Não joga pedra na Geni (conto de Ronaldo Rodrigues)

“De tudo que é nego torto / do mangue e do cais do porto / ela já foi namorada”. Eu era um perdido no caos do porto da vida e ela me amava assim mesmo. Desconsiderava minhas feridas e lambia meu corpo inteiro. Me colocava pra dormir em sua cama de papelão, sob a marquise de alguma loja. Ou no chão de um banheiro imundo. Ela acolhia a todos os famintos e dava de comer. Os que tinham frio, ela aquecia entre seus seios. Eu era mais um em sua teia, mas cada um sabia que era único. 

 
Ela nos fazia amados e preparados pra amar. Nos fazia crer que era possível continuar a sugar da vida tudo o que ela trazia de bom. O que era ruim já se conhecia tanto. Não devíamos desperdiçar energia em ofícios vãos, preocupações metafísicas, o segredo dos astros, a fofoca da esquina. Que vivêssemos! Vivêssemos! Vivêssemos! Só isso!
 
Ela não fraquejou nem quando a carruagem parou na entrada do beco. O Dono do Mundo desceu reclamando suas carícias. Ele desejava ter aquela mulher que tantos tinham. Ele começou oferecendo dinheiro, joias, roupas, viagens ao exterior. Ela disse não a um homem que não estava acostumado a ouvir essa palavra tão pequena na forma e tão grande em sua significação. Ele ofereceu toda a sua fortuna e ouviu outro não. 
 
Por fim, ofereceu apenas o seu amor. Quando ela duvidou disso, ele passou à chantagem. Colocou todos nós, os mendigos, como reféns. Ele só queria uma noite de amor, senão mandaria nos matar. Ela olhou o Dono do Mundo por longo tempo. A limpeza de suas ricas roupas a enojava. Seu perfume caro causava náuseas. Seu sorriso com todos os dentes lhe dava repugnância. Ela nos olhou e sorriu. Aceitaria aquela tortura por nós. E nós, covardes, não fizemos um gesto de impedimento. Também podíamos tão pouco. Ele apenas anteciparia a matança. 
 
“Ele fez tanta sujeira / lambuzou-se a noite inteira” e foi embora, nos deixando vivos. Ela nos abraçou e abençoou nosso cheiro azedo, nosso hálito de cachaça, tabaco e fome. Aquele homem que era dono de tudo não era nada perto de nós. E se a cidade toda quiser, um dia, apedrejá-la vai encontrá-la subindo aos seus céus, como uma santa, levando pelas mãos todos os perdidos.
 
Ronaldo Rodrigues
*Geni e o Zepelim – Letícia Sabatella (Chico Buarque):

O Navio dos Cabeludos e a Educação pelo Medo – Crônica muito paid’égua de Fernando Canto

 

Crônica do sociólogo Fernando Canto

O medo de fazer algo errado e ser punido controlava a ação de qualquer moleque da minha idade.

Os mais velhos comentavam com veemência sobre uma tal Ilha de Cutijuba, no Pará, para onde levavam os jovens transgressores das leis, falando misérias sobre ela. Diziam ser um presídio de onde era impossível fugir por causa dos tubarões e pirararas que viviam ao seu redor, perto do oceano; um lugar quase inacessível, que para viver era preciso lavrar a terra na chuva e no sol para produzir seu próprio alimento; uma prisão ao ar livre na qual poucos sobrevivam cumprindo suas penas. Em suma: um inferno.

O controle social bem articulado, posto nas nossas cabeças pelo medo, povoava nossas vidas desde a infância. Para cada situação sempre existia uma história que evitava o fazer errado. Era a educação pelo medo. Até hoje quando vejo uma sandália virada providencio logo que ela fique na posição de calçar, pois me ensinaram a acreditar na superstição de que minha mãe morreria se a sandália não estivesse de cabeça para cima. Espertos esses adultos! Eles inventaram uma forma de fazer as crianças não bagunçarem os espaços da casa e também de não castigá-las com surras e outra correções violentas. Certa vez um dos meus filhos, ainda criança, viu o irmão chutar uma sandália que ficou de cabeça para baixo num canto da sala. Imediatamente ele disse: – A mamãe vai morrer, eu não tô nem aí, eu não tô nem aí! E saiu se isentando da culpa da (im)provável “morte” de sua mãe, causada pela sandália virada.

Situações como essa aprendemos em todos os lugares, seja em casa, na rua ou na escola, onde nossas relações sociais se ampliam e solidificam. E assim a gente vai se educando, variando os conhecimentos, resistindo ou não às novidades, segundo os contextos históricos, sociais, culturais e políticos que se apresentam. Mas dificilmente essas superstições e abusões sairão de nossas memórias, embora entendê-las, hoje, signifique dar boas risadas, porque todas as representações simbólicas produzidas pela consciência coletiva ou individual expressam visões de mundo e de sociedade. É uma visão política de realidade porque as ideologias estão ligadas à compreensão da cultura, que por sua vez é uma percepção ligada às diferenças entre os homens. O controle implícito no gesto de “ajeitar” a sandália é uma experiência de poder.

Bem próximo, na continuação da educação pelo medo, lembro da expressão “- O Navio dos Cabeludos vem te buscar.”, uma forma de coação social e familiar para os que não gostavam de cortar os cabelos, principalmente no tempo da Jovem Guarda, quando era moda usar os cabelos compridos, mesmo se arriscando a ser chamado de “bicha”. Não sei de onde veio a dita expressão, mas desde a Guerra do Paraguai, passando pela Revolução dos Cabanos e pela Segunda Guerra Mundial, muitos jovens se escondiam no mato com medo dos “Pega-pega”, navios que passavam nos rios da Amazônia para alistá-los compulsoriamente e remetê-los aos campos de batalha.

A invenção dessa “pedagogia” não raro ainda se estabelece em muitos lares urbanos e rurais da Amazônia. E funciona com as crianças, porque todas têm medo. Nenhuma delas quer perder a mãe por causa da sandália virada. Ninguém quer viajar a força num desses Navios dos Cabeludos que sempre aparecem na frente da cidade para uma viagem sem destino e sem volta.

As praças dos velhos tempos – Crônica porreta de Fernando Canto

 

Crônica de Fernando Canto

Creio que todos nós nos lembramos de algum logradouro público da cidade como um espaço que marcou determinado momento de nossas vidas. E, claro, nada como um passeio nas praças de Macapá para fazer vir à tona os clipes nos quais fomos felizes protagonistas ou solitários incompreendidos frente às decepções e vicissitudes que a vida traz, inexoravelmente.

Quando Macapá era menor um passeio à praça significava um caminho para a conquista. Depois da missa ou depois da matinê do cinema, um toque na mão da namoradinha, um ousado “tocha” na despedida era “a glória” dos enamorados, era o sonho realizado sob o embalo da canção romântica interpretada por Ronnie Von que tanto sutumblr_mdlmayxg841re4txro1_500_largecesso fez na década de setenta. Alheios aos acontecimentos políticos, nem dávamos conta das transformações que se operavam no país naqueles tempos. O importante era a afirmação como homem e a curtição daquilo que chegava a nós de forma inócua, como os modismos americanos: a calça Lee, os cabelos longos e o som do Credence Revival de do Jonnhy Rivers, que o Agostinho e o Velton esnobavam em danças supostamente de moda para agitar a juventude nos salões dos clubes da cidade. A versão tupiniquim do calhambeque do Roberto Carlos e das roupas e sapatos da novela “Cavalo de PraçadaBandeira-fotos-antigas-de-macapá-433Aço”, também faziam sucesso, mesmo que a ainda não tivesse televisão funcionando em Macapá.

Nessa época todas as atividades cívicas se concentravam na Praça da Bandeira, bem como a do Barão (área em frente aos Correios) era usada para educação física dos alunos dos colégios próximos e a Veiga Cabral (área onde está hoje o Teatro das Bacabeiras) servia para a instalação de circos e arraiais de festas de santos. A da Bandeira fora a Praça da SPraça-Veiga-Cabral-2audade, onde havia três velas enormes em homenagem ao deputado Coaracy Nunes, ao promotor e suplente de deputado Hildemar Maia, e ao piloto Hamilton Silva, mortos em acidente no Macacoary, no final dos anos cinqüenta. A do Barão era a antiga Praça São José, onde ficava o pelourinho na planta desenhada pelo engenheiro João Gaspar de Gronfelds, em 1761. Depois virou Largo de São João e finalmente Barão do Rio Branco, no início do Território Federal do Amapá. A que hoje chamamos Veiga Cabral já foi a Praça de São Sebastião, onde foi fSem títuloundada a Vila de Macapá pelo governador Mendonça Furtado. Situada em frente à Igreja de São José, entre as ruas Formosa (hoje Cândido Mendes) e São José (a única que não mudou de nome desde a fundação de Macapá), já foi palco do Marabaixo, de comícios e de muitos concertos musicais realizados no coreto pelas bandas dos alunos do Padre Julio Lombaerd e do Mestre Oscar.

Vale ressaltar que nessa planta de Gronfelds, só havia então duas praças, e Macapá começava a ser planejada espacialmente por ele, cujas concepções nós estamos usufruindo até hoje. Segundo o urbanista e professor Alberto TostesOs Mocambos (1972), os grandes quarteirões e as ruas largas foram idealizados por Gronfelds porque o nosso clima quente e úmido é de massa equatorial, então toda a força para suprir essa diversidade vinha exatamente do rio Amazonas, daí a sua preocupação, antes mesmo da construção da fortaleza de São José, em planejar ruas largas e imensos quarteirões, em contraste com as ruas estreitas das cidades européias e coloniais. Ao resto, o engenheiro militar idealizou um grande sombreamento a partir do plantio de árvores para fazer a cobertura climática, o que suscita uma visão sustentável de cidade concebida há quase 250 anos.

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“A Praça é do povo”, recitava impetuosamente Castro Alves, é nela que se cruzam diariamente sonhos e textos, interesses e esperas, risos e lágrimas e tudo o mais que os seres humanos deixam escapar pelas janelas da alma. Suas aparências, sem dúvida, como dizem os pára-choques de caminhão, refletem o estado administrativo da cidade: são os espelhos das intenções e dos gestos políticos. Por isso, então, merecem os mais profundos cuidados no corte da grama, na poda de árvores e no conserto dos passeios e bancos, usados freqüentemente poempinando pipa (25)r quem tem pouca mobilidade. Não podem ficar à míngua, tomadas pelo mato, como a que existe na descida em frente à residência governamental, um velho e rasgado cartão postal, destruída por vândalos e esquecida pelo poder público, sob o testemunho triste dos velhos coqueiros balançantes na contraluz da nascente.

*Fotos encontradas nos blogs da Alcinéa, Alcilene e Porta Retrato.

O Lago encantando e a árvore de dinheiro – Crônica paid’égua de Mariléia Maciel – @MarileiaMaciel

Crônica de Mariléia Maciel

Era o tempo em que entendíamos e repetíamos: 31 “alesta” e “alunou”, em vez de “alerta” e “anulou”. E assim as brincadeiras divertiam nossos dias e me levava a crer que o importante na vida era somente a diversão na rua, de onde só saíamos quando os gritos de “….vem pra dentro!” doíam no ouvido. O local preferido era no final da rua em que eu ainda moro, a Mãe Luzia, próximo ao lago, não só pela falta de opção, mas porque era lá o espaço dúbio onde viviam dois extremos, os nossos medos e a curiosidade pelos mistérios e lendas, que o tornavam um tesouro que podia ser descoberto aos poucos. Rodeado de aningas e com poucas casas na margem, era como um santuário, guardado pelo seu Anastácio e pelos seres místicos como o Pretinho do Lago e o Bode Preto. Estes dois imaginários, depois das brincadeiras das noites, se metiam embaixo do mosquiteiro e me atormentavam os sonhos.

Os vizinhos mais antigos, cujas famílias vieram do centro de Macapá pros campos do Laguinho, contavam que no princípio o lago era um poço, mas alguém jogou dentro um jacaré, que se transformou em um gigante que alargou suas paredes até que virou o lago. Não era grande, mas, diante da minha pequenez, parecia com Ness, e seu monstro marinho. A molecada do bairro fazia jangada e papai colocou uma canoa, a Saideira, que usava para sua diversão preferida, que era pescar. Foi na beira do lago que passei a maior parte da infância, nadando, correndo, pescando e inventando quanta brincadeira a imaginação conseguia criar.

Eu morria de curiosidade de chegar do outro lado. Bolava mil maneiras de chegar até lá, desde que não fosse rodeando pela Nações Unidas. A emoção tinha três caminhos: atravessar pelo cano, ir de canoa, ou beirando a margem, entre as inúmeras árvores e as cortantes tiriricas, que nos deixava com as canelas lanhadas. O problema com o cano era minha falta de habilidade em percorrê-lo, correndo, como os outros. Tinha que passar a humilhação de ir de gatinho, me agarrando no tubo, enquanto os outros riam. Nunca cheguei até o final da aventura, na metade o arrependimento tomava conta da minha alma e eu voltava engatinhando, pior, de costas. De canoa eu não podia, papai só a colocava na água quando ia usá-la. Então me aventurei pela margem.

Queria confirmar se a árvore que eu enxergava da veneziana de casa, era da espécie que me contaram: um pé de planta que dava dinheiro no lugar de folhas. Saí com alguns amigos que foram vencidos pela minha insistência e hipnotizados pela ideia de encontrar a tal árvore da riqueza. Seu Anastácio não podia nos ver, porque se intitulava proprietário do lago. Então descemos pelo lado da casa da Dinalva, que o quintal emendava com o lago, e fomos munidos de pedaços de madeiras e uma faca pra nos livrar do mato afiado. Vi então, de perto, as árvores de mucajá, taperebá e tucumam, que eu só enxergava de longe as copas e seguimos adiante.

Depois de uma longa estirada, rezando pra não encontrar o Pretinho do Lago, desviando de carapanãs, com as pernas em sangue, suados e com sede, finalmente chegamos em nosso destino. Sonho realizado, e corremos pra pegar as cédulas que brotavam dos galhos. Foi então que olhei pra árvore da fortuna, e depois pro chão, e tive a certeza que a Casa da Moeda não era no Laguinho. Voltei decepcionada e forçando o pensamento pra lembrar quem começou a mentira. Pegamos o mesmo caminho, os mesmos mosquitos e capim, e eu, mais um contratempo dolorido. Com a raiva na garganta e pressa, porque estava escurecendo, tropecei em um tucumanzeiro derrubado no chão e caí com as coxas em cima do tronco espinhoso. Terminei a aventura em casa, depois de levar um ralho de mãe, que ficou com pena do estrago nas minhas pernas e não me deu umas boas rimpadas. Dormi com a perna pintada de iodo, cheirando a azeite de andiroba e com o sonho de encontrar a árvore do dinheiro frustrado. Apenas uma certeza: o Pretinho do Lago existia, e defendeu sua riqueza de moleques curiosos, por isso não achamos a árvore. Ele foi enterrado junto com seu tesouro quando o lago foi aterrado de lixo e fezes, e com eles, minha infância bem vivida no Laguinho.

Mariléia Maciel

*OBS: a foto é de quando o lago não havia sido invadido

FLAUTA – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

​De manhãzinha, seu Pedro descia os três degraus de escada, fechava a porta com chave, duas voltas, e seguia caminhando cabisbaixo como perseguido pelos sons da flauta que tocava nas horas de folga.

​Sempre aquele soprar enfadonho, semi-tonado, choroso e cabisbaixo como ele quando caminhava para o centro da cidade, onde funcionava a barbearia em que trabalhava há 40 anos, ali debaixo do antigo Grande Hotel do Pará.



Quando seu Pedro voltava, já começando a noite, alguns gatos atravessavam a rua, vindos do terreno baldio em frente e, miando, subiam pelo telhado de sua casa, entre as ervas ali dependuradas e telhas soltas cheias de limo.

Com a noite alta, os gatos atravessavam a rua e retornavam às suas moradas no terreno baldio do outro lado da rua. Então, terminava a folga dos ratos. A flauta se calava e o pessoal da república, a uma quadra dali, – Joca, Edílson Calouro, João Silva Santos, Veríssimo, Alípio e Edivaldo – acomodavam-se para estudar. Eu podia ver as notas correndo pela vala em meio à água rala que pouco cobria o lodo do fundo. Na rua tinha um cachorro vagabundo que, vez por outra, pulava na vala atrás delas, e as engolia de um só fôlego. Era ele fazer isso que a estudantada saía pela porta da sala e divertia-se ouvindo-o latir. Uns latidos meio miados, meio zunir de ratos, meio barulho de tesoura cega cortando cabelo.

Veríssimo era o mais moleque e o atiçava com uma toalha. Certa vez, foi tanta a algazarra que seu Pedro saiu na porta de sua casa e tocou na flauta um fado tão lamento, que as notas saíram da vala, da boca do cachorro, do barulho de uma rasga mortalha, e coloridas e em fila retornaram para a flauta. Seu Pedro fechou a porta e, mais depois, amanheceu. Tudo foi tão rápido que os degraus não tinham se levantado quando ele abriu a porta e desceu.

Noutro dia, eu soube que ele caíra e fora levado para o hospital. E que mais tarde toda a vizinhança o fora visitar. Uns levaram caqui, outros restos de mar, outros nacos de sol. Eu levei alguns gatos pardos e malhados e um rato, o que costumava cantar mais alto. Não consegui entrar.

À noitinha seu Pedro morreu. A vala foi aterrada pela Prefeitura. Chegou o carnaval e os gatos viraram tamborins. A flauta ficou pendurada na sala, guardando notas enferrujadas. Até que a casa ruiu. Os estudantes concluíram seus cursos e sumiram. Eu fiquei sozinho, escrevendo contos irreais sobre flautas, gatos, ratos, cães e valas. Coisas em que seu Pedro, também sozinho, nunca acreditou.

– Seu Pedro era canhoto?

* Além de contista, Luiz Jorge Ferreira é poeta, escritor e médico amapaense que reside em São Paulo e também é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames).
**Do livro Antena de Arame, Rumo Editorial- SP – II EDIÇÃO. 2017.

A APROPRIAÇÃO SOCIAL DAS CORES – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto – Sociólogo

Não é de agora que as cores determinam gostos, tendências e paixões. Muito menos ideologias políticas. Quando existiam. A simples pigmentação que os nossos olhos vêem na natureza, o que para os físicos designa uma luz ou a radiação de certo comprimento de onda, pode se transformar num insulto ou até mesmo em objeto de cobrança do dia-a-dia.

No contexto social há uma apropriação simbólica veemente das cores. Apropriação essa que ultrapassa a coerência, mormente em períodos de campanhas eleitorais, quando se exacerba o desfraldar das bandeiras e se acirram apaixonadamente os interesses em busca de vitórias políticas. Cores que se identificam com a personalidade de indivíduos nem sempre se adequam à personalidade do grupo, o qual invariavelmente dita as normas para se caracterizar. Apesar de impalpável a cor transfixa-se em objeto, e como tal tem o profundo poder de mexer no psicológico das pessoas e de transformá-las em reprodutoras do seu significado. Torna-se, então, símbolo identitário de uma causa, sinal de algo que se instaura, signo expressivo sob a luz. E por estar em toda parte constitui-se inequivocadamente símbolo, capaz de suscitar movimento expresso em cada alma que busca razões de estar neste universo.

Não é à toa que as cores de uma paisagem falam uma linguagem capaz de ser entendida pelos poetas e artistas, os quais pressentem a presença de entidades e gênios e sabem o significado do mundo visto por eles. As cores representam uma espécie de milagre permanente de energia. E mais além encantam os olhos de cientistas por se apresentarem como enigma a ser decifrado. Desde a criação alegórica do mundo quando Deus disse “faça-se a luz” as cores explodiram no cosmo para dar ao homem que viria razões para pensar no seu processo de criação e fazer nascer a cultura, em oposição à natureza.

As sete cores que enxergamos no espectro solar: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta são apenas produtos de visão arbitrária, considerando que o olho humano é capaz de distinguir cerca de 700 tonalidades de cores diferentes. Todas elas estão carregadas de valores simbólicos que dificilmente alguém pode apartar. O vermelho, por exemplo, cor quente, associada ao planeta marte (deus da guerra), também tem relação mística com metal (ferro), com pedra preciosa (rubi ou sardônica) e com um dia da semana (terça-feira). Também é considerada a cor do fogo e do sangue. É a cor do amor, do orgulho, da violência, da virilidade masculina e da divindade. Por vezes representa o sol, que enquanto fogo celeste, é mais vermelho que amarelo. São aspectos da apropriação que o homem realizou desde os primórdios nas suas lutas para marcar seu território e conquistar outros. Assim cores são bandeiras e estas têm cores representativas de uma ideia ou de uma ação, que no decorrer dos tempos mudam de significado.

Lembro aqui que a cor representativa de um grupo, de um partido ou de uma causa pode incutir medo ou reações mais absurdas de servilismo ou de conduta desvairada em seus seguidores. Quem não se recorda de um período recente da vida local em que o tradicional Colégio Amapaense foi pintado de um amarelo tão feio que causava dor na retina de qualquer cidadão? Ou de quando as escolas públicas, em época não muito distante, eram de um azul escuro tão forte que tinha até nome e provocava raiva? Um certo movimento abarcou logo – democraticamente – o arco-íris todo.

Creio que por um lado essa apropriação demonstra os progressos e as mutações do homem na sociedade. O homem que vence suas paixões e desejos e eleva sua consciência procurando novos rumos em direção à luz. Por outro lado, porém, esse mesmo homem, ao empatar a luz com sua mesquinhez e loucura, ou mesmo ao se impor como dono de certa cor, decerto tornará o mundo mais obscuro e mais triste.

ESTAREMOS SEMPRE JUNTOS ESTA NOITE, AMORE MIO – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto
Ao pintor Olivar Cunha

– Não duvido mais, conclui Pietro di Paolo, triste, sentado no sofá, olhando para a estranha figura da tela abstrata que parece ter ganho nova forma, novo estilo e perdido as cores mais vivas.

– Daqui pra frente vão começar as mudanças. Te prepara, amore mio. Minha intuição é mais forte que as profecias de Nostradamus.

Betsylla acende o incenso enquanto o marido mergulha em si mesmo. Deve ser para meditar e para espantar as emissões malignas que penetram naquele apartamento. O odor se espalha minando cada canto da sala. A ideia é formar uma cortina esfumaçada para conter o que virá.

Pietro di Paolo não sabe mais a forma, dimensão, peso ou qualquer referência sobre o que virá daí para frente. Sabe que dentro da tela há uma moradia, exatamente nos olhos da figura deformada exposta na parede, que se manifesta aos poucos em três dimensões.

O quadro é grande, embora sem moldura, porém tem um chassi perfeito e seguro, o que lhe dá a impressão de indestrutibilidade. Mede 2,00 x 1,50 m e ocupa a parede de forma onipresente. Para onde se anda e se observa a imagem, os olhos dela estão nos olhos do observador. Provoca uma relação de dependência, suscitando um desejo de troca, de transposição. Assemelha-se a uma técnica medieval de pintura religiosa onde os santos parecem estar sempre observando os pecados dos crédulos. Betsylla traz o chá preto que ele pediu. Não dormirá nessa noite. Ela senta junto a ele e o afaga, lhe acariciando as barbas alongadas. Prepara-se para a noite comprida como à espera da revelação de um segredo.

– Vá dormir, amore mio, ele diz.
– Não tenho sono. Quero ficar.
– Você não está preparada pra…
– Estou, sim, diz cortando a frase bruscamente. – E não tenho medo. Eu te amo, amore mio. Estaremos sempre juntos.

Ficam longo tempo sem falar. Escutam Sonata para Violín y Piano, de Mozart, tão suavemente executada por Luiz Felipe e Armando Merino. Os olhos fixados nos olhos da tela sob a luz acesa da sala onde bebem várias xícaras de chá preto e café. A fumaça do incenso se confunde com a dos cigarros que fumam incessantemente. A causa que gera a situação não pode ser uma simples patologia ocular, um escotoma, um ponto negro, uma escuridão, uma ilusão que o cérebro possa achar que é o que quer ver. Nem o efeito um carma. Pietro di Paolo e Betsylla têm lá suas certezas e experiências de vida. Conhecem o mundo todo. E sabem, sabem de muitas coisas misteriosas.

O enfrentamento é inevitável. Será uma guerra de imaterialidade. Por isso os olhos estão acesos. Não cochilam em nenhum momento. A vigília é mútua pelo compromisso assumido entre os dois. Mas em dado momento o alerta vacila.

*******

Às 08h00 em ponto a diarista abre a porta, sente o cheiro estranho no ambiente. Copos, xícaras e pires, pedaços de torradas caídos na mesa da sala, o som dos instrumentos tocando num CD player e um lençol de casal no sofá, de onde emerge um homem disforme, bocejando e se espreguiçando. Ele é magro e está com o rosto pintado como se vestisse uma máscara. Pede café a mulher, que nem se assusta mais com as esquisitices daquela casa e de seus hóspedes.

Na parede da sala há um quadro novo, de cores vivas, com o retrato dos patrões.

– Eu, hem?! Que gente esquisita, esses estrangeiros, reclama a diarista. – Vivem mudando a decoração da parede e trazendo gente estranha pra cá.

Quem morre vai pra Caiena – Crônica paid’égua de Fernando Canto

 

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Crônica de Fernando Canto

Dizem que depois que alguém “leva o farelo”, “bate as botas” ou “foi para a cidade dos pés-juntos” só tem um destino: Caiena.

Apesar de ter indagado várias pessoas sobre essa afirmação (que muita gente leva a sério), ninguém, ninguém mesmo soube me dizer o porquê. Nem o Paulinho Piloto que já foi lá tantas vezes ousou sequer inventar uma resposta.

Há, entretanto, uma versão um pouco aceitável, que é a de quem vai para lá nunca volta. É antiga: nossos emigrantes se mandavam para trabalhar na construção civil da base espacial de Kourou, se davam bem por lá e nunca mais retornavam. Uns ficavam e faziam suas carreiras como trabalhadores esforçados, e com o compromisso de apenas mandarem umas valiosas notas de franco para a família (na época não existia a união europeia e nem o euro). Outros, por não gostarem muito do pesado, acabavam ficando nas mãos dos gendarmes e consequentemente amargando uma pena nas prisões má afamadas do lugar, tipo Ilha do Diabo (que diga o seu Plancantã, pai do Waldir do Calçadão).

A maioria dos brasileiros que vai para lá vai se arriscando. São inúmeros os relatos dos que se aventuraram como clandestinos e acabaram ficando pelo meio do caminho. Perto de casa, quando criança, ouvia notícias de vizinhos que morreram afogados nas travessias do rio Oiapoque, em naufrágios de pequenas e frágeis embarcações. Todos eles eram muito pobres e tinham essa ideia fixa de ter um bom emprego e voltar com uma pequena fortuna para se restabelecer em Macapá. Lembro que uma dessas pessoas foi a Maria Lúcia, irmã da saudosa Maria Piçarra. A notícia de sua morte deixou consternados os moradores do Morro do Sapo, no Laguinho, mesmo assim, isso não inibiu o desejo de outros se aventurarem na mesma rota.

O engraçado é que Caiena é uma cidade aparentemente bonita, não tem problemas graves de trânsito e seu centro histórico é agradável aos olhos dos turistas, como a Place des Palmistes, o mercado de frutas, a área comercial, o porto e os prédios administrativos. Nada ali indica que é um inferno, ainda que como qualquer cidade cosmopolita tenha lá seus problemas sociais.

Mas se Caiena é a estação final de quem morre em Macapá, por que os caienenses não acham que quem morre lá vem para cá? Talvez o inferno daqui seja mais certo. Ninguém quer padecer depois da vida no Brasil, muito menos aqui em Macapá. Então parece ser mais cômodo “dar um jeitinho” brasileiro para ser condômino do paraíso de Caiena (com possibilidade de ser eleito síndico, comprando voto ou não) do que ficar com a alma vagando aqui, mesmo que o corpo esteja enterrado lá no “Barcelão”.

A expressão ”foi pra Caiena” ou “viajou pra Caiena”, é uma metonímia e um eufemismo, que serve para suavizar a rudeza da morte indesejável dos amigos e conhecidos. Mas como não tem jeito para ela nós vamos inventando maneiras de driblá-la, e esta certamente é uma delas, afinal a morte representa o fim absoluto de qualquer coisa que existe de positivo, e simboliza tudo o que é perecível e destrutível da existência.

Mas se “ir pra Caiena” é morrer, é bom também lembrar que a morte significa libertar-se das preocupações e penas e que ela abre o acesso ao reino do espírito. Dizem que a morte suscita a necessidade de ir mais longe, pois ela é a condição para o progresso e para a vida.

Certa vez, lá em Caiena, participando de um desses festivais culturais, o Bomba D’água reconheceu um gari que varria a praça do centro da cidade. Era o Maiambuco, um amapaense que tinha saído de Macapá para a Guiana Francesa há mais de trinta anos e que ninguém mais sabia dele. Bomba D’água, também conhecido por Joaquim, chamou o Pavão, apontou com o dedo e disse: – Olha o Maiambuco lá! O Pavão ficou tremendo e meio amarelo de medo, quase não acreditando, mas exclamou: – É mesmo, Bomba. É por isso que dizem que quem morre vem pra Caiena. Égua, vamo embora daqui.

(*) Publicado no Jornal do Dia. 2007.

Dias Iguais (Conto porreta de Fernando Canto)

Conto de Fernando Canto

1.Caía uma chuva fina e chata. Era a véspera do dia primeiro de janeiro de 2018. Perto da meia-noite eu e meus elegantes parentes fizemos a ceia e desejamos um ano próspero e saudável recíproco, nos cumprimentando e nos abraçando uns aos outros, registrando nossa felicidade em fotos e filmes, mostrando sorrisos lindos em selfies maravilhosos nas redes sociais, até que minha irmã não se conteve e falou sobre a ausência de nossa mãe que havia morrido entalada na ceia de natal com um naco de peru assado. Foi uma choradeira geral que acabou com a festa. Eles se despediram e eu fiquei em casa com a mulher a olhar pela janela de vidro os carros se afastando na chuva.

Ninguém quis esperar as doze badaladas do velho relógio de parede que antigamente encantava os olhos dos meus sobrinhos. Abri o Chandon sem escutar o barulho da rolha estourando, pois lá longe, na frente da cidade, belíssimos fogos de artifício explodiam em cores, desenhando novas estrelas sob um céu escuro e chuvoso. Eu nem reparei no tempo passando.A chuva aumentava de intensidade jogando grossos pingos na vidraça. Bebi a última taça do champanhe e fui dormir.

2. Ao acordar, ainda cedo, chamei Norya para caminharmos como fazíamos todos os dias. O dia amanhecera calorento, mas com indícios que não choveria mais. De fato, o sol surgiu nos dando a luz que a esperança traz nesses momentos ritualísticos de transição para um tempo bom que todos querem. No percurso as pessoas se cumprimentavam desejando sorte, saúde e prosperidade, o que, aliás, é uma coisa que gosto nesse período porque elas mal falam com a gente e nem sequer nos dão um bom dia no resto do ano, mas agora são educadas e comunicativas. Agem com cortesia e educação como se fossem sempre assim. Nessa época muitas delas parecem mesmo felizes, e eu reitero que acho bacana. Estou convicto de que não faço parte da plateia que as aplaudem em suas atuações anuais. E ademais todos vestem suas máscaras para se dar bem. Inclusive eu no meu trabalho, onde tenho que lidar com hipócritas todos os dias.

3. Caminhamos cerca de sete quilômetros em uma hora, como sempre. Falamos do cotidiano, dos filhos que mandamos estudar nos Estados Unidos e que por lá ficaram pelas oportunidades de emprego e segurança, da nossa saudade deles e dos netos, dos nossos trabalhos e da nossa solidão. Às vezes falávamos em viajar, mas sempre aparecia algo que nos fazia adiar o projeto. Era bom falar sobre isso porque já sentíamos o peso da idade e tínhamos que ser sempre companheiros para o que viesse. Eu já tinha uma doença crônica que controlava com remédios, e em Norya foi detectado, mas felizmente depois extirpado um câncer no cérebro, após uma delicada e bem sucedida cirurgia. Mesmo assim ela se submeteu a um doloroso processo terapêutico que a deixou quase irreconhecível por muito tempo.

1. À noite Norya e eu nos vestimos a caráter como no dia anterior e arrumamos a mesa nos preparando para a ceia familiar. Lá fora caía uma chuva fina que parecia não querer parar mais. Antes da meia-noite fizemos a ceia familiar, nos cumprimentamos e registramos nossos momentos particulares. De repente, minha irmã, tão sensível que era, começou a chorar falando o nome de mamãe que há poucos dias havia se engasgado com um pedaço de peru assado em plena ceia de natal.

Consternados pela lembrança da matriarca em sua tragédia, meus parentes foram embora nos deixando tristes. Choravam muito sob a chuva que caía até entrarem em seus carros e tomarem o caminho de suas casas. Eu abri uma garrafa de champanhe e fiquei olhando o céu estrelado das cores dos foguetes que explodiam no céu escuro para as bandas da beira-rio. A chuva engrossara e batia com força nos vidros da janela. Tomei a última taça e fui dormir.

2. De manhã bem cedo acordei Norya e fomos caminhar como sempre o fazíamos. E o sol surgiu trazendo novas esperanças. Os passantes nos cumprimentavam felizes porque era o início de um ano que prometia ser melhor que o anterior. Eu comentava com minha esposa sobre como nossos colegas de caminhada eram corteses neste dia, já que eles nunca nos cumprimentavam, o que me fazia sorrir de contente e dizer a ela que gostava daquilo porque cada um põe a sua máscara no seu dia-a-dia para sobreviver, igualzinho a mim no meu trabalho.

3. Caminhamos como de costume aproximadamente sete quilômetros em uma hora. Falamos de tudo: dos filhos e netos no estrangeiro, da imensa saudade deles, das nossas ocupações profissionais e da nossa força para continuar vivendo sós, sempre colados, afinal estávamos ficando velhos e já havíamos passado por momentos terríveis de doenças graves. E Norya passou por momentos críticos durante o processo de cura de um câncer no cérebro.

Certa noite, quando preparava a ceia da família em casa me dei conta que aquilo vinha se repetindo como uma liturgia todos os dias do ano. E fiz um esforço supremo para lembrar algo que não fosse a nossa vivência dentro dos acontecimentos dessa noite e os do dia seguinte. Não consegui.

Antes dos parentes elegantes chegarem reparei que o relógio que antigamente encantava as crianças da família batia nove horas. E vi que seus ponteiros continuavam girando em sentido horário. Olhei-me no espelho da antiga cristaleira da sala e enxerguei minhas barbas tão brancas quanto a de Papai Noel.

Também reparei que a ausência de Norya e de alguns dos meus parentes era uma constatação inelutável, enrolada como um paradoxo de tempo em minha memória. Era como se fosse um ferro em brasa que me penetrava o peito sem queimar, algo que quer se lembrar, mas encontra um paredão inacessível. Pessoas e carros viravam sombras embaixo da minha janela sob a chuva contumaz e o brilho dos fogos de artifício colorido caía lento no espaço escuro da noite. Eu começava a me embriagar com a última taça de champanhe e já não conseguia dormir.

De manhã bem cedo em um desses dias de chuva fina quando as notícias dos jornais são sempre as mesmas, acordei a sombra de Norya para a caminhada matinal. O sol já se abria e as pessoas se cumprimentavam e nos desejavam saúde e prosperidade, embora não tivessem mais o entusiasmo e os mesmos sorrisos de antes. Ao chegar em casa encontrei o celular da minha mulher em cima do sofá, e ao manuseá-lo vi um calendário do ano de 2015. Certamente ela havia tentado sair desse ritual que nos prendia a um tempo pesado e mórbido que se derramara sobre a vida de todas as pessoas da cidade. Comecei a lembrar dos acontecimentos repetidos e num esforço sem precedentes não bebi mais champanhe e abri a janela de vidro para a chuva entrar em casa até amanhecer o dia.

Foi Norya que me acordou desta vez, não a sua sombra. Caminhamos entre carrancudos passantes e uma chuva torrencial lavou a calçada enquanto o rio Amazonas dançava espocando suas águas no muro de contenção.

Norya me olhava assustada e cúmplice, porque sabia que o ritual que participamos tantas vezes era imprescindível para vivermos. Imperioso era não morrer com nossos históricos apagados pelos cumprimentos, desejos e lembranças num mundo moderno que comprimia uma soturna solidão estampada no rosto dos caminhantes, os mesmos que punham suas máscaras demoníacas nas festas de fim de ano.

À noite vesti meu velho terno branco e Norya o seu melhor vestido. Ninguém veio nos visitar. Jantamos à luz de velas e adormecemos felizes ouvindo o barulho da chuva na vidraça.

*******

De manhã cedo foi Norya que me acordou e não a sua sombra. Então caminhamos sorrindo entre o vai-e-vem dos passantes, embaixo de um temporal que nos lavou a alma. O ano novo se aproximava novamente. Era a véspera do dia primeiro de janeiro de 2035.

Viagem para mudar – Crônica porreta de Fernando Canto sobre a chegada do ano novo

Crônica de Fernando Canto

Na cachaça do ano novo é muito comum fazermos resoluções e promessas de mudança no comportamento, no trabalho e nas relações sociais. Planejamos novas ações e juramos mudar, custe o que custar. E temos poder para isso. Se quisermos mudar para melhor porque não tentar? O problema é sair da nossa zona de conforto e experimentar algo que pode ser ruim ou bom. No entanto resistimos às mudanças.

Um famoso psiquiatra austríaco, Viktor Franki, disse que a coisa mais importante que a psicologia pode e deve fazer é nos impressionar com nossos próprios poderes, principalmente nosso poder de mudar e crescer. Porém não é sempre que nos esforçamos se estamos no nosso conforto e nem sempre desejamos mergulhar em águas desconhecidas, correr esses riscos…

Assistindo ao mundo em movimento é que podemos perceber que estamos indo junto com ele, em uma viagem sem volta, num trem galáctico, rumo às estrelas do infinito. Daí é possível entender que consciente ou inconscientemente somos empurrados a estados e condições diversos, pois os processos de mudança são inexoráveis e inerentes à dinâmica da vida. E assim também as organizações sociais.

Desta forma, ao pensarmos as mudanças que querermos por necessidade, certamente tomamos consciência dos eventos a nossa volta e seus efeitos em relação às nossas escolhas. E é então que alimentamos nossas expectativas sobre a nossa atuação no passado recente. Nessa expectativa é melhor fazer um sobrevoo sobre nós mesmos e olhar os sinais e sintomas de mudança que precisamos, para que possamos mudar.

Lá fora nossas esperanças ainda não morreram. Há sinais de troca e de mudanças estruturais. Novos sonhos são acalentados diariamente pelas pessoas e muitas delas que exercem ou que exercerão cargos de decisão indubitavelmente terão de fazer surgir, pelo trabalho, mudanças em todos os níveis, que serão acompanhadas pelas pessoas que os escolheram numa dialética constante, praticada cotidianamente, principalmente pela imprensa

Transformar, modificar, revolucionar não é apenas mais uma necessidade dos seres humanos. As organizações aprendem muito rapidamente que suas fronteiras mudam a cada minuto, e por isso se voltam para o enfrentamento de novos desafios e buscam nos seus servidores graus maiores de eficiência que podem evoluir e acompanhar suas novas necessidades com pragmatismo e equilíbrio. No entanto nem sempre os debates, cursos, palestras e ensinamentos sensibilizam os atores sociais, notadamente no serviço público, onde se percebe claramente que a empolgação das pessoas é efêmera, e que elas oferecem mais suas próprias críticas e medos que suas habilidades, conhecimentos e capacidades analíticas. Quase em nada contribuem para a totalidade e missão das instituições pelo conformismo e conforto que estão aninhadas com suas limitações em se adaptarem às novas tecnologias, na tensão infindável da luta diária.

Nem tudo, porém, está perdido. Apesar de sempre haver resistência ao novo, a História está aí para dar seu testemunho de sucesso àqueles que ousaram acreditar em si mesmos e conseguiram mudar o mundo. Para transformar, e para transformar-se é necessário ter suporte emocional e equilíbrio, algo que estabeleça a harmonia e desperte o potencial interior que todos os seres humanos possuem para mudar.

Nesse sentido podemos aprender que falar em mudança não requer se basear em livros de auto-ajuda, nem sequer na espiritualidade. Na viagem do trem rumo às estrelas começamos a nos conscientizar dos impactos que causamos quando decidimos fazer mudanças e o que elas provocam nas dimensões físicas de um órgão ou nos conteúdos culturais das pessoas e nas suas emoções.

(*) Publicado no Jornal do Dia em dezembro de 2008.

Refeições em Família – Crônica porreta de Fernando Canto

  1. mtmacarrao63

Crônica de Fernando Canto

A gente fica meio besta ao tentar compreender a rapidez das mudanças comportamentais que ocorrem com a família da gente e dos amigos, por conta da forma como cada uma encara os fatos. Mas longe de mim tentar impor costumes não mais existentes ou querer mudar o rumo de coisas que necessariamente acontecem devido ao horário de trabalho, academia, escola e outros afazeres individuais. Comportamento novo, modo de vida, forma ligth de viver, liberdade total, seja o que for são conceitos que abrem caminhos diferentes e esboçam desenhos de um novo quadro de qualidade de vida por conta de valores individuais que prevalecem sobre os valores grupais.

cronica-vsp-0Só um dia destes me dei conta que almoçava só, sem companhia, sem conversa. O horário de trabalho era incompatível com o horário e a fome de todos os outros integrantes da casa. Meio chateado reclamei, mesmo sabendo que o quadro iria se repetir, porque a família nuclear hoje está tendendo mais para uma instituição fissurada, onde fatores espontâneos ou provocados liberam outras energias e a atomizam. A esses fatores dá-se o nome de estabili36946_53034-controlar-o-computador-pelo-celular-150x150dade na modernidade, na qual o dinheiro pode comprar toda uma parafernália eletrônica, quer queira quer não, nas melhores famílias, promovem até certo ponto essa atomização e a individualidade compulsória de seus membros. Apesar de todos os esforços dos pais (Conversei com vários deles.), à medida que a família cresce, dentro de cada casa, cada quarto de filho ou filha, com seus devedês, televisor, computador, games e internet, torna-se “território proibido” para os pais. Vira núcleo de acesso apenas para a empregada fazer limpeza e para os amigos(as) ou namorados(as). É uma suíte de um hotel confortável e reduto do(a) guerreiro(a).

1 a 1 a a a a vo jantarLembro quando almoçar com a família tinha horário marcado. O pai, e/ou a mãe, chegavam do trabalho, obrigavam todos a lavarem as mãos, faziam sua prece de agradecimento e só depois que o chefe se servia é que outros podiam comer. Até hoje as mães dão os melhores pedaços da galinha aos filhos. Só mais tarde é que fui descobrir porque elas “gostam” tanto do pescoço, do sobre e das asas. Depois do almoço a sesta do chefe era sagrada. Havia de descansar para voltar ao trabalho da tarde, em busca do sustento da família.

fam.tv_.50sCom o advento da televisão, as famílias que conseguiam comprar um aparelho se reuniam ao redor daquela luz azulada, na sala cheia de parentes e vizinhos, após o jantar espremido entre e o banho e a hora da novela. Esse encanto só se repetiria com a aquisição de um televisor a cores. Certa vez a luz apagou, foi embora e foi geral. Um silêncio total chegou com a escuridão na sala, até que alguém perguntou onde havia uma caixa de fósforos para acender uma vela. Ninguém mais sabia conversar, a não ser sobre a ansiedade da chegada da energia e com impropérios normais à companhia de eletricidade. Mas lembro que lá fora a lua macapaense, patrimônio dos olhos, brilhava, brilhava, e um satélite cruzava o céu do equador sobre a cidade às escuras.meteorwatch

O mundo gira no espaço, e nós como os satélites ao redor dele, às vezes brilhantes, às vezes precisando de conserto, mas sempre transmitindo mensagens e informações seguras aos filhos, tentando preservar alguns valores familiares. Quando a família está “brocada” e decide que não quer jantar, pede uma pizza gigante para comer diante da telinha do big brother, regada à maionese e ketchup. Depois vem a “facada”: – Empresta a chave e uma grana aí, velho! Mas isso não é nenhuma novidade. Só nova forma de repetir o que a maioria de nós já fez. O tempora! O mores!

É Natal (Belíssima crônica de Natal de Alcy Araújo Cavalcante)

É Natal

Por Alcy Araújo Cavalcante
(1924-1989)

Sabeis que é Natal. Não é necessário que eu diga isto. O anúncio da renovação do milagre do nascimento de Jesus está nesta música que vem de longe, que desce do céu e flutua, em pianíssimo, em torno de nossa alma e toca de leve o coração dos homens. O milagre está, também, nesta luz que vem do alto e ilumina os espíritos, está no riso das crianças, na oração da rosa, na lágrima dos que sofrem, no canto dos pássaros, no sussurro da brisa, no murmúrio do rio e na saudade de minha mãe rezando.

Tudo é tão bonito que as lágrimas de dor e de saudade de infâncias inexistentes são poesia pura. O belo é tanto que não resisto à vontade vesperal de anunciar que é Natal, antes que a noite chegue, antes que seja oficiada a Missa do Galo, antes que dobrem os sinos na igreja comunicando a vinda do Messias.

Tudo é luz em torno do mundo. As trevas não prevalecerão quando cair a noite acendendo mistérios. As vozes dos anjos, o coral dos pastores de Israel, a lembrança dos Reis Magos estão presentes. Há perfume. Os turíbulos de Deus espargem incenso e mirra, porque é Natal no mundo e renasce a esperança no cumprimento da palavra dos profetas.

Mais uma vez é Natal!

Chegam as vozes da infância perdida nos caminhos e o coração enxuga saudades. Os sinos, à meia-noite, vão bimbalhar lágrimas distantes. Vêm de presépios inanimados e risos perdulários afogam angústias cotidianas. A dor se esconde por trás de mágoas indormidas e as horas se ocultam nos relógios, para que a poesia do Natal não passe e o musical minuto dure mais um segundo na eternidade deste dia.

É Natal!

Reza a minha alma de joelhos pelo menino sem brinquedos que perdi, na minha pobreza de sempre.

É Natal!

Repetem meus arrependimentos nas estradas.

E uma alegria imensa absorve as tristezas que fabriquei no mundo. Um sentimento infinito de bondade apaga as dores que construí durante o meu ontem irreversível. Uma ternura imensa acende felicidades futuras, porque é Natal, neste sábado do mundo. Há um polichinelo no bazar. Pertence ao menininho doente que Jesus chamou para o seu reino. Uma boneca abandonada já não chama mamãe para a garota loura que um anjo levou pela mão naquela manhã de sol. Mas outros brinquedos coloridos fazem ciranda em torno das árvores de Natal e milhares de crianças são felizes nos lares cristãos de meu país sem coordenadas. Enquanto isto, Deus sorri, pleno de Amor, por trás da Eternidade.

Fonte: Blog da Alcinéa Cavalcante

A Morte do Piruliteiro (sensacional crônica de Natal do Fernando Canto)

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*Imagem: Acervo pessoal de Fernando Canto – 1978

Por Fernando Canto

Perto de casa havia uma família de pessoas muito pobrezinhas. Três molequinhos saiam todas as tardes para vender pirulitos que a mãe deles, uma jovem viúva, fazia com capricho. Retornavam ao entardecer com luz suficiente para baterem uma bola na rua, pois nela nunca passava carro a essa hora.

Deviam ter oito, sete e seis anos quando os conheci. Eram branquinhos e tinham os cabelos louros e espetados, cortados do jeito militar. Pareciam ter vindo de bem distante, talvez do Maranhão ou do Ceará. Todos estudavam na mesma escola que eu, um grupo escolar público no centro da cidade, para onde íamos, nas manhãs, bem cedinho, descendo a ladeira com nossos macacões cáquis, o uniforme escolar que o governo do então Território Federal fornecia a todos, indiscriminadamente. Voltávamos às onze horas, quando a sirene da Olaria Territorial apitava exatamente na mpirulito_melesma hora que a campa da escola batia. Eu ficava admirado com aquilo. E vinha com eles, ávido para chegar em casa e almoçar, enquanto que eles não sabiam se iam comer alguma coisa, apesar de terem merendado. Só tinham a certeza de uma jornada de trabalho à tarde, quando iriam se dividir para vender os pirulitos lá pelas bandas da Doca da Fortaleza, na beira do rio. Depois jogariam uma pelada na rua e dormiriam cedo, pois nessa época não havia luz elétrica no bairro e nem se sonhava com televisão.

Um dia o mais novo deles desapareceu. Era inverno, a chuva fustigava a cidade alagando os terrenos baixos. O menino não chegara em casa e o alarme foi dado. Procuraram a noite inteira sem êxito. Seu corpo foi achado no dia seguinte, engatado no bueiro do meio da ladeira da nossa rua, uma tubulação que ligava um grande lago natural do bairro onde morávamos ao rio Amazonas. O vendedor de plantas notara uma camisa verde no acostamento da rua e adiante um tabuleiro de pirulitos vazio. Era véspera de Natal e foi grande a consternação das pessoas ao saberem do fato. A criança deve ter parado para tomar banho no pequeno igarapé, mas não conhecia a força da correnteza quando a maré baixava no tempo das chuvas, e se afogou.

Todos os moradores se entristeceram, pois o menino lourinho era muito estimado. – Um pequeno trabalhador que ajudava sua família. Coitadinho, diziam. Lembro que quase todo mundo foi ao enterro a pé. Na Missa do Galo o padre rezou por ele de novo e muita gente chorou de emoção, pois o comparou ao Menino Jesus, que ajudava o pai no ofício de carpinteiro.

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Meu amigo Fernando Canto quando moleque. Foto encontrada no blog Canto da Amazônia

Foi um Natal muito triste para mim. Achava um absurdo a morte daquele menino esperto que já lidava com dinheiro na sua pré-profissão de vendedor/piruliteiro, apesar de nem sonhar grandes sonhos ainda, pois não tinha estímulos em casa.

Ao visitar a casa de meus pais, onde moram meus irmãos, ontem, passei pelo bueiro no meio da ladeira. Parei o carro adiante e fui olhar o igarapé correndo no mesmo sentido, do lago para o rio. Alguns matupiris e carás-barbelos dançavam na água clara que margeia o fluxo das águas em velocidade, corrente que passa atravessando o terreno do seu Gama, até pegar o Igarapé das Mulheres e chegar finalmente ao Amazonas. Os peixes nadavam estranhamente, como a desenhar a figura sorridente do piruliteirinho louro no fundo do córrego. Veio-me, abrupto, um gosto de açúcar queimado na boca. Então me lembrei que o lago do Poço do Mato, de onde as águas vinham é um lugar de caruanas, habitantes/protetores do fundo das águas, que também são loirinhos como o piruliteiro que morreu num dia como o de hoje, às vésperas do Natal.

O pente niquelado (crônica de Fernando Canto)

Crônica de Fernando Canto

Nos tempos áureos do Morro do Sapo, no bairro do Laguinho, quando a sede do Sete de Setembro Esporte Clube disputava com a do América Futebol Clube para ver qual era a mais social, nem tudo era só tranquilidade. Crimes ocorriam. Eventuais, sem grandes consequências, e outros violentos, envolvendo jovens que se perderam na cachaça. Alguns deles eram jogadores e frequentadores desses clubes, que cumpriram suas penas no chamado “cajual”, do Beirol.

Do pátio de casa acompanhei o movimento dos adultos, principalmente nas festas juninas realizadas no entorno da sede do Sete, com aquele arraial tão característico, onde o pau-de-sebo, o quebra-pote e a pescaria faziam a alegria da molecada. Vi, ali, “moças-donzelas” lindas que desfilavam nos concursos de “miss caipira” e que se tornariam moças casadoiras e objetos de desejo dos rapazes solteiros que já tinham uma “boa colocação” no Governo do Território.

Num desses domingos de festa eu soube da história do Rubens que virara desafeto de um sujeito do Igarapé das Mulheres por causa de uma jovem miss.

Por essa época a Rua São José era empiçarrada e cheio de capim alto nas suas margens, propícia para atos obscuros. Então, certo de que o Rubens viria para a festa, seu desafeto escondeu-se num capinzal da esquina com a Terceira Avenida do Laguinho, hoje General Osório, aonde iria surpreendê-lo. E assim foi: num átimo saltou sobre o Rubens e aplicou-lhe um golpe nas costas com um brilhante pente niquelado que parecia um canivete “Corneta”, muito usado pelos brigões da época. Rubens caiu no chão, levantou-se em seguida, cambaleando e pedindo socorro aos passantes, dizendo que fora esfaqueado pelo fulano, para em seguida desmaiar. Formou-se aquele deus-nos-acuda, pensamentos de vingança, chama-a-polícia-e-o-delegado-Olavo, vai-de-bicicleta-chamar-a-ambulância-que-o-Jagunço-vem-com-beira, etc. E eis que o nosso herói, ainda atordoado pelo golpe covarde acordou sem nenhum sangue esvaindo, um arranhãozinho de nada na costa e um enorme susto, que lhe marcaria a vida como a facada que não houve.

Na central de polícia tiveram que soltar o agressor, que se derretia de rir, no dia seguinte, já que não houve vítima. Mas o pente niquelado ficou retido por muito tempo como uma possível arma branca.

Enquanto o Sete de Setembro disputava o campeonato da segunda divisão no campo do América Futebol Clube (hoje Praça Chico Noé), o presidente Otacílio do Carmo, com suas eternas roupas de linho branco, dançava por horas seguidas sobre o assoalho encerado do clube com as moças de saias plissadas. Era um verdadeiro pé-de-valsa, imbatível na dança de boleros e merengues. Quando todos dançavam a molecada mais taludinha ia para embaixo do assoalho realizar suas primeiras experiências sexuais, olhando a paisagem pelas frestas.

Muitas histórias aconteceram ali naquela sede. Coisas que marcaram as testemunhas ainda crianças de uma cidade em evolução, nos meados da década de 1960. É inesquecível, para mim, o movimento de uma briga que durou mais de uma hora entre dois jovens e fortes atletas. Ela ocorreu após uma partida de futebol entre o Sete de Setembro e o Tijuca Futebol Clube, do Igarapé das Mulheres. Foi a consequência do resultado de uma partida entre os rivais Saci, atacante do Sete, e Macaco, do Tijuca, que explodiu na frente da sede do Sete até os dois cansarem e alguém considerar a briga empate. A história ficou famosa, pois nem a polícia se meteu.

Às vezes fico pensando nessas coisas incríveis do meu tempo de moleque. Incríveis mesmo, como o rosto brilhoso de suor do Otacílio, alcunhado de “Urubu Balado” por causa do seu jeito malandro de andar e de segurar a mulher para dançar; esta história da facada que não houve e da vítima desmaiada; da briga que não acabava e os oponentes já desprovidos de energia, combalidos, mas sorridentes e felizes com o resultado.

Do Sete ficaram, Indelevelmente, as cores das festas dominicais e o murmúrio da chuva deslizando sobre a piçarra da Rua São José.