CORNUCÓPIA DE DESEJOS – Conto muito porreta de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

Por querer expressar meu pensamento sobre as coisas em meu idioma, às vezes arrebato o próprio coração em sofridas angustiosidades e dissentimentos infaláveis. Por isso monologo no granito e lavo em água este contraste, esta antagonia de imprescindível falação que ponho em tua trompa de eustáquio para te martelar suavemente a dentro.

É o caso do amor ensolarado que sinto agora, neste mirífico momento. Um assunto ressoante, uma prosa-cornucópia (onde a abundância reina) a refratar-se sem a culpa do inexpressável parlar.

Não vejo como não ensopar-me de enluação neste conto de candura quase irrevelável, posto que o meu amor possa entender-me ou espumar-se para sempre para o inevitável espanto que a declaração enseja. Paresque um salto com vara numa olimpíada de abismos.

Assim eu declaro: a cobra norato, o boitatá e as luzes do fogo-fátuo se expiram na noite cadente. Oh, teus olhos não! Teus olhos ternuram a medida do dia, solfejam histórias e cantam paisagens inescrutáveis para os sonostortos dos mortais. Eu sou o arauto deste cenário-testamento a castigar retumbantemente o couro dos tambores; eu anuncio a sublime compreensão do “amooor” que ecoa em gargalhadas sobre as ondas do Amazonas, aqui na Beira-rio, sob um céu azul intensificado de lilás quando anoitece. Eu declaro ainda: a pedra em sua bruta forma tem dentro de si os elementos primordiais que suprem tua sede de amar. Ora, Balance a pedra e sinta o gutigúti da sua oferenda. Lapide-a, pois ela provém da terra, e então perceberá o calor do fogo da paixão libertadora e o ar morno que movimentará o sangue pelas entranhas.

Num átimo, um áugure qualquer (que são muitos e banais) lerá tua sorte: dirá augúrios, claro. Um áuspice (que estão cada vez mais raros) dirá tua sina no raro voo dos louva-deuses. E te auspiciará de boas-novas e de valores inequívocos.

Ora, dizendo isso afirmo que sou aquele que nem sabe discursar suas dores, inda que saiba do futuro, pois habito o limiar do tempo. Eu sou a timidez em prosa e verso, aluno de poesia, mas prenhe de pecados, porque ingiro virtudes nos bares da noite e não sei segredar projetos inexequíveis. Não sei, juro pueril e ludicamente (mas com toda a sinceridade de uma parlenda) pela fé da mucura, torno a jurar pela fé do guará, torno a repetir pela fé do jabuti, que não sei mentir ao sabor do vento dos ventiladores que me sopram fumaça de charutos cubanos.

Descobri que sei de ti mais do sabes da pedra em teu caminho. Sou teu (adi)vinho incontestável, ad-mirador de tua trajetória. Por isso do alto da minha velada arrogância sei que tu também me amas.

Mas é de ti que quero o conteúdo dessa bilha onde Ianejar – aquele heroi dos índios waiãpi – e seus pareceiros se abrigaram do fogo ardente e do dilúvio. É por ti que generalizo a farsa da criação sem pesadelos cosmogônicos. Eu me agonizo em mistérios. Eu eternizo o meu olhar nessa paixão. E me enleio como as borboletas que viajam ao paraíso pelo buraco sem-fundo do fim da terra.

Por isso eu sei que te amo.

Por isso vago ainda em fluidos imemoriais sempre presentes, antes do esquecimento das vitórias que juntos comemoramos.

Por isso a ternura há de ser o mais farto elemento da imensa cornucópia de desejos que realizamos juntos.

Os cães do Campus da Unifap – Crônica porreta de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Aproximadamente dez cães moram no campus da Universidade. São vira-latas que dormem durante o dia e à noite se tornam verdadeiros vigias. Rosnam para os desconhecidos que se aventuram por lá de forma suspeita, mas reconhecem os vigilantes pela farda que usam e alguns professores mais antigos, talvez pelo cheiro de livros velhos.

Deitam pelos corredores sem que ninguém lhes incomode, pois descansam após o trabalho de uma noite inteira, em que seus argutos olhares e latidos alarmistas com certeza foram úteis. São cães fortes, uns completamente negros e outros com manchas marrons. Às vezes se levantam com o forte cheiro das queimadas no cerrado do campus, mostrando-se impotentes diante dessas devastações tão próprias dos seres humanos.

No meio do mundo os cães trabalham na noite como se revigorassem a missão permanente do ancestral Cérbero, o demônio do abismo da mitologia grega, com suas três, cinqüenta ou cem cabeças, que vigiava as almas no Inferno. Para amansá-lo, os mortos tinham que oferecer-lhe um bolo de mel, acrescentando o óbolo destinado ao pastor Caronte. Cérbero devorava sem piedade todos aqueles que tentavam forçar a porta do Inferno: atacou Pirito e Teseu que queriam levar Perséfone de volta; foi enfeitiçado pela lira de Orfeu quando o mesmo foi reclamar Eurídice; deixou passar Eneu, que lhe deu o bolo de mel preparado pela Sibila. Mas foi derrotado e acorrentado por Héracles (Hércules), que o levou a Trezena antes de levá-lo de volta ao Inferno.

Não há dúvida, afirmam os mitólogos, que mitologia alguma não tenha associado o cão à morte, aos infernos subterrâneos e aos impérios invisíveis regidos pelas divindades ctonianas ou selênicas. Sua primeira função mítica, universalmente atestada é a do “psicopompo”, guia do homem na noite da morte, após ter sido seu companheiro no dia da vida. O cão emprestou seu rosto a todos os grandes guias de almas, em todos os escalões de nossa história cultural ocidental.

Ele existe em todo o universo e aparece em todas as culturas, com variantes que enriquecem esse simbolismo fundamental, como os cinocéfalos (macacos de cabeças semelhantes a do cão), da iconografia egípcia, que têm por missão aprisionar ou destruir os inimigos da luz e guardar as Portas dos locais sagrados. Na mitologia Romana a loba que amamentou Rômulo e Remo, bem como outros canídeos, são heróis civilizadores e estão sempre ligados à instauração do ciclo agrário.

Apesar de a sua fidelidade ser louvada pelos muçulmanos, o Islã faz do cão a imagem daquilo que a criação comporta de mais vil. È o símbolo da avidez e da gula. Sua carne é utilizada como remédio contra a esterilidade, a má sorte, etc. Segundo uma tradição do Profeta, este declarou que um recipiente no qual tiver bebido um cão deve ser lavado sete vezes, sendo que a primeira lavagem deverá ser feita com terra. Diz-se que o Profeta proibia matar os cães, salvo os cães negros que tivessem duas manchas brancas por cima dos olhos, pois essa espécie de cão era uma encarnação do diabo. Já os monges dominicanos eram os cães do Senhor, aqueles que protegem a Casa pela voz ou os arautos da palavra de Deus.

Os cães do campus também trazem o seu simbolismo. São alimentados carinhosa e diariamente pela dona Nilza. E como Cérbero protegem a entrada da Universidade daqueles que nele querem entrar sem merecerem. O conhecimento e a luz estão lá, protegidos pelas trevas do desconhecido, envolvidos pela mão de muitos Lucíferes. Aqueles que quiserem o saber terão que dar aos guardiões o bolo de mel e o óbolo de Caronte nessa travessia que não terá retorno.

Teresa (em preto e branco) – Tãgaha Soares

 

 
E foi na batata da perna de Teresa que escrevi as minhas primeiras palavras na língua nativa. 

No princípio, ela até gostou, ficou lisonjeada quando lhe disse que eu estava escrevendo um livro nela. Depois, me recusava, porque eu só procurava seu corpo para escrever…
 
O livro já estava pelo sétimo capítulo quando ela me abandonou…
 
Sem ela, perdi o fio do novelo. Passava os dias catatônico diante de uma folha de papel em branco…
 
Experimentei escrever alguma coisa em mim mesmo, mas não era tão bom.
 
Então, fui procurar as putas…

A FORTALEZA E A GÊNESE DA OCUPAÇÃO – Crônica/resgate histórico de Fernando Canto

Fortaleza de São José de Macapá – Foto: blog Amapá, minha terra amada.

Crônica de Fernando Canto

Na continuação das nossas observações sobre a Fortaleza de São José de Macapá, temos a considerar que a memória é o deciframento do que somos à luz do que não somos mais (Nora, 1993), ela fixa os sentidos e a identidade, permitindo à sociedade traçar suas origens e reconhecer suas permanências independentemente do tempo. Mas ela também possibilita o reencontro com o sentido de pertencimento e tem a capacidade de viver o hoje, tornando-se princípio e segredo da identidade.

Fortaleza bicentenária – Foto: Floriano Lima

Desta forma, há uma necessidade de se observar o monumento, hoje, sob o olhar de uma memória coletiva, com suas significações que a levaram a ser um ícone da identidade macapaense e não mais exclusivamente como arquitetura militar ou obra de segurança e proteção da região. Faz-se necessário saber como foi construído e modificado o discurso de ocupação da Fortaleza de São José, hoje considerado espaço de preservação. Ela é o único monumento edificado que faz a vinculação com o passado, em que pese a igreja de São José ser mais antiga, mas que sofreu inúmeras descaracterizações. Apesar de ter surgido muito depois da fundação de Macapá ela, a Fortaleza, é a gênese do discurso de ocupação e de formação da cidade. Ao longo de mais de dois séculos o eixo de ocupação e a conotação do discurso artístico e histórico da cidade foi mudando. No presente momento, por exemplo, ela foi eleita uma das maravilhas do Brasil como monumento edificado. Daí sua dinâmica no tempo e no espaço.

Fortaleza de São José de Macapá – Foto aérea de Mateus Brito

A cidade de Macapá, como qualquer cidade de seu porte, por ser um lugar de alternâncias e de condições diversificadas que dão dinamismo ao cotidiano (e onde se situam tempos de transformação e de continuidade) é, também, o lugar das alteridades e transformações da Fortaleza de São José. Isso nos permite e nos possibilita enxergar e decodificar os significados das marcas impressas nesse tempo de quase dois séculos e meio, onde estão presentes inúmeros olhares, rupturas e imbricações.

Fortaleza de São José de Macapá – Foto: Manoel Raimundo Fonseca

A conquista da Amazônia pelos portugueses suscita uma história diversificada e rica de detalhes. As fortificações por eles construídas são marcos dessa luta por expansão de fronteiras. No bojo de tudo está a Fortaleza de São José de Macapá, na qual – repetimos – inúmeros olhares se fixaram e se desvaneceram pela memória quase diluída, pelas deslembranças expurgadas pelo nascimento do novo. Da sua construção até hoje as transformações nela operadas foram significativas (curral, quartel, museu, etc.), mitificadas pela mídia (“lugar bonito”), conflitivas (acordos pecuniários para derrubar os prédios da sua área de entorno, prisão de presos políticos) e espetaculares nas mudanças urbanísticas realizadas ao longo dos anos dentro e fora da sua área original.

Fortaleza de São José de Macapá – Foto: Manoel Raimundo Fonseca

Há nessa idéia um imbricado processo de análise a ser observado, porque a história da Fortaleza de Macapá traz também uma história não-oficial daqueles que foram supostamente vencidos, a história registrada pelos vencedores e suas estratégias de sobrevivência e hegemonia, onde está expressa a relação do homem com a natureza de forma significativa, pelo que experimentaram na construção daquela obra (Bhabha, 2007).

Fortaleza bicentenária – Foto: Max Renê

E essas estratégias são muito bem produzidas no longo período da sua construção. Não apenas do ponto de vista do colonizador militar como pelas astuciosas fugas e “ausências” que os trabalhadores braçais e escravos usavam para minimizar seus sofrimentos (Castro, 1999). Os papéis ocupados pelos colonizadores de manter a construção, a ordem e o controle eram dialeticamente contrapostos nas adjacências da obra da Fortaleza por negros, índios e soldados desertores, que protagonizaram uma “original aventura para conquistar a liberdade. Com suas próprias ações reinventaram significados e construíram visões sobre escravidão e liberdade” (Gomes, 1999).

Ao leitor do futuro – Por Lulih Rojanski

Por Lulih Rojanski

Eu quero ter leitores, muitos leitores no futuro. Quero ter leitores agora também, aos milhares, mas hoje, particularmente, penso no leitor do futuro, aquele que tomará o livro nas mãos como uma relíquia de um passado distante, e que me lerá, com especial estranhamento às frases líricas, à linguagem poética, ao modo pretensioso de dizer coisas que todo mundo sabe como se fossem grandes novidades.

Não vou arriscar maiores projeções para esse futuro, não sei como serão os automóveis, a arquitetura das cidades, o figurino das criaturas. Apenas imagino que um dia teremos que nos render às mais inimagináveis tecnologias, e que nesse tempo incerto, nenhum livro impresso em papel fará parte do inventário de quem quer que seja. Quem sabe de algum colecionador propenso à nostalgia. Só. E se meus escritos fizerem parte de sua coleção, certamente terá sido por pura distração, pois a lista será composta por vencedores do Nobel de Literatura. E eu lá, plebeia e vulgar, no meio de Gabriel García Márquez, Faulkner, Bob Dylan…

Pois ao leitor do futuro eu quero dizer que aqui estamos, em 2017, crentes de que já vimos de tudo, e que tudo o que vier pela frente será variação sobre o mesmo tema. Que temos árvores em abundância, de todos os tamanhos e espécies, mas que as cortamos para dar espaço à construção de casas, edifícios e condomínios. Que temos rios imensos, povoados de milhares de espécies de peixes, mas que jogamos em suas águas grande parte do lixo que produzimos. Que hoje as ondas do Amazonas nos trazem frascos de bebidas, pacotes plásticos de alimentos, restos mortais de móveis domésticos. Que não nos interessamos mais pelo cultivo de jardins, e em cada quintal, em vez de arbustos e samambaias, há churrasqueiras nobres ou precárias, esculturas artísticas ou grosseiras. Que colocamos garças de cerâmica no lugar dos pássaros que costumavam voejar por entre os verdes. Que não sabemos e não procuramos saber reciclar quase nada. Que somos permissivos com quem destrói rios inventando barragens, com quem saqueia florestas nativas, com quem mata nascentes criando búfalos, com quem contamina águas e terras com resíduos de minério, com quem não reconhece a humanidade e a posse da terra dos povos indígenas…

Imagino que o leitor do futuro saiba exatamente tudo o que fizemos, mas talvez não saiba como nos sentimos. Pois saiba, leitor, que somos indiferentes. Na verdade, temos um magnífico discurso, de preservação, de sustentabilidade ambiental, escrevemos belos manifestos e os lemos publicamente, incitamos a atitude conservacionista, depois amassamos o papel e o jogamos ao pé da acácia que começa a florir, entramos no carro e rodamos por toda a cidade com o escapamento quebrado, distribuindo fumaça e panfletos e despertando ódio, lavamos o carro com a água tratada das torneiras, queimamos as folhas secas do quintal, jogamos fora as mangas caídas durante a noite, soltamos numa rua distante um pacote de gatos quase recém-nascidos, mandamos arrancar o jambeiro cuja raiz quebrou o concreto da varanda, espantamos os passarinhos que vêm comer os mamões, e finalmente vamos ao restaurante e comemos peixes de outra estação. À noite, temos a desfaçatez de dormir o sono dos justos.

Enquanto pensamos e escrevemos, espécies como o rinoceronte-de-java, o orangotango-de-sumatra, a tartaruga-gigante, o gorila-da-montanha e o tigre-siberiano estão dando seus últimos suspiros antes de desaparecer para sempre. Num futuro distante terão se conservado pelo menos as suas fotografias? Araucária, pau-brasil e jequitibá são árvores que não sobreviverão para dar sombra a gerações futuras.

Leitor do futuro, há coisas dessa sua época que você não entende? Pois seja o que for, saiba que faz parte do legado que lhe deixamos, nós, daqui do moderníssimo ano de 2018. Fizemos descobertas incríveis e talvez por isso você até esteja livre de doenças que conseguimos erradicar. Descobrimos a cura para males dos quais você só sabe pelos documentos históricos. Entretanto, nem todos os nossos feitos somados podem compensar o que destruímos e o que provavelmente continuaremos a destruir.

Estou longe de saber como será o planeta e a humanidade daqui a 500 anos… Mas diante do que exponho, não é difícil imaginar que cada gota de água será disputada, assim como cada palmo de boa terra e cada vão com ar puro. Por outro lado, quem sabe se os pequenos humanos já não recebam, ainda no ventre, uma injeção de consciência, um dos inventos do futuro, e cresçam sabendo se portar como seres evoluídos… Do tipo que saiba praticar as mais profundas teorias da preservação e da fraternidade. Aquelas que nestes tempos relegamos ao plano das ideias.

O leitor de 2517 se perguntará por que quisera eu ser lida por alguém de sua época. E eu tenho a responder que é unicamente para que ele tenha a singular satisfação de folhear um livro de papel e encontrar, lá pela página 80, uma pétala quase pulverizada da extinta rosa branca e um sincero e sentimental pedido de perdão.

Ninguém lê! – Crônica de Lulih Rojanski

Crônica de Lulih Rojanski

O que você está lendo? Qual foi o último livro que leu? Onde está o último livro que comprou? Quando o comprou? Onde está o último livro de cujo lançamento participou? Na estante, intacto, ignorado? Eu sinto muito por tudo isso. Honestamente, sinto muito, porque conheço as verdadeiras respostas a estas perguntas, por mais que nas redes sociais a maioria prefira dizer orgulhosa que está atolada em leituras, que tem dormido com Honoré de Balzac debaixo do travesseiro, que gastou em livros boa parte do décimo terceiro salário, que não vive sem Fernando Pessoa… Livros estão ficando no tempo do era uma vez. Editoras estão fechando as portas. Editores estão negociando selos com distribuidoras de literatura vendável e meia-boca. Escritores estão morrendo de desilusão com a cara enfiada na poeira de velhos livros, em arcaicas bibliotecas.

O grande leitor está morrendo. Ele sabe que só é importante para uma geração que está se extinguindo, vagando espaço para os grandes leitores de palavras abreviadas e emoticons sorridentes. Poesia é uma coisa de que o grande leitor de agora ouviu falar mas não sabe exatamente o que significa, como funciona, em que botão se aperta. Conto e crônica são coisas que um professor mencionou, mas ele não se lembra se foi na aula de geografia ou no último filme que baixou no computador. Ele pensa que romance é apenas uma anacrônica história de amor, mais desusada que um rádio de pilhas.

Estou contrariada. Não pertenço a este tempo em que redes sociais influenciam mentes mais do que os livros…

Eu não me preocupo com quem vai se ofender com o que digo. Os ofendidos estão de carapuça. Os que não estão compartilham da minha dor.

Fonte: Para-raio

O Dia em que eu chorei diante de uma tela de Antônio Bandeira – Conto de Fernando Canto

Conto de Fernando Canto

No dia em que eu chorei diante de uma tela de Antonio Bandeira, no Museu da Universidade, fiquei até com vergonha do púbico presente. Chorei, como dizem, copiosamente (Até hoje não sei porque falam isso, mas desconfio que é porque uma lágrima copia a outra). Que vergonha! Era apenas uma tela abstrata que explodia em cores, excelentemente pintada pelo famoso artista plástico cearense. Uma tela que falava de uma chuva de neve na Europa, onde ele viveu. Nela, o branco e o azul predominavam sobre os outros tons.

Chorei tanto que o curador da exposição me convidou para chorar no banheiro. Como eu recusei, ele mandou os seguranças me botarem para fora.

E lá fora eu continuei chorando no calor, vertendo um choro esquisito, um choro que jamais chorei em outra exposição. Não que eu me lembre. E olha que eu era chorão. Mas dessa vez eu estava mais sensível que todas, mais sensível do que naquela vez no Louvre quando inevitavelmente me derramei em prantos diante da mais bela e magnética tela que já vi em toda a minha vida: a Gioconda, de da Vinci.

Malditos! Sempre me botam pra fora das exposições de obras de pintores famosos.

Malditos! Não sabem que meu choro não é fingimento, pois eu não sou ator e muito menos produtor de pegadinhas para a televisão.

Malditos! Insensíveis! À flor da epiderme estão ouriçados pelos, e no peito bate um coração magoado e eles não sabem disso. Vão logo expulsando a gente e mandado olhar as pinturas de grafite, como se os pintores das ruas não soubessem pintar em sua linguagem pura e não acadêmica.

Bandeira é Bandeira, não o poeta, mas o pintor, este que eu só conhecia de ver catálogos impressos ou fotos repetidas em revistas de arte.

Antonio Bandeira não é o ator espanhol muito menos o dono do bar da esquina, mas o artista que me convida e me move a seguir seus quadros até chorar de paixão, pois nos seus traços eu nasço, vivo e morro na dimensão dos pigmentos e reentrâncias de cada pincelada decidida bruscamente. Ao olhar suas telas explodo minhas memórias e paixões de um tempo em que me encontrava entre o poder da escolha e o despoder de ficar ilhado em angústias. Um tempo de decisão de amar ou seguir, de me entregar ao insondável ou de viver. Contudo, meu sonho de viver era apenas uma paisagem tátil num horizonte tênue, enevoada pela ausência de razão com seu cromatismo cinza, que de repente encontrou na tela de Bandeira o dia nascente, a tarde e a noite iluminada. Por isso choro. E os curadores da exposição não deixam que eu me cure em nome da arte.

Malditos curadores!

A pretexto de bolos de chocolate – Conto de Ronaldo Rodrigues

Conto de Ronaldo Rodrigues

Esta história aconteceu num tempo e lugar muito remotos. Fui acusado de ter comido um bolo de chocolate. Nem tive tempo de alegar o fato de que não gostava de bolo, muito menos de bolo de chocolate. Era tudo meio confuso naquela época e nada do que pudéssemos dizer, por mais plausível que fosse, alteraria qualquer decisão do Governo Central. Tal governo havia inaugurado uma era de insegurança e delações premiadas, suspeitas e acusações que não precisavam ser fundamentadas para que fossem acatadas e executadas. Decretos aleatórios ressuscitaram leis que há muito tempo haviam sido revogadas. A criação da Comissão da Doutrina da Fé no Bolo de Chocolate foi mais um abuso daquele governo ignorante e incompetente. O bolo de chocolate tinha sido elevado ao status de iguaria divina, destinada somente aos altos escalões do Governo Central e os cidadãos comuns jamais poderiam comer.

A Comissão da Doutrina da Fé no Bolo de Chocolate nem quis me ouvir, não deu a menor bola pra minha declaração de inocência. Me levou preso sem a menor cerimônia, sem que eu tivesse chance de contratar o advogado de porta de cadeia que mendigava bem em frente à prisão de segurança máxima onde eram trancafiados os pecadores comedores de bolos de chocolate.

Fui levado a uma cela onde só cabiam eu e minha autoestima. Como minha autoestima não ocupava muito espaço, fiquei relativamente confortável e nem tive motivo pra reclamar, a não ser do rato que toda noite vinha me lembrar que aquilo era uma cela imunda. Fiquei ali por alguns meses sem saber o que seria resolvido a meu respeito, ingerindo a ração de carne podre que nutria minha covardia, meu medo e meu desalento, cada dia mais vorazes.

Certa vez, olhei pela janela a noite que se estendia lá fora. Estava iluminada por um clarão que não vinha da lua. Era até perigoso ficar olhando a lua, pois os admiradores do luar foram postos na marginalidade pelo governo. A luz também não vinha dos postes que ladeavam os caminhos que levavam à prisão. Estiquei bem o pescoço, pude olhar mais além e o que vi me deixou estarrecido. Era uma cruz de madeira pegando fogo. Ao redor, vários cavaleiros vestidos de uniformes e capuzes brancos e empunhando rifles. Só poderia ser a Ku Klux Klan, mas, apesar da KKK se encaixar perfeitamente naqueles tempos sombrios, ela só seria criada muito tempo depois.

Me recolhi ao cantinho da cela, onde o rato tinha acabado de urinar, e fiquei tremendo de medo de tudo aquilo, tentando dormir e acordar livre daquele pesadelo. De repente, um grupo de soldados entrou na minha cela, tomando Coca-Cola e disputando quem arrotava mais alto. Foi aí que o comandante olhou pra mim e berrou:

– Chegou a sua vez!

Pronto. Estava tudo acabado pra mim. Me levantei resignado e também louco pra que aquilo tudo terminasse. Estendi minhas mãos pra que os soldados me conduzissem até o local da execução. Mas o que ocorreu foi que o comandante me entregou uma garrafa de Coca-Cola e berrou novamente:

– Chegou a sua vez!

Aí compreendi. Tinha chegado a minha vez de tomar a Coca-Cola e participar do concurso de arroto. Então o comandante arrotou sua sentença:

– Se você conseguir arrotar mais alto do que nós, ganhará sua carta de alforria, sua liberdade, o perdão do Governo Central!

Claro que não acreditei que estavam me concedendo uma chance de escapar daquela situação, mas não pensei duas vezes (mesmo porque não era de pensar muito): virei a garrafa de Coca-Cola todinha na minha garganta sedenta e me preparei pra caprichar no arroto.

E foi mesmo o maior arroto que aquela região já havia escutado. Os soldados, todos arrotões de primeira grandeza, ficaram admirados com minha capacidade. Um especialista afirmou categoricamente que eu atingira uma nota ainda não registrada em toda a história da música, fato que só será superado num futuro distante, quando aparecerá um cara chamado Freddie Mercury.

Aí a minha vida deu uma reviravolta. Saí triunfalmente da prisão e me tornei um virtuose do arroto. Muita gente vinha tomar lições de arroto comigo e, dependendo da dedicação, em pouco tempo muitos alunos diplomados pela minha Universidade Musical do Arroto passaram a ocupar os mais cobiçados lugares nas maiores orquestras de arroto conhecidas na época.

Quando o Governo Central foi derrubado e o bolo de chocolate finalmente liberado pra toda a população, eu o introduzi nas lições de arroto. A combinação bolo de chocolate e Coca-Cola fez tanto sucesso que até eu passei a simpatizar com bolos de chocolate.

Assim, terminei meus dias, refestelado na glória, confortavelmente instalado em meu castelo, tendo aos meus pés os serviços de um batalhão de criados e a atenção de um número infindável de admiradores. Quanto ao arroto, passei a direção da minha universidade aos alunos mais destacados. Agora estou aposentado, só arrotando mesmo por esporte e pra não perder a embocadura.

A CASA DO EZEQUIAS – Por do Fernando Canto

Foto: Blog Porta Retrato

Crônica de Fernando Canto

A metade dos anos 80 trazia a grande expectativa de mudanças no caminho político do Brasil. Após a anistia de 1979 restava ainda o término do Governo Figueiredo e a transição democrática que se estabeleceria com a eleição de Tancredo e a posse de Sarney.

No Amapá tudo isso era motivo de conversa e os jornais emitiam opiniões bem diversificadas sobre o destino de nossa terra, causando certo frisson entre os leitores. E com a possibilidade de transformação em estado o antigo Território Federal cedeu espaço a centenas de aproveitadores políticos que para cá vieram em busca de uma vaga no parlamento. Foi nesse contexto que ressurgiu o Amapá Estado, fundado por Haroldo Franco, Silas e Ezequias Assis.

Governador Henning – Foto blog Repiquete no Meio do Mundo

Esse jornal havia sido editado pela primeira vez durante o governo de Henning, que segundo eles, quando leu o primeiro número o amassou e jogou fora dizendo que a pretensão dos jornalistas não passava de um engano,de uma utopia. Foi, também, nesse contexto que posteriormente foi lançado o jornal Fronteira, onde trabalhei com uma coluna informativa, ao lado de grandes expressões do jornalismo local como Alcy Araújo, Luís Melo, Jorge Herberth e Wilson Sena, por sinal o primeiro presidente da Associação dos Jornalistas do Amapá. Antes disso o Silas fechou o Amapá Estado e foi se estabelecer em Belém com um jornal maior.

Humberto Moreira – Foto: Blog Porta Retrato

Mas os grandes assuntos da pauta semanal do Fronteira eram discutidos na casa do Ezequias. Todos os sábados ele nos recebia com aquele jeito brincalhão, mostrando um exemplar que o Ricardo, seu filho, pegava no aeroporto (Naquela época era impresso em Belém.) e não economizava o orgulho de ver editado mais um número. E o que era para ser apenas informação virava celebração, pois nunca faltava uma boa dose do melhor uísque, uma carne de caça que o Baleia fornecia para o dono da casa desde que ele fora chefe de Gabinete da Secretaria de Obras e a viola do Nonato Leal, às vezes em duo com a do Sebastião Mont’Alverne. Ao lado disso, apreciadores da boa música, como o Alcy, se deleitavam ouvindo o Humberto Moreira interpretar Taiguara. Artistas e intelectuais chegavam como se estivessem ligados a uma rede invisível e automática, num tempo em que não havia celulares. Aimorezinho era um espetáculo tocando bossa nova com a sua escaleta e o inesquecível bandolim do Amilar parecia pousar em uma partitura mágica vinda das Brenhas de Mazagão. Ritmos se fundiam numa democracia musical crescente que só acabaria quase no início da noite com o sorriso sempre aberto da ilustre e querida amiga Nazaré Trindade. Antes, porém, Ezequias, Nonato e Sebastião faziam um coral com a música “Saci Pererê” de autoria dos três. Depois cantavam “Tauaparanaçu”, de Nonato, e arrematavam com “Rio Amazonas”, de autor desconhecido. A audiência não poupava elogios ao trio e se despedia de mais uma seresta tropical que a todos encantava.

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Ezequias Assis, Jorge Herberth e Fernando Canto. Professor Munhoz ao fundo – Foto encontrada no blog da Sônia Canto.

Tanto Ezequias como Nazaré já se despediram deste mundo. Mas o dom da generosidade que neles havia fica na memória e na eterna gratidão pelo que ensinaram e pelo que foram.

Certa vez, num tempo de vacas magras do jornal, Ezequias me chamou e disse que não podia me pagar naquele mês, mas que iria dar um jeito. Falou que estava querendo “ajeitar” seu carro e que decidira deixar para o outro mês. Foi lá dentro e voltou com quatro pneus novos e 120 dólares e me disse: – Toma. Troca os pneus carecas do teu carro e fica com esse dinheiro pra quebrar o galho. No mês que vem a gente se acerta.

Depois ele me abraçou e pediu ao Ricardo para preparar uns uísques. Ficamos bebendo em silêncio.

*Fotos: 2-Governador Artur de Azevedo Henning (o que amassou o jornal) – encontrada no blog da Alcilene. 3 – Jornalista e cantor Humberto Moreira (blog Porta Retrato).

Resenha crítica do livro Paisagem Antiga, da escritora Alcinéa Cavalcante – Por Fernando Canto

Por Fernando Canto

Alcinéa Cavalcante é, hoje, a herdeira abençoada de uma geração de poetas amapaenses do início do Território Federal do Amapá que conseguiram expressar seus sentimentos telúricos e representar um modelo de criações modernistas no contexto amazônico. No meio desses poetas estavam seu pai Alcy Araújo junto com Álvaro da Cunha, Ivo Torres, Aluísio Cunha e Arthur Nery Marinho, que chegaram a publicar revistas, livros e a antologia “Modernos Poetas do Amapá”, em 1960.

Antes da autora, porém, outros vates publicaram trabalhos modernistas, como foi o caso de Isnard Brandão de Lima Filho, Raimundevandro Salvador, Ronaldo Bandeira, Nazaré Trindade, Sílvio Leopoldo (estes já falecidos), Graça Viana, Manoel Bispo e Carlos Nilson. Todavia, o atingir de sua modernidade se dá pela forma diferenciada que busca a simplicidade na extensão de sua memória, o que a torna uma poeta, uma prosadora de notável labor – observando a relação com os poetas antecedentes que deram uma nova feição à construção poética local, ainda que com um atraso de um pouco mais de 20 anos, desde o Movimento Modernista de 1922.

No seu caminhar literário Alcinéa Cavalcante usa a imaginação e a memória e aborda a paisagem como um símbolo identitário iniludível que põe à mesa suas observações de mundo (real) e transforma signos e marcas (e por que não cicatrizes?) em expressões linguísticas, pois o que se segue, tanto nos poemas como nas crônicas são as retenções memoriais retratadas pelo seu olhar sensível e trabalhadas literariamente. E a paisagem é tudo diante dos sentidos: é a beleza do horizonte, o fazer do homem e da mulher, os gestos, os cheiros, os sons, o gosto… enfim, a cultura humana subjacente e primorosa, capturada pelos artistas, estes que exercem o ofício de construir figuras por metáforas, para dotar sua arte de maior valor artístico e interpretativo, além do invólucro que muitas vezes cerceia o entendimento.

Foto: Alcinéa Cavalcante ainda adolescente na paisagem antiga de Macapá.

No caso do livro aqui abordado, sua literariedade é madura e enfática e surge agora renovada e simples como na fase do cubismo de Picasso, que o fez refletir, já idoso, sobre o discernimento de pintar como uma criança, após tantos anos de rebuscamento e de experiências. Por isso é também comunicativa e significante. Seu prefaciador, o poeta Paulo Tarso Barros, foi feliz ao afirmar que “Parece que sua mão de poeta e mente treinada nos textos claros, objetivos e sintéticos do jornalismo, ao juntar a alquimia verbal que o seu estilo poético e inato tão bem o demonstra, surgem imagens plenas de ternura, sensibilidade e aquela saudade e nostalgia dos tempos da infância que ficou cristalizado na [sua] memória poética[…]”. Esse trecho reforça formidavelmente o que escrevi acima.

“Paisagem Antiga”, é, então, o testemunho de uma cidade em mudança, um impulso que se transforma em sentimentos de angústia e melancolia em contraste com a beleza e a alegria narradas e do profundo amor presente e carimbado em muitos textos do livro que evocam eventos memoriais. O trabalho da autora também traz e distribui tempestuosidades e temperanças. Porém, é mais motor que âncora pois se impulsiona de moto próprio no rio caudaloso e se instaura na literatura renascida e vigorosa sob o céu do equador, porque somente a revelação cósmica dessa atividade criadora, desse entusiasmo criativo confere seriedade à sua dimensão artística. Nela, o vivido, o lembrado, o esquecido, o silenciado e outras formas de interpretação de mundo – reais ou irreais – podem ser escritos e assim dotar a arte literária de um caráter maior e mais humano.

*Paisagem Antiga, a evocação da memória na obra de Alcinéa Cavalcante. Scortecci (2ª Ed.), São Paulo, 2012.

Meus muito queridos amigos Fernando Canto e Alcinéa Cavalcante.

Meu comentário: tenho orgulho de dizer que sou amigo desses dois monstros da Literatura Amapaense: Fernando e Alcinéa. Li o Paisagem Antiga em 2017 e a resenha do Canto retrata fielmente a obra sensacional da Néa. Parabéns aos dois escritores! (Elton Tavares).

Guitar Hero – Texto sensacional de Régis Sanches

Régis, o “Beck” ou “Anjo Galahell”, um dos melhores guitarristas que vi tocar – Fotos: Elton Tavares

Por Por Régis Sanches

Hoje me preparei para escrever sobre a vida errante dos guitarristas. Pensei nos menestréis, com seus alaúdes, levando alguma alegria para o festim dos lúgubres burgos ao redor dos castelos medievais. E não poderia deixar de reverenciar a memória de Django Reinhardt, o cigano belga que criou o naipe de duas guitarras, tendo seu irmão Joseph empunhando a base e ele próprio no solo. Reinhardt vestia-se a caráter. Em plena segunda guerra mundial, enquanto os foguetes alemães V-1 e V-2 explodiam nos céus de Paris, sua banda animava os sobreviventes do conflito no Clube de France.

Certa noite, a cidade-luz às escuras, Django retornou para casa, exaurido, após mais um show. Ele deitou-se em sua cama, os fumos do sono o absorveram por completo. Sua mulher havia esquecido uma vela acesa, a tênue chama tremulou e alcançou os lençóis. O guitarrista cigano sobreviveu, mas teve sua mão direita lesionada pelo fogo. Nas raras imagens desse precursor das modernas bandas de rock, podemos vê-lo com as cicatrizes do incêndio. Ele nunca desistiu de retirar das seis cordas o lamento necessário para cicatrizar as feridas da vida.

No início desta manhã, eu estava eletrizado pelo som metálico da minha guitarra. Lembrei de uma frase de Eric Clapton, chamado de Deus em pichações nas paredes do metrô de Londres, no final da década de 1960. “Ninguém consegue tocar blues honestamente de barriga cheia”. Mister Clapton é a alma dos guitarristas, uma espécie de Fênix que sobreviveu a todas as tragédias. Como mestre de George Harrison, roubou a mulher do melhor amigo. Transtornado, mergulhou e emergiu do mundo negro das drogas. Certa ocasião, seu filho caiu da janela do apartamento. Seu coração ficou dilacerado. Mas a resposta veio na forma da sublime “Tears in Heaven”.

O melhor de Eric Clapton pode ser sorvido, ouvindo-o executar a belíssima “White room”, de Robert Johnson. A poesia que descreve a solidão – “um lugar onde o sol nunca brilha/onde as sombras fogem de si mesmas” – só encontra dueto à altura no lirismo poético dos riffs arrancados pela slowhand do velho bluesman.

Poderia citar uma legião de guitarristas: Chuck Berry, B. B. King, Jimi Hendrix, Jimmy Page, Jeff Beck… Seria em vão. Os verdadeiros guitarristas, nós podemos contá-los nos dedos de apenas uma das mãos. Os homens de verdade sabem que há duas coisas no mundo que não se vende, nem se empresta: a mulher e o carro. Incluo no rol a minha guitarra. Pois aqueles que tiveram a sorte de nascer com a alma de guitarrista hão de concordar. Na essência de todo guitarrista, além da sensibilidade, da disciplina e de uma dose exagerada de humildade, existe uma tragédia iminente rondando o destino desses modernos menestréis. Vida longa a Eric Clapton! 

Meu comentário: Régis Sanches é o jornalista com um dos melhores textos que conheci na vida e um dos maiores guitarristas que vi tocar (Elton). 

Contículos Alados (rápidos lampejos geniais de Fernando Canto)

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Para Herbert Emanuel e Joãozinho Gomes

Eu via o mundo invertido quando passava na rua do poeta. Ele acenava do fundo da terra me pedindo um dracma de ouro.

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INSÔNIA

Para Carla Nobre

Sem dormir à noite toda fui cedo à padaria comprar um sonho.

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TRAVESSIA

Para Elton Tavares

Ao atravessar a faixa de pedestre só levantou a mão na hora do impacto.

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RUA DO POETA

Para Paulo Tarso

Cruzava a rua do poeta plantando bananeira para não pisar nem na lembrança.

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O CHOQUE

Para Jorge e Edelwais

Quando as pedras finalmente se encontraram viraram pó.

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PARTO

Para Luli Rojanski e Manoel Bispo

A torneira do jardim pariu seis gatos pingados. Acabara de chover.

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OVERLOOPING

Para Osvaldo Simões e Isnard Lima

O “encosto”, reclinado, frustrou a acrobacia de Mayra no monomotor. O voo foi tiro e queda.

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IMPÉRIO DOS SENTIDOS

Quando assisti “O Império dos Sentidos” a teu lado no Cine Orange, acreditei em definitivo que o ovo cozido é um alimento saudável. Que saudade de tua panela quente!

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ANSIEDADE

O cara é um paciente apressado.

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Foto: Gê Paula

BAIXA TESÃO

A lua iluminava tanto o céu de Macapá que os enamorados da Beira-Rio torciam por um eclipse.

COMO É BOM SER MULHER! – Por Mariana Distéfano Ribeiro

Por Mariana Distéfano Ribeiro

É sim, ser mulher é muito legal. Hoje, que é o dia internacional da mulher, vamos tirar um pouco o foco de todas as dificuldades que a gente sofre e atura todos os dias. Na verdade são as pessoas femininas que passam por isso – homens homossexuais, mulheres transexuais, mulheres e qualquer outro gênero ou qualquer coisa humana que seja feminina.

É só o ser humano que despreza outro ser da sua própria espécie à troco de nada. E de todas as outras pra falar a verdade… Mas vamos mudar o rumo dessa prosa porque a intenção hoje é parabenizar, homenagear, congratular, enaltecer não só a mulher, mas a figura feminina que é linda, cheirosa e gostosa!

Ser mulher é bom demais né?! Já parou pra pensar o tanto de coisa que o mundo produz só pras mulheres? Vamos começar com a maquiagem, porque não tem nada mais feminino que maquiagem. A quantidade de cores e texturas e cheiros disponíveis pra gente escolher, misturar e se pintar é quase infinita. E quando a gente se pinta a gente se transforma. A gente, que é feminina, pode mudar de cara todos os dias e quantas vezes quiser. Até quem não curte maquiagem, só de passar um batonzinho e uma máscara para cílios poderosa já dá um boost na autoestima e a gente dá até uma empinada no nariz, como quem diz: uau, tô [email protected]!

E quanto a roupas e sapatos?! Ah, mas nem comecemos a falar das roupas e sapatos?! Quem não ama um pisante novo? Até a menos consumista das mulheres ama um sapatinho novo, um chinelo que seja. Eu mesmo adoro chinelos! Coleciono, tenho vários, até porque minha cachorra come os que eu esqueço na varanda (rs). Sem falar na variedade de cores e formas e materiais de que são feitos. A variedade de roupas também segue o mesmo caminho. São tantas e de tantos estilos que a gente nem consegue identificar qual o nosso preferido!

A gente pode até escolher se quer engravidar ou não! Se quer casar ou não, se quer ser professora ou gari, engenheira ou advogada, dona de casa ou empresária. Se quer namorar homem ou mulher, ou os dois! Podemos escolher de quem a gente gosta e de quem a gente não gosta. E quando somos grossas com alguém, sempre podemos botar a culpa na TPM na hora de pedir de desculpas (porque toda vez que faz grosseria a gente tem que pedir desculpas, mamãe ensinou)!

É essa variedade de opções disponível pras mulheres que faz a vida da gente ficar divertida. Nem ligamos de menstruar por sete dias todos os meses, sentir as dores das cólicas e ficar alguns dias extremamente irritada ou sensível. E até isso varia! Tem mulher que fica menstruada por três dias, nem sente cólica e nem irritação. Tem mulher que passa dez dias irritada antes da menstruação, depois menstrua por mais dez dias e sente cólica por cinco dias desses dez! Mas até essa oscilação dos hormônios é divertida.

A gente pode fazer o que quiser, quando quiser, onde quiser, como quiser e com quem quiser! E ainda pode fazer de salto alto, com uma maquiagem bafo e aquele vestidinho que arrasa! É claro, os homens também podem. A diferença é que eles sempre puderam e a gente só pode agora porque mulheres visionárias e guerreiras lutaram e morreram pra gente conseguir todos os direitos e liberdades que a gente tem.

Então, o dia hoje é seu, é pra você, pessoa que é feminina de coração ou de corpo. É nosso. Parabéns pra nós, porque a gente merece!

*Além de feminista com orgulho, Mariana Distéfano Ribeiro é bacharel em Direito, servidora do Ministério Público do Amapá e adora tudo e todos que carreguem consigo o brilho de uma vibe positiva.

A Mulher Amapaense – Por Raul Tabajara

Por Raul Tabajara

O dom que leva diretamente a mulher a divindade é sem dúvida a maternidade, e na opinião de muitas pessoas, não existe DEUS e sim DEUSA, que pare, e não um DEUS macho que está no céu e a mulher na terra. Mas isso é papo para outra ocasião.

Hoje, verificamos que o movimento em defesa das mulheres no Amapá, com suas diversas frentes, é proporcionalmente um dos mais intensos do País. Estão na mídia o ano todo, exercem pressão por Políticas Públicas que visam à melhoria da qualidade de vida das mulheres, principalmente as mais necessitadas, que são as de baixa escolaridade e renda, e dentre essas, as que mais se destacam são mulheres negras. Isso ocorre devido alguns grupos de mulheres já terem alcançado certo grau de organização e de reconhecimento de seus direitos básicos de cidadã e principalmente de MULHER.

Em decorrência dessas atuações, observamos nas últimas pesquisas oficiais que os indicadores socioeconômicos têm melhorado com uma taxa acima da média nacional para as mulheres amapaenses e isso é devido a Políticas Públicas implementadas nos últimos anos pelos Governos: Federal, Estadual e Municipal.

Nesta semana li em uma coluna de um diário, a afirmação de que as mulheres amapaenses são maiores que as de Atenas. Essa afirmativa é relativa como tudo é nessa vida, porém, LINDAS, como as mulheres amapaenses. Mas de uma coisa tenho certeza, a mãe amapaense é a maior do BRASIL.

Em 1970, a taxa de fecundidade da mãe amapaense girava em torno de 8 filhos por mulher. Essa era a maior taxa de fecundidade do país na época, e correspondia a taxas de países bem menos desenvolvidas que o nosso. Cerca de 30 anos depois, em 2000, esse indicador teve uma queda de 50 %, e as mulheres amapaenses já tinham quatro filhos em média.

Vale salientar que essa redução não ocorreu naturalmente, pois uma queda dessa proporção em um período de tempo relativamente curto, não ocorre em um indicador tão importante como número médio de filhos por mulher. Então o que ocorreu com as mulheres do Amapá?

Claramente a resposta que vem é a EDUCAÇÃO. A partir da metade dos anos 70, quando a televisão começou a atuar em Macapá, as mulheres começaram a ter acesso às informações da maneira de lidar com seu corpo e exigir seus direitos de mulher. Ainda no começo dos anos oitenta, começou a popularização aqui no Amapá, o que já vinha ocorrendo nos centros mais desenvolvidos, os métodos contraceptivos, principalmente a pílula anticoncepcional, que já havia sido moda nos anos 60 nos grandes centros do país.

Lembramos também que na primeira década dos anos oitenta, programas de televisão como TV mulher e Malu Mulher, tiveram sua contribuição nesse despertar da mulher amapaense, porem o aumento da escolaridade e o acesso das mulheres a universidade e ao mercado de trabalho, foram fundamentais nessa redução da fecundidade.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD e o censo de 2010 revelam que a mulher amapaense continua com uma das maiores taxas de fecundidade do país, próximo de 3,0 filhos por mulher, enquanto a do Brasil ficou abaixo de 2,0, praticamente uma taxa de reposição. Essas pesquisas revelam ainda que 70 % das mulheres amapaenses entre 15 a 49 anos já tiveram filhos, hoje correspondendo a 158 mil mulheres, e 57 % das mulheres que já tiveram filhos nascidos vivos, possuem 3 ou mais filhos (um pouco mais de 60 mil mulheres).

Além da redução da fecundidade, outro indicador que mostra o avanço das mulheres amapaenses nas últimas décadas é a responsabilidade pelos domicílios. Possuímos algo em torno de 160 mil domicílios, sendo que em 30 % deles as mulheres foram identificadas como responsáveis, e essa taxa é a terceira do país ficando atrás do Rio de Janeiro e o Distrito Federal. Dentro dessa linha, observamos que dos domicílios cujo responsável é uma mulher, um terço, por volta de 16 mil domicílios, as mulheres se declararam responsáveis mesmo possuindo cônjuge, sendo essa taxa menor apenas ao Distrito federal.

O avanço é também observado nos novos arranjos conjugais que são formados. No censo de 2010 verificou-se que 188 casais se declaram serem do mesmo sexo, e o que chama a atenção é que desses, 148 casais (78 %) são formados por mulheres e 40 (22 %) são casais masculinos.

Essas e outras informações fazem parte de um sistema de indicadores sobre os diversos aspectos associados ao desenvolvimento humano e social das mulheres no âmbito da família, do trabalho, da educação etc., elaborados a partir dos micro dados da amostra dos Censos Demográficos pelo IBGE.

O Sistema Nacional de Informações de Gênero (SNIG) é uma iniciativa da Secretaria Especial de Política para as Mulheres, órgão ligado diretamente à Presidência da República. O Sistema foi desenvolvido para servir como instrumento de conhecimento da realidade das mulheres no Brasil, oferecendo subsídios indispensáveis para o planejamento e implementação de políticas públicas nesta área.

* Contribuição de Fernando Canto.