Sexo, mentiras e videotapes – Crônica cinematográfica de Ronaldo Rodrigues

Crônica cinematográfica de Ronaldo Rodrigues

Diretamente de Paris, Texas, o repórter Borat relata uma trama macabra: O mágico de Oz matou a excêntrica família de Antonia e foi ao cinema. Tudo por um punhado de dólares, que teve o sol por testemunha.

Pegou o taxi driver que conduzia Miss Daisy, atravessou as vinhas da ira, além da linha vermelha. Entrou no cinema Paradiso e viu os Piratas do Caribe invadindo a Fortaleza. Convidou o exterminador do futuro pra tomar um drink no inferno. Sentindo-se um náufrago, saiu em direção ao aeroporto, de volta para o futuro, sonhando com a ilha do tesouro.

Entrou no Bagdá Café e comeu tomates verdes fritos, que estavam como água para chocolate. Do nada, surgiu King Kong deixando todo mundo em pânico. Ouviu alguém gritar: Corra, Lola, corra para os embalos de sábado à noite. Nisso, passou correndo uma multidão. Seriam as invasões bárbaras? Ou o grande motim?

Eram todos os homens do presidente e o povo contra Larry Flint. Cansado de tantos filmes, voltou à casa do lago, onde Harry Potter tinha instalado sua fantástica fábrica de chocolate. À beira do abismo e à queima-roupa, fez ao poderoso chefão a pergunta que não quer calar: Quem vai ficar com Mary?

O olho do xamã – Por Mayara La-Rocque

Por Mayara La-Rocque

O olho do xamã

Certa vez, em uma dessas vias da realidade que mais se aproximam aos terrenos do sonho, eu perguntei a um Xamã por que razão estrelas e peixes vagueiam ao redor, por que de cântaros umedecidos sobrevivem as cigarras e chacoalham gélidos os roncos dos sapos, por que percorrem lácteas as vias do imaginário, um céu breu a nos espreitar? Por que de pó se desfaz as cinzas da memória e se eleva em fumaça o desejo que não se alcança, por que arranha o peito a falta de alguém que não chega e quando chega já fomos embora há tanto tempo percorrendo uma hera de lágrimas e sorrisos, por que de ciganas se seguem as danças, sem paradeiros nem rastros? Por que é tão forte o silêncio? Poderia ser mais baixo, poderia ser mais mudo, acontece que quanto mais embaixo mais perto das plantas e da terra, e mais afundo o coração. E quem foi aquele ou aquela que inquiriu ao coração um querer de pedra que lateja e quebra e levanta de tanta queda, um voar de pluma que canta o pássaro sobrevoando o rio? E, além do mais, por que o rio e os mares também? Que sina é essa a das águas, que trazem em seu leito rabos de peixes em corpos de mulheres, pérolas, conchas, recifes, corais e cantos longínquos, o som e o princípio do mundo na boca das baleias, o mergulho alado dos cavalos, as redes, as pescas, o homem e o cais. Por que é nele que mora a saudade e se despe a solidão?

Já avistei ao longe a solidão em uma ave de rapina, no olho de um gato, na manhãzinha da infância, no suspiro cheio de sono, no estômago vazio, no beijo secreto dos amantes, no gozo, no choro. Continuei tanto tempo a indagar, vim de muito longe, percorri léguas de mistério para saber o por quê. Por que de tão altas essas árvores parecem escrever sobre nuvens, em que línguas elas falam, por que adentro a floresta acende o lume dos insetos, e também as salamandras, as fadas, os duendes, os babuínos de três olhos, seres e reinos desses que se dizem encantados… Por que, afinal, eles existem?

Calei-me frente ao olhar do xamã. Nesse instante, era como se tudo serenasse no centro de sua pupila. Respirar era o mesmo que escutar a sua voz que ecoou e me atravessou como um silêncio de mata, devolvendo como resposta, outra pergunta:

_ Por que TU existes?

*Mayara La-Rocque é paraense, educadora, escritora. Publicou a plaquete literária “Uma luminária pensa no céu”, pela Editora Escriba, em 2017. (além de velha amiga minha e colaboradora deste site).

AMOR, POESIA E PRECONCEITO (carta colhida por Hélio Pennafort) – Fernando Canto

A pena do Hélio parece voar por aí reportando as histórias dos ribeirinhos da costa setentrional do país, onde suas pegadas ainda resistem à chuva.

A pena do Hélio. Apenas ela sabia da grandeza da alma do dono da pena. Sabia de uma alma grandona que não esperava marés e atravessava jardins de espuma sem jamais ter se perdido nos escantilhões deste mundo.

Fernando Canto

AMOR, POESIA E PRECONCEITO (carta colhida por Hélio Pennafort)

Querida Noca,

Escrevo-te somente esta porque não agüento mais a cuíra de saber de nossas difíceis notícias, Noca.

Domingo, no ucuubal, como eu te mandei dizer, não deixa de falar comigo, porque eu quero falar contigo, Noca.

Eu gosto do teu amor, da tua paixão, dos teus carinhos, tão bem como o buritizeiro que adora a mãe lua, quando ela tange com seu clarão as nuvens que não querem deixar o seu luar tocar os brotos das palmeiras, mexer com o siriubal ou alegrar o furo do Jenipapo.

Ainda me lembro, Noca, da primeira vez que te vi na reza da casa do tio Macário. Enxerguei teus cabelos, Noca, clareados pela lamparina, mais bonito do que os cabelos das espigas de milho da roça do Zé Manduca. Teus olhinhos, Noca, eram uma graça… brilhavam mais do que duas porongas de pesqueira, na noite escura, chuventa e panema de peixe…

Tudo em ti é belo, linda Noca, por isto eu gosto de ti. E tu também gosta de mim? Quando já… Eu não sou suficiente nem tenho competência para possuir o amor da garota mais faceira que existe em toda a extensão do Cassiporé. Mas espero um dia ao menos poder te tocar, te acariciar, te cheirar, te beijar… Noca.

*Texto de Fernando Canto, publicado no livro Equinócio – Textuário do Meio do Mundo. Ed. Paka-Tatu. Belém-PA: 2004

Teresa (em preto e branco) – Tãgaha Soares

 

 
E foi na batata da perna de Teresa que escrevi as minhas primeiras palavras na língua nativa. 

No princípio, ela até gostou, ficou lisonjeada quando lhe disse que eu estava escrevendo um livro nela. Depois, me recusava, porque eu só procurava seu corpo para escrever…
 
O livro já estava pelo sétimo capítulo quando ela me abandonou…
 
Sem ela, perdi o fio do novelo. Passava os dias catatônico diante de uma folha de papel em branco…
 
Experimentei escrever alguma coisa em mim mesmo, mas não era tão bom.
 
Então, fui procurar as putas…

O Dia que o Godão morreu (crônica de Cíntia Souza)

O nó na garganta deixou meu corpo mole. Acordei em luto. A tristeza é algo que nos enfraquece de dentro para fora, sem nos dar chance de reagir. “Foi de repente”, “Eu falei com ele ontem”, “Disseram que foi o coração…mas também, mano!”, “É, a boemia cobra o preço”.

Meu amigo morreu. Meu parceiro morreu e a gente nunca viajou junto, digo, ao menos não para outros lugares. Por isso, não quero ficar com as lembranças, muito menos pirar com aquela lista de tudo o que não fizemos ou me punir por não saber aproveitar melhor o nosso tempo. Só a ideia me irrita. Está certo! Tenho problemas com a morte. Invejo kardecistas. Eles são tão serenos na hora da passagem. Eu acho que eles fingem.

Godão, Godão, se você estivesse aqui com certeza iria tirar um barato. O povo chorando, contando histórias, rindo, contando histórias e chorando. Interessante, todos têm algo para contar. E agora, como eu vou saber qual parte dessa biografia é real? Vai virar lenda, hein.

Além dos amados, da família firme e forte, será que você imaginaria que fulano viria até aqui? Beltrano também veio! Vixi, foram muitos encontros e desencontros. Eu queria que você pudesse ver isso. Tenho certeza que já imaginou o próprio funeral. Afinal, quem nunca?

Não faz muito tempo, talvez dois ou três meses, você postou algo sobre a sua rotina no trabalho e eu comentei citando a letra de uma música que a gente curte: “Eu desejo que você ganhe dinheiro, pois é preciso viver também. E que você diga a ele, pelo menos uma vez, quem é mesmo o dono de quem”. E você emendou: “Eu te desejo muitos amigos, mas que em um você possa confiar”.

A gente nunca foi do tipo que compartilha frases de Caio Fernando Abreu no Facebook (Hahaha). A gente vivia na vera…e como vivia. Éramos Carpe Diem total! Não sei se pelo fato de sermos jornalistas, mas fazíamos questão de registrar tudo. Tinha quem nos considerasse exibicionistas. Comédia! É injustiça tirar a vida daqueles que tentam aproveitá-la ao máximo. É isso o que revolta! E nós sabíamos aproveitar a vida como poucos.

Não sei por que conjuguei o verbo no passado. Afinal tudo isso foi apenas um sonho. Acordei fraca, com sede e com aquela aflição entranhada na alma. Passei a manhã pensando se aquele sonho teria algum sentindo, um significado especifico. Não encontrei nada até agora.

Durante a manhã falei com você pelo Messenger e fiz você prometer que não vai morrer. Você jurou.

O fato é que as pessoas morrem. Para quê, né?! Mas acontece. E sempre foi assim desde o começo. Dizem que teve um cara que foi e voltou, rasgou o véu, desceu a mansão dos mortos, mas depois ninguém nunca mais o viu. Há quem espere seu retorno.

Diante de tudo penso se há uma solução para encararmos a morte com naturalidade, simplesmente como a fase final e derradeira desse ciclo chamado vida, ou outro meio para anestesiar a dor da partida. Mas não sei se queria ver alguém retornar do lado de lá… Creio na cruz!

Eu e Cíntia – Bar da Euda – 2014

Cíntia Souza, jornalista, sócia proprietária da Crível comunicação e amiga minha. Texto republicado, pois tem dias que a gente morre um pouco mesmo.

Poema de agora: Onze arcanos – @rebeccabraga

Onze arcanos

Ela é Beatles. Ele é Stones.
Ela é ar. Ele é fogo.
Ela é flor. Ele é árvore.
Ela é lunar. Ele é solar.
Ela é Buarque. Ele é Sampaio.
Ela é chuva. Ele é calor.
Ela é feminista. Ele, um marxista tropical.
Ela escreve cartas. Ele escreve canções.
Ela dança. Ele se movimenta.
Ela é um solfejo. Ele, um solo de guitarra.
Ela é passarinho. Ele é ninho.

Rebecca Braga no seu Girassol e Catavento

PRAÇA FLORIANO DO AMOR NONATO – Por Fernando Canto

o lugar onde está a praça Floriano já fez parte do grande lago que existia no atual centro de Macapá, desde a época da construção da Fortaleza de São José. Mas como o tempo muda tudo, mudam-se as feições, as formas e o jeito de ser da nossa cidade. Os costumes se modificam e a vida segue seu curso em constante transformação.

No caminhar pelos passeios da Floriano, cada passo faz brotar uma flor tingida de emoção pela presença musical do violão encantado do mestre Raimundo Nonato de Barros Leal. Leal mesmo, pois a vida toda ele abriu a janela dos seus olhos para abraçar e amar esta praça, e fez dela sua musa. Mas para amar este lugar é preciso exercitar o olhar por meio dos seus olhos d’água borbulhantes do fundo do lago, aprender a ouvir o trinado do instrumento do velho violonista e saber que cada nota pousa e voa, voa e pousa sobre as folhas do aningal que precedeu a praça. É um trabalho árduo para os que se aventuram no amor.

Memoráveis os dois – o lugar e o homem – as vezes nutrem-se de silêncio só para escutar a música da vida da cidade. Olha, que para ser memorável, um lugar precisa ter a admiração de quem o visita ou o circunda. E isso aqui é inevitável, pois a praça é bela desde a luz da manhã equatorial aos mistérios do brilho da noite. E sobre ela, a praça, ecoa, como o som da chuva, a magia das notas plangentes do violão do Nonato, assim como uma marca identitária do bairro do Trem.

Agora que os tapumes caíram e o olhar desoprimiu a paisagem, chove sobre todos o compromisso de reverenciar o trabalho e o lazer dos que amam este lugar, porque um lugar sem cuidado morre, sem lembranças não se identifica e sem amor sua existência não teria sentido. E o amor faz perdurar a riqueza de nossa memória coletiva, da nossa alma macapaense onde se integram, por ele, a música do Nonato e a beleza da praça.

*Este texto foi escrito para a reinauguração da Praça Floriano Peixoto no dia 04 de fevereiro de 2017 e está impresso em um dos três totens do lugar, no da rua Jovino Dinoá. Continua, então, a homenagem ao querido Nonato Leal, que daqui a alguns dias fará 90 anos de idade, sendo que 80 deles dedicados ao violão. VIDA LONGA AO MESTRE E ÍCONE MUSICAL DO AMAPÁ! (F.C.).

**Fotos encontradas nos blogs da Alcilene, Porta Retrato e Vanguarda Cultural e uma do fotógrafo Floriano Lima.

O amor que nasce na chuteira (Valeu, Brasil!) – Por Jaci Rocha

Na torcida são milhões de treinadores, cada um já escalou a seleção…

São donas de casa, médicos, engenheiros, garis, de esquina, advogadas, lojistas, juízes. Gente da economia pública e privada, gente que não quer saber de economia ou política, outros que querem muito. Os que gostam e os que não gostam do país do Futebol. A rua mais movimentada do país pára na hora do jogo. A 25 de Março, em dia de copa, parece com uma das ruas de terra batida do menor bairro de nossa pequena capital, Macapá.

A hora do jogo é um instante mágico. Há um silêncio e uma fé que paira pelo ar, uma mística que envolve o sentimento profundo de ser brasileiro e de estar no aprendizado do que é ser Brasil, já que até aqui, a gente demorou a perceber que não haviam nos ensinado o certo sobre o que é ser um país. Se tudo o mais sobre ser brasileiro ainda é descoberta, certo é que a gente sabe bem o que é ser uma Nação quando aquela bola rola no campo: É um silêncio e uma fé que paira pelo ar, uma mística que envolve o sentimento profundo de ser brasileiro…

“O verde e o amarelo são as cores que a gente pinta no coração”.

A camisa verde e amarela vira febre nacional. No avesso de outras Nações, que usam o aspecto simbólico de suas bandeiras cotidianamente, desde acessórios de cozinha a artigos da moda, nós, aprendemos a usar a amarelinha para ouvir: “Gooolllll…éé…é do Brasil”. Nessa hora, poucos de nós se destacam por outra vestimenta. É uma profusão de verde,amarelo,azul e branco, as lindas cores que demonstram nossas múltiplas formas de riqueza, entre elas, a grande mania de Marias e Josés, a ‘de ter fé na vida’. Quem não entende esse sentimento, talvez entenda pouco do tanto que a gente tem para aprender sobre amor com o futebol.

“O toque de bola é nossa escola, nossa maior tradição…”

E como é bom poder dizer: “Nossa tradição”. É que, às vezes, ainda não sabemos como lidar com nossa profunda e complexa multiculturalidade e reconhecer que temos muitas tradições dentro desse ser simbólico que é ser ‘brasileiro’. Mas a gente sabe que quando toca a bola, é de Brasil para Brasil, par a par, em um mesmo objetivo. E como nos falta ter objetivo.Ah! O futebol…

Aos que não celebram a Copa do Mundo e nossa expectativa de ser Rei no Futebol, deixo o meu recado: A gente celebra o futebol. Se alegra com o Carnaval. Reverencia o divino enquanto dança Marabaixo. E a gente torce. E como torce! Para que, ao invés de não celebrar o futebol, a gente se apaixone tanto pelo país, a ponto de transformar esse cotidiano, de olhar e imaginar que, assim como o Hexa, temos também o objetivo de promover um país melhor para as Marias e Josés que, de quatro em quatro anos, sentam à frente da televisão e escalam a seleção, com a esperança verde e amarela tintilando nas entranhas.

É, a gente gosta de Futebol. E queremos sim despertar para ser mais do que isso. Como já disse a velha canção da propaganda : “ O Brasil é um país menino, só ta começando. Diante das Nações que têm milênios nós só temos…500 anos…bota esse menino na escola, cuida da saúde do menino e o menino vai mudar a sua história, vai conquistar esse mundo, vai ser um lindo menino”.

Enquanto isso, a gente amarra mesmo ‘o amor na chuteira’ e espera o HEXA, daqui a quatro anos. É que, como todo menino, o nosso menino também quer ser o primeiro, o Brasil é o país – REI – do Futebol. E afinal, com a licença poética de terminar cantando, aí vamos…“Todo menino é um Rei, Eu também já fui Rei…mas quá, despertei”.

Viva o país do Futebol, que jogou demais e saiu de campo com a marca do talento.

Jaci Rocha

O Resgate – Crônica de Fernando Canto

 

Crônica de Fernando Canto

Alguns verão em ti uma caricatura
E sedentos da carne voltam sempre o rosto
À anônima elegância da humana ossatura.
(Charles Baudelaire – Dança Macabra)

Quem és tu, mulher da noite úmida, azulada de semáforos clandestinos, arquetípica e idolatrada por todos os bêbados bisonhos de risos ortodônticos. Teu lugar é a resposta para os meus anseios ecológicos que ora jazem na pedra do IML, inertes e sem pronúncias de palavras, assim, clivadas no porradal de um dia de depressão e raiva que eu deslembro.

Teus pés outrora um ponto de apoio ficaram presos na grade da janela quando os rotwaillers te encurralaram no jardim que abriste após quebrares a tramela da cancela oculta, que só tu sabias depois de mim.

Nenhuma entrada é tão fácil de acessar no meu jardim se a vigilância for um policial dopado de angústia e solidão, penetrado de sóis artificiais na madrugada. E teimas, tu, mulher de ranço impregnado nas tuas veias, em lacerar meu coração outrora transplantado e agora retalhado a faca e costurado com a singela singer do subúrbio, em tempo de equinócio, com a linha do equador.

Ora, eu que cheirei as “Fleurs du Mal” e vi a destruição dos meus tentames literários ao constatar ainda hoje que “sans cesse à mês côtes s’agite le Démon”. Meus olhos eram os de Charles, que viera um dia de Mitilene e Lesbos, após poético colóquio com Terpandro, Arião e Safo.

Ora, eu que fiz libações de vinho – um Charles Heidsieck Blanc, safra 1995 – e gestuei peripécias fesceninas no caneco dos generais (ainda que trague as marcas do peito lacerado, esfolado da tortura), hoje sou um enigma esfíngico/ paranoico à mercê dos binóculos, um eremita cadavérico que se transforma em relógio e vaga na escuridão que , ainda bem, já se dissipa no jardim onde estão os cães e a tua sombra na cancela. Fiz tudo por ti, eu juro. Eu juro. Não sou mais vigilante de mim mesmo. Refuto o ardor do Santo Graal e me embebedo de antigas memórias contemplando o inútil renascer de tua ternura, algo que me deves e não naturalizas em mim devido a tua fobia do Hades, ainda que me queiras Cérbero.

Ora, teu coração está cheio de peste, catorras pretas e joaninhas coloridas. Teu coração parece estar traspassado à espada, à ambição do ouro e a um avião de sexo, onde chupas testículos de chumbo e gozas com a penetração das asas de um serafim.

Quem és tu, mulher bendita, que regurgitas pelos poros sonhos inefáveis, que arrota preces e ofereces sexo em troca do amor fugaz – pérola trincada no mar do teu remorso?

Ora, um insight veio e eu me lembrei de que o amor tem a consistência do mercúrio, que é chuva em terra plena quando eu me separo ouro de ti. Eu avanço ao pólen, ao orvalho sobre tuas ramagens. Eu tenho pressa, eu vou, eu vou, eu vou. Eu vou dourado de manhãs jogando a sombra longa nos significados das lamas gulosas que deixei nas velhas trilhas. Resgatado pelas rutilantes luzes do equador eu vou. Eu vou, cônscio, amalgamado de poesia. Eu vou, eu-lírico e sem rastros.

Algo me espera.

Eu me visto, então, de branco e prata; amarro meus cadarços e vou. E só, sou líquido, sou água do Amazonas, sou vinho de bacaba, sou – às vezes – um açaí do grosso, farinha de estrelas na imensa nebulosa que avisto, pois é noite. Eu me preparo, desamordaçado e belo como nunca, para embarcar na nave que o Cósmico enviou e que pousou dentro de mim.

O RETRATO AZUL – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

E agora estou aqui, engolindo este silêncio seco, sem saber o que dizer para você.

Por tantas vezes você me acariciou os sonhos e os cabelos e me aparou de quedas vertiginosas, falando em anjos guardiães. Às vezes, em pequenos pedaços de iracúndia você me insultou. – Burro, não é assim, é assado, é grelhado. Eu ouvindo, eu burro. Você me ralhava, dizia até com ponta de aspereza para que eu não me importasse com a perda das coisas, as que considerava tolas. Eu parado ouvia, mas dentro a cachoeira vinha abrupta e profusa. Havia de sentar ou fugir, me rebelando do trato ou a enchente me afogava.

Agora estamos nós dois sem saber o que fazer… Você aí sentado nessa rede com olhos brilhosos de lágrimas, olhando fixo o quadro que lhe demos de presente de aniversário. E você tem vergonha de chorar porque homem não chora, ainda mais um homem como você que sempre foi forte e capaz de transpor os obstáculos e desarmar, sorrindo, tantas armadilhas.

Você tem lembranças e elas são fantasias de nuvens. Você quer concreta a sua lembrança. Ela surge na forma que você quer. Ela vive em sua memória de um jeito estranho, pois o cenho não esconde a projeção e você a sente como se tivesse medo. Mas medo você não tem nem está triste, apenas lembra.

Eu ao seu lado toco em seus cabelos e na sua dor. Você me abraça. Nós, é óbvio, não temos a mesma idade nem a mesma opinião sobre os golpes que o tempo deixa, pois os ventos mudaram para outras pontas da grande rosa e os valores brilham em forma e conteúdo ou, como se diz comumente, qualitativa e quantitativamente. Hoje você vale o brilho que sabe demonstrar com sua esperteza. Hoje os fios do bigode são meros adornos de vaidade e moda. – E não culpe somente as mãos do mundo. Cuspa, se lhe aprouver. Eu vivo a contragosto esses valores e trago em mim a amargura do meu tempo. No entanto, estou aqui junto a você, agora sentindo uma reação esquisita, frente a essa tela.

Minhas lembranças não são mais nítidas que as suas porque o amor que eu sinto é diferente. Você esteve mais perto, então uma imagem lhe traz uma série de outras mais claras, mais tangíveis.

Para mim muita coisa é confusa. Os sentimentos da monocromia em azul saltitam sobre o retrato emoldurado. Consigo ver um tempo que não é meu e me sinto intruso perscrutando o que pertence a seu mundo, me metendo, penetrando no interior de seus sentimentos e elaborando apenas fantasia.

O retrato espelhado em seus olhos mexe com você até a alma. Um doce para mim se sou capaz de adivinhar. Você segura a minha mão com força como se de longe estivessem lhe chamando. Você está em dúvida. Eu respondo. Não quero que você vá. Mas quem sou eu para lhe impedir a vontade se você ama, se você quer ir.

Minha lembrança migra para uma tonalidade tênue e vejo você sentado no pátio de nossa velha casa de madeira conversando com ela sobre as atividades dos filhos, sobre a TV em preto-e-branco que desejam comprar, e especialmente sobre sua situação financeira que não está nada boa, desde que foi obrigado a vender seu comércio pra pagar dívidas contraídas pelo sócio mau-caráter.

Vejo vocês saindo da missa. Uma, duas, mil esperanças a cada domingo. Um almoço farto é imprescindível nesse dia da semana. Você diz orgulhoso:

– Em minha casa nunca faltou comida. E agradece a Deus. E come as delícias que ela fez.

Embora sua risada fosse discreta, os olhos demonstravam a cor do seu pensamento feliz. Havia tristeza, é claro. Ninguém vive sem sentir o gosto dos diferentes venenos que ingere. Porém, há remédio para tudo, isso até hoje você diz. Você pratica e ensina que há antídoto para as agruras; que existem meios e formas para superar qualquer barreira da vida; que não é necessário beber veneno, mas se for inevitável engole-se aos poucos para depois vomitá-lo todo. Então você vomita. Muitas passagens da vida são venenosas e a ação do tempo é emética, aprendo.

Não posso me arriscar a duvidar. Você foi feliz e sofre hoje. Todavia, a sua felicidade acabou no momento em que a paixão incrustou definitivamente, acho, assim como a tinta na parede, como o asfalto no leito da rua, como a cola no papel. Ora, você sabia da durabilidade das coisas porque consertou mil objetos. Sabia que nem tudo é resgatável, gastou horas e sentimentos lidando com minúcias para não esgotar a paciência. Perseverava sempre, até o limite técnico de sua vocação de engenheiro e alma de artesão incomparável. Sim, você sabia que a parede tomba com a violência do temporal, que a tinta escurece e descasca com as intempéries, que o asfalto rompe com o tráfego dos veículos, que a rua desnivela com as erosões, que a cola desgruda com as variações da temperatura, que o papel rasga e amarelece com o manusear constante. Você sabia tudo isso, mas levou tempo para admitir.

Você embala a rede que me roça as pernas. Eu afago seus cabelos brancos com uma ternura de me causar surpresa. Nós sempre fomos amigos, mas havia uma barreira. Talvez a do excesso de respeito, pelo que a aproximação arrefecia. Foi preciso tempo e esta situação para que eu me decidisse amá-lo com toda a força do meu coração, entendo-o agora, dizendo dentro de mim e, se eu quiser, bem alto e retumbante, um Eu Te Amo para impregnar este quarto onde mora a intimidade de sua memória, onde você cultiva sua solidão particular.

Há uma relação inquebrável, uma linha, um foco de luz entre seus olhos e a tela. Nela você penetra aos poucos. Eu deixo, porque a luz é sua, a transcendência é clara. Suas mãos emitem uma aura azul.

Você não percebe que eu desliguei a luz. Você enxuga uma lágrima cadente com a mão esquerda no rosto brônzeo e transmigra com os olhos fixos para dentro da figura tão bem pintada por um artista amigo da família. Com as mãos em seus cabelos acaricio, talvez, a necessidade de seu sonho. Sinto que alimento sua satisfação, embora a sua dor esteja explícita no cenho errado, duro, mas substancialmente alinhado agora. Você não parece ter a idade que tem. Eu observo seu rosto pelas réstias de luz fugidas da sala vizinha, através das frestas das tábuas. Há nele inevitáveis rugas. Mas um sorriso paira em sua boca. Um enigma.

O passado corre no quarto como um rio de volta para a nascente. Recordo suas velhas histórias. Longas e quase inacreditáveis. Histórias amazônicas, histórias que, sabemos, são verdadeiras, pois você nos ensinou que a mentira não é necessária, é sempre uma coisa dispensável. Todas elas traziam a liberdade sonhada nos quintais. Todas abrangiam um mundo particularizado, impenetrável porque aconteceram antes da devastação da floresta, o que tanto o entristece e o preocupa quando assiste aos jornais da televisão. Fogo, antes, só o fátuo – a ilusão. Eu criança e mesmo já adulto absorvia os mistérios dos seringais, as técnicas descobertas por extrema necessidade no meio da selva, e o idolatrava quando contava das farras feitas com seus irmãos, sempre aprontando alguma. Ríamos muito no final dessas histórias.

Um sentimento enorme tomava conta de nossa família. Você encanecia rápido, dizia que não era de preocupação, era genético. Mas eu sabia. Sabia quando você se preocupava, porque depois do almoço, quando mamãe saía para o trabalho, você ficava se embalando numa rede larga, de cor branca, fixando a vista em algum ponto da parede, assim como o faz agora na direção deste quadro. Depois saía sozinho, de bicicleta, ganhando a tarde.

Só você e ela sabiam das dificuldades que nos afligiam. Nós, os filhos, tínhamos o que queríamos e o que pedíamos no limite de nossa pobreza. Nunca reclamamos de nossa infância. Éramos felizes e tentamos até hoje dar um sentido racional a ela, sem, contudo, perdermos o vínculo do encantamento pretérito com a chuva de desencantos que às vezes caía sobre nós. Há um remédio para cada veneno. Lembra? Você não lembra. Está quintessenciado.

Será que erramos com a ideia do presente? Assim você sofre demais, deixando transparecer a debilidade do corpo que balança a rede. Você ainda me abraça e olha o perto/longe. Está lá dentro conversando com ela, caminhando nos paralelepípedos da cidadezinha do interior, de mãos dadas, com seu termo de linho branco, galante e contente, demonstrando o seu amor, inclusive às solteironas invejosas das janelas coloniais. Você sobe a ladeira com um sorriso de homem maduro. Mais alegre, ainda, é ela, a professorinha da Prefeitura Municipal, a desfilar com a graça de seu andar miúdo e um sorriso fulgurante, ajeitando de vez em quando a rosa amarela presa aos cabelos negros. É final da tarde de domingo.

Você a imagina assim, como no retrato. O retrato azul, transposto e ampliado de uma velha foto da década de 40. Minha impressão é que você confunde o real e o imaginário. Permanece o silêncio. Nós dois aqui.

Ah, falta o violão, imagino eu, para que você dê uns acordes harmônicos e cante músicas do seu tempo. Valsas, valsas. Mas o silêncio é seco. É áspero. É doído. Acho então que não estou errado. Seu semblante está feliz, está tocando, está ouvindo músicas. Não há amor sem música. Para ela havia muitas, dessas que entrelaçam e fortalecem uma relação aparentemente ingênua.

De repente você escuta o apito de um navio passando longe. E a convida para viajar, conhecer outras terras, começar a vidinha a dois. O apito do navio transporta o engano do futuro. Você é um aventureiro nato. Não desiste nunca. Mas não impõe. Os dois vão viajando trinta e poucos anos. E gostam. Não enjoam jamais da cara do outro. As brigas que se sucedem são só de vocês. Ai daquele que meter a colher.

Até parece que ela vive. Você devaneando me faz acreditar. Eu acredito. Você me diz: – Eu não estou triste, só lembro.

Lembrar é fato legítimo. É viver o presente com lucidez. E você vive. Apenas viajou.

Paro de afagar sua cabeleireira branca. Você me abraça e não me olha. Sei, no entanto, que está sorrindo, que está feliz. Você levanta, me dá três tapinhas nas costas e vai assuar o nariz no banheiro.

Acendo a luz fluorescente. Olho o retrato mais uma vez. O quarto está repleto de luz. Mamãe está sorrindo na tela com os olhos molhados de ternura.

Ronaldo na área – Crônica de Ronaldo Rodrigues e imagens de Ronaldo Rony

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Atenção, galera! Ronaldo entra em campo aos 44 minutos do segundo tempo para virar esse jogo! Agora o time engrena!

Não, senhoras e senhores! O Ronaldo a que me refiro não é o gajo Cristiano Ronaldo, o maior jogador do mundo da atualidade (pra você ver como o mundo e a atualidade andam carentes). O Ronaldo portuga mais parece um vaidoso pavão do que um jogador de futebol (aliás, como a maioria dos jogadores de agora).

Mas deixa ele pra lá e passemos a falar do Ronaldo que interessa. Além dos Ronaldos que já tivemos, o Gaúcho e o Fenômeno, o nosso futebol conta com o Ronaldo Anônimo, que reivindica agora, através desta crônica, seu justo lugar na História das Copas.

O COMEÇO DE TUDO

Inglaterra 1966

O Brasil já tinha perdido o complexo de vira-lata e vencido duas copas (Suécia/1958 e Chile/1962). Mas a nossa seleção se apresentou de maneira pífia e não trouxe a taça. Tudo porque o nosso Ronaldo não tinha sido convocado.

México 1970

Brasil Tricampeão. Ronaldo foi novamente ignorado e o mundo deixou de presenciar seu jovem talento. Tudo bem que ele só tinha 4 anos de idade, mas custava o técnico Zagallo dar uma chance à nova geração?

A ASCENSÃO DE UM ASTRO

Ronaldo foi crescendo e o craque se revelando. O técnico insistia em deixá-lo no banco de reservas, mas a torcida já reconhecia seu talento precoce e exigia sua entrada em campo.

Aos 10 anos, Ronaldo declarou todo o seu amor ao futebol, em vários idiomas, pra deixar claro que sua intenção era ser astro internacional.

Era uma paixão não correspondida. Ronaldo amava o futebol e o futebol o desprezava totalmente.

Argentina 1978

Apesar de não contar com Ronaldo, que continuava sem sua merecida chance, o Brasil não teve uma derrota sequer e, mesmo assim, não trouxe a taça. A anfitriã venceu o torneio com um time bom, a violência de sempre e a decisiva ajuda da ditadura argentina.

Espanha 1982

Ronaldo tentava de tudo para se inserir no mundo do futebol, mas nem como torcedor se dava bem. O futebol-arte do Brasil caiu diante da pálida Itália, que fazia uma Copa muito da miada. Poderíamos até empatar que a classificação viria, mas o até então apagado Paolo Rossi resolveu desencantar justamente naquele dia e fez três gols. A seleção canarinho voou de volta pra casa e Ronaldo levou toda a culpa.

México 1986

Onde estava Ronaldo? Assistindo pela TV ao show de Maradona, fazendo, contra a Inglaterra, um gol de malandragem com la mano de Dios e outro de extrema habilidade, quando enfileirou metade do time bretão. O Brasil foi eliminado pela França nos pênaltis e Ronaldo continuou seu sonho de um dia disputar uma Copa.

Itália 1990

A era Dunga não decolou. O Brasil foi desclassificado pela Argentina, num gol de Caniggia, recebendo o único passe que Maradona conseguiu fazer em todo o jogo.

Estados Unidos 1994

Acaba o jejum de 24 anos e o time mediano do Brasil sagra-se campeão nas terras do Tio Sam. A torcida teve que se contentar com um xará do nosso craque, que não saiu do banco.

França 1998

O Brasil amarelou na final e Zidane comandou a vitória da anfitriã. Culpa de quem?

Japão e Coreia do Sul 2002

Desta vez, acontece um fenômeno. Ronaldo faz dois na Alemanha e o Brasil é penta.

Alemanha 2006

Ah! Deixa essa Copa pra lá! A única coisa legal foi a cabeçada do Zidane no Materazzi!

África do Sul 2010

Outra chatice! Essa foi tão meia-boca que até a Espanha ganhou…

Brasil 2014

Nesta Copa, Ronaldo foi mais um dos brasileiros que conseguiram transformar em piada o que teria sido uma tragédia.

Rússia 2018

Mesmo com 52 anos, Ronaldo não para de treinar e ainda acredita em uma convocação de última hora. A torcida do Brasil está meio desmotivada, mas vamos deixar a bola rolar e ver no que vai dar. Pior do que tá não fica, como disse aquele pensador contemporâneo. Ronaldo está aí e, caso seja convocado, ainda tem muito jogo pra mostrar.

* Imagens de Ronaldo Rony.

O discurso discriminador do Marabaixo – Por Fernando Canto (muito legal)

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Foto: Elton Tavares

Texto de Fernando Canto Para o amigo Herialdo Monteiro

Não é de hoje que o Marabaixo é discriminado. Aliás, as manifestações culturais de origem africana sempre foram vistas como ilegais ao longo da história do Brasil. Do samba à religião, seus promotores foram vítimas de denúncias que os boletins de ocorrências policiais e os processos judiciais relatam como vadiagem, prática de falsa medicina, curandeirismo e charlatanismo, entre outras acusações, muitas vezes com prisões e invasões de terreiros.

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Foto: Gabriel Penha

Essa discriminação ocorreu – e ainda ocorre – em contextos históricos e sociais diferenciados, e veio produzida por instituições que tinham o objetivo de combater o que lhes fosse ameaçador ou que achassem associadas às práticas diabólicas, ao crime e à contravenção.

No caso do Marabaixo, há anos venho relatando episódios de confronto entre a igreja católica (e seus prepostos eclesiásticos e seculares), e os agentes populares do sagrado, estes que, por serem afrodescendentes, mestiços e principalmente por serem pobres, foram e são discriminados, visto o ranço estereotipado de que são “gente ignorante” e supersticiosa.

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Foto: Márcia do Carmo

É do século XIX a influência do evolucionismo que tomava como modelo de religião “superior” o monoteísmo cristão e via as religiões de transe como formas “primitivas“ ou “atrasadas” de culto. Para Vagner Gonçalves da Silva (Revista Grandes Religiões nº 6), nesse tempo “religião” opunha-se a “magia” da mesma forma que as igrejas (instituições organizadas de religião) opunham-se às “seitas” (dissidências não institucionalizadas ou organizadas de culto).

É do século XIX também os primeiros escritos sobre o marabaixo. Em um deles um anônimo articulista o ataca, dizendo-se aliviado porque “afinal desaparece o o infernal folguedo, a dança diabola do Mar-Abaixo”.

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Foto: Márcia do Carmo

Ele afirma que “será uma felicidade, uma ventura, uma medida salutar aos órgãos acústicos se tal troamento não soar mais…”. Na sua narrativa preconceituosa vai mais além ao dizer que “Graças ao Divino Espírito-Santo, symbolo de nossa santa religião, que só exige a prática de bôas acções, não ouviremos os silvos das víboras que dansam ao som medonho dos gritos dos maracajás (…), que é suficiente a provocar doudice a qualquer indivíduo”. Assevera adiante “Que o Mar-Abaixo é indecente, é o foco das misérias, o centro da libertinagem, a causa segura da prostituição”. E finaliza conclamando “Que os paes de famílias, não devem consentir as suas filhas e esposas frequentarem tão inconveniente e assustador espetáculo dessa dansa, oriunda dos Cafres”. (Jornal Pinsonia, 25 de junho de 1898)

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Foto: Márcia do Carmo

Discursos de difamação do Marabaixo como este e a posição em favor de sua extinção ocorreram seguidamente. O próprio padre Júlio Maria de Lombaerd quebrou a coroa de prata do Espírito Santo que estava na igreja de São José e mandou entregar os pedaços aos festeiros. O povo se revoltou e só não invadiu a casa padre para matá-lo graças à intervenção do intendente Teodoro Mendes.

Com a chegada do PIME – Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras – em Macapá (1948) o Marabaixo sofreu um período de queda, mas suportado com tenacidade por Julião Ramos, que não o deixou morrer. Tiraram-lhe inclusive a fita da irmandade do Sagrado Coração de Jesus, da qual era sócio fiel.

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Foto: Mariléia Maciel

Nesse período os padres diziam que o Marabaixo era macumba, que era coisa ruim, e combatiam seus hábitos e crenças, tidos como hediondos e pecaminosos, do mesmo jeito que seus antecessores o fizeram no tempo da catequização dos índios. Mas o bispo dessa época, D. Aristides Piróvano, considerava Mestre Julião “um amigo” (Ver Canto, Fernando in “A Água Benta e o Diabo”. Fundecap, 1998)

O preconceito dos padres italianos com o Marabaixo tem apoio num lastimável “achismo”. Os participantes são católicos e creem nos santos do catolicismo, tanto que a festa é dedicada ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade e não a entidades e voduns como pensam. Nem ao menos há sincretismo nele.

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Colheita da Murta Foto: Fernando Canto: Arquivo pessoal

E se assim fosse? Qual o problema? Antes de emitirem um julgamento subjetivo sobre um fato cultural é preciso conhecê-lo. É preciso ter ética. Ora, sabe-se que todos os sistemas religiosos baseiam-se em categorias do pensamento mágico. Uma missa ”comporta uma série de atos simbólicos ou operações mágicas” (Vagner Silva op. cit.). Observem-se as bênçãos, a transubstanciação da hóstia em corpo de Cristo, por exemplo. Um ritual de umbanda comporta a mesma coisa. O Marabaixo tem rituais próprios, ainda que um tanto diferentes. Por isso e apesar do preconceito ainda sobrevive. Valei-nos, Santo Negro Benedito!

(*) Do livro “Adoradores do Sol – Novo Textuário do Meio do Mundo”. Scortecci, São Paulo, 2010

Nossos Batuques – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

O batuque é uma parte do conjunto de atos que acontecem em louvor aos santos de Mazagão, Igarapé do lago e Curiaú. Ocorre durante e após as obrigações religiosas de uma vasta programação festiva, na qual os membros dessas comunidades têm grande e ativa participação. Consiste ainda na música e dança próprias, caracterizados pelo ritmo rápido produzido por instrumentos rusticamente confeccionados por artesãos locais.

No Igarapé do Lago, durante a festa de Nossa Senhora da Piedade, são usados tambores como o “cupiúba”, feito da árvore “cupiubeira”. Este tem um metro de comprimento e serve para fazer a marcação rítmica; o “macacaúba”, feito da árvore do mesmo nome e o “cajuna”, o menor deles, usado mais na procissão, preenchem os vazios da marcação do batuque, onde também são utilizados a “taboqueira”, espécie de ganzá feito de “taboca” em cujo interior se põem grãos de milho e sementes de tento, e o “rapador”, confeccionado com bambu, com gomos escavados por fora e tocados com uma vareta. Os pandeiros são feitos de tiras de árvores, couro de animais e fichas de refrigerantes. São utilizados ainda o clarinete, o violão, o cavaquinho e a viola. Quando tocam nos salões, um pedaço de pau chamado “rolete” é posto sob os tambores para que os batuqueiros tenham maior comodidade.

Já no Curiaú o batuque era realizado somente na festa de São Joaquim, padroeiro do lugar, ou em comemorações especiais, porém hoje, devido à diversificação de devotos de outros santos, ocorre diversas vezes ao ano, não necessariamente no só centro comunitário, mas nas casas dos promesseiros. Ali, os dois (ou mais de dois) tambores utilizados têm o nome de “macacos”. São eles, o “amassador” e o “repinique”, feitos da árvore do “macacaueiro”. O primeiro tem a função de marcar e o segundo de dobrar o ritmo. Seus pandeiros (três) são feitos com a madeira do cacaueiro e do couro de carneiro ou de sucuriju. Da mesma forma que no Igarapé do Lago, os batuqueiros do Curiaú tocam seus tambores, sentados neles, que ficam sobre um tarugo de acapu, inclinados, para melhor repercutirem. Do lado de fora do salão, onde ocorre o batuque, fica permanentemente acesa uma fogueira para esquentar e esticar o couro dos tambores e pandeiros.

Durante as festas realizadas em louvor a Nossa Senhora da Piedade, em Mazagão Velho e Ajudante, o batuque é tocado em dois tambores, sendo que um terceiro batuqueiro, sentado no tambor de marcação ou “amassador”, toca com duas baquetas na parte traseira do tambor “repinique”, para incrementar o ritmo. A “taboqueira” e o “rapador” também fazem parte do grupo de instrumentos da percussão do batuque.

Outro ritmo amapaense que muito se assemelha ao batuque de Mazagão Velho, pela forma de ser tocado é o “Zimba”. Esse nome não tem relação com o que diz Mário de Andrade, no seu Dicionário Musical Brasileiro. O musicólogo explica que o nome vem significar o mesmo que “sanza”, um “instrumento de lâminas, percutidas com os polegares, também conhecido como “zimba” e “kibanda” entre os Babunda e os Bakwese (África), classificado nos grupos das marimbas ou m’bichi, por Stephen Clauvert. O zimba, enquanto música e dança folclórica, é praticado na localidade de Cunani, município de Calçoene. Suas músicas e formas de dançar são semelhantes ao Carimbó da costa paraense, uma área geográfica habitada por pescadores tradicionais que se fixaram no litoral do Amapá.

*Fotos surrupiadas dos blogs Som do NorteAmapá, minha amada terra!.

OS CAMINHOS DE HANNE – Por Fernando Canto

Hanne Capiberibe – Fotos do blog Canto da Amazônia

Por Fernando Canto

A filósofa espanhola María Zambrano, um dos pilares da luta contra ditadura franquista, dizia que o tempo é o único caminho que se abre ao inacessível absoluto, e que um caminho, porém, não circunda ou atravessa simplesmente um território. Ele é uma realidade mediadora que retém ou evita alguma coisa do lugar onde ele está sendo aberto. Ele cumpre, assim, o seu papel que é conduzir aquilo que, sem ele, não teria a menor possibilidade de existência: um ser que se encontra inelutavelmente em um lugar onde não pode instalar-se.

Eu diria que Hanne foi esse caminho. Porque o caminho também é um certo vazio (como o que fica, como o que foi aberto). E para se fazer um caminho sempre há necessidade de destruir, de arrancar o que se encontra de frente, pois o tempo também passa arrancando o ser, o ser como tal e o ser daquele que passa por ele, que é o homem. Mas se um caminho cumpre a sua função de mediador, se ele é verdadeiramente um caminho, ele terá feito a sua destruição apenas para criar uma relação diferente, uma relação possível e válida, adequada ao ser do homem, para quem o caminho se abre.

Então os caminhos de Hanne foram feitos para os outros em inquestionável lição de amor aos seres humanos que a circundavam. Os caminhos abertos por ela com seus gestos delicados e postura firme (ambigüidade alternada em cenários diferentes), se deram como ácido em terreno de ferro, pois há sempre um resquício de mistério nas atitudes de quem ousa escolher a direção daquilo que se quer construir. E se os caminhos são estradas prestes a se abrirem pela ação de quem assim o deseja, se os caminhos são destinos, tempo, espaço ou poesia, não há dúvida que ela experimentou ser a destinatária privilegiada de uma solene, oculta e bela investidura desenvolvida com o consentimento inelutável das pessoas que vieram a ser tornar suas amigas. Mas a despeito de situações ou problemas políticos oriundos de sua família (inevitável carma de quem detém o poder), Hanne multiplicou sua capacidade de absorção da realidade cartesiana, num tempo sucessivo, para juntar pedaços de seres e fatos em sua caminhada pré-determinada, agindo sobre uma realidade amapaense aparentemente surda, fragmentária e descontínua.

Assim como a via-láctea se torna um caminho em que viajamos sem percebermos, a presença de Hanne no cosmo decerto já sabe a resposta do destino que nos aguarda no mundo astral, nesse plano sem volta que os homens e mulheres mitificam e acreditam. Assim como as águas do Amazonas se misturam às do oceano sem que saibamos do seu limite exato, Hanne já percebeu no seu mergulho ao profundo pélago equatorial que ali a vida surge, explode e renasce quando o sol flutua sobre as mágicas manhãs de nossa terra, espalhando fótons e almas voláteis em busca da vida verdadeira.

Guardarei comigo a túnica cuidadosamente desenhada por ela para o desfile dos Boêmios, pois um desfile se faz por uma passarela, uma via, um caminho, aberto também pelo sonho de sermos seres humanos melhores. Os tambores do marabaixo e do samba repercutirão enquanto soubermos a lição de sua humildade. E não importa que resvalemos na vida, que sonhemos ou não: devemos exigir o despertar, porque o ser pesa e comprime, mas tem que sair do seu recinto original, das túnicas que vestimos para desfilar, para abrir caminhos além daqueles que nos são permitidos. A vida é dádiva para quem vive e nela existe o sonho numa vasta panóplia de representações em que estão os amigos, as raras pessoas como Hanne, que abriu caminhos, portas e portos. E viveu humanamente.

*Canto me enviou este lindo texto há três anos. Não convivi com a jornalista Hanne Capiberibe, mas muitos amigos meus, como Fernando, Gilvana Santos e Mariléia Maciel, como 100% da imprensa amapaense, fala que ela foi uma excelente profissional e ser humano. Republiquei em homenagem, já que completam 10 anos  que ela partiu.  (Elton Tavares).