Pode dar o cano quem quiser porque não vou mais correr atrás de ninguém – Conto de Ray Cunha

Conto de Ray Cunha

Não havia sido um dia de sono restaurador para Amarildo Teixeira. A periodontite o torturava, de modo que passou o dia em claro. Foi trabalhar azedo. Era garçom no Chorão da Asa Norte.

Lá pelas seis horas da tarde apareceu uma cliente, uma senhora elegante, trajada com sapatos altos de couro preto, meias e vestido também pretos. Bonita, de belos cabelos negros, quase longos, era patente que estivesse de luto, pois acumulava duas alianças no dedo anular esquerdo. Pediu o cardápio e passado um momento perguntou se a caldeirada de frutos do mar dava para duas pessoas.

– Dá para quatro, senhora – informou o garçom Amarildo.

– Traga, então.

– E para beber?

– Nada. Fico sempre muito cheia quando bebo alguma coisa durante o jantar.

Naquela hora não havia quase ninguém no Chorão. Estava tudo silencioso e agradável. Tudo bem arrumadinho, à espera da turba que não demoraria a chegar noite afora. Depois que o garçom Amarildo serviu a caldeirada de frutos do mar, pôs-se a observar a mulher. Estava desconfiado de alguma coisa. Não sabia bem de quê. Ela pediu bastante pão francês e Amarildo serviu-lhe quatro pães. Um, ela comeu num relâmpago.

O impressionante é que a caldeirada dava mesmo para quatro pessoas normais e ainda sobrava. Era uma terrina enorme, cheia de um caldo cheiroso e saboroso, com grandes pedaços de peixe, moluscos e toda sorte de crustáceos. Amarildo Teixeira não acreditou no que viu quando ela o chamou para pedir a sobremesa. A terrina estava seca, o arroz e o pirão foram devorados e os pães sumiram.

– Queijo com goiabada! – ela disse.

O garçom Amarildo ficou confuso. Foi buscar a sobremesa. Quando voltou, a bela viúva sumira. Amarildo correu para a rua e ainda pôde ver o vulto na esquina, iluminado pelas primeiras luzes da noite. Não pensou duas vezes. Saiu no seu encalço. Ao alcançar a esquina, a mulher estava à sua espera e atirou-lhe uma pedra na cabeça. O garçom escorregou e caiu. Levantou-se. Ela desaparecera. Amarildo Teixeira voltou para o restaurante. A pedra fez-lhe um galo. “Ainda bem que não foi na testa” – pensou, apalpando o calombo no lado da cabeça. “Não vou nem contar essa. Ninguém vai acreditar. É melhor não contar. O pior é que eu vou ter que pagar a conta daquele animal; me deu o cano e quase quebra minha cabeça. Como é que pode?”

De volta ao Chorão, Amarildo Teixeira foi ao banheiro. Muita gente havia chegado e o gerente estivera atrás do garçom. Quando Amarildo saiu do banheiro havia um sujeito numa das mesas de sua responsabilidade. Um sujeito grandalhão, um verdadeiro mastodonte, olhando atentamente o cardápio. Aproximou-se cautelosamente.

– Escute aqui, meu jovem, esta caldeirada de frutos do mar dá para duas pessoas? – perguntou.

– Dá para quatro – disse Amarildo Teixeira.

– Quero uma. Traga logo uns pãezinhos até chegar a caldeirada.

“Não é possível que esse cara saia correndo também. Não acredito! Até porque não agüentaria correr com esse corpanzil” – pensou Amarildo, levando quatro pães franceses para o freguês.

– Putz, ô meu, só isto? Traga uns dez – pediu-lhe o homem, passando manteiga num deles e comendo-o em duas bocadas.

Amarildo Teixeira serviu a terrina de caldeirada olhando fascinado para o homem. “É um animal de bruta raça” – pensou.

O freguês era bom de boca. Em pouco tempo não restava mais nada na mesa que pudesse ser comido.

– Ô, meu, queijo com goiabada! – disse o homenzarrão.

O garçom Amarildo foi buscar o que o sujeito pedira. Serviu a sobremesa; o tipo devorou-a em segundos e pediu outra. Após comer quatro porções de queijo com goiabada o gajo não deu tempo para nada. Ergueu-se subitamente da mesa e partiu para a porta, ganhou a rua, e correu em direção à Avenida W3 Norte, com Amarildo Teixeira atrás. Mas o freguês tinha fôlego de peso pesado. Alcançou facilmente o calçadão da W3 Norte, onde estacou abruptamente. Amarildo aproximou-se dele e recebeu um cascudo na cabeça que o fez cambalear e cair. Levantou-se e retrocedeu. O brutamontes partiu para cima dele. Alcançou-o e lhe deu uma rasteira, fazendo o garçom se acabar na calçada. Levantou-se às pressas e correu o quanto pôde para o Chorão. Quando se sentiu em segurança olhou para trás e viu o mastodonte atravessando lentamente a W3 Norte. Olhou para si e viu que ficara bastante estragado.

– Aquele desgraçado quebrou a minha cabeça só com um cascudo. Acho que tinha um pedaço de ferro na mão. Agora vou ter que pagar duas caldeiradas de frutos do mar e mais quatro sobremesas – choramingou. – A melhor coisa que eu faço é ir embora para casa.

Mas Amarildo não pôde ir embora, pois faltaram três colegas seus e na sua ala havia dois esgalamidos querendo caldeirada de frutos do mar.

“Droga, droga, droga” – disse de si para si, e foi buscar a primeira terrina, decidido a não correr mais atrás de ninguém, nem que tivesse que pagar a conta com sua poupança na Caixa Econômica Federal.

*Contribuição de Fernando Canto.

Uma tarde com a Big-Big – Conto (marginal) de Fernando Canto

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Conto marginal de Fernando Canto

Porra, eu andava puto porque tinha sido demitido da TV que trabalhava porque em uma transmissão ao vivo a Big Big apareceu e pegou no meu pau e eu gritei de dor. Não teve jeito nem chora minha nega. Fui pra rua mesmo por justa causa, falta de ética, descompostura, atentado ao pudor… essas coisas. O féla da pôta do patrão não estava nem aí pros meus argumentos. Não convenci o fresco do judeu insensível. Ele sabia que eu era solteiro e não adiantaria mentir.

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Conheci a dita cuja da Big Big quando eu cobria o Pronto Socorro para um jornal impresso. Ela tinha sido atropelada pela sétima vez. E já estava aleijada. A droga que ela se apaixonou por mim desde que me viu fazendo a reportagem pra televisão, pois me achou bonito e queria que eu a fizesse famosa. Onde eu chegava ela achava um jeito de passar a mão em mim. Até dedada eu levei dela. Ridículo. Logo eu, porra, um jornalista considerado…

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Fudido do jeito que eu estava, com o troco do salário que me deram, pois não tive direito a nada, fui lá na beira-rio tomar uma cerveja. Pensei em almoçar no bar do Nego, mas resolvi só beber e resolvi misturar cachaça com cerveja. Comecei a ficar porre e queria fazer sexo. Não vi nenhuma garota de programa pra afogar o ganso, o Neymar, o Messi e minhas mágoas. Bebi, mas bebi pra caralho. Quando já estava chamando uma coluna do bar de meu bem vi a Big Big caminhando arrastando a perna. Pensei, na minha visão meio truvisca, que ela dançava Marabaixo. Que nada! Ela dançava um reagge e estava linda com sua pele morena.

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Paguei a conta e ainda deixei dez por cento pro garçom Raimundo, que costumava me roubar nas contas quando eu estava por cima da carne do churrasco.

Chamei a linda Big Big e lhe disse sem pudor: – Pega à vontade no meu pau, amor.

Ela ficou me olhaaaando! Não disse nada.71759_461427497243620_567377479_n1

De repente eu caí em mim e vi a Matilde Joaquina com o câmera da emissora que eu trabalhava me filmando, só pra fazer o mal, pois ela havia ocupado meu antigo posto de trabalho. Porra, todo mundo ia saber que eu tinha quase um caso com a Big Big. Quase um caralho. Agora teriam certeza.

Pedi mais um copo cheio de cachaça pro garçom ladrão e segui desolado02253686300-217x300 até as muralhas da Fortaleza de São José de Macapá. Na realidade eu fui me lamentar naqueles muros. Chorei muito. Minhas lágrimas quase amolecerem as pedras da edificação secular.

O dia se punha no oposto do rio Amazonas. E os caminhantes habituais do parque do forte olhavam para mim, me reconheciam e riam. “Drogado”, diziam, “eu até que admirava teu trabalho”. “Safado”… Assim me chamavam.

oloucoFui cambaleando e encontrei um amigo artista plástico literalmente caído na sargeta. Tentei levantá-lo a todo custo, mas não conseguia . Até que senti uns braços fortes me ajudarem. Era a gostosa Big Big que pôs o pintor num lado do ombro e pediu com gestos que eu fizesse o mesmo com o meu. Levamos nosso amigo de cachaça até a prainha que fica entre aquelas falésias da Fortaleza e bebemos o resto da granada de duelo que ele tinha no bolso, e mais duas que ela guardava na calcinha, a gitinha logo. Cantamos e rimos até a lua surgir mais porruda que em qualquer outro lugar, como disse o poeta.

Acordamos com a maré enchendo suavemente, marulhando na areia.

A bacana companheira por fim falou e me revelou que a jornalista que me substituiu pagou a ela pra pegar no meu pau naquela reportagem que fiz ao vivo.

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Nessa altura do campeonato nem esquentei mais. Eu perdoei a Big Big porque ela precisava de dinheiro pra beber e pra dar pros caras dela. Agora, lúcidos que nem uns filhos de uma égua, estamos arquitetando um plano pra invadir o estúdio da TV ao vivo e pegar na buceta daquela jornalista desgraçada. Eu, meu amigo pintor e a minha noiva Big Big. Ora, Ora. Marrapá! Vamos sair na mídia nacional. Ihiihihihihihihih!

*Quando recebi este conto (ao qual gostei bastante), disse para o Fernando: os politicamente corretos cairão de pau na gente por causa deste escrito”. Canto, que é sábio e irreverente, disparou: “os bêbados e loucos fazem parte na nossa paisagem cotidiana da cidade”. É isso aí!

Nem morto! – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Fui ao médico e ele me disse uma coisa que me deixou muito chocado:

– Seu Ronaldo, sinto informar que o senhor não está mais entre nós.

– Hein? Como assim?

– Estou dizendo que o senhor está morto.

Me apalpei, me olhei, me examinei e nada indicava que eu estivesse morto:

– Doutor, o senhor disse: morto?

– Sim. Mortinho da silva, como se falava antigamente.

E o médico foi logo me apresentando um documento que acabara de assinar:

– Aqui está o seu atestado de óbito.

– Ei, o senhor está falando sério mesmo?

– Nunca falei tão sério!

Saí do consultório sem entender nada, mas eu não sou um exemplo de alguém que entende muito bem as coisas que acontecem. Devia ser a minha já conhecida distração. Me distraí e nem percebi que estava morto.

Já passei antes pela sensação de estar morto, mas aquela confirmação me deixou perplexo. E agora? O que fazer da minha morte, eu que nunca soube o que fazer da minha vida? Devia ser por esse motivo, o fato de eu estar morto, que as pessoas passavam por mim sem demonstrar qualquer sinal de me avistar. Atribuí ao costume atual de ninguém mais prestar atenção em ninguém, todos abduzidos pelos aplicativos dos celulares.

Levei o atestado de óbito ao INSS para saber quais seriam os próximos procedimentos, mas ninguém percebeu a minha presença. Achei normal, já que nessas repartições públicas dificilmente os funcionários prestam atenção em que está vivo, imagine em quem já morreu. Eu, que precisava provar que estava morto, tinha uma senhora ao lado que, para receber certo benefício, precisava dar conta de uma papelada imensa para provar que estava viva.

Bom, eu precisava me tocar (até me toquei, mas não senti o meu toque) e assumir a minha morte. Assumi tão poucas coisas na vida que assumir a própria morte seria algo bem estranho. Aí a curiosidade me tomou (sim, as pessoas continuam curiosas após a morte) e olhei mais atentamente o atestado de óbito para saber a causa da minha morte. Descobri que não teve um motivo só, mas vários motivos. Morri de tédio, de solidão, de euforia, de farra, de melancolia, de bebida, de cigarro, de respirar, de ficar doente, de ficar são, de sair pela madrugada, de ficar horas em frente à TV, de submissão, de rebeldia, de ouvir música, de falar palavrão, de gritar, de pedir silêncio, de comer, de jejuar, de fazer sexo, de fazer abstinência… Enfim, morri de uma coisa chamada vida. Lembrei imediatamente do meu amigo Gino Flex, que teve a mesma causa mortis: excesso de vida. Portanto, obrigado à vida que me deu tantos motivos para vivê-la, às vezes muito afoito, às vezes com uma preguiça terrível; aqui tomando as rédeas da situação, ali deixando as coisas rolarem.

Agora vou me encontrar com o Gino, fazer um brinde e continuar pela morte com a mesma disposição com que enfrentamos a vida.

Adeus! E saúde!

Sobre sonhos, pesadelos e outras viagens – Por Cleomar Almeida

Meu amigo Cleomar Almeida é um competente engenheiro. O cara também é a personificação da pavulagem e gentebonisse, presepeiro e boçal como poucos que conheço. Um figura divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade. Quem conhece, sabe. Hoje ele escreveu essa:

Sobre sonhos, pesadelos e outras viagens

Queria que alguns de meus sonhos pudessem ser gravados, só pra eu assistir novamente, tal a veracidade das coisas que neles acontecem. Alguns seriam dignos de um Oscar, outros, mero refugo da pornochanchada. Dia desses, digo, noite dessas, creio eu, de tanto ficar assistindo programa de bicho, me peguei dormindo em meio a uma mata, riacho passando ao lado, canto de pássaros e uma penumbra bacana.

Eis que ao longe vejo aquele enorme felino, rastejando em minha direção, nessa hora de desespero meu único pensamento é correr. Posiciono-me para iniciar a disparada da minha vida, como Usain Bolt na linha de partida para os cem metros e só então percebo que não estou só naquela situação periclitante, minha mulher dorme ao lado, alheia ao risco de virarmos bóia do animal faminto. Onça chegando, eu pronto pra correr, mulher dormindo ao lado, macaco gritando, desespero total na mata e é quando tomo a decisão, vou correr, não sem antes avisar minha parceira, isso seria uma covardia sem tamanho.

Dou-lhe um belo de um tapa na bunda e grito: Amor, corre que tem onça!! Minha disparada é curta e breve, minha cama é colada à parede, quase arrebento os cornos por conta da velocidade impressionante que atingi naquele meio metro que tinha pra avançar. Ainda atordoado olho para o lado, minha mulher sentada na cama me fita com ar de reprovação e diz: Eu “mínino”, tu vais quebrar esta parede!!!. Mal sabe ela a fogueira que acabamos de pular.

Frases, contos e histórias do Cleomar (Parte III)

Meu amigo Cleomar Almeida é um competente engenheiro. O cara também é a personificação da pavulagem e gentebonisse, presepeiro e boçal como poucos que conheço. Um figura divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade. Quem conhece, sabe. Na mesma linha das PRIMEIRA e SEGUNDA edições sobre seus papos no Facebook, mais uma vez selecionei alguns de seus relatos na referida rede social. Boa leitura:

Papo com Deus

– Se eu pudesse falar com o Criador só teria uma pergunta. Chefe, o Senhor vai precisar mesmo desses carapanãs? Fooooolego, tá demais.

Sobre a doidice da política

– Prometi que ia dar um tempo, sério, mas quando tu vês o Faustão dando esculacho e lição de moral é porque a coisa tá ruim de verdade. Vai vendo, é só o começo.

– Deixa eu ver se entendi direito. Biroliro emprestou 40 paus pra o motora que tinha 1.2 milhão na conta, é isso mesmo?

– Bizonharo babando o ovo do Trump e ele diz que tá sem tempo pra vir na sua posse. Cadê o “consideramento”?

– Na goiabeira já vi muita coisa, só não vi um ninho de caba-tatu. Infelizmente, as cabas me viram e eu, por tabela, quase vi Jesus.

– Rosa, azul… vão ficar dando confiança pra doido agora?

– Como diria o ilustríssimo Dr. Papaléo, quem tem com o que me pagar, com o ferro será ferido.

Falando de WhatsApp

Em 2019 vou parar de levar ideia com quem não deixa essa porra azular, acho falta de “consideramento”.

Amapalidades

– Em outros lugares: Você acha certo o que fez?
Em Macapá: Ei bonito, tua mãe não te vende?

– Nortista é um bicho estranho, passa o ano reclamando do calor infernal dessas bandas, aí chega o inverno e neguinho passa mal, baixou de 30 graus sujeito já acha que mora na Sibéria, quer andar de sobretudo e cachecol. Eu por exemplo tô a três dias com reumatismo por conta desse frio ártico. Soube até que acharam um cara congelado lá pelos Alpes da Serra do Navio. Dá nem pra sair de casa mais. Eu hein!

Companhia de Energia e outras falhas de serviço

– Na hora de propor aumento na tarifa é uma piranha, na hora de consertar a porra da energia é uma aranha. CEA sua quenga.

– Porra CEA, bem na hora do Axé Pelô??

Parece praga, toda vez que vai embora a energia, o celular tá com menos de 10% de bateria e não tem comida pronta. Fôlego!!

Provolone

– Daí tu estás de boa no boteco, quando na mesa ao lado o cabôco fala alto pra se aparecer pra gatinha que o acompanha: garçom, traz um tira gosto de queijo POMODORO, aquele que tem cheiro de meia velha. VTF!

Círio de Nazaré

Foto: Márcio Pinheiro

– Esse fim de semana a gente faz merda, daí semana que vem a gente sai na corda e pede pra Nossa Senhora ajudar.

Coerência

– Às vezes um bom “vai tomar no cu” resolve a bronca toda.

Economia

– Eu, na minha jaranice, resolvi pegar os sabonetes mais baratos que vi no supermercado esse mês, me lasquei! Acho que são feitos de cerol, areia, pó de mármore ou algo parecido, tu vais passando e o bicho vai arrancando a pele junto, a única vantagem é que acho que não vou precisar comprar esse mês, dos dez que comprei, só usei dois e já passei pro sabão Cutia em barra, que tá mais suave.

Ócio

– Se a vadiagem fosse remunerada, já teria feito uma grana preta, só nesse sábado.

37 anos do soco de Anselmo Vingador – Um texto para flamenguistas

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Como bom flamenguista, sempre leio, assisto e ouço tudo sobre o Flamengo. Entre os títulos conquistados pela máquina rubro-negra dos anos 80, comandada por Zico, um fato marcou a Libertadores de 1981, conquistada no dia 23 de novembro daquele ano: um soco. Sim, uma porrada desferida por Anselmo, atacante do Flamengo no zagueiro Mario Soto, do clube chileno Cobreloa.

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Vamos por partes. Depois de passar invicto até a final, o Mengão, campeão brasileiro de 1980, decidiu com o torneio com o Cobreloa. No primeiro jogo das finais, realizada no Maraca, o time da casa venceu por 2×1, com dois gols de Zico. Na partida de volta, no Chile, o time do Flamengo apanhou muito dos donos da casa (agressões mesmo), liderados pelo zagueiro Mario Soto (o brabão) e acabaram ganhando o jogo por 1×0.

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Nessa partida, o Mengo ficou desfalcado dos jogadores Lico, com um corte na orelha e Adílio, ferido no olho. Ambos abatidos pelo defensor chileno. Li em algum lugar que ele agredia os jogadores brasileiros com uma pedra no punho fechado, se é fato, não sei dizer. Relatam jornais da época que o próprio Pinochet (um dos enviados de Satanás à Terra), nas tribunas, virou-se para um adepto e disse chocado: “Não está exagerando, o nosso Mario Soto?” Imagine como o cara estava “virado no cavalo do cão”…

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Então rolou a “negra”, uma terceira partida, em campo neutro, realizado há exatos 34 anos, no Estádio Centenário, em Montevidéu, no Uruguai. O Mengão, que tinha infinitamente mais bola, venceu pelo placar de 2×0, com dois gols do Galinho.

Mario Soto, do Cobreloa do Chile, após levar um soco de Anselmo, do Flamengo, na finalíssima da Taça Libertadores da América de futebol. Montevidéu, Uruguai. Publicada na revista Placar, edição 1206, em 1223/11/2001, página 37.

Mas ainda faltava a forra contra Soto, foi aí que, no finalzinho do jogo, o técnico do Mengo, Paulo César Carpeggiani, chamou Anselmo, um jovem atacante de 22 anos, e disse: “ vai lá e dá um soco na cara do Mario Soto”. Anselmo entrou na partida, se aproximou do zagueiro chileno e, na primeira jogada, deu um pau na cara do chileno, que foi a nocaute. O lance causou um porradal, o jogador do Flamengo foi expulso junto com Mario Soto. A decisão logo acabou e o Flamengo virou campeão da América.

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Depois foi só festa. No desembarque do time no Galeão, a delegação se deparou com uma imensa faixa escrito: “Anselmo vingador!” Pronto, Anselmo era tão herói quanto Zico. Mesmo suspenso, o “Vingador” viajou com o time para o Japão, onde o Mengão derrotou o Liverpool e sagrou-se Campeão Mundial Interclube, em 1981.

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Li várias reportagens sobre este fato, mas as duas melhores declarações foram:

Este episódio exprime uma contradição insolúvel do futebol e da vida. Todos nós temos discursos humanistas e politicamente corretos em favor do espírito esportivo e do sentimento cristão. Mas quem sofre uma agressão covarde não esquece. Futebol é arte, balé, xadrez, mas é um jogo viril e abrutalhado em que façanhas como a de Anselmo refletem o alto grau de testosterona e de agressividade primitiva que nos leva a correr atrás da bola. Nosso lado civilizado homenageia aqueles que descartam a vingança física e se contentam com dar o troco na bola e no placar. Mas dentro de cada fã do futebol existe um brutamontes-mirim que não resiste à poesia de um murro bem dado” – Jornalista Braulio Tavares – Jornal da Paraíba.

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Tenho sobre essa porrada uma tese irrefutável – ali, graças a Anselmo, as ditaduras latino-americanas que assombraram o continente durante a Guerra Fria começaram a desabar. O destino do próprio Pinochet foi selado naquele momento. Não é a toa que, em recente pesquisa publicada na Inglaterra, acadêmicos de renome consideraram que as três quedas mais impactantes da história foram a do Império Romano, a do Muro de Berlim e a de Mario Soto na final da Libertadores.” – Luiz Antonio Simas, professor carioca.

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Anselmo Vingador!

Bom, acredito que em certos momentos, extremos claro, um murro vale mais do que mil palavras (risos). Aquele soco dado que lavou o peito de milhões de rubro-negros. Viva o Mengão e o Anselmo Vingador! Há 37 anos, direto do túnel do tempo…

Elton Tavares – Jornalista, flamenguista em tempo integral e bom de porrada. 

A chegada do Banana no céu – Crônica de João Lamarão (contribuição de Fernando Canto)

Banana - Foto: Chico Terra
Banana – Foto: Chico Terra

Por João Lamarão

Um mês já havia se passado daquela noite fatídica, tempo mais do que suficiente para que os tramites burocráticos do Purgatório se processassem normalmente, contando é claro, com o jeitinho brasileiro, instrumento fundamental para que qualquer processo corra rapidamente em qualquer lugar e o Banana foi autorizado a ingressar no átrio que dá acesso a porta do Céu. O ambiente normalmente tranqüilo, nesta hora estava altamente congestionado. Filas intermináveis, parecia mais com o pronto socorro durante os finais de semana do que a ante-sala do Paraíso.

Como era de se esperar, a situação mexeu com os brios do Banana que esbravejou aos quatro cantos que aquilo era uma esculhambação geral e que até ali, não havia respeito com as almas que aguardam a redenção eterna, por isso, iria se queixar diretamente a Ele. Deus, seu amigo intimo, que já o salvara de poucas e boas, de forma que a BACOL não deixaria aquilo barato.12038305_1027354530650172_9082153324834620988_n-300x222

Em um cantinho apertado, tipo 3×4, pois o preço do aluguel no Céu está pela hora da morte e onde foram implantadas as modernas instalações do Xodó Celestial, várias almas disputavam uma vaga no exíguo espaço a fim de conseguirem tomar uma cerveja geladinha enquanto aguardavam a vez de serem chamados pelo assessor especial de São Pedro, um negro alto e forte, ar de bonachão, que pela sua estatura sobressaia a turba, impondo respeito ao ambiente. Era nada mais, nada menos que o Pururuca.

12400675_1957125681178307_1652223358896026548_n-282x300Numa área reservada àqueles do regime semi-aberto que podem sair e entrar no Céu a qualquer hora, ao redor de uma mesa estrategicamente colocada, Paulão, Waldir Carrera, Marlindo Serrano e Bode, jogavam conversa fora. Faziam conjecturas de como estava a vida pelas bandas daqui de baixo, se haveria ou não carnaval, se a micareta na orla seria liberada, entre outras coisas.

Pela parte interna do balcão de mármore branco italiano, entre santinhos, velas e terços postos a venda, o Albino muito p… da vida meio a confusão peculiar, reconheceu nosso amigo ao longe, perdido meio a multidão e esbravejou:

– P.Q.P., taí o motivo da minha cuíra. Acabou o nosso sossego. Vejam quem acaba de chegar prá me aporrinhar.

segundo_rev_xodo_1999_thumb[7]Todos se viraram rapidamente na direção indicada. A alegria foi geral e imediatamente uma festa foi armada para receber o novo hóspede, gerando grande confusão, todos ávidos por notícias da terra, uma vez que por aquelas bandas não tem televisão e nem pega celular. Sabedores de que o Banana era onipresente, conseguia a proeza estar em vários lugares praticamente ao mesmo tempo, teria portanto, muita informação a dar.

Passada a euforia inicial, as coisas foram acalmando, mas ao largo, um grupo de almas francesas xingava até em patuá, a falta de organização do ambiente, exigindo providencias urgentes. Ao fundo, uma voz em fluente francês tentava acalmar o agitado grupo dizendo:

fernando_venilton_frank_thumb[3]Monsiers et mademoiselles, calma, calma… aqui as coisas são assim mesmo. Não se preocupem que vou ajeitar tudo pra vocês. Se há necessidade de dar um jeitinho, daremos; para isso, sou a alma certa, conheço todo mundo aqui no pedaço; tenho até autorização do Todo Poderoso para trabalhar como lobista e, mais rápido do que o pensam, vocês estarão rezando um terço com Senhor. Mas antes, preciso de um adiantamentozinho prá molhar a mão do porteiro.

Ouvindo isso e intrigado com a presença de tantos franceses, o Banana virou-se rapidamente e deu de cara com nada mais nada menos que o Franky de Lámour que tentava resolver a questão:

– Franky, que bagunça é essa, cara? Aqui não é o Céu, onde tudo é mil maravilhas?

– Não Banana! Aqui não é o Céu, aqui é Caiena.

– Valha-me Deus! Dancei.

*Essa crônica sobre o Banana é antológica. Foi escrita pelo nosso parceiro João Lamarão, engenheiro e escritor que  também já foi pra Caiena, infelizmente. Ele é o autor do livro “No tempo do Ronca,- Dicionário do falar Tucuju”. Essa é uma singela homenagem àqueles que fazem parte da vida macapaense e que partiram deixando saudades e para não esquecer o quanto ele também fez parte de nossa história. Sua simplicidade, bom-humor (às vezes mau-humor, mas sem ser grosseiro) e profundo amor por esta terra.

Fernando Canto

**Fotos encontradas nos blogs O Canto da Amazônia, do Chico Terra e da Sônia Canto. 

A Lenda do Pato no Tucupí – Crônica porreta de Orlando Carneiro

Comecei a criar esta crônica para o Canto de Página do Diário do Pará. Ela veio como numa tempestade cerebral, escrita de uma só digitada. Achei que poderia ser considerada inapropriada, pelos demasiadamente conservadores, para publicação em jornal. Como em livro há maior liberdade, eu a publico aqui, como um Bônus aos meus leitores. Por uma questão de respeito cultural, informo que este texto é ficcional, sendo, pois, uma crônica.

Orlando Carneiro

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A Lenda do Pato no Tucupí

Numa parte isolada da floresta amazônica, havia a tribo Ma’Fu’Xi’co, milenar povo de origem não pesquisada. Vivia da agricultura, da caça e da pesca, tudo muito rudimentar. Dentre os vegetais que plantavam estava a mandioca, da qual era extraída a farinha, feita ao meio dia no calor de ita’Kú (pedra amarela).

O caldo que saía da raladura e da prensagem da mandioca, chamado de tu’Kú (líquido amarelo), era usado para a caça, pois sendo venenoso, era colocado em cabaças nas trilhas dos animais, e estes morriam ao tomar tu’Kú.

Os índios tiravam as vísceras envenenadas e comiam a carne à vontade, pois o veneno não a atingia. Havia muitos veados na mata, e principalmente estes morriam logo que tomavam tu’Kú. Os Ma’Fu’Xi’co estavam pensando em plantar árvores de cuiuda (ou cuieira), pois era cada vez menor o número de trepadeiras cabaçudas (ou cabaceiras) na região, para fazer as cumbu´cas. Quando os Ma’Fu’Xi’co brigavam, eles discutiam muito, e desejavam a morte uns dos outros, gritando bem alto:

– Vão tomar tu’Kú.

Ma’Q’Xi’Xí era um jovem índio que se apaixonou por uma Xo’Xo’ta (índia formosa), filha de K’bi’dela, o pajé, e que era muito namoradeira, namorava com todo mundo mas não queria nada com Xi’Xí (assim era chamado o jovem). O apelido da índia era “ga´linha de K’bi’dela”. Xi’Xí, loucamente apaixonado, tentou conquistá-la:

– Tu pode vir P’í (quente), que eu estar P’á (fervendo).

– Vai tomar tu’Kú, foi a resposta definitiva da jovem.

Xí’Xí, ao ser rechaçado, resolveu se matar. Mas tinha que ser um suicídio diferente, que chamasse a atenção. Resolveu tomar tu’Kú , mas antes o pôs no fogo, até que ele P’á (fervesse). Ele achava que se tomasse P’í (quente, depois da fervura dada),a morte seria mais rápida, indolor. Quando o tu ‘Kú ficou no ponto, ele tomou bem P’í. Surpresa : não morreu. Ao contrário, achou que tomar tu’Kú era até que gostoso. Saiu gritando: “tu’Ku’P’í bom, tu’Ku’P’í bom “.

A mãe de Xi’Xí, ao ver que o filho havia tomado tu’Kú, tentando o suicídio, e estava gritando que o veneno era bom, resolveu tomá-lo, pensando que iria morrer junto com o filho, e teve a mesma surprêsa: não apenas não morreu, como aquele líquido amarelo, fervido sem tempero algum, era bom demais, imagine se bem preparado.

Excelente cozinheira, a índia mãe resolveu preparar alguma coisa para acompanhar o tu’Kú’Pí. Pensou antes em frutas, e procurou todas as que fossem Kú: Ba’Kú’rí, Kú’P’u’Açú, Tu’Kú’ Mã, e até A’bri’Có. (Até hoje não se sabe porque o nome não é A’bri’Kú, pois a fruta é amarela). Não deu certo. pensou em peixes Kú: Pí’Ra’Ru’Kú, Pá’ Kú, Tú’Kú’Na’ré, Kú’ri’ma’tã. Até que ficaram bons, mas ainda não eram os acompanhantes ideais. Tentou os animais: car´nei´ro, vá-ca, gá’los. Destes, os gá’los eram os que mais se aproximavam do ideal. Teve até um fato inusitado:

“K’bi’dela Jr. Emoticon smile”filho de K’bi’dela”) jogou no tú’Kú, a P’ir´qui, (periquita) da sua mãe, e quase foi obrigado a tomar tú’Kú, pois a citada periquita era muito querida, principalmente pelo seu índio pai). Xí’Xí perguntou para a mãe: “porquê tu num experimenta P’á-to´to” (“ave de tesão {tô que tô} fervente (pa), pra jogá no tu´Kú quando tiver pa (fervendo)? Ela experimentou, e os dois acharam que era o ideal, o P’á-to´to no tú’Kú’P’í.

Para ter um verde no prato, ela juntou folhas de uma plantinha que gostava muito, o jam´bú Emoticon smile “folha da tremelicagem”) e xi´có´ria Emoticon smile “folha que está sem estar”).

Chamaram os índios e deram para que eles provassem. Os índios vieram meio ressabiados, mas eram muito curiosos (daqueles que cheiram microfone de repórter), experimentaram e gostaram. A partir daí, o p’á-to´to no tú’Kú’P’í passou a ser o prato típico daquela aldeia perdida na amazônia. Xi’Xí, feliz, dizia para todo mundo que era melhor comer o p’á-to no tú’Kú’P’í era “que a ga´linha de K’bi’dela.”

Felizes com a descoberta e com a fama, Xi’Xí e a mãe passaram a tentar inventar pratos. Tentavam de tudo. Um dia Xi’Xí falou:

Mãe, i si nós juntá Ma’ní (folha da maniva) , com tudo que é Só (gordura animal), e B’a (ferver intensamente, dias infindos), será qui vai ficá uma cumida gostosa e nos deixá mais famôsos ?

– Num sei, Xi’Xí. Ma’ni’Só’B’a ? Acho qui é veneno.

– Será? O tu’Kú num era ? Sei não. Vá tapá (novo prato na aldeia? N.A.) a penela do tu’Kú qui tá P’á. Eu vou colher Ma’ní, juntá muito Só e B’á tudo junto. Sí dé certo a Ma’ni’Só’B’a, vou ter todas as Xo’Xo’tas (índias formosas) da tribo no meu mão.

* Orlando Carneiro já publicou inúmeros livros e é um escritor muito conhecido no Pará. Essa crônica foi uma contribuição do amigo do autor e meu também, Fernando Canto.

Comentários nas mesas de Bar nessa época do ano

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No bar a gente resolve os problemas do mundo todo em algumas horas, regados a muita cerveja e teorias mirabolantes. A filosofia de boteco é ampla, mas nestes tempos de campanha política, o pessoal questiona, critica, engrandece, crê, descrê e etc. Sim, não só no boteco, mas nas tocas, nas ruas, nos becos, escritórios, gabinetes e etc. Mas bom mesmo é no botequim.

Entre uma conversa e outra sobre todo tipo de candidato, várias opiniões são emitidas nas mesas. Entre os muitos comentários impublicáveis sobre o dia-a-dia destes tempos estão:

“Aquele limpeza!”; “Mais puxa-saco logo”; “Me rouba logo!”; “Tudo mentira que eu sei!”; “Tá escrevendo e falando merda”; “Depois de velho, se expõe ao ridículo”; “Tááááá, pra caralho!”; “Logo tu, surucucu”; “Me admira de ti”; “Até tu, rapá?”. “Fulano é traíra” e por aí vai (risos).

Como sou do grupo sem grupo algum, dou risada e mais escuto do que falo. Realmente, me divirto. Pois convenhamos, esse período é hilário e acho muito porreta ouvir as estratégias, “engenharia política”, planos malucos, alianças inusitadas, probabilidades impensáveis dos cientistas políticos bêbados e profetas embriagados.

Elton Tavares

*Republicado por só se falar em política mesmo. 

Frases, contos e histórias do Cleomar (Parte II)

Meu amigo Cleomar Almeida é um competente engenheiro. O cara também é a personificação da pavulagem e gentebonisse, presepeiro e boçal como poucos que conheço. Um figura divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade. Quem conhece, sabe. Na mesma linha da PRIMEIRA PUBLICAÇÃO sobre seus papos no Facebook, selecionei alguns de seus relatos na referida rede social. Boa leitura:

“Não vem dar teco no meu açaí, toma o teu que eu tomo o meu”. Pra eu deixar de ser enxirido.

Se eu, Cleomar, pego uma cagada que nem a que o Gilmar Mendes pegou do Ministro Barroso ontem, aproveitava o apagão e mandava avisar: Gente, queimou uns bagulhos aqui em casa e tô tentando arrumar, não poderei ir na repartição hoje. Pense numa lapada. (Em março de 2018, sobre o “mau sentimento).

Como é a vida! Lembro de um episódio nessa lida de engenheiro em que um potencial cliente me chamou pra acompanhar uma obra e que, por ser um serviço simples, ele me pagaria com “o da gasolina”. Na hora fiquei puto da vida, perguntei pra ele se achava que eu tinha cara de motor, virei as costas e saí dali indignado. Se tal proposta fosse feita hoje, nem ele teria condições de me pagar o prometido e nem eu me encheria de frescura em aceitar. (Durante a falta de combustível, em maio de 2018).

Ia comprar o AmapaCap pra ver se diminui essa lisura mas acho que primeiro vou me mudar pra Santana, pense num povo de sorte, só dá eles.

Já tô mordido com essas porcarias de goteiras, pior que só aparece quando tá chovendo. Parece o gás, que só acaba quando a gente tá cozinhando.

São estilo “Walking Dead” os carapanãs da minha casa, só pode. Tu entopes o quarto de veneno e vai caindo um por um, em meia hora já começam a se levantar, só que agora totalmente transformados, possuídos, com ódio no coração, dá pra ver a ira em seus olhos esbugalhados e sedentos de sangue. Coisa do Belzebu mesmo.

Nenhum “Fake news” foi tão devastador quanto o da faca no boneco do Fofão. Tinha até fogueira pra queimar o boneco do capeta. Tédoido!

Coisa boa mesmo é o cara ser desembargador federal, dia que tu acordas de cu sujo, tu bagunças com o domingo da galera toda. (Sobre o habeas corpus concedido ao ex-presidente Lula, pelo desembargador Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, no dia 8 de julho de 2018).

Você foi chegando aos poucos, ocupando cada espaço em minha cabeça, quando percebi já era tarde. Sai de mim calvíce da peste, logo eu, que era o Urso do Cabelo Duro.

Fala a verdade, tu tá mais puto por conta das folgas que tu perdeu, no fundo a gente sabia que não ia ganhar porra nenhuma. (Sobre a eliminação do Brasil na Copa do Mundo 2018).

Quer encontrar gente aru, é só ir na fila do caixa eletrônico, fôlego.

No meu entendimento, se o cara fez a comida, ele tá livre de qualquer obrigação com as louças, se eu cozinho, eu não lavo.

Se a vadiagem fosse remunerada, já teria feito uma grana preta, só nesse sábado.

Já tô cansado de tanto descansar, amanhã vou trabalhar de qualquer jeito. Meeeeentheeeera, ainda aguento ficar nessa vadiagem mais uns dez dias. Pra melhorar só faltava uma rede e uma frieira.

Ninguém, eu afirmo ninguém, teve um domingo mais tiricento de que eu. Sai de mim.

Tá decidido, vou votar no Dr Rey, ele tá prometendo que vai deixar todo mundo bonito, bora comigo bando de feio.

“Agora é que são Eles”: Epaminondas Gustavo e Adilson Alcântara em mais um show de humor caboco em Macapá

Os humoristas Cláudio Rendeiro e Adilson Alcântara estarão novamente em Macapá apresentando um show com piadas e histórias que se passam nas ilhas do Pará, muitas vividas por ribeirinhos e moradores do Norte do Brasil. “Agora é que são Eles” é o novo espetáculo da dupla, que tem como personagem principal o Epaminondas Gustavo, interpretado por Cláudio Rendeiro, e músicas que cantam o caboco e a vida amazônica. O show será hoje (3), no Teatro das Bacabeiras, às 20h.

“Agora é que são Eles” tem a marca da dupla, que faz sucesso nos palcos e redes sociais, principalmente na rede de relacionamento wathsapp, onde os áudios com as piadas se espalham instantaneamente. Palavras, expressões populares e “causos” são contados por Epaminondas e Adilson, que transportam a vida dos ribeirinhos para os palcos. As aventuras, reclamações, desavenças, conselhos, fatos, são contadas com o sotaque típico das margens dos rios, e acompanhados por canções que se encaixam no contexto do show.

Epaminondas Gustavo é uma criação do juiz do Tribunal de Justiça do Pará, Cláudio Rendeiro, que o caracterizou como um morador de São Caetano de Odivelas, onde o nasceu o magistrado, com linguajar caboco e cheio de expressões engraçadas. Com uma graça ingênua e natural, Epaminondas dialoga sem dificuldade com o público, que se identifica com o personagem e se tornam parte do espetáculo.

Adilson Alcântara é um artista experiente do Pará, tem 25 anos de carreira como cantor, compositor, humorista e produtor cultural. Ele é o responsável por equilibrar o humor com a paródia, que também faz parte da vida dos ribeirinhos, e conta as piadas com ritmo e acompanhado por um violão. Adilson renova o jeito de fazer humor com seu talento para as artes cênicas e musicalidade latente.

Paralelo ao show de humor, serão lançados no Amapá as obras “Sátira de um Ribeirinho” e “Lírica Ribeirinhas e Outras Margens”, editados pela Imprensa Oficial do Pará. Os livros são uma obra casada, “Sátira de um Ribeirinho” é assinado por Epaminondas Gustavo, com seu olhar caboco, e traz crônicas e histórias; e “Lírica Ribeirinhas e Outras Margens”, revela o lado poético de Cláudio Rendeiro. Macapá está descrita neste último na poesia Coração Tucuju, inspirado no Hino Cultural do Amapá, “Jeito Tucuju”. As histórias e poesias estão disponíveis para serem ouvidas por meio de um QRCode, disponível para celular.

O lançamento dos livros acontecem após a palestra-show para alunos que cursam Direito, no auditório do Sebrae. O valor arrecadado com as entradas deste evento será para investimento na formatura de turmas do curso de Direito, que estão envolvidas na organização do evento.

Serviços:

Data: 3 de agosto
“Agora é que são Eles”
Local: Teatro das Bacabeiras
Hora: 20h
Ingresso: R$ 30,00
Data: 2 de agosto
Local: Auditório do Sebrae
Palestra Show para alunos de Direito
Hora: 19h
Entrada: R$ 20,00
Lançamento dos Livros
Hora: 20:30
Entrada: Livre

Mais informações: 98139-9346 (Ruth Reis)

Mariléia Maciel
Assessoria de Comunicação

Mandela Day – Viva Nelson Mandela! (Se vivo, o herói da liberdade faria 100 anos hoje)

18 de julho é o Dia Internacional de Nelson Mandela, conhecido como “Mandela Day” e adotado pelas Nações Unidas em 2009. A data foi escolhida por ser a mesma do nascimento do herói da liberdade, falecido em 2013. Ele faria 100 anos hoje.

Ex-presidente da África do Sul, dono de um Prêmio Nobel da Paz e um dos homens mais respeitados do planeta, Nelson Mandela morreu aos 95 anos em Pretória, na África do Sul. Ele foi vítima de um câncer ao qual lutava contra desde 2001.

Ele foi o maior símbolo de combate ao regime de segregação racial conhecido como Apartheid, que foi oficializado em 1948 na África do Sul e negava aos negros (maioria da população), mestiços e asiáticos (uma expressiva colônia de imigrantes) direitos políticos, sociais e econômicos. A luta contra a discriminação no país o levou há ficar 27 anos preso, acusado de traição, sabotagem e conspiração contra o governo, em 1963.

Condenado à prisão perpétua, Mandela foi libertado em 11 de fevereiro de 1990, aos 72 anos. Durante sua saída, o líder foi ovacionado por uma multidão que o aguardava do lado de fora do presídio.

Mandela defendeu o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas convivam em harmonia e com oportunidades iguais.

Frases:

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.”

“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.”

“Sonho com o dia em que todos levantar-se-ão e compreenderão que foram feitos para viverem como irmãos.”

“Aprendi que a coragem não é a ausência do medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas o que conquista esse medo.”

Para saber mais sobre a história deste fantástico homem do bem, assistam o documentário “O Milagre Mandela”:

Ele tornou-se ícone da liberdade e da igualdade. Sou negro, filho, neto e bisneto de negro e hoje rendo homenagens a um dos mais importantes homens da história. Nelson Mandela, o Madiba, foi fundamental. Não somente para um povo ou uma raça, mas para a humanidade.

Viva Nelson Mandela!

Elton Tavares

Ronaldo na área – Crônica de Ronaldo Rodrigues e imagens de Ronaldo Rony

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Atenção, galera! Ronaldo entra em campo aos 44 minutos do segundo tempo para virar esse jogo! Agora o time engrena!

Não, senhoras e senhores! O Ronaldo a que me refiro não é o gajo Cristiano Ronaldo, o maior jogador do mundo da atualidade (pra você ver como o mundo e a atualidade andam carentes). O Ronaldo portuga mais parece um vaidoso pavão do que um jogador de futebol (aliás, como a maioria dos jogadores de agora).

Mas deixa ele pra lá e passemos a falar do Ronaldo que interessa. Além dos Ronaldos que já tivemos, o Gaúcho e o Fenômeno, o nosso futebol conta com o Ronaldo Anônimo, que reivindica agora, através desta crônica, seu justo lugar na História das Copas.

O COMEÇO DE TUDO

Inglaterra 1966

O Brasil já tinha perdido o complexo de vira-lata e vencido duas copas (Suécia/1958 e Chile/1962). Mas a nossa seleção se apresentou de maneira pífia e não trouxe a taça. Tudo porque o nosso Ronaldo não tinha sido convocado.

México 1970

Brasil Tricampeão. Ronaldo foi novamente ignorado e o mundo deixou de presenciar seu jovem talento. Tudo bem que ele só tinha 4 anos de idade, mas custava o técnico Zagallo dar uma chance à nova geração?

A ASCENSÃO DE UM ASTRO

Ronaldo foi crescendo e o craque se revelando. O técnico insistia em deixá-lo no banco de reservas, mas a torcida já reconhecia seu talento precoce e exigia sua entrada em campo.

Aos 10 anos, Ronaldo declarou todo o seu amor ao futebol, em vários idiomas, pra deixar claro que sua intenção era ser astro internacional.

Era uma paixão não correspondida. Ronaldo amava o futebol e o futebol o desprezava totalmente.

Argentina 1978

Apesar de não contar com Ronaldo, que continuava sem sua merecida chance, o Brasil não teve uma derrota sequer e, mesmo assim, não trouxe a taça. A anfitriã venceu o torneio com um time bom, a violência de sempre e a decisiva ajuda da ditadura argentina.

Espanha 1982

Ronaldo tentava de tudo para se inserir no mundo do futebol, mas nem como torcedor se dava bem. O futebol-arte do Brasil caiu diante da pálida Itália, que fazia uma Copa muito da miada. Poderíamos até empatar que a classificação viria, mas o até então apagado Paolo Rossi resolveu desencantar justamente naquele dia e fez três gols. A seleção canarinho voou de volta pra casa e Ronaldo levou toda a culpa.

México 1986

Onde estava Ronaldo? Assistindo pela TV ao show de Maradona, fazendo, contra a Inglaterra, um gol de malandragem com la mano de Dios e outro de extrema habilidade, quando enfileirou metade do time bretão. O Brasil foi eliminado pela França nos pênaltis e Ronaldo continuou seu sonho de um dia disputar uma Copa.

Itália 1990

A era Dunga não decolou. O Brasil foi desclassificado pela Argentina, num gol de Caniggia, recebendo o único passe que Maradona conseguiu fazer em todo o jogo.

Estados Unidos 1994

Acaba o jejum de 24 anos e o time mediano do Brasil sagra-se campeão nas terras do Tio Sam. A torcida teve que se contentar com um xará do nosso craque, que não saiu do banco.

França 1998

O Brasil amarelou na final e Zidane comandou a vitória da anfitriã. Culpa de quem?

Japão e Coreia do Sul 2002

Desta vez, acontece um fenômeno. Ronaldo faz dois na Alemanha e o Brasil é penta.

Alemanha 2006

Ah! Deixa essa Copa pra lá! A única coisa legal foi a cabeçada do Zidane no Materazzi!

África do Sul 2010

Outra chatice! Essa foi tão meia-boca que até a Espanha ganhou…

Brasil 2014

Nesta Copa, Ronaldo foi mais um dos brasileiros que conseguiram transformar em piada o que teria sido uma tragédia.

Rússia 2018

Mesmo com 52 anos, Ronaldo não para de treinar e ainda acredita em uma convocação de última hora. A torcida do Brasil está meio desmotivada, mas vamos deixar a bola rolar e ver no que vai dar. Pior do que tá não fica, como disse aquele pensador contemporâneo. Ronaldo está aí e, caso seja convocado, ainda tem muito jogo pra mostrar.

* Imagens de Ronaldo Rony.

NEM LÍNGUA DE CACHORRO AJUNTA – Crônica de Fernando Canto ( e recado pros manés de plantão)

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Crônica de Fernando Canto

As más línguas, quando querem, destroem qualquer situação, pessoa ou relação aparentemente estável. Já vi coisas se transformarem da noite para o dia em verdade absoluta, bastando para isso uma pequena interrogação irônica ou uma afirmação leviana, por um balançar de cabeça de pessoas consideradas sérias.

Em muitas dessas situações inventadas está escondida a verdadeira intenção do difamador, que lança seus “diabinhos” e deixa que eles corram como rastilho aceso em direção à banana de dinamite. Daí, os pedaços voam e se esmiúçam cada vez mais na cabeça dos ingênuos que se convencem dos fafofoca1tos e espalham a falsa notícia, para a satisfação do interessado. A estratégia do caluniador conta sempre com o apoio das “rádios cipós” que se ancoram pelos corredores das repartições públicas, pelas esquinas e bares. Elas são fontes secundárias de informações pelo princípio empírico e popular de que “onde há fumaça há fogo”, e, aliás, aproveitada com muita competência por apressados comunicadores locais, nem um pouco interessados em checarem a “notícia” plantada.

Muitas vezes, e sem querer, somos atores nesse processo, que é da natureza humana, uma vez que vivemos em grupo, nos comunicamos por diversos meios e temos interesses comuns e particulares. levianoTemos desejos e conflitos políticos e portamos uma conduta psicológica calcada em personalidades próprias e bem diferentes uma das outras. Talvez por isso nem nos damos conta que ao recebermos uma mensagem, seja de onde e de quem vier, nos tornamos personagens que vão beneficiar ou maltratar alguém ou alguma coisa.

Os políticos, de modo geral, se valem desses expedientes quando querem salvaguardar seus interesses, mormente na hora que os argumentos se esgotam. 1355812829Já descrevi aqui neste espaço invenções articuladas com o propósito de inverter o jogo das eleições. Lembro que ouvi pessoas sérias afirmarem ter visto o marido de certa candidata a prefeita sangrando no Pronto Socorro, por causa de um tiro dado pelo irmão do candidato que venceria as eleições. Lembro ainda que em outra eleição deu no rádio que o candidato mais velho a prefeito da capital havia falecido. O boato crescera tão rápido logo pela manhã que um batalhão de repórteres saíra à cata do suposto morto. Quando ele se manifestou nas rádios já era tarde. Seus eleitores não queriam “perder o voto” e já haviam votado em outros candidatos. Esses são apenas pequenos episódios que envolvem boatos e fofocas no meio político, onde um criativo mundo se articula diariamente em permanente conflito na busca da estabilidade e poderes.facefofoca

A calúnia, a difamação e a injúria são crimes previstos em lei. São palavras diferentes para ações legais muito semelhantes que tiram o sono dos “bocudos” quando têm de pagar indenizações na justiça a alguém a quem ofenderam moralmente de forma leviana e irresponsável. São elementos do controle social necessários à estabilidade da sociedade, dada à variabilidade e às diferenças das influências ambientes.cachorro_calor[6]Nosso comportamento é motivado pelas necessidades psicológicas herdadas e pelos anseios sociais adquiridos. Somos induzidos a agir por isso e conforme nossas necessidades, ambições e interesses de ordem pessoal. Daí, também, advém os desvios de conduta, os excessos temperamentais e a ausência de educação e controle que fazem as pessoas disseminarem suas opiniões ofensivas à dignidade de alguém. A Lei serve para controlar e punir esses crimes. Mas, uma vez feito o estrago, difícil é a reparação. Segundo o seu Jurandir, do Bailique: “Depois que o caldo cai no chão nem língua de cachorro ajunta”.

* Crônica de novembro de 2007 e publicada no livro Adoradores do Sol, de 2010.