Pequena crônica raivosa – (Ronaldo Rodrigues)

Crônica de Ronaldo Rodrigues

Gostaria agora de escrever uma crônica raivosa. Lá vai:

E nos metem pelas gargantas e neurônios adentro essa enxurrada de novidades que ainda serão velharias nos futuros museus dos futuros milênios.

Celebridades opacas, que jamais se aproximarão de mínima originalidade, cansam nossa já triste beleza e enchem o saco do nosso feed (ui, ui, ui, eu também uso esse tipo de palavreado…).

E haja influencer mostrando como é maravilhosa a sua medíocre vida, como seus amigos são desinteressantes, como são fúteis suas mais sérias preocupações, como suas mansões causam bocejo e cansaço. E correm para conferir a fatura dos likes.

A quintessência do universo virtual, famosos dos guetos culturais mais estreitos do mundo exibem seus sorrisos de acrílico, dirigidos aos seus fãs/tietes, hoje conhecidos pela inquietante denominação de “seguidores”.

Close no olhar blasé dos pets de famosos ex-bbb sei lá do quê embalados em seus modelitos de seda, adquiridos no último rolê em Paris, suspirando de tédio e arrogância.

Diante de termos como “cringe”, bate uma saudade dos termos “brega”, “cafona”, até o não nosso “demodê”, e vem a certeza de que, num passado nem tão remoto, éramos muito mais chiques. E já sabíamos disso.

Ufa! Desabafei! Já tô de boa!

Odeio usar uniforme – Crônica/relato de Elton Tavares

Odeio usar uniforme, de qualquer espécie ou modelo. Se gostasse disso, seria milico ou algo assim. Mas realmente, eu passo.

Usei uniforme em alguns lugares que trabalhei, antes de ser jornalista, mas acredito que neste ofício, não precisamos desse papo. Para vocês terem ideia da minha aversão a vestimentas “iguaizinhas”, leiam este e-mail, enviado na época (2008) em que trabalhei em um conceituado Portal de notícias:

Boa tarde Senhora – Nome da chefe de redação, que eu prefiro não postar aqui.

Estou com um problema atípico aqui. Recebi, na última sexta-feira (15), duas camisas do novo uniforme do Portal e sinto informar que o traje ficou apertado em demasia e eu não me sentirei bem em usá-lo no dia a dia.

Não quero parecer rebelde, sei da importância da padronização em uma instituição como o Portal. Peço a compreensão da senhora, porém sou um homem acima do peso e não uso, há muito tempo, roupas justas.

Entendo que a blusa não interfere, em nada, na minha atuação ou nos textos jornalísticos. Gosto muito de trabalhar nesta instituição, não meço esforços para atender as necessidades do plantão ou dos nossos sites locais. Espero que a senhora entenda, pois não irei usar a referida vestimenta.

 Isso é verídico. Após este e-mail, nunca mais me cobraram o uso do tal uniforme (risos).

Elton Tavares

O Resgate – Crônica de Fernando Canto

Alguns verão em ti uma caricatura
E sedentos da carne voltam sempre o rosto
À anônima elegância da humana ossatura.
(Charles Baudelaire – Dança Macabra)

Quem és tu, mulher da noite úmida, azulada de semáforos clandestinos, arquetípica e idolatrada por todos os bêbados bisonhos de risos ortodônticos. Teu lugar é a resposta para os meus anseios ecológicos que ora jazem na pedra do IML, inertes e sem pronúncias de palavras, assim, clivadas no porradal de um dia de depressão e raiva que eu deslembro.

Teus pés outrora um ponto de apoio ficaram presos na grade da janela quando os rotwaillers te encurralaram no jardim que abriste após quebrares a tramela da cancela oculta, que só tu sabias depois de mim.

Nenhuma entrada é tão fácil de acessar no meu jardim se a vigilância for um policial dopado de angústia e solidão, penetrado de sóis artificiais na madrugada. E teimas, tu, mulher de ranço impregnado nas tuas veias, em lacerar meu coração outrora transplantado e agora retalhado a faca e costurado com a singela singer do subúrbio, em tempo de equinócio, com a linha do equador.

Ora, eu que cheirei as “Fleurs du Mal” e vi a destruição dos meus tentames literários ao constatar ainda hoje que “sans cesse à mês côtes s’agite le Démon”. Meus olhos eram os de Charles, que viera um dia de Mitilene e Lesbos, após poético colóquio com Terpandro, Arião e Safo.

Ora, eu que fiz libações de vinho – um Charles Heidsieck Blanc, safra 1995 – e gestuei peripécias fesceninas no caneco dos generais (ainda que trague as marcas do peito lacerado, esfolado da tortura), hoje sou um enigma esfíngico/ paranoico à mercê dos binóculos, um eremita cadavérico que se transforma em relógio e vaga na escuridão que , ainda bem, já se dissipa no jardim onde estão os cães e a tua sombra na cancela. Fiz tudo por ti, eu juro. Eu juro. Não sou mais vigilante de mim mesmo. Refuto o ardor do Santo Graal e me embebedo de antigas memórias contemplando o inútil renascer de tua ternura, algo que me deves e não naturalizas em mim devido a tua fobia do Hades, ainda que me queiras Cérbero.

Ora, teu coração está cheio de peste, catorras pretas e joaninhas coloridas. Teu coração parece estar traspassado à espada, à ambição do ouro e a um avião de sexo, onde chupas testículos de chumbo e gozas com a penetração das asas de um serafim.

Quem és tu, mulher bendita, que regurgitas pelos poros sonhos inefáveis, que arrota preces e ofereces sexo em troca do amor fugaz – pérola trincada no mar do teu remorso?

Ora, um insight veio e eu me lembrei de que o amor tem a consistência do mercúrio, que é chuva em terra plena quando eu me separo ouro de ti. Eu avanço ao pólen, ao orvalho sobre tuas ramagens. Eu tenho pressa, eu vou, eu vou, eu vou. Eu vou dourado de manhãs jogando a sombra longa nos significados das lamas gulosas que deixei nas velhas trilhas. Resgatado pelas rutilantes luzes do equador eu vou. Eu vou, cônscio, amalgamado de poesia. Eu vou, eu-lírico e sem rastros.

Algo me espera.

Eu me visto, então, de branco e prata; amarro meus cadarços e vou. E só, sou líquido, sou água do Amazonas, sou vinho de bacaba, sou – às vezes – um açaí do grosso, farinha de estrelas na imensa nebulosa que avisto, pois é noite.

Eu me preparo, desamordaçado e belo como nunca, para embarcar na nave que o Cósmico enviou e que pousou dentro de mim.

Malhando os malhadores (Crônica porreta de Ronaldo Rodrigues)

Semana Santa. Sempre que chega esta data fico pensando no sentido de justiça de certas pessoas. Elas pegam Judas e fazem o diabo com ele. Malham o cara de todo jeito. Dizem que é a única forma de fazê-lo pagar pelo crime de ter traído Jesus. Isso é o que mais me preocupa. Se tudo já estava escrito, segundo a própria Bíblia, qual é a culpa de Judas? Se há culpa, é de quem escreveu.

Prefiro acreditar que Judas foi um elemento para que a história se cumprisse da forma que se cumpriu. Judas foi um aliado de Jesus e agiu daquela forma para que tudo saísse segundo o roteiro do Todo (Todo é como chamo o Todo-Poderoso na intimidade). Ora! Parem com esse negócio de associar o nome de Judas à traição. E parem de fazer essa justiça esquisita que comporta todo tipo de torpeza que vocês veem no cara, que condenam nos outros, mas que em vocês é aceitável.

Traidores são vocês! Traidores da palavra de Deus! (vocês são quem vestir a carapuça). Na verdade, sou a favor da reabilitação de todas as figuras malditas da Bíblia, pelo mesmo motivo: não foram elas responsáveis por seus destinos. Como dizem os árabes: maktub! (estava escrito!).

Portanto, Judas, Caim, Lúcifer, Barrabás, Pilatos, Herodes etc. devem ser vistos como personagens desempenhando seus papéis. Aí algumas pessoas dizem que há o livre-arbítrio, que esses personagens poderiam ter tomado outro caminho. E como ficaria a palavra do Todo?

Na verdade, os cristãos (a maior parte deles) confundem tudo. Esse papo de dizer que Jesus morreu para nos salvar acho exagero e injusto com o cara. Cada um tem que fazer por si, pela sua salvação, e não achar que está tudo bem, bastando ir à igreja rezar que – abracadabra – estamos salvos. Muito confortável, não acham?

Agora vou me despedir porque tem uma multidão de fanáticos correndo atrás de mim querendo me linchar. E olha que eles nem leram esta linhas. É que estou com barba e cabelo grandinhos e estão me confundido, claro, com Judas. Por que não me confundem com Jesus Cristo? Ah, daria no mesmo! Só que, em vez de me linchar, eles me colocariam na cruz. Ó my God!

Ronaldo Rodrigues

Contículos Alados (rápidos lampejos geniais de Fernando Canto)

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Para Herbert Emanuel e Joãozinho Gomes

Eu via o mundo invertido quando passava na rua do poeta. Ele acenava do fundo da terra me pedindo um dracma de ouro.

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INSÔNIA

Para Carla Nobre

Sem dormir à noite toda fui cedo à padaria comprar um sonho.

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TRAVESSIA

Para Elton Tavares

Ao atravessar a faixa de pedestre só levantou a mão na hora do impacto.

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RUA DO POETA

Para Paulo Tarso

Cruzava a rua do poeta plantando bananeira para não pisar nem na lembrança.

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O CHOQUE

Para Jorge e Edelwais

Quando as pedras finalmente se encontraram viraram pó.

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PARTO

Para Luli Rojanski e Manoel Bispo

A torneira do jardim pariu seis gatos pingados. Acabara de chover.

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OVERLOOPING

Para Osvaldo Simões e Isnard Lima

O “encosto”, reclinado, frustrou a acrobacia de Mayra no monomotor. O voo foi tiro e queda.

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IMPÉRIO DOS SENTIDOS

Quando assisti “O Império dos Sentidos” a teu lado no Cine Orange, acreditei em definitivo que o ovo cozido é um alimento saudável. Que saudade de tua panela quente!

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ANSIEDADE

O cara é um paciente apressado.

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Foto: Gê Paula

BAIXA TESÃO

A lua iluminava tanto o céu de Macapá que os enamorados da Beira-Rio torciam por um eclipse.

Amapá terá seu primeiro longa-metragem

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O primeiro longa-metragem amapaense, intitulado “A Ponte e o Tempo”, será gravado na capital Macapá. É uma produção independente dos cineastas Thomé Azevedo e Ana Vidigal. O elenco e produção foram escolhidos a partir de oficinas que ocorreram no Sesc/AP. O filme abordará a vida na ponte, a importância de instituições que desenvolvem atividades para jovens e adolescentes, destaca a cultura amapaense e fala sobre o primeiro amor.

Segundo o diretor Thomé Azevedo, a oficina é uma excelente ferramenta para descobrir talentos e trabalhar os atores para o cinema, que tem uma dinâmica diferente de outros que envolve atuação. “Fico encantado em ver que tem tanto talento em nossa cidade. Sinto-me revigorado com a energia e entusiasmo, com a dedicação de todos. Temos, na maioria, jovens de 16, 17, até mais velhos, de 40, 50 anos, e todos mergulhados em seus personagens”.
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A roteirista e também diretora do filme, Ana Vidigal, e Thomé Azevedo trabalham desde o fim dos anos 80 buscando aprimorar suas experiências com o audiovisual. “Essa sintonia profissional começou quando trabalhávamos como atores no Movimento Teatral Paraense e depois passamos a integrar a equipe de profissionais da TV Cultura, do Pará, onde começamos a desenvolver atividades ligadas ao audiovisual”, relembra Vidigal.

No Amapá já produziram os documentários “Marabaixo: ciclo de amor, fé e esperança”; “Brasileiro Lindo”, “A Banda”, entre outros nesse gênero. Também realizaram a produção, a preparação do elenco e a direção dos curtas “A Rosa”, de Dominique Allan, e do “Agora já foi”, de Manuela Oliveira, esse último realizado por meio de um convite da Federação Espírita do Amapá e premiado no V Festival de Cinema Transcendental de Brasília como melhor filme e melhor direção.
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Nesse novo projeto, a intenção dos realizadores e dos técnicos do Sesc/AP é produzir um filme a partir do envolvimento dos participantes. O roteiro tem como espinha dorsal um romance que aborda questões sociais, os desafios da juventude, mas, sobretudo, é uma história de superação, de amor e de fé no futuro.

O longa tem a SETfilmes como coprodutora e o apoio do Sesc/AP. Conta com participações especiais de artistas como músico Paulinho Bastos, o ator e diretor de teatro Geovanni Coelho e o bailarino e coreógrafo Agesandro Rêgo. As gravações estão previstas para dezembro, contam como cenários áreas de pontes, praças, ruas e pontos culturais locais. O elenco está ensaiando no Sesc Araxá, no período da tarde.

Ficha técnica
Roteiro: Ana Vidigal
Direção: Thomé Azevedo e Ana Vidigal
Preparação de elenco: Thomé Azevedo
Direção de fotografia: Nildo Costa e Aladim Júnior

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NOTA DE REPÚDIO do Sindjor_Fenaj

sindicato

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Amapá e a Federação Nacional dos Jornalistas – Fenaj, repudiam a campanha difamatória contra o jornalista Elton Tavares, orquestrada por alguns militantes de movimentos afrodescendentes, que querem rotulá-lo de racista e preconceituoso. O movimento iniciou no Largo dos Inocentes, em Macapá, no domingo (7.2), quando acontecia a Batalha de Confetes. Na ocasião, o jornalista Elton Tavares e os demais presentes solicitaram que tocassem marchinhas de carnaval e o pedido foi caracterizado como ofensa racista e preconceituosa.

Assessor de Comunicação do Tribunal Regional Eleitoral – TRE/AP, proprietário do blog De Rocha, profissional requisitado e bemquisto entre os colegas jornalistas, Elton Tavares é descendente de negros, orgulhoso de sua raça e um dos maiores divulgadores da cultura e tradições afros no estado do Amapá. Dono de um humor fantástico, bem relacionado e coerente, ele, em nenhum momento foi desrespeitoso com os músicos, militantes ou integrantes do bloco Afoxé, apenas pediu o que era desejo da maioria dos presentes no evento, de que tocassem músicas de carnaval, como é tradição na Batalha de Confetes da Confraria Tucuju.

O jornalista Elton Tavares estava acompanhado de outros jornalistas que confirmam a informação, não como injustos defensores de um colega, mas como propagadores da verdade e de fatos verídicos. A manifestação em cima do palco, por uma organizadora da festa, e em redes sociais por militantes, não condiz com o que aconteceu, e as providências serão tomadas para que a justiça seja feita e o jornalista Elton Tavares tenha sua honra e valores respeitados, e os caluniadores sejam punidos.

A diretoria.