A falta que o Projeto Botequim faz nas terças-feiras de Macapá

Foto: Amapá da Minha Terra

Hoje é terça-feira e por mais de 20 anos, nas terças, o macapaense tinha uma opção cultural: o Projeto Botequim. Realizado de 1994 a 2016 pelo Serviço Social do Comercio (SESC – AP), por mais de 20 anos a iniciativa fez a alegria dos amantes da música na capital amapaense.

Dos anos 90 até a primeira metade da década seguinte, o projeto rolou no Sesc Araxá e posteriormente, o Botequim migrou para o Sesc centro. Há uns dois anos, nós, notívagos de Macapá que adoramos boas canções, arte e cultura, ficamos órfãos dessa opção, extinta pela atual administração do Sesc.

Conversei com músicos, frequentadores e servidores do Sesc, eles disseram que o Projeto não dava prejuízo e nem lucro. Então por qual motivo o Serviço “SOCIAL” do Comércio acaba com um bem tão importante para o comerciário e para a sociedade como um todo como o Projeto Botequim? Perguntei a eles e responderam:

“O Sesc promove exposições, festivais, saraus sobre tema populares às nossas múltiplas culturas, realidades e sociedades. Na área musical realiza eventos para levar ao público instrumentos e ritmos que traduzem um universo rico e genuíno. No Estado do Amapá, gerou o Projeto Botequim, que ofertou por mais de 20 anos oportunidades aos artistas locais um palco para expor sua arte e a população à oportunidade gratuita de apreciação da melhor produção cultural musical tucuju.

Em 2017, infelizmente, o Botequim ainda não teve continuidade, visto que aguarda aprovação do Departamento Nacional com o custeio e apoio financeiro para subsidiar o referido projeto. O Regional Sesc Amapá continua com o compromisso na difusão da cultura, principalmente na modalidade de música, através dos demais projetos: Sesc Canta, Sonora Brasil, Sesc Partituras, Aldeia de Artes Sesc, Amazônia das Artes e Saraus para as todas as tribos (Em 2018 idem!).  

O regional Sesc Amapá, principal agente a querer o retorno do projeto, segue trabalhando para voltar a celebrar a cultura amapaense por meio de tão bonito e importante projeto”.

Bom, é verdade que o Sesc segue no trabalho cultural descrito aí em cima, mas será que precisava mesmo extinguir o Projeto Botequim? Será que um espaço tão importante para jovens talentos amapaenses, com uma nova programação realizada semanalmente, precisava deixar de acontecer? Tinha que cortar na carne logo essa iniciativa essencial para a inclusão de novos músicos, que agora não possuem um evento tão necessário. Ali sempre foi sucesso de público e crítica. Sim, pois o Botequim vivia lotado.

Era sempre assim, de 20h à meia-noite das terças-feiras, sabíamos para onde  ir. A gente amava o Projeto!

E assim como o Botequim, as boas práticas de Macapá parecem ter um prazo de validade. Os bares com o modelo violão e voz já são escassos nestes tempos.

Espero realmente que o Sesc volte com o Projeto Botequim nas terças -feiras e que o órgão volte a ser um agente de democratização do acesso à cultura semanal. Não se trata somente de entretenimento e diversão com educação, mas a promoção de cultura com qualidade como sempre foi e não deveria acabado.

Eu sempre divulgava e ia ao Sesc nas noites de terça desde 1994. Fica a nossa crítica e apelo para que o Projeto Botequim seja retomado o quanto antes. E fim de papo.

Elton Tavares

*Republicado por hoje ser terça-feira.

Amigos & Inimigos- Crônica firmeza de Fernando Canto

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Crônica de Fernando Canto

Sempre tive muitos amigos: de infância, de escola, de bar, amigos que fiz no decorrer de uma vida cheia de altos e baixos e que sempre pude contar com eles nas horas que precisei. Não se têm amigos só para jogar conversa fora, brindar em uma comemoração ou para fazer (in)confidências, às vezes mentirosas e desnecessárias. Nesse caso sempre a amizade vai por água abaixo quando uma confidência é espalhaddownloada pelos sete cantos da cidade. Já tive “amigos” que supus serem Amigos, que ajudei pensando estar fazendo um bem, e que a ingratidão deles brotou como espinhosa árvore na lavoura que tentei cultivar.

Não falo de inimigos, pois como os ex-amigos, eles não merecem a minha ira. Apenas desprezo o que não quero prezar. Eles são meramente pontos obscuros de referência na encarnação de um
images (5)maniqueísmo torpe, trivial e vulgar. Amigo mesmo é para contar com ele na hora da necessidade, para se divertir, criar junto e imaginar um mundo melhor. Amigos bons nós desenhamos para que se tornem o modelo da nossa própria utopia.Luis_XVI_no_cadafalso

Talvez fosse desnecessário este preâmbulo para falar de gente que gostamos de graça e nem fosse conveniente registrar numa crônica o apreço que sentimos por certas pessoas que às vezes, por gestos naturais e descomprometidos, nem sabem a extensão do bem que fizeram a nós em determinados períodos de nossa história pessoal. É verdade que nesse caminhar encontramos amigos dos amigos que não são nossos amigos, mas que os toleramos por respeito à admiração pessoal ao amigo titular. Assim também é verdade que falseaArquivoExibirmos nossa conduta para não decepcioná-lo, embora acreditando que de falso em falso se chega ao cadafalso.

Machado de Assis dizia em “Ressurreição” que o tempo não conta para a amizade: “Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos”. Talvez o tempo seja o que conta para quebrar os obstáculos que surgem na vida. E dizem que muitas amizades rompidas, um dia voltando, passam a ser mais do que eram, independentemente das diferenças do passado. Voltam mais sólidas e mais maduras. E passam a ver que sempre existiu alguém interessado nesse rompimento. Coisas de novela, mas também coisas da vida.

images (4)Pessoas que estimamos passam por provações e se tornam sábias sem saber se são, ou pelo menos não demonstram isso. Há as que têm as almas simples e vivem num mundo aparentemente sofisticado. Mas as almas dos amigos muito se assemelham a casas: algumas delas são cheias de janelas abertas, onde corre ar puro e luz, outras são como prisões, fechadas e escuras, mas que merecem nossa consideração e respeito, porque a alma entende-se a si mesma e o amigo vale a afeição que fazemos valer por ele. Uma alma, mesmo fechada, sempre traz uma luz que pode nos iluminar antes de banhar-se a si própria.

BONS-AMIGOS-220x220Amigos têm defeitos e mazelas. Por essa imperfeição mútua é que normalmente amizades se atraem, bem como pela admiração recíproca de cada um no seu desempenho social. Uns moldam outros, outros se espelham em alguém. Porém, na amizade só não pode existir a incorporação da personalidade do amigo. Ela deve ser autêntica e eivada de respeito às idiossincrasias, inclusive pela solidão e ao silêncio do outro. Afinal somos seres em alteridades. Espíritos amigos voam na mesma direção da fonte original e bebem da mesma água fresca. Devem saciar sua sede bem antes que ela seja poluída pelos interesses pessoais de qualquer conspirador. A amizade só é possível pela oportunidade do encontro.rivais

Meu amigo R sempre diz que os inimigos são necessários, pois nos ajudam a refletir para que melhoremos. Não discordo, porque entendo que a vida é uma constante dialética. Mas não ando à caça de inimigos. Alguns cruzam meus caminhos em momentos que não criei. E, como não tenho um cemitério para enterrá-los como um certo personagem de Jorge Amado, eles que cavem suas próprias sepulturas e façam de suas mortes um renascimento.

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Eu e meu querido amigo, Fernando Canto. 03/08/2016

Hoje é o Dia Mundial do Rock !! (meu texto em homenagem ao melhor estilo musical da galáxia)

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Amo Rock and Roll e hoje (13) é o Dia Mundial do Rock. O gênero sonoro mais legal de todos, fruto da junção do Jazz e Blues, é celebrado nesta data porque em 13 de julho de 1985, o produtor Bob Geldof organizou o “Live Aid”, um show histórico e simultâneo, realizado em Londres (ING) e na Filadélfia (EUA). O objetivo era o fim da fome na Etiópia.

Já em 2005, Bob Geldof organizou o Live 8, para pressionar os líderes do G8 a perdoar a dívida externa dos países mais pobres. Desde então, o dia 13 de julho passou a ser conhecido como Dia Mundial do Rock.

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Lembro o momento exato que me apaixonei perdidamente pelo Rock. Em 1989, assistia a novela Top Model (sim, naquela época eu não tinha tantas opções) e torcia para o Gaspar (Nuno Leal Maia), um hippie remanescente de sua geração e surfista quarentão, lembrar-se da sua esposa, Maria Regina Belatrix (Rita Lee), que o havia abandonado.

Tudo porque durante as lembranças do cara, em imagens preto e branco, tocava “Stairway to Heaven”, canção clássica do rock and roll, da banda inglesa Led Zeppelin. Era firme. Eu tinha 13 anos. Muito antes, eu já curtia rock nacional e Beatles. Acho que curto som bacana desde 1986.

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Desde que cai de amores pelo Rock, foram muitas festas nas quadras de escolas de Macapá, bares, boites, shows na capital amapaense e fora dela. Shows memoráveis e emocionantes nas grandes cidade e festivais inesquecíveis.

Aqui na minha aldeia já vi apresentações de várias bandas nacionais. Fora do Amapá, já fui para quatro festivais Lollapalooza, onde assisti aos shows do Interpol, The Smashing Pumpkins, Raimundos, New Order, Pixies, The XX, Metallica, Duran Duran e The Strokes. Isso sem falar nas excelentes apresentações de Rancid, Jimmy Eat World e Criolo. Também rolou de ver, graças a Deus, Red Hot Chilli Peppers, U2, Pearl Jam, The Killers, Radiohead, Morrissey e The Cure (o melhor de todos).

Além disso, procuro incentivar por meio de divulgação todos os eventos rockers no Amapá. Nos anos 90, produzi algumas festas e até criamos um movimento chamado Lago do Rock, em 2004. Coleciono grandes momentos felizes na vida. A trilha sonora dessa memória afetiva é 90% Rock. Bons tempos!

Dizem por aí que o Rock morreu, ele nunca morre, só está em constante mudança, assim como nossas vidas. O rock é imortal, ele nos salva da mesmice, basta protegê-lo de mãos erradas. Enfim, viva o rock and roll!

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O Rock n’ Roll me salvou. Graças a ele, não tenho uma vida ordinária e nem me tornei um idiota “eclético”. Não só amo o estilo, mas vivo o Rock. Portanto, Feliz Dia Mundial do Rock e LONG LIVE ROCK N’ ROLL!

O Rock é energia, o desejo ardente, as exultações inexplicáveis, um senso ocasional de invencibilidade, a esperança que queima como ácido” – Nick Horby – Romancista inglês

Elton Tavares

 

 

Um guardião no Amapá

Santana_AP, 28 de Agosto de 2011. Paulo Amorim, diretor da RPPN Revecom. FOTO: JOAO MARCOS ROSA / NITRO
Santana_AP, 28 de Agosto de 2011.
Paulo Amorim, diretor da RPPN Revecom.
FOTO: JOAO MARCOS ROSA / NITRO

Por JOÃO MARCOS ROSA

Santana_AP, 28 de Agosto de 2011. Veado-fuboca (Mazama rondoni) na floresta da RPPN Revecom. FOTO: JOAO MARCOS ROSA / NITRO
FOTO: JOAO MARCOS ROSA / NITRO

Nossas escolhas sempre definirão o futuro que nos espera, mas algumas das opções que fazemos podem também ajudar a construir uma história diferente. Recentemente estive no Amapá para fotografar e tive o prazer de conhecer uma pessoa que fez da sua história a história do lugar que escolheu para viver.

Paulo Amorim era médico no Rio de Janeiro quando, há 39 anos, decidiu mudar-se para a Amazônia. Nesse tempo o Amapá ainda era um tapete verde, um verdadeiro santuário que englobava diversos ecossistemas, transitando entre o Cerrado e a Floresta Amazônica.

Ainda hoje o estado se gaba por ter mais de 70% do seu território em áreas protegidas, mas o que se vê na prática é uma realidade diferente das anunciadas pelas autoridades. A maioria das unidades de conservação do estado não dispõe de infraestrutura e pessoal para fiscalização, vivendo à mercê de garimpeiros, caçadores e invasões, inclusive de estrangeiros, já que é mais fácil chegar no Amapá vindo de outro país do que do próprio Brasil.

Santana_AP, 28 de Agosto de 2011. Vista do Rio Amazonas desde a sede da RPPN Revecom. FOTO: JOAO MARCOS ROSA / NITRO
FOTO: JOAO MARCOS ROSA / NITRO

Na tarde em que estive com Paulo à beira do rio Amazonas ouvi esse relato, além de outras diversas histórias desse cidadão do mundo que resolveu ali em Santana montar o seu quartel na luta por um mundo melhor.

O que antes era uma mata contínua foi se esvaindo e, em 1999, Paulo recorreu às suas economias para tentar manter protegidos os 17 hectares que transformou na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Revecom.

Santana_AP, 28 de Agosto de 2011. Floresta na RPPN Revecom. FOTO: JOAO MARCOS ROSA / NITRO
FOTO: JOAO MARCOS ROSA / NITRO

Pelos cursos e palestras de educação ambiental que promove na RPPN já passaram mais de 70 mil pessoas, a maioria delas crianças, e o local acabou se tornando uma referência no manejo e recuperação de animais silvestres no estado.

Na caminhada que fizemos pela reserva naquela tarde de sábado, consegui enxergar o amor que alguns homens ainda nutrem pela natureza. Pude também perceber que as bandeiras pessoais podem, sim, ser levantadas em busca de um futuro melhor para todos.

Fonte: National Geographic

*Publicado originalmente em 2016 e republicado hoje. 

28 anos sem Cazuza

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Hoje (7) é aniversário da morte (estranho estes termos juntos) do cantor e compositor Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza. Lembro bem daquele 7 de julho de 1990. Eu tinha 14 anos e tava de férias com minha família em Natal (RN).

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O artista, filho de João Araújo, produtor fonográfico, e de Lucinha Araújo, nasceu em berço de ouro e conviveu, desde muito cedo, com grandes nomes da cultura brasileira.

Ele foi influenciado por Cartola, Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues, Noel Rosa, Maysa e Dalva de Oliveira. Cazuza foi um privilegiado, por causa de seu pai, cresceu convivendo com grandes nomes da MPB, Gilberto Gil, João Gilberto, Novos Baianos, Caetano Veloso, Elis Regina e Gal Costa.

10269592_729686107053057_7531118653553011114_n-228x300Cazuza apaixonou-se pelo rock and roll quando morou em Londres, em 1972. Passou no vestibular para Comunicação em 1976, mas abandou o curso meses depois de começar a estudar. Cazuza participou de peças teatrais no Circo Voador, local que aglutinava a nata da cultura cênica e musical do Rio de Janeiro, na década de 80.

tumblr_m8yiwvKhPE1qga32fo1_400_largeLogo depois, indicado pelo cantor Léo Jaime (que recusou os vocais do Barão), juntou-se a Roberto Frejat (guitarra), Dé Palmeira (baixo), Maurício Barros (teclados) e Guto Goffi (bateria), nascia o Barão Vermelho, uma das maiores bandas do rock nacional.

O produtor musical Ezequiel Neves gostou do som da banda e convenceu o pai de Cazuza a lançar o Barão. Os maiores sucessos do Barão foram as canções “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”, “Pro Dia Nascer Feliz”, “Maior Abandonado”, “Bete Balanço” e “Bilhetinho Azul”.download (6)

Sua carreira solo também foi fantástica, Cazuza flertou com a MPB, a misturou ao rock e gravou as canções “Exagerado”, “Codinome Beija-Flor”, “Ideologia”, “Brasil”, “Faz Parte Do Meu Show”, “O Tempo Não Pára” e “O Nosso Amor A Gente Inventa”. O resto é história.

Em 1989, declarth-5ou ser soropositivo, a Aids o levou há exatos 28 anos. Cazuza foi um dos maiores artistas da música brasileira. O cara foi um símbolo de rebeldia, pelo seu talento e sua loucura. Este post é uma pequena homenagem ao gênio da poesia. Viva Cazuza!

Elton Tavares

O amor que nasce na chuteira (Valeu, Brasil!) – Por Jaci Rocha

Na torcida são milhões de treinadores, cada um já escalou a seleção…

São donas de casa, médicos, engenheiros, garis, de esquina, advogadas, lojistas, juízes. Gente da economia pública e privada, gente que não quer saber de economia ou política, outros que querem muito. Os que gostam e os que não gostam do país do Futebol. A rua mais movimentada do país pára na hora do jogo. A 25 de Março, em dia de copa, parece com uma das ruas de terra batida do menor bairro de nossa pequena capital, Macapá.

A hora do jogo é um instante mágico. Há um silêncio e uma fé que paira pelo ar, uma mística que envolve o sentimento profundo de ser brasileiro e de estar no aprendizado do que é ser Brasil, já que até aqui, a gente demorou a perceber que não haviam nos ensinado o certo sobre o que é ser um país. Se tudo o mais sobre ser brasileiro ainda é descoberta, certo é que a gente sabe bem o que é ser uma Nação quando aquela bola rola no campo: É um silêncio e uma fé que paira pelo ar, uma mística que envolve o sentimento profundo de ser brasileiro…

“O verde e o amarelo são as cores que a gente pinta no coração”.

A camisa verde e amarela vira febre nacional. No avesso de outras Nações, que usam o aspecto simbólico de suas bandeiras cotidianamente, desde acessórios de cozinha a artigos da moda, nós, aprendemos a usar a amarelinha para ouvir: “Gooolllll…éé…é do Brasil”. Nessa hora, poucos de nós se destacam por outra vestimenta. É uma profusão de verde,amarelo,azul e branco, as lindas cores que demonstram nossas múltiplas formas de riqueza, entre elas, a grande mania de Marias e Josés, a ‘de ter fé na vida’. Quem não entende esse sentimento, talvez entenda pouco do tanto que a gente tem para aprender sobre amor com o futebol.

“O toque de bola é nossa escola, nossa maior tradição…”

E como é bom poder dizer: “Nossa tradição”. É que, às vezes, ainda não sabemos como lidar com nossa profunda e complexa multiculturalidade e reconhecer que temos muitas tradições dentro desse ser simbólico que é ser ‘brasileiro’. Mas a gente sabe que quando toca a bola, é de Brasil para Brasil, par a par, em um mesmo objetivo. E como nos falta ter objetivo.Ah! O futebol…

Aos que não celebram a Copa do Mundo e nossa expectativa de ser Rei no Futebol, deixo o meu recado: A gente celebra o futebol. Se alegra com o Carnaval. Reverencia o divino enquanto dança Marabaixo. E a gente torce. E como torce! Para que, ao invés de não celebrar o futebol, a gente se apaixone tanto pelo país, a ponto de transformar esse cotidiano, de olhar e imaginar que, assim como o Hexa, temos também o objetivo de promover um país melhor para as Marias e Josés que, de quatro em quatro anos, sentam à frente da televisão e escalam a seleção, com a esperança verde e amarela tintilando nas entranhas.

É, a gente gosta de Futebol. E queremos sim despertar para ser mais do que isso. Como já disse a velha canção da propaganda : “ O Brasil é um país menino, só ta começando. Diante das Nações que têm milênios nós só temos…500 anos…bota esse menino na escola, cuida da saúde do menino e o menino vai mudar a sua história, vai conquistar esse mundo, vai ser um lindo menino”.

Enquanto isso, a gente amarra mesmo ‘o amor na chuteira’ e espera o HEXA, daqui a quatro anos. É que, como todo menino, o nosso menino também quer ser o primeiro, o Brasil é o país – REI – do Futebol. E afinal, com a licença poética de terminar cantando, aí vamos…“Todo menino é um Rei, Eu também já fui Rei…mas quá, despertei”.

Viva o país do Futebol, que jogou demais e saiu de campo com a marca do talento.

Jaci Rocha

O discurso discriminador do Marabaixo – Por Fernando Canto (muito legal)

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Foto: Elton Tavares

Texto de Fernando Canto Para o amigo Herialdo Monteiro

Não é de hoje que o Marabaixo é discriminado. Aliás, as manifestações culturais de origem africana sempre foram vistas como ilegais ao longo da história do Brasil. Do samba à religião, seus promotores foram vítimas de denúncias que os boletins de ocorrências policiais e os processos judiciais relatam como vadiagem, prática de falsa medicina, curandeirismo e charlatanismo, entre outras acusações, muitas vezes com prisões e invasões de terreiros.

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Foto: Gabriel Penha

Essa discriminação ocorreu – e ainda ocorre – em contextos históricos e sociais diferenciados, e veio produzida por instituições que tinham o objetivo de combater o que lhes fosse ameaçador ou que achassem associadas às práticas diabólicas, ao crime e à contravenção.

No caso do Marabaixo, há anos venho relatando episódios de confronto entre a igreja católica (e seus prepostos eclesiásticos e seculares), e os agentes populares do sagrado, estes que, por serem afrodescendentes, mestiços e principalmente por serem pobres, foram e são discriminados, visto o ranço estereotipado de que são “gente ignorante” e supersticiosa.

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Foto: Márcia do Carmo

É do século XIX a influência do evolucionismo que tomava como modelo de religião “superior” o monoteísmo cristão e via as religiões de transe como formas “primitivas“ ou “atrasadas” de culto. Para Vagner Gonçalves da Silva (Revista Grandes Religiões nº 6), nesse tempo “religião” opunha-se a “magia” da mesma forma que as igrejas (instituições organizadas de religião) opunham-se às “seitas” (dissidências não institucionalizadas ou organizadas de culto).

É do século XIX também os primeiros escritos sobre o marabaixo. Em um deles um anônimo articulista o ataca, dizendo-se aliviado porque “afinal desaparece o o infernal folguedo, a dança diabola do Mar-Abaixo”.

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Foto: Márcia do Carmo

Ele afirma que “será uma felicidade, uma ventura, uma medida salutar aos órgãos acústicos se tal troamento não soar mais…”. Na sua narrativa preconceituosa vai mais além ao dizer que “Graças ao Divino Espírito-Santo, symbolo de nossa santa religião, que só exige a prática de bôas acções, não ouviremos os silvos das víboras que dansam ao som medonho dos gritos dos maracajás (…), que é suficiente a provocar doudice a qualquer indivíduo”. Assevera adiante “Que o Mar-Abaixo é indecente, é o foco das misérias, o centro da libertinagem, a causa segura da prostituição”. E finaliza conclamando “Que os paes de famílias, não devem consentir as suas filhas e esposas frequentarem tão inconveniente e assustador espetáculo dessa dansa, oriunda dos Cafres”. (Jornal Pinsonia, 25 de junho de 1898)

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Foto: Márcia do Carmo

Discursos de difamação do Marabaixo como este e a posição em favor de sua extinção ocorreram seguidamente. O próprio padre Júlio Maria de Lombaerd quebrou a coroa de prata do Espírito Santo que estava na igreja de São José e mandou entregar os pedaços aos festeiros. O povo se revoltou e só não invadiu a casa padre para matá-lo graças à intervenção do intendente Teodoro Mendes.

Com a chegada do PIME – Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras – em Macapá (1948) o Marabaixo sofreu um período de queda, mas suportado com tenacidade por Julião Ramos, que não o deixou morrer. Tiraram-lhe inclusive a fita da irmandade do Sagrado Coração de Jesus, da qual era sócio fiel.

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Foto: Mariléia Maciel

Nesse período os padres diziam que o Marabaixo era macumba, que era coisa ruim, e combatiam seus hábitos e crenças, tidos como hediondos e pecaminosos, do mesmo jeito que seus antecessores o fizeram no tempo da catequização dos índios. Mas o bispo dessa época, D. Aristides Piróvano, considerava Mestre Julião “um amigo” (Ver Canto, Fernando in “A Água Benta e o Diabo”. Fundecap, 1998)

O preconceito dos padres italianos com o Marabaixo tem apoio num lastimável “achismo”. Os participantes são católicos e creem nos santos do catolicismo, tanto que a festa é dedicada ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade e não a entidades e voduns como pensam. Nem ao menos há sincretismo nele.

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Colheita da Murta Foto: Fernando Canto: Arquivo pessoal

E se assim fosse? Qual o problema? Antes de emitirem um julgamento subjetivo sobre um fato cultural é preciso conhecê-lo. É preciso ter ética. Ora, sabe-se que todos os sistemas religiosos baseiam-se em categorias do pensamento mágico. Uma missa ”comporta uma série de atos simbólicos ou operações mágicas” (Vagner Silva op. cit.). Observem-se as bênçãos, a transubstanciação da hóstia em corpo de Cristo, por exemplo. Um ritual de umbanda comporta a mesma coisa. O Marabaixo tem rituais próprios, ainda que um tanto diferentes. Por isso e apesar do preconceito ainda sobrevive. Valei-nos, Santo Negro Benedito!

(*) Do livro “Adoradores do Sol – Novo Textuário do Meio do Mundo”. Scortecci, São Paulo, 2010

De Super-Homem a Asterix, minhas HQ favoritas – Crônica porreta de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Quando leio uma revista em quadrinhos hoje é natural que as lembranças povoem repentinamente na minha cabeça, tão importantes o foram como instrumento de aprendizado, num tempo em que não havia grandes obras para serem lidas, a não ser na Biblioteca Pública, um lugar obscuro e quase inacessível para alunos adolescentes como eu que não tinham a orientação dos professores para essa atividade. Na época tudo parecia se resumir no aprendizado de sala de aula.

Lembro que as portas dos cines Macapá e João XXIII ficavam cheias de jovens com revistas debaixo do braço nas tardes e noites de domingo. Estavam ali para trocarem suas revistas já lidas, por outras não lidas, ou preferencialmente por novas. Era uma prática saudável num tempo sem televisão quando a cultura visual estava mais direcionada para o cinema, com seus filmes e seriados, e para os quadrinhos. Era tempo do Território Federal governado por militares. Todos viviam sob uma ditadura severa que se estendia aos seus prepostos: diretores, professores e inspetores das escolas. Os quadrinhos nem sempre eram vistos como instrumentos educativos. Frequentemente os pais eram chamados pelos mestres quando um aluno era flagrado com alguma revista “imprópria”, tipo quadrinhos eróticos. O resultado era uma suspensão na escola e em casa sempre uma repreensão ou surra de galho de cuia no moleque aluado.

Romantismo ou saudosismo, a leitura dos quadrinhos possibilitava viajar com os heróis na luta contra o mal e dava para imaginar que um dia derrotaríamos o inspetor, o professor e o diretor que nos controlavam e eram nossos “inimigos mortais”, nessa ordem.

Batman e Robin, Super-homem, Zorro, Jim das Selvas, Tarzan, Congo Bill, Tex, Búfalo Bill, Príncipe Valente e tantos outros, descortinavam novos horizontes naquela garotada ávida por conhecimento e que esperava dias melhores para as suas vidas. As revistas traziam propaganda de pé de página, anúncios de cursos por correspondência, como o de madureza ginasial (um tipo de curso supletivo), o de detetive profissional, de rádio e eletrônica, etc. É inesquecível o anúncio de um tipo de brilhantina: “Dura lex sed lex, no cabelo só gumex – fixa e dá brilho aos cabelos”.

Mas a gente lia de tudo, inclusive as histórias dos personagens de Walt Disney e de Maurício de Souza, que chegavam recentemente naquele restrito mercado que se resumia nas livrarias Zola, de Francisco (…) e Martins, de (…) Martins, onde também se podia comprar livrinhos de literatura de cordel, como as aventuras de Pedro Malazarte e de Bocage, entre outros.

Anos depois, já na Universidade, pude defrontar com personagens mais sofisticados dos HQ, como os famosos (…) japoneses, os coloridos e novos super-heróis, tais como o Hulk, o Surfista Prateado e o Quarteto Fantástico. Nessa ocasião conheci as aventuras de Asterix, o Gaulês, dos franceses Gosciny e Uderzo. Pirei. Fiz coleção, mandei encadernar e releio sempre. Os personagens dessas histórias são os habitantes de uma aldeia que detém o poder de uma poção mágica usada para derrotar os romanos em situações e aventuras muito loucas.

Há alguns anos ganhei de um filho um presentão: uma edição comemorativa dos 80 anos do velho Uderzo, com histórias desenhadas por famosos artistas das HQ da Europa, nas quais seus personagens encarnam os heróis Asterix e Obelix e sua aldeia irredutível na Gália de 50 anos A.C. Um primor de desenhos de discípulos agradecidos.

Agora só me resta reler o livro comemorativo e esperar que “o céu não caia na minha cabeça”, como dizem os personagens dessas belas e engraçadas histórias.

17 anos do gol do Petkovic (minha crônica sobre um dos momentos mais felizes da vida de todos os flamenguistas)

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Em 27 de maio de 2001, há exatos 17 anos, um gol inesquecível. Eu estava no antigo apartamento do Adriano e Silvana, meus primopet_tri_v2s. Assistíamos a final do Campeonato Carioca de Futebol daquele ano, juntamente com o amigo Aílton. Aquele dia tem um valor especial na vida dos milhões de flamenguistas no mundo.

O Vasco tinha ganhado o primeiro jogo por 2×1, o Flamengo precisaria vencer por dois gols de diferença para leva o título da competição.

Edílson abriu o placar pro nosso time e Juninho Paulista empatou pro Vasco. Acabou o primeiro tempo. Na segunda etapa da partida, o “Capetinha” meteu mais um. Mas o Mengão ainda estava em desvantagem, pois precisava vencer pela diferença de dois gols.petkovic-flamengo-comemora-titulo-450-071209

A torcida do Vasco já comemorava nas arquibancadas. Já eram 43 minutos do segundo tempo. Aí Edílson sofreu falta na intermediária, só que o gol de Hélton não tava tão perto. Petkovic arrumou a bola, deu três passos para trás e respirou fundo.

Bateu forte, colocado e com a precisão cirúrgica que lhe era peculiar. A batida foi perfeita. A bola pchamada_petkovic_60egou efeito e saiu do alcance do goleiro Helton. Aliás, o goleiro bem que tentou, saltou alto e se esticou todo, mas a defesa não foi possível. Nem dois goleiros ali embaixo daquela trave evitariam o gol quase sobrenatural. Foi lá onde “a coruja dorme”, no canto superior esquerdo da rede. Naquele momento, vibrei, quase choro, ri e me senti o cara mais feliz do mundo. Coisa de quem ama o futebol, sobretudo, o Flamengo.

Épico e eternamente na memória e coração dos torcedores dos rubro-negros, 3 a 1, porra! Era o tricampeonato carioca ao Rubro-Ne1520044_x240gro. A gente correu pra Praça Zagury, agora Beira-Rio, bebemos logo pelos três títulos consecutivos. Naquela noite, vi um amigo virar a casaca, tirou a camisa vascaína e vestiu o manto sagrado Rubro-Negro. Ele, o Frank Bitencourt, disse que tinha cansado de sofrer. Até hoje é possível vê-lo em algum bar durante as transmissões dos jogos do Flamengo.OgAAABMQI6L-r-54uHph3Y6iMVW-BZchGbJrjteZx-CQ5HeEzbQhvfD42MAPy69bid-d2B_Uf1aMsnB95r1mNMU6O1cAm1T1UAyP1XHDZ1Eq5sjsJoZxufjFdQFX

Há alguns anos, Petkovic foi convidado pelo Globo Esporte para bater a falta novamente, do mesmo local. Adivinhem? O sérvio colocou a bola do mesmo jeito, no mesmo lugar. Ah, gringo foda da porra! Não à toa, é um dos maiores ídolos da era atual do Flamengo. Uma lenda viva, já que se tornou o jogador estrangeiro mais decisivo da história do clube e talvez até do futebol nacional.

golpetkovic_oglobo62Desde então, já se passaram 17 anos. Assim como a vida, o futebol é feito de ciclos. Mas é sempre bom lembrar dos momentos felizes e foi o que ocorreu.

“Nóis” é Mengão até depois de morrer e hoje ele é líder do Brasileirão 2018!

Ao Petkovic, autor daquela obra-prima que ficará marcada para sempre na minha memória e coração, nossos milhões de obrigados!

Elton Tavares

OS VELHOS E “O VELHO”, DE RUI GUILHERME – Crônica de Fernando Canto

Por Fernando Canto

O livro “O Velho” (Scortecci. S. Paulo, 2009), de Rui Guilherme, traz à tona um problema que atinge alguns milhões de brasileiros, com suas mazelas pessoais e o drama do abandono, no conto que dá título à obra.

O autor toca num ponto crucial ao falar das doenças da velhice e dos episódios de saudade que o principal personagem sofre no contexto ficcional, desenvolvido em flash back. Aliás, o verbo lembrar, recorrente no texto, demonstra sempre situações de relações sociais “do tempo do velho”, como os divertimentos e lazeres e formas meio puritanas de falar: um certo estado de pureza, mormente quando a paixão retraída fazia do velho “um menino com um coração de poeta”, diz o autor.

A trágica situação psicológica vivida pelo personagem, como veremos adiante, remete à situação de que o mundo está envelhecendo rapidamente devido a diversos fatores. Dados do IBGE (PNAD:2003) demonstraram que a população brasileira, a partir de 60 anos ou mais representava 9,6% da população total. As projeções demográficas para 2020 sugerem que o Brasil terá 32 milhões de idosos, ou seja, 15% de seu contingente. Com isso, atualmente se desenvolvem inúmeros processos que fazem da velhice um quadro estonteante.

A mídia, por exemplo, lança o estereótipo de que o idoso é um sujeito emancipado e com o espírito jovem. Daí o cuidado com o corpo se torna a principal preocupação dos indivíduos, que por isso vão buscar uma “aparência mais aceitável”. Assim, se concebe a ideia de que a velhice não é mais uma condição física, biológica e psicológica, mas uma questão de escolha, coisa que pode ser evitada a todo custo.

Para Santos, Moreira e Moreira (Unisuam:2008) a nova relação com o corpo propicia uma nova significação com o envelhecimento e, consequentemente, com a longevidade. Há, segundo esses autores, um intenso movimento de “retorno à jovialidade”, que assume um papel central nessa nova identificação para o idoso. Esses “jovens velhos” ganham perante a sociedade uma nova representação que difere explicitamente daquela elaborada em décadas anteriores.

Não é o caso do personagem do conto de Rui Guilherme que, aborrecido com o mundo, joga os exames geriátricos no lixo e quebra o cartão do plano de saúde. A realidade, hoje, é que os consultórios médicos do mundo inteiro estão repletos de idosos que procuram não só a medicina terapêutica, mas também soluções estéticas. É crescente o número de idosos que se submetem às cirurgias plásticas guindados pela mídia. Ela reforça o comportamento dos idosos ao relacionar beleza, juventude e vigor. E o capitalismo tomou essa parcela da população como um forte mercado consumidor, cuja demanda por produtos estéticos, sexuais e por novas maneiras de prolongar a vida é cada vez maior.

O velho, simples em seus hábitos, convivia com fantasmas. Desprezava os sonhos míticos da humanidade tais como a imortalidade e a eterna juventude, ao passo que os idosos atuais vivem num período em que a expectativa de vida cresceu e que a longevidade está relacionada a condições de vida saudáveis, como as práticas de esporte, alimentação saudável, e de novas formas de lazer e entretenimento.

“O Velho”, de Rui Guilherme, talvez retrate uma faixa de pessoas que certamente abandonaram suas famílias, em vez de serem abandonadas por ela. É a história de um aposentado que queria a morte, pois achava que não valia mais a pena viver. É uma história do ponto de vista psicológico um tanto cruel, centrada num episódio fisiológico, traumático para o velho, que pode acontecer com qualquer um. Fato real, mas trágico. Daí a sacada do autor para enfatizar o aspecto mnemônico do personagem e com isso chamar a atenção para o tema da velhice.

Quase coloquial devido às falas e diálogos dos personagens, o texto é permeado por uma narrativa densa e rebuscada, mas que se comunica com o leitor e o leva a procurar saber o desfecho do drama. Os outros contos, tangentes à vida e aos sonhos do autor, também refletem/refratam as (des)memórias do cotidiano e as (i)realidades (im)possíveis. Leia. Faz bem. Você vai gostar.

Hoje é o Dia Mundial da Terra (data para reflexão sobre o nosso lar no Universo)

Hoje é o Dia Mundial da Terra. A data foi criada em 1970, pelo senador norte-americano Gaylord Nelson que resolveu realizar um protesto contra a poluição da Terra, depois de verificar as consequências do desastre petrolífero de Santa Barbara, na Califórnia, ocorrido em 1969.

Desde então, no dia 22 de abril, milhões de cidadãos em todo o mundo manifestam o seu compromisso na preservação do ambiente e da sustentabilidade da Terra. Neste dia de cariz educativo escrevem-se frases e poemas sobre a importância do planeta Terra nas escolas, entre outras atividades.

É possível juntar-se a atividades existentes, criar eventos próprios, doar dinheiro, ou tomar simples atos como plantar uma árvore ou separar o lixo, por exemplo. Para o ano de 2017, o tema das atividades é “Instrução ambiental e climática” (Environmental and Climate Literacy).

O Dia Mundial da Terra conta já com mais de mil milhões de atos realizados em prol do ambiente ao longo da história. É o maior dia do ano para o planeta Terra, desejando que todos os habitantes do mundo realizem algum ato que o proteja. Este ato será uma espécie de semente para regar durante o resto do ano.

Nesta data são debatidos temas como aumento da temperatura global da Terra; extinção de espécies animais; aumento do nível dos oceanos; escassez de água potável; maior número de catástrofes naturais, como tempestades, secas e ondas de calor.

Há muitos anos, quando eu era ignorante sobre a importância do assunto, jogava lixo nas florestas, no Rio Amazonas ou em qualquer lugar inapropriado. É essencial que tenhamos sensibilidade, educação e consciência sobre a preservação do nosso lar no Universo. O mundo está morrendo, aos poucos, mas está. E a fragilidade do nosso planeta precisa ser explicada para podermos adiar a extinção dele e, consequentemente, a nossa.

Senhor cure a nossa vida, para que possamos proteger o mundo e não o depredemos, semeando beleza e não poluição e destruição” – Papa Francisco.

Elton Tavares
Fonte: Calendar 

21 anos de Amapá e o agradecimento do Fernando Bedran

Hoje o Rosa Cruz, degustador de heinekens enevoadas, presidente da Divisão Internacional da Vida Alheia (D.I.V.A.) no Amapá, recordista intergalático de gente bonisse, mestre em paidéguice boemia, fabricante da Pimenta Brimo, administrador comercial, fã dos quadrinhos de Asterix, amante de boa música, locutor e DJ da Rádio Fuleiragem, ilustre morador de Santana, melhor papo de bar que conheço, além de querido amigo, Fernando Bedran, comemora e agradece os 21 anos completados em terras amapaenses. Saquem:

21 anos de Amapá – 21/04/17.

Grato sou. Hoje, feriado de Tiradentes, completo 21 anos de Amapá. Terra que me acolhe, que amo e que também sou feliz. Terra que, com suas similaridades com o meu Pará, onde nasci e me criei, permite-me viver entre dois mundos (entre vários que habito): entre a saudade incomensurável e a gratidão de aqui viver e ser feliz.

Esposa, filhos, netos, amigos/irmãos, muita alegria, muito aprendizado, muita história pra contar. Aqui registro meu muito obrigado ao Amapá, Macapá e Santana (onde morei e moro neste estado).

Obrigado minha esposa (com o seu sorrir inigualável) que me fez ficar por aqui. Obrigado minha família (todos). Obrigado minha mãe amada Laudi que a vi pela última vez no dia que pra cá partir. Se algo sou devo é a DEUS e a ela, que até hoje me abençoa com suas lições ,seus exemplos e seu amor.

Obrigado aos amigos /irmãos tão importantes nesta minha jornada. Beijos no coração meu amado Amapá.

Meu comentário: Fernando Bedran é um dos caras mais porretas que a vida me presentou. Um cidadão de bem, sábio e gente boa. Inteligente e sábio como pouquíssimos. É uma companhia sempre iluminada. Destes 21 anos de Amapá, posso gabar-me que sou brother do figura há mais de 10. Nós é que agradecemos sua estada entre nós, velho amigo!

O Bar é uma Antena Social (crônica porreta de Fernando Canto)

Por Fernando Canto
Antigo Bar do Abreu, na Avenida Fab

Cansados estamos de saber que o bar é um espaço democrático, principalmente se é popular, aberto. No entanto é o lugar onde as ideologias emergem até com fundamentalismo. É um mundo em que os fatos ali ocorridos e as histórias contadas também são objetos de exposição de valores, de ocultação de defeitos e de promoção e marketing pessoal, demandados pelas incertezas do futuro, pelo processo político e pelas contingências da história. Logicamente tam

Bar Lennon – Macapá anos 80 – Foto cedida por Edgar Rodrigues

bém é um espaço de festa e de lazer; local onde as emoções se eriçam e se cruzam, onde notícias quentinhas esclarecem novos conhecimentos; amores secretos são aprofundados ou descobertos e por isso geram descontroles emocionais e físicos entre pessoas que até então nunca podíamos pensar tão valentes ou covardes. No bar as emoções se revelam em paradoxos inusitados.

 
Talvez por isso, e nesta crônica despretensiosa, eu possa entrar no mundo do bar para dizer o quanto ele é, também, um gueto disfarçado, às vezes uma roda violenta de preconceitos, que envolve quase todos os integrantes dessas assembleias ocasionais. O bar, antes de ser um balcão onde as pessoas ficam em pé ou sentadas em bancos altos consumindo bebidas alcoólicas, é também uma unidade de medida de pressão, segundo o Aurélio. O interesse pelo bar tem um condicionamento sociológico que vai além da mera vontade de tomar uma cerveja gelada, ou de querer ficar só por alguns momentos, ou mesmo se envolver em assuntos antagônicos aos problemas sentidos para não ter que cair na real. 
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O primeiro bar de Macapá – Foto: Elton Tavares

Cada qual sabe a casca que tem para aguentar o que ronda cada cabeça pensante e a sua sentença sarcástica, pois inúmeros são os que ali vão para somente consumir o inconsumível, ou seja, a paz que o outro carrega. Os chatos, de certa forma dão vida ao bar.

A família dos chatos é grande, tradicional, seus membros estão em todas as partes; muitos são perdulários e só demonstram humildade quando perdem tudo no jogo ou quando têm suas contas confiscadas por ordem judicial. Mas esses são os que conseguiram se ascender na escala social à custa do dinheiro público. Mesmo depois que são soltos da cadeia continuam chatos e arrogantes. Existem os chatos desmemoriados: aqueles que contam as mesmas piadas, mas sempre se esquecem dos finais, assim mesmo só eles riem da sua própria graça. Os chatos pedintes são os mais comuns. Revelam-se humílimos, franciscanos ao extremo e matam a mãe para acertar em cheio no alvo da comiser

Bar Xodó – bebi muito aí.

ação alheia. Ao contrário desses existem os chatos barulhentos, que no jogo de futebol, na televisão, gritam tanto que cospem no copo de todo mundo num raio de três metros. E haja perdigoto na cerveja dos torcedores contrários. É claro que se podem identificar muitos desses elementos e até classificá-los, o que para tanto peço ajuda dos companheiros que não se autorrotulam nesse metier. Quem sabe não façamos um tratado sobre esse bloco afamado e muito peculiar, cujos elementos também são conhecidos cientificamente como insetos anopluros da família dos pediculídeos, os famosos Phthirius pubis (L.), que vivem no mundo inteiro sugando as pessoas.

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Bar Norte das Àguas

Desde muito tempo frequento bares e neles tenho encontrado pessoas de todos os tipos: políticos, beberrões inveterados, jogadores de futebol, profissionais liberais, padres, estudantes, gente de preferências sexuais diversificadas, funcionários públicos, poetas, jornalistas então… No bar há excelentes contadores de piadas e cantadores da noite com suas alegres vaida

Eu, Fernando Bedran e Fernando Canto – Mestres em boemia produtiva (papo bom demais)

des. Mas também há os professores de Deus, que do alto de suas sapiências enojam, mas recebem os olhares irônicos dos mais humildes que acham que eles “só querem ser o que a folhinha não marca”.


O bar pode dar condições para o diagnóstico de uma sociedade. É uma antena extremamente poderosa e propícia para captar preferências individuais e coletivas. Pode ver! Pelo meu lado, faço minhas observações e bebo. E vice-versa. Malograda alguma companhia, só penso no ditado do Paulinho Piloto: “passarinho que acompanha morcego dorme de cabeça pra baixo”. 
 
(Do livro “Adoradores do Sol”, de Fernando Canto. Scortecci, S. Paulo, 2010).