Carroça a Vapor” (nº7) do Tio Tomás e do urso Chorão.

Todos os carros tinham as placas iniciadas com um “HN” em alusão aos criadores.

O meu preferido era o “Carro de Pedra” (nº 1) dos Irmãos Rocha (nome também de outra boa banda), que, mais tarde, deram origem ao “Capitão Caverna”. Sem contar, é claro, com a “Máquina do Mal” (nº 00) do Dick Vigarista e seu escudeiro Muttley, a Máquina do Mal, aparentemente, era o carro mais rápido e tecnológico dentre os competidores.

Apesar de tecnologicamente superior, o carro nº 00 nunca conseguiu vencer uma corrida. Muito mais pelo caráter duvidoso do seu piloto, que perdia muitas posições com planos mirabolantes e armadilhas para prejudicar os outros competidores.

A Revista “Mundo Estranho”, de julho de 2012, atribui o seguinte ranking:

• 1º Carro de Pedra/Irmãos Rocha – 81 pontos
• 2º Carro-a-prova-de-balas/Quadrilha de Morte – 74 pontos
• 3º Cupê Mal-Assombrado/Irmãos Pavor – 69 pontos
• 4º Carroça á vapor/Tio Tomás e Chorão – 68 pontos
• 5º Carro Tronco/Rufus Lenhador e Dentes-de-serra – 67 pontos
• 6º Carro de Mil e Uma Utilidades/Professor Aérao – 65 pontos
• 7º Carrinho pra Frente/Penélope Charmosa – 64 pontos
• 8º Lata Voadora/Barão Vermelho – 63 pontos
• 9º Carrão Aerodinâmico/Peter Perfeito – 60 pontos
• 10º Carro-tanque/Sargento Bombarda e Soldado Meekley – 39 pontos
• 11º Máquina do Mal/Dick Vigarista e Muttley – 00 pontos.

Essa é a moral da história: por mais que se tenha todo um aparato, você jamais conseguirá vencer se tentar trapacear. Assim é a vida…

Que os infindáveis Dicks Vigaristas continuem se dando mal. Porque, assim como na Corrida Maluca, na vida o bem sempre vence o mal.

Relato de um detetive – Crônica de Fernando Canto – @fernando__canto

Crônica de Fernando Canto para Paulo Jânio, boêmio sempre

Dia 1º “– Chegou e se sentou na cadeira do balcão. Ficou olhando em volta. Não bebeu. Fumou duas cigarrilhas.
Dia 2 – Chegou abruptamente e pediu uma cerveja em lata. Olhou para um lado e para o outro e pareceu não ver o que queria. Deixou fiado e partiu.
Dia 3 – O filho da puta não veio.
Dia 4 – Não veio de novo.
Dia 5 – Soube que mandou um recado para o dono do bar. Algo sigiloso que preciso descobrir.


Dia 6 – Abriu a porta do táxi, pôs o chapéu de palha panamá. Entrou de terno preto. Parecia um boto meio vampiro. Voltou para dentro do táxi placa VOW-6161.
Dia 7 – Sequer apareceu, o safado.
Dia 8 – Foi visto na praia com uma mulher.
Dia 9 – Sumiu de novo. Ninguém o viu.


Dia 10 – Apareceu com uma ninfeta. Estava bêbado e armado. Tomou catorze doses de Natu, o mais barato. Fez discurso e declamou poemas até de madrugada. Mostrou a arma, uma pistola. Não disparou nenhum tiro.
Dia 11 – Não fui.
Dia 12 – Chegou cambaleante. Sozinho. Chorou e foi embora para a Beira-Rio. Disseram coisas escabrosas do cara. Falavam muito mal dele.
Dia 13 – Desapareceu mesmo.
Dias 14, 15, 16, 17, 18, 19 e 20 – Sumiu faz uma semana. Não faltei ao serviço.


Dia 21 – Foi solto da cadeia. Chegou e bebeu doze copos de cachaça e tirou gosto com moela guisada.
Dia 22 – Continua bebendo pinga com moela.
Dia 23 – Ganhou todo mundo no jogo de porrinha. Bebeu uma garrafa de vodca e saiu rindo. Entrou num taxi Vow-6262. Quase o mesmo do dia 06.

Dia 24 – Não bebeu neste dia. Parecia ter algum medo. Foi o que me contaram. Mas pediu dinheiro emprestado e jogou cartas com amigos. Fumou quatro cigarrilhas.
Dia 25 – Chegou sorrindo no mesmo táxi do outro dia, com quatro mulheres louras oxigenadas, muito gostosas. Eu saquei que ele me viu de longe e pareceu me cumprimentar. Não dei bola, mas observei suas acompanhantes.
Dia 26 – Parece que ganhou no bicho e voltou. Agora só com duas mulheres morenas e muito sedutoras. Foi embora com elas. Na saída se despediu de mim.


Dia 27 – Lá estava ele de novo com aquelas mulheres lindas. Declamou um poema e se emocionou. Todos aplaudiram. Ele me viu de longe e me cumprimentou.
Dia 28 – Chegou acompanhado de dois policiais fardados. Beberam Campari e cerveja. Ele contou piadas e relatou casos policiais engraçados. Riram e logo depois se despediram.

Ele ficou, me viu e me chamou. Eu fui. Bebemos até às 24h00. As mulheres chegaram e nos saímos juntos. Foi a melhor noite da minha vida.
Dia 29 – Espero por ele e por elas. Ele me garantiu que o programa de hoje seria bem diferente do de ontem. Hoje mesmo rasgo essa porra de relatório”.

O TRAÍDO DO BAR DA MARIAH – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Estava anoitecendo e eu acabara de tomar solitariamente uma cerveja supergelada no bar da Mariah. Ao me despedir levantei a mão para um grupo de jovens empresários e profissionais liberais burguesinhos, que ora prescrutavam as redes sociais, ora discutiam e gesticulavam. Eram contumazes fregueses de fins de semana reunidos para beber em uma grande mesa de plástico, uma junção de três outras. Na passagem para pegar meu carro ouvi um deles dizer:

– O poeta já vai dormir. Saudou-me com reverência.
Em seguida, um rapaz de barriga proeminente, barba aparada e cabelos da moda, mas extremamente bêbado, rosnou como um hipopótamo, babando pela boca adiposa.

– Esse poeta deve ser é corno. E gargalhava e tossia uma tosse seca, quase se afogando.

Seus amigos o censuraram imediatamente:

– Eh, rapaz, para com isso. Tu nem conheces o cara…
Fiz ouvido de mercador e em vez de chegar ao carro voltei para comprar algo esquecido. Tomei mais uma cerveja, paguei a conta, deixei passar um tempo, passei na mesa deles e disse, olhando bem a cara do ofensor, um sujeito que realmente eu não conhecia.

– Ei, bicho, nunca te vi. Por que que tu me ofendes, seu filho de uma puta?
Falei alto para que todos ouvissem. Ficou um silêncio de arrepiar os pelos. Os olhos verdes do bêbado cresceram sob o baque inesperado da minha reação.

– Eu ouvi o que falaste, mas vou te dizer uma coisa: é melhor ser um poeta sozinho e corno do que um idiota como você, seu porco fascista, que pelo jeito já deve ter tido essa experiência, porque tens cara de pederasta depravado, seu porteiro de puteiro.

Todos me olharam estupefatos. O cavalo do rio então… Mandava raios roxos de raiva em minha direção. Eu aproveitei o momento da surpresa e continuei:

– Eu não sei se sou ou não porque todo mundo é livre pra trair e pra fazer o que quiser, mas se eu sou eu vou saber. E prossegui: – Eu acho que tua diversão em ofender as pessoas deve ser um reflexo do teu recalque como um chifrudo que tu – eu disse apontando para a cara dele – que tu és, com certeza.

E completei, pra acabar logo a frescura:

– Não tô nem aí pra processo. Foda-se o politicamente correto. Tu não me conheces, sua baleia dopada.

O impacto da minha fala ligeira e contundente ficou no ar e nos olhos do pesado insultador. Ele babava, e quando pegou o lenço no bolso traseiro da calça, para limpar a baba e os líquidos que escorriam do nariz e dos olhos, fiquei tenso, pois pensei que fosse uma arma. Os caras que eu conhecia nessa mesa me aplaudiram fazendo pilhérias dele. O porco se tocou e quis se levantar, rebarbado, mas foi amparado para não cair.

– Senta aí, porra. Tu tás porre.
– Viu o que dá, ficar ofendendo as pessoas de graça?
– Te aquieta que ninguém compra uma briga dessas.
– Vai pra tua casa, caralho que tu tás bêbado, seu otário.

Para a minha surpresa o cara se acalmou e começou a chorar. Depois se levantou cambaleante, como se estivesse iluminado de uma necessidade de falar, e disse, se voltando para um companheiro a seu lado:

– Minha mulher está me traindo contigo, seu filho da puta. Tás pensando que eu não sei? Eu descobri e ela confessou. Vê aqui esse vídeo de vocês dois se beijando. Eu que filmei. Tu és um amigo falso. Não sei como é que ainda pago cerveja pra ti, porra.

O porcão chorava e apontava o dedo para o amigo impiedosamente. O acusado o abraçou e redarguiu que era tudo mentira, que era fake news, mas o traído não acreditava. E mesmo chorando e puto da vida falava a todos:

– Esse porra é o meu melhor amigo desde a infância. Eu amo ele. Mas ele me traiu com a minha mulher que me traiu com ele.

Enquanto os dois se perdiam perdão chorando abraçados, esfregando testa com testa em cima da mesa e seus amigos pagavam a despesa, eu pensei: “isso vai dar merda. É melhor tirar o time de campo”. Fui saindo à francesa na direção do carro, mas me viram. Ao ligar a ignição ouvi o porcão gritar meio choramingando ainda:

– Desculpa aí, tio. O corno aqui sou eu. E você está certo. Eu sou um idiota mesmo. E voltou a desatar no choro a mostrar o vídeo para os componentes da mesa.
Pelo retrovisor vi seus amigos rindo e acenado a mão para mim. O mesmo cara que me conhecia gritou:

– O poeta já vai dormir o sono dos justos.

_ooo_

Ainda era cedo quando cheguei em casa pensando no que se sucedera no bar da Mariah, inclusive nas possibilidades de reação e caminhos que teria, no sofrimento que passaria e nas inúmeras desculpas e culpas recíprocas, se eu traísse ou viesse a ser traído pela minha amada mulher. Ela era muito bonita e bem mais jovem do que eu. Tínhamos uma relação de confiança e respeito, mesmo assim imaginava que a segurança de cada um acaba quando o diabo nos lambe o rosto com sua língua preta em tempo e lugar não imaginado. Vinha abrupto na minha frente o desenho bíblico da serpente ofertando a fruta proibida à Eva no paraíso. Em seguida o anjo portador da espada de fogo os expulsava para a realidade da vida, nus, sob intempéries, sob tormentas.

Eu lembrei do amigo Lúcio, um professor de filosofia falecido recentemente de Covid-19, que dizia: “Minha alma é como a sociedade de Hobbes, a que perverteu o homem. Eu era puro e fui corrompido quando amei pela primeira vez na adolescência ao encontrar a mulher da minha vida. O gênero humano se corrompe reciprocamente, por isso cada um é o lobo de si mesmo. Então eu amei e me perverti, amei e me corrompi sempre, mas nunca fui radical com as mulheres que amei, tanto que as deixei que se amassem e se corrompessem, afinal eram lobas que se devoravam a si mesmas. Isso também é poesia, meu poeta”, ele afirmava às gargalhadas. Dizia ainda que “todos nós somos corrompidos pela sociedade e pelas circunstâncias, que passam pela janela dos desajustados e até pela fantasia do amor, meu irmão. Por isso eu te digo: Hobbes tinha razão, Rousseau tinha razão, Locke tinha razão. Todos esses filhos da puta contratualistas tinham razão. Eles mudaram o rumo interpretativo da humanidade para provar que ainda somos e seremos uns filhos da puta por muito tempo”. E gargalhava como só ele sabia fazer.

Fiquei refletindo sobre os acontecimentos que já testemunhei em bares, dos que vivi como protagonista em brigas e confusões e sobre como eles nutrem de matéria-prima a construção de textos poéticos ou não, afinal as coisas da vida são feitas de realidades, mas também de sonhos e pesadelos, de poder, amor, sedução e traição. E de fatos que penetram a mente do poeta e são manipulados pela imaginação. Parece até que deixam o inconsciente prenhe de material do qual precisamos fazer dowload para gerar a literatura que nasce da memória, do que vimos e do que nunca vimos.

Claro que fiquei surpreso com a minha reação no bar da Mariah. Logo eu que abandonei essa vida de confuzeiro e brigão. Logo eu que me havia descoberto um poeta e publiquei dois livros. Porém, pensei no outro eu, aquele que já havia brigado em todo lugar. Saía para a porrada em silêncio, sempre esperando o ataque dos desafiadores, chamando-os com gestos e punhos cerrados, prontos para enfiá-los nos focinhos deles. Juro que me surpreendi comigo mesmo. Hoje, lá na Mariah, talvez eu estivesse usando a mesma técnica ameaçadora e inútil dos meus antigos contentores, gritando ofensas, e utilizando-as em minha defesa porque já estava ficando velho e não aguentaria mais uma briga de bar. Porra, o tempo passa e não dá para ganhar mais no grito. Ora, até a voz fica baixinha. Afinal, não foram as palavras do bêbado que me ofenderam, mas a forma gratuita como foram colocadas. Daí veio uma espécie de ferimento, um fulgor inesperado que me atingiu o brio e a dignidade da minha querida esposa.

Eu queimava os neurônios lembrando do esforço que fiz para acabar com meus preconceitos de um certo tempo para cá. “Caralho!”, eu dizia. Como é difícil se libertar dessas coisas arraigadas. Isso está no íntimo de toda a minha geração, um monte de palavras amarradas nos escaninhos da alma, prontas a serem libertadas quando os fatos da vida nos surpreendem e nos obrigam inconscientemente a vociferar palavras desagradáveis contra o mundo e até mesmo a ofender com humor, pois queira ou não, nunca estaremos preparados para nos policiar sempre, desde a infância. É difícil se reeducar sob um arcabouço de preconceitos ao qual estamos abrigados. Tudo é volatizado até nas brincadeiras e conceitos que trazemos sobre pessoas diferentes de nós.

_ooo_

Naquela noite de sábado minha mulher tinha um compromisso com sua velha turma da faculdade e me esperava sorrindo, igual o cachorro do Roberto Carlos – assim pensei com o meu humor cruel e viscoso, inerente ao meu modo de ser, infelizmente. Ela estava tão contente com os cabelos pintados e penteados… As unhas postiças enormes e coloridas. Parecia uma adolescente se mostrando para o namoradinho.

– Amor, ainda bem que você já chegou. Estou esperando a minha brodona Katiúscia me ligar pra gente ir na festa de aniversário da nossa formatura. Todos vão estar lá. Cuide das crianças, tá?

Ainda pensei em perguntar: “Todos? Inclusive aquele seu primeiro namorado, o tal de Ted Garanhão?”. Só pensei. E resolvi engolir o meu ciúme.
Abri a geladeira, peguei uma heineken long neck e a enfiei na boca de um gole só. Ela desceu as escadas linda e sensual, perfumada e feliz. E eu puto ali me lembrando do porco pirado que tinha me ofendido. Ela ensaiou uns passos de forró universitário e umas gingadas de samba e funk, só pra me deixar mais enciumado ainda. Mas nem pode perceber como eu estava, pois sua excitação para a festa era maior que qualquer preocupação. Me deu um beijo no rosto, “pra não manchar a boca de batom” e falou:

– Me dá a chave do carro, moreco. Não sei que horas volto. Vou pegar a minha amiga.
E saiu rebolando como eu nunca mais tinha visto. E justo ia logo junto com a sua amiga solteira, também conhecida no bairro como “A Fera da Noite”.
Tomei todas as cervejas da geladeira. Terminei de ler um livro do Bukowiski. Liguei a TV para assistir a um filme bom, entretanto os temas que escolhia aleatoriamente eram sempre sobre traição, vingança, essas porras… Eu pensava nela, em mim e até no gordo traído do bar da Mariah. Meio atormentado, eu dizia reclamando sem necessidade: “caralho”, “caralho”. Até que bati uma bronha para ela e adormeci.

De manhã ela me acordou no sofá. Estava desgrenhada e meio porrote ainda. E muito invocada. Ordenou:

– Vai fazer o café, caralho! E faz umas tapiocas do jeito que eu faço pras crianças que eu vou dormir até tarde. Não me chama.
Entrou no quarto e se jogou na cama de roupa e tudo. Roncando e babando. Balbuciava: “égua da festa escrota”, “égua da festa escrota”. “Essa Katiúscia é foda, mesmo”.

Eu, com os Fernandos Bedran e Canto, sempre rindo dos “otaros”, no Bar da Maria

Enquanto eu fazia o café o sol rompia lá fora num clima quente que só o do inferno, onde mora a língua preta do diabo. Passei a mão na careca suada, lembrei de novo do traído do bar da Mariah com uma respiração de alívio, para depois rir aparentemente à toa, enquanto as crianças chegavam à mesa da cozinha esfregando os olhos remelentos e bocejando horrores. Nem liguei para o pára-choque do carro enviesado na garagem, todo batido. Eu ria igual nas redes sociais – onde ninguém sabe se as coisas são verdadeiras mesmo. KKKKKK! E dizia me rasgando de rir: “fowda-se!” “fowda-se!”, e repetia, para o espanto das crianças que sempre me viam muito sério. KKKKK! Elas riam comigo: -KKKKK! KKKKK! Kkkkk! KkKkK!

Gírias e expressões do Amapá* – #Macapa264Anos

Cadernos artesanais com gírias do norte produzidos por Camila Karina (saca lá: https://www.instagram.com/camila_karina/ )

Atire a primeira gramática quem nunca falou uma gíria! Uma expressão tipicamente do Norte.

Se você não tem o hábito de falar “girioguês”, ponto pra você, que mantém a beleza de um bom português falado; mas há de concordar que o nortista tem uma irreverência singular quando se trata da língua portuguesa.

Já você, que não tem mais a noção do que é uma gramática, seu estado verbal é grave, procure o dicionário urgentemente, pois você corre o risco de não ser compreendido.

Muitos blogs já retrataram algumas expressões engraçadas e peculiares da nossa linguagem, mas recolhemos tudo que achamos e resolvemos explicar, da melhor forma, os seus respectivos sentidos. Aprenda, se informe e gargalhe.

No Amapá a gente fala:

Paid’égua! (muito legal!); Eita porra! (impressionado); Mas uh caralho! (muita admiração); Maninho, maninha (pode ser para qualquer pessoa, conhecido ou não); De rocha! (palavra ou assunto com convicção); Não, é cuia! (claro que é); Não, é pão! (claro que é também); Muito escroto (muito ruim); Nããooooooooo (ironizando uma negação); Égua, moleque, tu é doido! (fato realmente surpreendente); Fooolêgo! (muita admiração); Égua da largura! (muita sorte); Égua, moleque! (surpresa, alegria, raiva, este é muito usado); Vai querer queixar? (vais me negar?); Gala seca (idiota); Rapidola (rapidinho); Égua da potoca (que mentira); Ulha, disque! (espanto com desdém); Pega-te (tome esta ou pegue esta, torcida por um ponto feito ou gol marcado); Tu jura, não? (claro que não); Táááá, não! (nunca); Bora lá só tu! (Eu não irei); Tá lá uma hora dessas (eu não); Essa é de grife do varal (roupa roubada); Discunjuro até! (por conta do termo “Te esconjuro”, tipo Deus me livre); Levou o farelo (morreu); Só o filé da gurijuba e só a polpa da bacaba (bacana, legal, ótimo); Já tá do meio-dia pra tarde (quase acabando, velho ou quase morto); Ele é do tempo da calça “tucandeira” (calça com a barra curta). Taááá, “cheiroso!” (o mesmo de Tu Juura!); Virar o zêzeu (botar pra quebrar); Quede mano? (onde está?); Hum, tá não! (nem pensar); Tu acha isso bonito? (reprovação); Tá remando pra beira (tomando cuidado, voltando atrás, sendo cauteloso); Tu é o belo velho (O mesmo que “tá, cheiroso!); Esse é peidado do juízo (Este é louco); Paga uma aí (pague uma bebida); Só te dou-te na cara (vou te bater); É pissica da braba (mandinga); Só pode ser feitiço (quando algo dá errado); Vigia o que tu tás fazendo (preste atenção).

Vigia bem (preste muita atenção); Miudinho (pequeno); Logo quem, não? (já esperava isto dele); Muito enxerido! (intrometido); Bora lá (vamos lá); Umborimbora? (vamos embora?); Ééééééééguaaaa (muito espanto, surpresa); Égua, mas tu é muito cabeça de pica né? (gala-seca, otário); Zé ruela (babaca); Abestado (besta); Mas tu é muito pau no cu (abestado, idiota); Levou ou deu “um Nike” (levou um fora); Dizar (deu um fora, se esquivou); Asilando (dando em cima, paquerando); Na moral (na cara de pau); Paga pau (dá muita moral, invejoso); Migué (Mentira, mentiroso); Égua, não! (não acredito). Não, que não. (afirmando com convicção); Pior né? (afirmação tipo: é verdade!); Porrudo (algo grande); É o vai da estrela (com certeza ele(a) não vai); Charlando (se exibindo); Arreda aê (afasta aí); Teu cu (claro que não).

*(Texto que escrevi em parceria com a jornalista Camila Karina (saquem lá as artes dela: https://www.instagram.com/camila_karina/ ), em 2010 e republicado hoje pelos 264 anos de Macapá) – Elton Tavares

Programa de Recuperação de Imagem (P.R.I) – Por Cleomar Almeida

Tenho dito aqui – desde fevereiro de 2018 – que meu amigo Cleomar Almeida é cômico no Facebook (e na vida). Ele, que é um competente engenheiro, é também a pavulagem, gentebonisse, presepada e boçalidade em pessoa, como poucos que conheço. Um maluco divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade. Quem conhece, sabe. Hoje ele deixa um serviço de utilidade pública, o Programa de Recuperação de Imagem (P.R.I). desenvolvido por ele mesmo. Leiam, aprendam e divirtam-se:

Programa de Recuperação de Imagem (P.R.I)

Por Cleomar Almeida

Depois de alguns eventos recorrentes de mau comportamento por mim cometidos acabei sendo impelido a participar do P.R.I – Programa de Recuperação de Imagem. Este Programa essencialmente é voltado aos maridos que, por vez ou outra acabam, sem querer é claro, cometendo faltas consideradas quase imperdoáveis por suas “Conjes”, faltas essas que de forma nenhuma serão aqui listadas. Na verdade, o motivo dessa postagem é dar conhecimento aos caros colegas do Programa e de suas implicações.

O programa basicamente é um misto de punições e restrições, dentre elas a obrigatoriedade de acompanhamento de novelas, no mínimo as três que passam a noite, de preferência sem muitas perguntas no sentido de entender o enredo. Ainda no item entretenimento, futebol e modalidades esportivas nem pensar, aliás, esqueça o controle remoto durante esse período.

Quanto à alimentação, no P.R.I. você come o que lhe for oferecido, se for oferecido, o que quase nunca ocorre, então prepare-se para cozinhar. Shakes e comida japonesa são praticamente obrigatórios em uma saída pra comer fora. O Shopping será seu habitat nessa fase difícil. Igrejas também serão usadas pra exorcizar este capeta que se apossa de você de vez em quando. Perceba aí um ponto essencial no P.R.I. , se você estiver liso nem pense em participar do Programa, o gasto com comida, passeios, com coisas que inevitavelmente irão quebrar, esbandalhar ou misteriosamente sumir da sua casa lhe darão uma despesa extra.

Comportar-se bem na frente dos parentes da madame também faz parte do pacote, mas pode ter certeza que quando você for elogiado por alguém pela boa educação e prestatividade ela revelará os verdadeiros motivos de sua boa vontade com um belo “Tá assim porque fez merda, ta tentando se limpar comigo!”, nem pense em discordar dela nessa hora ou ela conta até o que não aconteceu, vai por mim.

Os filhos são sua responsabilidade absoluta, nem parece que saíram dela, você fez, você que se vire, reze pra eles já não usarem mais fraudas.

Sexo, esqueça, ninguém participa de um P.R.I e transa, é o alicerce fundamental do Programa e pode acreditar, esposas são excelentes em seguir protocolos. Concentre-se e siga na fé, talvez ao fim de tudo você seja compensado de alguma forma, não conte com isso mas milagres às vezes acontecem.

Enfim, como dito no começo, P.R.I é punição, restrição e um pouco de constrangimento pra te fazer ver o tamanho das burradas que andas fazendo. Sem tempo definido, pode ser rápido, demorado mas nunca indolor. Eu mesmo já passei por umas três experiências e lhes digo, evitem amigos, O P.R.I é terrível!!!!