The Doors: O filme – Resenha (hoje completam 33 anos do longa)

Há 33 anos, era lançado o filme “The Doors”, dirigido por Oliver Stone. A cinebiografia foca no vocalista Jim Morrison, interpretado por Val Kilmer. Dividiu opiniões em relação aos acontecimentos reais envolvendo o grupo. Leia a resenha abaixo, escrita há mais de 10 anos: 

Gostamos de cinema e rock, quando essas duas coisas estão juntas então, nem se fala. Hoje falaremos um pouco do filme “The Doors”, que contou a história da banda, homônima ao longa-metragem. Tudo bem que a película exalta muito mais a figura doideira do Jim Morrison (Val Kilmer) que dos outros componentes do grupo, ou a intelectualidade do vocalista (que lançou alguns livros nos EUA).

O filme é de 1991. Foi dirigido pelo renomado diretor Oliver Stone, que ganhou o MTV Movie Awards 1992 (EUA). Stone arrebentou, escolheu o ator Val Kilmer para o papel do lendário Jim Morrison, retratou os shows com ótimos efeitos e adicionou cenas reais ao filme.

O ator mais cotado para o papel era John Travolta, mas Kilmer enviou a Oliver um vídeo onde canta músicas da banda. Isso e o fato de ser muito parecido com o “Rei Lagarto” (como Morrison era conhecido) fez com que ele ganhasse o papel. E ele foi foda naquele filme, para mim, sua melhor atuação.

Para aqueles que não sabem (que devem ter vindo de Marte), o The Doors foi, na segunda metade dos anos 60 e início de 70, uma banda de rock norte-americana. O grupo era composto por Jim Morrison (voz), Ray Manzarek (teclados), Robby Krieger (guitarra) e John Densmore (bateria). A banda tinha influências de Blues, Jazz, Flamenco e Bossa Nova. Foi uma das maiores da história do rock mundial.

O filme conta a vida anárquica de Jim, todo tipo de loucura, paixão e sexo. Algumas amigas minhas detestaram a postura de Morrison, que faz muitas cagadas com sua namorada Pamela Courson (Meg Ryan), mas isso não é nenhuma peculiaridade dos rockstars (risos). O que queremos dizer aqui é: poucas películas fazem jus ao jargão “sexo, drogas e rock and roll” como esta obra de Stone.

Ouvimos dizer que Val Kilmer teve problemas para sair do personagem, andou meio doido, por ter vivido Jim. A atuação dele foi extraordinária, até Ray Manzarek e John Densmore elogiaram publicamente o desempenho de Kilmer.

O filme tem cada “liga torta” (mas muito bacana), como a influência xamânica de Morrison (que ele absorveu depois de presenciar um acidente de carro na estrada, onde um índio teria morrido e espírito do figura virou um “encosto” no rockstar (risos). O filme retrata até o envolvimento amoroso de Jim e a jornalista Patricia Kennealy.

Jim Morrison morreu em 1971, foi cedo demais, assim como muitos, antes e depois dele. Jim influenciou, definitivamente, uma geração que, posteriormente, influenciou outras. Por exemplo, Iggy Pop que decidiu fundar sua banda (Stooges) depois de ver Jim Morrison. Apesar de não gostar do som e da poesia dos Doors, Iggy admirava a postura sensual e misteriosa de Morrison.

Assim, juntando a vontade de criar uma nova sonoridade para o rock, a preocupação com o visual da banda nas apresentações ao vivo, os Stooges marcaram o início de um movimento que culminaria com o punk rock. Mas essa é outra história.

Voltando ao filme, Ray Manzarek (tecladista do Doors) lançou, anos depois, um livro falando de algumas “potocas” de Oliver Stone no filme e que a película conta “de forma horrível” a história da banda. Mas o diretor fez vários pedidos para que Manzarek trabalhasse como consultor no filme. Entretanto, Robbie Krieger (guitarrista dos Doors) foi o consultor, então tá valendo.

Enfim, este site aconselha a todos que não assistiram a fazê-lo. Os que já assistiram e gostam muito de rock e cinema, o assistem de vez em quando. Abraços na geral!

Ficha técnica:

Gênero: Biografia, Drama.
Direção: Oliver Stone.
Elenco: Billy Idol; Val Kilmer; Meg Ryan; Kyle MacLachlan, Frank Whaley, Kevin Dillon e Kathleen Quinlan.
Duração: 140 minutos.
Ano de produção: 1991.
Classificação indicativa: 18 anos.

Assista ao trailer do filme:


Elton Tavares e André Mont’Alverne
*Republicado.

Flip não dá outro (crônica) – Por Ruben Bemerguy – Contribuição de Fernando Canto

“TEXTINHO?

Recebi do amigo Ruben Bemerguy o texto abaixo que ele chama modestamente de “Textinho”. Vejam só a riqueza da sua escritura e o desenho de sua memória em relação a pessoas que viveram a velha e romântica Macapá. E o Flip? Quem, como eu, não provou desse refrigerante genuinamente amapaense na década de 1960 e início dos anos 70? Provem, então, desse sabor borbulhante do Ruben” – Fernando Canto.

Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa” – Chico Buarque de Hollanda.

Moisés Zagury

Flip não dá outro

Muito embora se possa pensar, e não sem alguma razão, que me decidi por uma literatura lúgubre, digo sempre que não. Também digo não ser essa uma expressão de meu luto. Não. Não escrevo sobre os mortos porque morreram simplesmente. O faço como quem ora, sempre ao nascer e ao pôr-do-sol, em uma sinagoga feita à mão, desenhada n’alma da mais imensa saudade. Escrevo também para que os meus mortos permaneçam vivos em mim. Morreria mais apressadamente sem a memória dos que amei tanto. É só por isso que escrevo. Porque os amei e ainda os amo.

E quando esses meus amores partem e com eles já não posso mais falar, passo, insistentemente, a dialogar comigo. É um diálogo franco e, de fato, inexistente. Sempre que tento assumir a função de meu próprio interlocutor, uma súbita impressão de escárnio de mim mesmo me faz parar, e aí calo. Toco a metade de meu dedo indicador direito, verticalmente fixo, na metade de meus lábios, como a pedir silêncio a minha insensatez. Taciturno, faço vir à memória de um tudo.

É por isso, e tanto mais, que ando sempre atrasado. Demoro a escrever e quando decido o faço tão pausadamente que chego a aprender de cor todo o texto. Por exemplo, se medido o amor que tinha por meu tio Moisés Zagury, há muito me obrigava a ter escrito. Mas minha inércia não é voluntária e, por isso, não a criminalizo. Não há relação entre o tempo da morte e o tempo de escrever. A relação é de amor e é eterna. A morte e a palavra, ao contrário de mim, não se atrasam. Além disso, em minha vida andam juntas, nem que seja só em minha vida. Isso já aprendi, porque as sinto frequentemente, desde criança, tanto a morte quanto a palavra.

E é desde criança que lembro do tio Moisés. Lá, estive muitas vezes no colo. Pensei que adulto isso não mais aconteceria, mas aconteceu até a última vez que o vi. No aeroporto, quieto em uma cadeira de rodas, ele ia. Tinha um olhar paciente, de contemplação, de reverência a Macapá e, sem que ele percebesse, eu em seu colo observava obcecadamente cada movimento dos olhos, queria traduzir e imortalizar aquele momento. Não consegui e até hoje tento imaginar o que o tio Moisés dizia pra cidade. Acho que tudo, menos adeus. Macapá e o tio eram inseparáveis. Essa era a terra dele e ele o homem dela. Isso é inegável. Por baixo das anáguas de Macapá ainda velejam o líquido de ambos: do tio e da cidade.

O tio conheceu a cidade cedo. Ele, moço. Ela, moça. Daí, foi um passo para ser o abre-alas dela. Tinha dom. Rascunhavam-se incessantemente um ao outro. Eu os vi várias vezes passeando, trocando carícias. Ela costumava cantar para ele, enquanto ele fabricava um xarope de guaraná. O Flip. Flip guaraná. Dentro de cada garrafa havia um arco-íris. A fórmula era segredo do tio e da cidade, e até hoje o é. Por isso, só o tio conseguia pôr arco-íris em uma garrafa de guaraná. Acho mesmo que o Flip era feito da seiva da cidade. Eu o Tomava gut gut.

O Flip não foi só o primeiro guaraná produzido aqui. Não foi também só a primeira indústria. O Flip, me conta a memória, foi o cenário auditivo mais preciso de minha lembrança. Era a propaganda que anunciava promoção de prêmios a quem encontrasse no guaraná, além do arco-íris, o desenho de um copo no interior da tampinha da garrafa. O copo, sinceramente, não era minha grande ambição. O sabor estava mesmo na propaganda que vinha pelas ondas das rádios Difusora e Educadora, se bem lembro. Era o som de um copo quebrando, esquadrinhado por uma indagação seguida da solução: “Quebrou?. Flip dá outro”. E dava mesmo.

Não sei se por ingenuidade da infância ou ignorância, o que aquele sorteio me fixou é que tudo era substituível. Se o copo quebra, Flip dá outro. Se a bola fura, Flip dá outra. Se a moda não pega, Flip dá outra. Se o tempo passa, Flip dá outro. Se o ar falta, Flip dá outro. Se o amor acaba, Flip dá outro.

Não me cabe agora eleger um culpado pela singeleza de minha compreensão da vida. Fico cá a suspeitar do arco-íris, e nem por isso me zango. Se me fosse permitido optar entre a idade madura e o arco-íris, escolheria o arco-íris sem piscar. Mas isso não é possível, agora eu sei. A bola fura, a moda pega, o tempo passa, o ar falta e o amor acaba. Tudo, é claro, por falta do Flip.

É um desconforto viver sem Flip. Todas as vezes que a vida me recusa, eu lembro do Flip. Mesmo assim, não digo nada a ninguém. Chamo num canto os arco-íris que conservo desde tanto, faço mimos, beijo os olhos, o rosto, e sossego. Vem sempre uma chuva fina. Eu me molho e a guardo. Guardo muitas chuvas. Quando se guarda bem guardadinha, a chuva não dói. Só dói é saber que Flip não dá outro. Poxa, quanta saudade do meu tio.

Ruben Bemerguy

Uma crônica baseada em baseados reais – Crônica de Ronaldo Rodrigues

GinoflexForever

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Mais uma história verídica quase ficção do meu amigossauro Ginoflex Vinil.

Tocou o celular, eu atendi:

– Alô.
– Fala, Ronaldo!
– Fala, Gino. Qual é o papo?
– Tá rolando uma festinha aí na tua casa?
– Não é bem uma festa, só uns amigos reunidos. Fizemos aquela coleta básica e compramos umas latinhas.
– Eu posso ir praí?
– É… Pode! Mas olha lá, hein! Tu vais trazer algum amigo contigo?
– Vou. O senhor sabe que eu sempre levo alguém.
– Mas quantos tu vais trazer?
– Calma, Gabiru! Relaxa! Vou levar dois.
– Dois? Tá legal. Pode vir.

11222913_10205167658966259_7857161415484695267_n

Desliguei o celular e me reuni aos três amigos que conversavam e bebiam no pátio de casa, lá no bairro do Trem. Fiquei um pouco apreensivo porque eu sabia que o Ginoflex costumava SE convidar para as reuniões de farra e aproveitava para convidar muita gente. Eu estava pensando nisso quando o Ginoflex apareceu dentro de um carro com mais cinco pessoas. Ao lado, parou outro carro, este com seis pessoas dentro.

supernatural_season_8_wallpaper
Ginoflex e Ronaldo Rodrigues

O Ginoflex, com aquele jeito todo à vontade, foi logo me apresentando a galera. Na discreta, chamei o Ginoflex para o lado:

– Porra, Gino! Eu falei que não era uma farra grande e tu disseste que só ia trazer dois amigos!
– Calma, Gabiru! Eu falei que ia trazer dois! Dois carros!

Eu compreendi e sorri com mais uma do Gino. Já ia me recolher ao meu canto quando ele, abrindo um pacote de uma erva (que eu não vou dizer aqui), falou com a cara mais sem-vergonha deste meio do mundo:

– Mas eu trouxe outras coisas também, Gabiru!

Aí demos início ao ritual de boas-vindas. Se é que me entendem.

BLEQUEFRAIDA – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

No Carnaval deste ano, a Blequefraida, filha do vizinho, pulou a cerca e foi conferir no quartinho de trás de casa se eu era mesmo bom de cama como diziam por aí. Ela ia desfilar no Piratão, uma escola de samba lá do Trem. Estava toda arrumada e linda, era uma das passistas. Iria de tapa-sexo.

Fiquei um tanto abalado com essa história, juro. Eu nunca fui de me gabar e nem tinha as medidas sexuais que rolava na lenda urbana sobre minha distinta pessoa. Hehehe! Mesmo assim eu mandava bala sem grandes esforços. A Bleque que o diga.

Mais tarde eu fui até o sambódromo porque iria sair em outra escola, uma de acesso, lá do meu bairro, o Jacareacanga, convidado pelo presidente Costa Barriga.

Antes de iniciar o desfile fui bisbilhotar as outras escolas para ver a organização das alas. Na frente do portão encontrei com ela, justamente conversando com Laive, uma destaque dessa escola. Essa mulher escultural saía em todas as agremiações carnavalescas.

Eu já tinha passado a rola nela, tinha namorado com ela, ia até em restaurante jantar. Tu é doido, é? Ela me meteu um chifre sem tamanho. Até hoje ando meio corcunda por causa isso. A Laive era muito viva, mano. Se casou com um ex-padre de família tradicional de Macapá, pensando que ia se dar bem, mas se deu mal depois, Pensava que o ex-religioso ia ter uma puta pensão da Santa Madre Igreja. Era uma ninfomaníaca. Malandra que só.

As duas conversavam sambando. Eu me aproximei e elas sorriam com aquelas bocas glamourosas cheias de lindos dentes brancos. Pediram-me uísque. Queriam um “esquenta”. Sabiam que eu trazia um cantil de aço inox tei-tei de Buchanan’s no bolso. Dei a elas e quase que eu fico sem um gole.

Laive pegou o beco e Bleque ficou ali se lembrando da foda da tarde, querendo mais.

Fui embora para o fim da concentração descendo a ladeira da avenida. Falei com muita gente conhecida. As mulheres me puxavam e eu tive que me desvencilhar delas porque senti a barra pesada no olhar dos homens ali perto.

Meu brother Estandibai me avisou que era praeu chamar o pessoal da Harmonia. A escola não demoraria a entrar. Ajudei a organizar as alas. Senti a mão da baixinha Delívere na minha costa. Me avisava que Naice, Vaibe e Loquinalda ainda não haviam chegado.

– Puta merda, Estândi! Reclamei. – E agora, cara? Como é que a gente vai fazer se elas não aparecerem?

– Sei não, chefe. Ele me encarou, com aquela cara de porre permanente.

– Fala com o Émersom Cupu pra ele ligar pressas porras agora, senão o carro vai sem destaques e aí já era.

Ele saiu cunscascos atrás do Cupu. Voltou dizendo que o Cupu falou que as destaques não eram de responsabilidade dele.

Nem pensar em falar com o presidente que a essa altura estava no carro abre-alas mandando beijinhos pra nossa minguada “torcida organizada”, diz-que.

Um pouco antes dos portões se abrirem para a entrada da nossa escola avistei a gostosona da Laive conversando de novo com a não menos gostosona da Bleque. Elas já haviam desfilado na primeira escola. Chamei as duas e disse que elas iriam ser nossos destaques no último carro. Elas toparam, queriam aparecer, mesmo… Eu e Delívere passamos uns brilhos com nossas cores nos corpos delas e em seguida os guindastes as puseram no alto do carro.

Quando, enfim passamos pelo portão e os seguranças não deixaram ninguém entrar, ainda deu pra ouvir os impropérios das destaques e seus braços varando pelas grades num último esforço de querer entrar.

Ao final do desfile encontrei o presidente com câimbra na boca de tanto sorrir e mandar beijinhos para a torcida e para os jurados, Estandibai bêbado que só a porra estirado em cima do carro abre-alas e as três destaques esperando a desocupação do último carro. Continuavam gritando vitupérios para mim e para as duas destaques arranjadas de última hora.

O presidente Costa veio me falar que até perdoava a minha “louvável atitude” de substituir as destaques. As oficiais não desfilaram porque o táxi em que vinham não conseguiu o acesso nas ruas para chegarem a tempo. E porque demoraram para se montar.

– Montar? Como assim? Indaguei, me fazendo de besta.

– Sim, montar. Disse o presidente Costa Barriga. – Elas são gays, são transformistas. Elas se montam. E o nosso enredo, Ó pateta, é sobre as diferenças sexuais. Sobre o sentimento dessas pessoas. Se não desse prelas virem no carro, ele devia vir vazio. Disse, aborrecido, olhando para mim e em volta, no que foi muito aplaudido pelos participantes do desfile.

– Presidente, quero que tu te fodas. Não vou ficar aqui neste palanque de viado. Nem vou mais te apoiar para vereador. Disse a ele bem enfático, com todo o meu orgulho e machismo.

Saí da dispersão com Laive e Blequifraida sob vaias, tapas e ameaças, coberto de lama que nos jogaram. Havia chovido antes do desfile. Felizmente, no meio da turma que nos vaiava, tinha umas pessoas que conheciam minha fama e nos protegeram de levar mais porrada.

Fomos a uma padaria, a pretexto de tomar café e nos limpamos da lama. Depois consegui pegar um taxi e fui com elas beber uísque em casa, transar e dormir, nós três.

Acordei pensando em aceitar o convite da vizinha para sair no Piratão no próximo ano, desde que junto com a Laive, a gata que voltei a me apaixonar para com certeza ser corneado de novo.

 

Cidade Lançante – Crônica de Fernando Canto – @fernando__canto #Macapa266Anos

Foto: Floriano Lima

Por Fernando Canto

Esta baía é uma grande gamela de líquidas contorções, ondas que bailam sob a música do vento.

Esta baía não guarda mais o sangue inglês do comandante Roger Frey que pereceu sob a espada implacável do capitão Ayres Chichorro a 14 de julho de 1632, um dia claro, aliás, de verão amazônico, quando o sol derretia naus e o piche dos tombadilhos. Nem o sol, nem o vento, nem o oceano lá adiante cogitavam que naquela mesma data, dali a 157 anos o povo francês tomaria a Bastilha.

Na margem esquerda deste rio imensurável uma floresta úmida abrigava uns seres esquisitos, cabeludos e cheios de penas coloridas que os portugueses conheciam por Tucuju, Tikuju, Tecoju ou Tecoyen. Segundo ensina a mestra Dominique esse era um povo de origem Aruaque, ocupante da Costa Sul do Amapá que se tornou aliado dos holandeses, dos franceses e dos irlandeses. Por isso foi atacado impiedosamente por uma expedição do desbravador Pedro Teixeira no ano da graça de 1624. Sua história, no contexto da nossa, dá conta que após a façanha do capitão português esse povo procurou abrigo no Cabo do Norte, mas foi reduzido pelos jesuítas a uma missão no baixo Araguari e pelos capuchinhos no baixo Jari. É provável que um pequeno grupo tenha sobrevivido ao sul do município de Mazagão até o início do século XIX. Desse pequenino grupo restaram apenas as cinzas do tempo e um soluço quase imperceptível que morre a cada segundo na agonia de todos os silêncios.

Foto: Max Renê

Esta baía guarda estranhos segredos: uns são contados em língua morta, quando o hálito da madrugada sopra depois que a lua assim determina. Esses são de difícil entendimento. Os outros pairam nos escaninhos dos tabocais ou na boca das pirararas. Dificilmente serão contados.

O estuário deste rio dadivoso acelera a corrente de 2,5 quilômetros por hora para jogar no oceano cerca de 220 mil metros cúbicos de água por segundo. O inacreditável é que apenas o desaguar de 24 horas daria para abastecer de água potável uma cidade superpovoada como São Paulo por quase 30 anos. Números são números, diria o matemático. Nessa foz está a redenção de nossa terra, diz o sonhador sem perder sua utopia. Do barro e dos detritos aluviais se faz a vida. E ela está ali dentro das águas à espera da sustentação das mãos trabalhadoras.

Foto: Juvenal Canto

Esta baía não se faz só de águas e barcos deslizando ao sabor das ondas. Ela abriga uma pequena joia nascida sobre a várzea dos aturiás, velada há dois séculos por uma fortaleza plantada em cima de falésias.

Macapá, velho pomar das macabas, carrega dentro de si a similitude de um éden tropical das narrativas dos antigos viajantes, até por ser banhada por tantos líquidos e cheiros advindos diariamente pela chuva refrescante e pela espuma das lançantes marés.

Foto: Floriano Lima

Macaba, Maca-paba:gordura, óleo, seiva do fruto da palmeira, vida e princípio desta terra, posto que a sombra traz a ternura e contrasta com o benefício da luz que se espraia por glebas de esperança.

Antiga terra da maleita e da febre terçã. Terra do “já teve” já não és. Mas alguns homens ainda jogam em teu traçado xadrez e, silenciosos, manipulam segredos e conspiram contra ti, a degradar-te e degredando teus verdadeiros sonhos e tua vocação para o abrigar da vida que se espera. Mesmo assim a felicidade bem insiste em se hospedar em ti.

Foto: Juvenal Canto

Embora batizada com nome de santo – especialíssimo no panteão católico – teus habitantes não ficam isentos dos perigos: pés se torcem ou se fraturam todos os dias nos buracos das ruas outrora bem cuidadas.

Agora eu fico aqui me perguntando: por que quando te fundaram ergueram um pelourinho? – “Símbolo das franquias municipais”, dirão os doutos e sisudos professores. Ora, quantos homens não castigaram seus escravos até à morte após a partida do governador Francisco, porque estes aproveitaram para fugir durante a solenidade.

Foto: Manoel Raimundo Fonseca

Um tralhoto viu e contou ao Mucuim que diz-que o Ouvidor-Geral e Corregedor Paschoal de Abranches Madeira Fernando tomou um porre de excelente vinho do Porto ofertado a ele nesse dia pelo plenipotenciário capitão-general Mendonça Furtado, que daqui zarpou para o rio Negro para demarcar as fronteiras do reino, a mando de Pombal. Foi um dia de festa aquele 04 de fevereiro de 1758, porque nasceu naquele instante a vila de São José de Macapá.

E ela cresceu e se fez linda e amada, pois os caruanas das águas vez por outra rondam em espirais por aí, passeando em livros abertos, nos teclados dos computadores, pelas portas e pelos filtros dos aparelhos de ar condicionado, nos protegendo das agruras naturais e das decisões de homens isentos do compromisso de te amar.

Parabéns, Macapá!

* Texto escrito em 2001.

Minha mais que maravilhosa mãe, Maria Lúcia, gira a roda da vida pela 70ª vez. Feliz aniversário, amor!

Maria Lúcia, minha mais que maravilhosa mãe, gira a roda da vida pela 70ª vez (com rostinho e astral de quem vive a eterna juventude) neste terceiro dia de fevereiro. Sempre escrevo textos de felicitações para meus afetos, mas para mamãe é sempre mais difícil, pois a maior responsabilidade está sempre nos nossos maiores amores… mas vamos lá. Afinal, nunca fui de economizar em declarações de amor.

Mamãe é um exemplo de perseverança, obstinação e amor que moldou sua jornada. Agradeço sempre a Deus a sorte e honra de ser seu filho. Para mim e Emerson, meu irmão, Lucinha sempre deu tudo que há de melhor nela. É difícil contar toda essa história em um só texto de aniversário.

Mamãe também é vó coruja e amorosa da pequena Maitê, esposa parceira do Enilton, amiga fiel e de quem tem a sorte de ter sua amizade.

Orientadora educacional e professora aposentada, mamãe trabalhou muito, desde bem novinha, para vencer na vida. Ela conseguiu e batalhou muito para dar o melhor para seus filhos, sua mãe e seus irmãos.

Essa senhora de 70 fevereiros, carrega o peso da vida com a graça de quem aprendeu a dançar com o tempo. Maria Lúcia desafiou o destino e esculpiu seu próprio caminho.

Esta mulher, bruta e amorosa ao mesmo tempo, carrega em si a dualidade que permeia a condição humana. Sua teimosia é como um escudo que a protegeu nas batalhas diárias, enquanto sua obstinação foi a chama que a impulsionou a ultrapassar limites. E em meio a tudo isso, seu coração, fiel e vencedor, pulsou com o ritmo da dedicação incansável.

Difícil contabilizar tudo que ela já fez por mim e pelo meu irmão. Aliás, muito mais por mim, seu filho mais velho. A nossa “Lucinha” é uma mulher espetacular e admirável. Ela personifica os amores que tem e realmente faz valer seus dias por cada um de nós.

Mamãe é íntegra, honesta, inteligente, batalhadora e decente. Lucinha sempre foi a luz do meu caminho e o amor que sempre zelou por mim. Ah, ela tem a reza mais forte que conheço e quando tenho problemas, peço suas orações. Sempre sinto que sua oração e bênção são mágicas poderosas e me protegem.

Dela, herdamos atitude e firmeza. Eu e Emerson talvez não fôssemos trabalhadores e todo o resto de coisas legais que nos tornamos, se não fosse por conta da Lucinha. Ela é meu anjo da guarda, minha conselheira e benzedeira, inteligente e sábia. Além de melhor cozinheira do mundo. Ela sempre foi e sempre será minha melhor amiga. Se tem uma coisa de que me orgulho nessa vida, é de ser seu filho.

Em resumo, completa 70 anos neste terceiro dia de fevereiro, minha amiga para todas as horas e a pessoa que mais fez por mim durante meus 47 verões. Mamãe sempre foi meu farol na tempestade, sempre me guiou com sua luz pelo labirinto da existência.

Mãe, que Deus continue a lhe dar saúde. Que os anos se dobrem à sua frente e que tua vida seja longa. Que a senhora siga com essa sabedoria, sexto sentido e alegria (e brabezas) que lhe são peculiares, pois a jornada é seguramente mais porreta porque tenho o seu amor. Nossas existências se cruzaram nesta e espero que assim seja nas próximas vidas. Te amo, Lucinha. Feliz aniversário!

Elton Tavares e Emerson Tavares (pois como irmão mais velho, posso falar pelo Merson).

Baiano e os novos caetanos – Por @giandanton

Por Gian Danton

Baiano e os novos caetanos era um quadro de humor do programa Chico City que satirizava a tropicália. Composta por Chico Anysio (Baiano) e por Arnaud Rodrigues (Paulinho Boca de Profeta), a dupla fez muito sucesso, o que levou ao lançamento do disco Vô bate pra tu, em 1974. O disco era não só uma sátira, mas também uma homenagem a Caetano Veloso e Gilberto Gil, que na época haviam sido exilados pela ditadura militar.

A música de maior sucesso do disco (Vô bate pá tu) fala justamente da delação de artistas no período. Além disso, havia até mesmo crítica ao milagre econômico, como em O urubu tá com raiva do boi.

A parte humorística fica por conta principalmente dos comentários ácidos e non-sense de Chico Anysio, que lembram as falas de Caetano e Gil.

Na música Cidadão da Mata, Chico fecha com o discurso, cheio de humor e de duplo sentido: “Amo, amo a mata! Porque nela não há preços. Amo o verde que me envolve… o verde sincero que me diz que a esperança, não é a ultima que morre. Quem morre por último é o herói. E o herói, é o cabra que não teve tempo de correr…”.

Em O urubu tá com raiva do boi, ele diz: “O norte, a morte, a falta de sorte… Eu tô vivo, tá sabendo? Vivo sem norte, vivo sem sorte, eu vivo… Eu vivo, Paulinho. Aí a gente encontra um cabra na rua e pergunta: ‘Tudo bem?’

E ele diz pá gente: ‘Tudo bem!’ Não é um barato, Paulinho? É um barato…”. Uma fala ao mesmo tempo humorística, profunda e non-sense.

Apesar de ser uma sátira, o disco ficou tão bom que fez enorme sucesso e levou seus autores a uma turnê pelo Brasil. Explica-se: além da humor e das letras engajadas, havia os ótimos arranjos musicais. De certa forma, pode-se dizer que Baiano e os novos caetanos era tão bom que pode ser incluído entre o melhor da tropicália.

Meu comentário: tenho 43 anos e lembro bem disso. Inclusive, minha tia Maria Penha tinha esse disco. Muito porreta!

Ouça aqui o disco completo:

Fonte: Ideias Jeca-Tatu

Nostalgia Plástica – Crônica de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Na volta de uma viagem perguntei ao meu neto de três anos se ele tinha sentido saudade. Ele disse que não sabia. Insisti: – Você sabe o que é saudade? Ele respondeu-me que era “uma coisa errada” e correu para me mostrar as novidades e as experiências que adquiriu nos dois dias de minha ausência, encerrando o assunto.

Minha pergunta estava eivada de preocupação, após mergulhar num sentimento raramente sentido: o da nostalgia, ocorrida no lugar para o qual viajei. Para algumas pessoas ela acontece como uma espécie de dor voluntária, causada pela vontade de estar no passado, vivendo uma vida prazerosa e feliz. A nostalgia é um tipo de dor do exílio, da vontade de voltar ao lugar de origem depois de um longo período obrigado a morar em terra estrangeira, e não se adaptar a ela, segundo rezam os dicionários. Para outras pessoas ela é mais dura. È uma melancolia que demonstra claramente um estado de tristeza e de languidez, por desgosto ou pesar, que pode evoluir para um processo mais sério em nível de afecção mental, inclusive com a perda do interesse pela vida, com tendência ao suicídio e delírio de auto-acusação.

Mas calma lá. A melancolia é uma coisa. È um estado mórbido que leva a situações inconseqüentes e irreparáveis como o suicídio. A nostalgia é a palavra que usamos para suavizar a melancolia. É como a saudade de algo ou alguém, de pessoas ou de coisas distantes. É uma “lembrança nostálgica”, que ocorre de forma leve e suave, mas que carrega seguramente um inevitável desejo de tornar a vê-las, pegá-las, possuí-las.

Humberto Moreira

Por essa situação passamos todos nós. Eventualmente enxergamos pessoas que não vemos há muito tempo e quando elas passam, ao longe, sem saberem que estamos ali, em certo lugar, temos vontade de falar com elas. Entretanto somos impedidos por algum obstáculo, por alguma barreira física. Só nos resta, então, lamentar que nunca mais as veremos. Fica um buraco no coração, uma sensação de vazio, de frustração. A nostalgia é plástica a meu ver. Eu dou a ela a expressão que quero: formas e cores, linha e volume.

Não quero aqui entrar na questão dos acontecimentos pessoais que levam as pessoas ao suicídio, assunto de patologia social de alta morbidade em nosso Estado, considerando as estatísticas bolerianas amplamente divulgadas nos jornais de Macapá. Quero, sim, dizer o quanto essa questão pode balançar a vida e os conceitos sobre o mundo e as pessoas.

Devo contar que o radialista Humberto Moreira certa vez foi visitar um amigo no Rio. Caminhando pela Avenida Rio Branco ele percebeu que era seguido por um sujeito corpulento de camisa “tremendão”. Pens

ou: “Tô assaltado”. Mas conseguiu driblar o marmanjo. Olhou para os lados e seguiu adiante. Quando estava chegando a seu destino sentiu o toque nas costas e se preparou para entregar a carteira. De repente ouviu do suposto assaltante: “Tu num é o Humberto Moreira da Bola é Nossa?” Humberto sentou pálido, embaixo da marquise do edifício da White Martins e se comoveu com a chorosa história do rapaz, que era de Santana, seu fã, que o conhecia da televisão. Estava há mais de um ano sem ver uma cara conhecida no Rio de janeiro.

Creio que meu neto está certo, pois as crianças são certeiras. A saudade é mesmo uma coisa errada. Mas a nostalgia, essa sim, é plástica.

*Texto de 2017, republicado. 

Sobre Macapá, Mazagão e meu avô, João Espíndola – por Bellarmino Paraense de Barros

 *O texto é de 1997. O recorte de jornal foi um presente da minha amada tia Maria Conceição (A “Penha”). Adorei a forma que o senhor Bellarmino redigiu e contextualizou os fatos para enaltecer a pessoa do meu avô, falecido um ano antes do autor escrever esse belo registro. 

Parabéns para mim nesta data querida – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Autor do meme: Pequeno

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Se algum dia um grupo de extraterrestres chegar, entre amigos, conhecidos e familiares, companheiros de trabalho ou de farra, e perguntar por mim sem dizer meu nome, apenas algumas caraterísticas, quem poderá informar?

O líder dos extraterrestres vai perguntar assim:

– Vocês conhecem esse cara?
• Nasceu em Curuçá, no Pará, em 17 de janeiro de 1966.
• Se criou em Santa Maria das Mangueiras de Belém do Grão-Pará.
• Hoje mora em Macapá do Meio do Mundo, se tornando, assim, um amaparaense.
• Escreve, desenha e lê bastante, não necessariamente nessa ordem.
• Rói unha desde que habitava o útero materno.
• Gosta de estourar plástico-bolha.
• É viciado em palavras cruzadas.
• Perfume? Só usa Leite de Rosas.
• Usa alpercatas frequentemente.
• Usa meias por vezes extravagantes.
• Não gosta de pizza.
• Não curte pets. Aliás, curte, desde que estejam beeeemmm longe.
• Não dirige carro. Nem moto. Só bicicleta, mas não sabe soltar as duas mãos. Bicicleta é seu veículo preferencial.
• Bebe muito, de preferência cerveja.
• Fuma muito. Até cigarro.
• Fala muito palavrão.
• Videogame? Nada! Joga somente paciência. E de um naipe só.
• Não se dá bem em jogo nenhum: futebol, vôlei, natação. Nada disso. Joga um pouco de xadrez e bilhar, mas sua estratégia consiste apenas em dificultar a vitória do adversário.
• Não sabe dar aqueles assovios fortes, como a maioria dos moleques de sua geração.
• É do país do futebol, mas é muito ruim de bola.
• Já brigou algumas vezes, mas só aprendeu a apanhar na vida.
• É cheio de TOCs e manias. Não pode ver sandália emborcada, por exemplo.
• Odeia supermercados e não frequenta shoppings.
• Detesta fazer compras, pois evita ao máximo qualquer relação comercial entre pessoas. As únicas coisas que gosta de comprar: livros e revistas. Antigamente, CDs de música.
• Não vê mais televisão, séries, filmes, novelas, noticiários, futebol, programas de auditório, podcasts. A intenção é retornar ao primitivo. Um dia, lá no futuro, já que hoje ainda não dá, vai abrir mão de toda a tecnologia. Vai largar a internet, a futilidade das redes sociais e o tatibitate do WhatsApp. Vai sair de todos os grupos, já que se acha capaz de ser burro sozinho.
• Já foi cabeludo. E careca. E cabeludo. E careca. E cabeludo…
• É destro, mas adoraria ser canhoto. Acha mais charmoso.
• Usa óculos, mas não escuros.
• É capricorniano, mas não liga pra isso.
• Há mais de 30 anos, exerce a profissão de redator publicitário. Isso mostra que ou ele entende mesmo disso ou está enganando muito bem.
• É filho da dona Darlinda e do seu Rodrigo, irmão do Reginaldo, da Ronilda, Renilda, Socorro e Fátima.
• É pai do Pedro, com Maria Lídia, e do Artur, com Patrícia Andrade.
• Não serve de exemplo pra coisa alguma.
E aí? Alguém pode informar?

Aí imaginei alguém respondendo:
– Rapaz, vi uma pessoa assim um dia desses! Mas o que aconteceu? Por que vocês estão procurando?
– É que hoje é aniversário dele e temos uma surpresa.

Aí mostraram um bolo imenso, no formato de um disco voador. Foi quando saí do meu esconderijo e me revelei aos meus irmãos ETs. A partir daí a festa começou e só vai acabar quando eles retornarem à Terra novamente para me levar de volta ao meu planeta originário. Até lá, vamos de festa:
– Parabéns para mim / Nesta data querida / Muitas felicidades / Muito anos de vida…

E segue o baile!

Inteligência primordial – Crônica de Ronaldo Rodrigues

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Sabe esse negócio de Inteligência Artificial? Pois é! Estou a fim de entrar na era da Inteligência Primordial, a primitiva, aquela que dispensa o uso de aplicativos. Funciona assim: vamos nos desligando. No falar deste tempo, nos desapegando desses produtos que nos deixam conectados.

Eu comecei deixando de ver televisão e tudo o que nela tem: noticiário, futebol, novela, reality show, programa de auditório, talk show… Hoje não vejo filmes, séries, podcast, stand-up, esse tipo de coisa. Minha ideia é entrar em total estado de comunhão com a natureza.

Me libertar, ainda que eu nunca tenha sido preso a isso: influencers, coachs, pastores eletrônicos ou outras malandragens, picaretagens desse naipe.

Muitas coisas me interessam, mas não estão na internet. Estão ao meu redor, sem que haja uma tela entre nós.

Pode-se dizer que eu esteja desligando os aparelhos e morrendo aos poucos. Mas pode muito bem acontecer que, daqui a um ano, mais ou menos, eu esteja me comunicando por telepatia. Sim. Retorno às raízes, tudo isso.

Retorno ao primitivo, ao intuitivo. A comunhão com o planeta, dispensando a vulgaridade de parte da população que o habita, deixando apenas a essência das pessoas que valem a tentativa. Os momentos libertados de selfies, lives, likes e essa porra toda.

Inteligência Primordial. Pensem nisso. Vou terminar citando o beatle John: “Você pode dizer que sou um sonhador, mas eu não sou o único”. Imagine tudo isso!

Amadurecer pelas ruas de Belém – Por Dulcivânia Freitas – @DulcivaniaF – (publicado hoje em razão dos 408 anos da capital paraense)

Foto: Celso Lobo – Alepa.

Por Dulcivânia Freitas

Durante 10 anos amadureci nas ruas de Belém. Quando se trata de falar sobre a Belém dos anos 1990, me gabo em dizer que sou de casa. Deixei a cidade há quase 18 anos, mas mantenho laços afetivos fortes, que me dão a honra de contar com guarida em várias residências. Tenho ciúmes de Belém, tomo as dores de Belém. Hoje, com um olhar de turista, aponto vários desafios. Mas, se perceber preconceito regional, fecho a cara e reajo com direito a sotaque paraibano.

Belém sabe se defender. Diante de uma lente fotográfica, é fotogênica e faceira. O povo de fora sabe bem dessa habilidade de Belém, é só buscar na web para comprovares. Por sinal, essa conjugação perfeita do verbo na segunda do singular eu aprendi em Belém. Percebi essa beleza na linguagem oral do povo de Belém logo ao desembarcar na cidade, em 16 de abril de 1996, às 20 horas. Sim, era véspera do massacre de trabalhadores sem-terra em Eldorado do Carajás, e eu não tinha noção da importância desse tema.

Foto: Bruno Cecim – Agência Pará

O saudoso taxista, seu Leonardo, sereno no seu chamativo chevette vermelho, me levou direto para a Igreja da Conceição, na Cidade Velha, onde o saudoso e generoso padre David Larêdo me aguardava. Me apresentei com um diploma de jornalista, nenhum medo, muito calor e uma valentia que se esvaiu nos últimos anos. Os primeiros passeios, roteirizados pelo Larêdo, foram o terminal petroquímico de combustíveis no Miramar, onde ele ressaltou que o fluxo de movimentações, em Belém e no Pará quase todo, dependia do perfeito funcionamento das operações naquele lugar. Neste momento conheci também a Praça Brasil e a inesquecível sorveteria Tip Top, onde degustei sabores que nem imaginava existirem.

Amigos da Paraíba comentaram que Belém era uma cidade de comidas esquisitas e recomendaram experimentar com boa vontade. A mente e o coração ficaram tão preparados, que tem dias que não sei se estou vivendo ou temperando frango com tucupi e jambu. Meu Deus, perdoa a soberba por ter a sorte de conhecer o que é açaí de verdade, sem leite condensado. Porém, contudo, pupunha foi um dissabor à primeira vista. Quem tomar um café comigo vai saber detalhes dessa história e vai me dar razão. Comentei com os parentes que chopp em Belém era barato demais. Sabe nada, inocente. O chopp dos paraenses é o dindim dos paraibanos. Ainda como parte das memórias – cada vez mais são lampejos – lembro que arregalei os olhos diante do prédio suntuoso de O Liberal. Não houve deslumbramento patético, mas fiquei contente por trabalhar num lugar espaçoso, chique e cheiroso.

Foto: Celso Lobo – Alepa.

Passar a viver em Belém foi o equivalente a nascer de novo. O que eu trazia em comum com o belenense era somente a moeda e a língua. Foram quatro semanas para aprender a soletrar Ananindeua. Obrigada aos envolvidos pela paciência. O novo, na parte assustadora, me mostrou uma Belém toda pichada. Em relação aos aluguéis, não existia bom e barato na mesma frase, era chegada a hora de me embrulhar nos classificados do jornal, procurando moças para dividir custos de moradia.

No trabalho, caí de paraquedas diante de sumidades do mundo artístico paraense, que se espantavam quando eu lhes perguntava o nome. Em Belém, meu rosto ganhou as primeiras rugas. Surgiram os primeiros fios de cabelo branco. Estava em Belém quando passei a chamada de senhora. Viver em Belém, com o passar de alguns anos, finalmente me fez sentir-me no contexto da Amazônia. Aprendi a valorizar a cultura e o conhecimento amazônida. A amar ainda mais a chuva. Curti as ondas de rio em Mosqueiro, uau, que impressionante. O carimbó é um capítulo à parte. Pensei que jamais na vida me emocionaria com outra dança que não fosse o forró. A expectativa era encontrar na cidade espaços temáticos sobre o carimbó, sua história, exposição de instrumentos, folderes, shows com frequência. Já temos?!

Belém me preencheu de amadurecimento profissional, paixões e experiências pessoais transformadoras. Belém me revelou uma parte bonita e “invisível” do Brasil. Décadas depois me valho dos versos de Celso Viáfora para expressar minha inquietação “será que o Brasil nunca viu a Amazônia?”. Sempre soube que Belém é a cidade do Círio de Nazaré. Mas marquei as férias de 1997 justamente para outubro, e não entendi a estranheza dos meus colegas. Mas depois de 1998 a ficha caiu, porque vivenciei pela primeira vez a grandiosidade do “Natal dos paraenses”.
Este ano, voltei às ruas de Belém. Comecei a caminhada pela avenida Nazaré e paralelas. Fotografei mentalmente paisagens feitas das belas mangueiras, limo nas calçadas, bancas de revistas que incrivelmente sobrevivem, o tacacá, os velhos ônibus de sempre. Muita gente sorridente. A melancolia deu as caras ao sentir falta do grande Cinema Nazaré (1 e 2). De rua em rua, na próxima viagem a Belém chegarei ao bairro da Pedreira, onde vivi 9 dos meus 10 anos em Belém. Ouso me achar uma pedreirense, com pouco samba, mas muito amor. Tenho certeza que a COP 30 trará articulações para aprimorar Belém. Meus parabéns e minha gratidão!

* Dulcivânia Freitas é jornalista. 
**Publicado originalmente no jornal O Liberal de 12/01/2024

Ciclos – Crônica de Rohane de Lima

Crônica de Rohane de Lima

Só uma mulher que nunca tomou anticoncepcional sabe a maravilha que é Trepar no Cio!

Trepar, sentir tesão, transar… pra isso não tem data, todo dia é dia, basta estar bem consigo e se permitir ao Corpo. Mas… Trepar no Cio… Se for com Amor, melhor ainda, se esse amor é bom de cama, se ele sabe o que é uma Mulher no Cio, Não há nada nesse Mundo que se compare a isso. Se sua companhia sabe o que é uma Mulher no Cio, existirá o Tempo sem relógio, existirá o Espaço que antecede e transcende ao Tempo .

Não há poeta, ou poetiza, romancista, roteirista e escritor pornô, homem/ mulher que descreva tamanho transbordamento em nenhum idioma. O Manifestado é sempre Indescritível!

Quando a Mulher passa a ter consciência de seus ciclos e os relaciona com a própria Libido, vai superando essa “necessidade” de fazer sexo todos os dias, e – mesmo se a relação for novidade e cheia de descobertas, quando o desejo vai muito além do corpo… o desejo de conhecer a alma, de penetrar e transbordar segredos e idiossincrasias se mistura e se alterna com o desejo de conhecer e desvendar o desejo do outro, o corpo do outro e como o seu corpo reage ao corpo do outro.

Ainda assim, existe a prevalência dos ciclos, e se a gente vai muito além, começa a ter medo do vazio do outro, pq esse vazio vai revelar o nosso próprio vazio! Então a gente sente a necessidade de recolher-se, de acolher-se, preencher-se de si, para o novo florescer, o novo Cio, o renascer de cada mês. Como esse enternecimento, esse auto acolhimento, esse recolher-se “nunca” foi respeitado pelas sociedades humanas (antes do Patriarcado, os registros são controversos, por isso o “nunca”) muitas de nós desenvolvemos a TPM, a fúria insana que, infelizmente, só foi temida como Chacota.

Nosso sangue passou a ser visto como algo sujo, a ser rejeitado, nosso corpo passou a ser visto como impuro, nosso orgasmo foi visto como algo assustador e além daquilo que esperavam do nós: dar herdeiros aos homens, produzir trabalhadores para o Mercado. As mulheres que não aceitaram isso, as que perceberam previamente o nosso encarceramento moral, rebelaram-se e então viramos bruxas, possessas endemoniadas. Hoje as coisas mudaram: somos histéricas, feias, machudas, bruacas, desequilibradas e estamos com TPM, ou com falta de homem.

Perdoai-os Avós, Mães, Filhas, Netas, eles não sabem o que dizem, o que fazem, e nem por que pensam e sentem dessa forma. Eles não sabem o que perderam, o que perdem, o que perderão! Penso e sinto que, ainda hoje, a maioria dos Homens nunca assistiu, nunca compartilhou esse transbordar-se, pq estão desatentos, ou olhando para os seus vazios, enquanto os nossos vazios transbordam; enquanto a Deusa em Nós se faz Presente.

Depois desse viver a própria morte, também perdem as cenas em que respiramos profunda e suavemente, onde sorrimos sozinhas e saímos do corpo entre cantos e piruetas! Acho que deve ser porque eles precisam entregar-se aos seus esgotamentos nos braços de Morpheu.

* Rohane de Lima é amapaense radicada no Rio de Janeiro. Ela é engenheira agrônoma e professora aposentada da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA).
** Contribuição de Fernando Canto.

O Século XXI…se molhou! – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

O mundo ia acabar em dois mil. A única pessoa que conheci que tinha muito medo foi o Henrique e para ele acabou mesmo, a primeiro de janeiro de 2000. Sumiu no medo. Muito mais cedo que a sua mãe que tinha um enredo monstruoso de doenças e enfermidades, aquelas que ficam no rodapé das enciclopédias médicas e recebem três a quatro nomes de ilustríssimos doutores. Médicos e professores, que descobriram seus sintomas, suas entranhas e suas estranhas formas de tomarem o corpo do ser humano. E a elas dão seus nomes. Delas, ela tinha medo, mas não tinha medo da mudança do século, coisa que ela nem sabia o certo o que era.

Às vezes confundia essa denominação com a mudança do itinerário do ônibus Pedreira Nazaré, que na sua cabeça em vez de ir pela Praça Batista a Campos poderia margear Belém pela margem do Rio Guamá. Isto ela imaginava enquanto dava os nós nos arremates dos chuleios de alfaiate que aprendera em Oriximina. Para terminar os bordados e entregá-los a tempo de festas e formaturas, chamava Henrique para entregá-los a tempo de dar tempo.

Recomendava cautela e abrigo das chuvas, que naquela região cuidam de cair aos montões, assim que um incauto sai à rua todo engomado de branco, de sapato recém-engraxado ou comendo tapioca.

Henrique dobrava as roupas pelo avesso para conservar o passamento e saía sempre acocado para que a chuva não o visse. Levava um saquinho com carvão moído, uma simpatia para espantar as chuvas da tarde. Não tinha medo de aguaceiros, sabia as rezas contra trovão, faísca, relâmpagos e corisco. Só não sabia de reza contra mudança de século.

Isso ele não sabia. Consigo sempre pensava que se mudasse o século ele podia virar mulher. Ou nascer catita e ser apedrejado pelos meninos do bairro. Ou nascer vala, cheia de água podre e rãs. Tornar-se parte das águas empoçadas, protegidas pela mãe d’água. Riu pensando em nascer sabiá. Amava as mangas coloridas e cheirosas, em que eles todos prosa passavam as manhãs, saltando de uma para outra, enchendo o papo e gorjeando felizes. O tempo fechou enquanto ele pensava nos sabiás.

Caiu uma chuva que não respeitou nem as rezas nem as promessas e muito menos o pó de carvão soprado com força na rua, ela toda virando um rio. As roupas estavam ensopadas, as dele e as da entrega. Henrique começou a chorar. Só piorou as coisas porque lágrimas eram mais água. Pensou em subir em uma das mangueiras da praça, subir bem alto, mais alto que o alto da chuva. Passar de onde os sabiás ficavam, chegar o mais próximo do sol.

Primeiro colocou a roupa embrulhada em sua camisa, que para não atrair chuva, não era de cor vistosa, o que não havia adiantado muito. Colocou um pé após o outro e foi subindo como pôde, passando pelos galhos mais grossos, depois pelos mais finos, cruzou com os sabiás em seus ninhos, assustados com aquele intruso e foi subindo aos galhos mais e mais finos, enquanto a última noite do moribundo século se ia. Ninguém viu se ele voltou. Mas as entregas foram feitas. Todos foram às festas, com roupas de festa de fim de ano e de fim de século.

Eu mesmo recebi um lenço de seda que deixei sobre a mesa. Cheio de estórias como esta.