Tanta! (ou seria Tantã?) – Crônica de Elton Tavares

Ilustração de Ronaldo Rony

Estou sem inspiração pra escrever algo legal, por isso republico um texto velho e atual ao mesmo tempo sobre minhas divagações, devaneios, doidices e afins neste site. Como tudo na minha vida foi muito, escrevi “Tanta”, mas poderia ser tantã. Saquem:

Pra começar, foram tantas contradições, tantos temores, tantas pessoas e tantas as histórias nas últimas bem vividas três décadas! (época de moleque não conta). Como diz o tal Rei perneta: “tantas emoções”.

Tantos bons e maus momentos, muitas alegrias e poucos choros. Tantos nascimentos e alguns enterros. Tantas músicas e pouca dança. Tantas paranoias, manias, chatices e porretices. Tanto trabalho (sagrado), tanta farra, muito álcool, tantos muitos amigos (tantos ex -amigos), tantas amanhecidas, algumas brigas, poucas angústias, poucos perdões.

Tanto veneno e pouco antídoto. Tantos escritos, várias interpretações erradas, tanta crítica tanto aplauso e tanto amor familiar. Tantas velhas e novas sensações. Tantos romances cinematográficos. Tantas falsas certezas, tantos enganos verdadeiros. Tantos parágrafos tragicômicos. Tantos sonhos possíveis e impossíveis.

Ilustração de Ronaldo Rony

Tantas expectativas, nada de limites, quantas frustrações. Tantos textos cheios de narrativas utópicas. Tantos amores surreais e paixões à bruta. Tanta coisa maligna. Tanta reprovação geral. Poucas ações a contragosto, muita liberdade!

Tantos Rocks, tantos sambas, tantas trilhas. Tantas brigas, muitas vitórias e poucas derrotas. Tanta coisa inesquecível, tantas saudades!

Tantos méritos e deméritos. Tantas experiências, vivências válidas em sua maioria e algumas em vão. Tantas memórias afetivas, tantas juras, tantas pieguices e tantos desenganos. Tanto Chico Buarque na vitrola, tanta coragem e tanta falta dela. Tantos amores e tanta vida!

Elton Tavares.

*Texto do livro “Crônicas De Rocha – Sobre Bençãos e Canalhices Diárias”, de minha autoria,lançado no último dia 18 de setembro. A obra tá linda e está à venda na Public Livraria ao preço de R$ 30,00 ou comigo. Contato: 96-99147-4038.

Mais vida, menos grana – Crônica de Elton Tavares

Noite dessas, ao conversar com amigos e dizer que não guardo um vintém do que ganho com o meu suado trabalho, eles ficaram assombrados. Disseram que é loucura, que ‘issos’ e ‘aquilos’, especialmente sobre reservas econômicas para possíveis emergências. Eu disse que prefiro mais vida e menos grana.

Não, não é que eu não goste de dinheiro. Claro que gosto, mas tudo que ganho, no batalho e sempre honestamente, é repassado para custos operacionais e caseiros. O restante é gasto e muito bem gasto em vida. E não sobra nadica de nada para acumular.

Além da minha incorrigível falta de perspicácia financeira, nunca ganhei somas consideráveis com meus trampos, seja este site, na assessoria ou escritos (sim, vivo literalmente de palavras). Mas o que entrou no meu bolso, apesar de eu não conhecer essa tal de economia, jamais foi desperdiçado.

Eu bebo e não é pouco. Como da mesma forma. Gosto de viagens e dos momentos em que fiz um monte de merdas legais com os meus brothers. Isso tudo custa caro. Em nem todo o dinheiro do mundo poderia comprar aqueles dias de volta. Ou seja, mais vida, menos grana.

Quando não usei minha grana pra curtir a vida com amigos, ajudei pessoas. E essa é a melhor forma de torrar os trocados. Como disparou outro gordo louco no passado: “não quero dinheiro, eu só quero amar”. Grande Tim!

Falando em citações (amo usar frases de ídolos), uma vez o Belchior disse: “e no escritório em que eu trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor“, na canção “Paralelas”. Boto fé nisso.

Algumas pessoas que conheci no passado, amigos e até familiares, após se estribarem, ficaram um tanto pavulagem demais e com suas vidas muito menos divertidas.

E isso me recorda o bom e velho Johnny Cash, que certa vez pontuou: “às vezes eu sou duas pessoas. Johnny é o legal. O dinheiro causa todos os problemas. Eles lutam”.

Ou os Paralamas do Sucesso, na canção “Busca a vida”: “…Ele ganhou dinheiro, ele assinou contratos, e comprou um terno e trocou o carro. E desaprendeu a caminhar no céu …e foi o princípio do fim!“.

Aos que desaprenderam o caminho, deixo a canção-poema : “Desejo que você ganhe dinheiro, pois é preciso viver também. E que você diga a ele pelo menos uma vez quem é mesmo o dono de quem“.

No meu caso, sigo dando mais valor em viver do que em poupar para um futuro incerto. Menos grana, mais vida, meus amigos.

É isso!

Elton Tavares

O Bar é uma Antena Social – crônica porreta de Fernando Canto

Caricatura do artista plástico Wagner Ribeiro

Crônica porreta de Fernando Canto

Cansados estamos de saber que o bar é um espaço democrático, principalmente se é popular, aberto. No entanto é o lugar onde as ideologias emergem até com fundamentalismo. É um mundo em que os fatos ali ocorridos e as histórias contadas também são objetos de exposição de valores, de ocultação de defeitos e de promoção e marketing pessoal, demandados pelas incertezas do futuro, pelo processo político e pelas contingências da história.

Bar Xodó – bebi muito aí.

Logicamente também é um espaço de festa e de lazer; local onde as emoções se eriçam e se cruzam, onde notícias quentinhas esclarecem novos conhecimentos; amores secretos são aprofundados ou descobertos e por isso geram descontroles emocionais e físicos entre pessoas que até então nunca podíamos pensar tão valentes ou covardes. No bar as emoções se revelam em paradoxos inusitados.

Antigo Bar do Abreu da Avenida Fab – Foto: O Canto da Amazônia

Talvez por isso, e nesta crônica despretensiosa, eu possa entrar no mundo do bar para dizer o quanto ele é, também, um gueto disfarçado, às vezes uma roda violenta de preconceitos, que envolve quase todos os integrantes dessas assembleias ocasionais. O bar, antes de ser um balcão onde as pessoas ficam em pé ou sentadas em bancos altos consumindo bebidas alcoólicas, é também uma unidade de medida de pressão, segundo o Aurélio. O interesse pelo bar tem um condicionamento sociológico que vai além da mera vontade de tomar uma cerveja gelada, ou de querer ficar só por alguns momentos, ou mesmo se envolver em assuntos antagônicos aos problemas sentidos para não ter que cair na real.

Cada qual sabe a casca que tem para aguentar o que ronda cada cabeça pensante e a sua sentença sarcástica, pois inúmeros são os que ali vão para somente consumir o inconsumível, ou seja, a paz que o outro carrega. Os chatos, de certa forma dão vida ao bar.

Canto, Emerson, eu, Sal e Sônia – Bar da Maria – 2018

A família dos chatos é grande, tradicional, seus membros estão em todas as partes; muitos são perdulários e só demonstram humildade quando perdem tudo no jogo ou quando têm suas contas confiscadas por ordem judicial. Mas esses são os que conseguiram se ascender na escala social à custa do dinheiro público. Mesmo depois que são soltos da cadeia continuam chatos e arrogantes. Existem os chatos desmemoriados: aqueles que contam as mesmas piadas, mas sempre se esquecem dos finais, assim mesmo só eles riem da sua própria graça. Os chatos pedintes são os mais comuns. Revelam-se humílimos, franciscanos ao extremo e matam a mãe para acertar em cheio no alvo da comiseração alheia. Ao contrário desses existem os chatos barulhentos, que no jogo de futebol, na televisão, gritam tanto que cospem no copo de todo mundo num raio de três metros. E haja perdigoto na cerveja dos torcedores contrários. É claro que se podem identificar muitos desses elementos e até classificá-los, o que para tanto peço ajuda dos companheiros que não se autorrotulam nesse metier. Quem sabe não façamos um tratado sobre esse bloco afamado e muito peculiar, cujos elementos também são conhecidos cientificamente como insetos anopluros da família dos pediculídeos, os famosos Phthirius pubis (L.), que vivem no mundo inteiro sugando as pessoas.

Carnaval do Abreu da Fab, em 2016. Foto: arquivo pessoal de Elton Tavares

Desde muito tempo frequento bares e neles tenho encontrado pessoas de todos os tipos: políticos, beberrões inveterados, jogadores de futebol, profissionais liberais, padres, estudantes, gente de preferências sexuais diversificadas, funcionários públicos, poetas, jornalistas então… No bar há excelentes contadores de piadas e cantadores da noite com suas alegres vaidades. Mas também há os professores de Deus, que do alto de suas sapiências enojam, mas recebem os olhares irônicos dos mais humildes que acham que eles “só querem ser o que a folhinha não marca”.

Eu, Fernando Bedran e Fernando Canto – Mestres em boemia produtiva (papo bom demais)

O bar pode dar condições para o diagnóstico de uma sociedade. É uma antena extremamente poderosa e propícia para captar preferências individuais e coletivas. Pode ver! Pelo meu lado, faço minhas observações e bebo. E vice-versa. Malograda alguma companhia, só penso no ditado do Paulinho Piloto: “passarinho que acompanha morcego dorme de cabeça pra baixo”.

(Do livro “Adoradores do Sol”, de Fernando Canto. Scortecci, S. Paulo, 2010).

Hoje é o Dia da Criatividade – Meus parabéns aos criativos!

Hoje é o Dia da Criatividade. Pesquisei por horas, mas não encontrei o porque da data no dia 17 de novembro. Será que o motivo é porque todo dia é dia da criatividade? Não sei, pode ser. O conceito diz: “A criatividade é a faculdade/habilidade de criar ou o potencial criativo. Consiste em encontrar métodos ou objetos para executar tarefas de uma maneira nova ou diferente do habitual, com a intenção de satisfazer um propósito”. A criatividade permite cumprir os desejos de forma mais rápida, fácil, eficiente ou econômica.

A criatividade é responsável, entre outras coisas, pelas invenções. Uma pessoa nasce criativa ou trabalha e desenvolve sua criatividade ao longo do tempo? Para mim, as duas coisas são possíveis. Os inventores praticam, aperfeiçoam e criam. No meu caso, já inventei histórias (contos) e termos (neologismo). É o meu jeito de tentar ser criativo.

Dizem que “a necessidade é a mãe da criatividade”. Admiro pessoas criativas. Elas possuem auto-confiança; alta capacidade de associação; percepção; capacidade intuitiva; muita imaginação; capacidade crítica; curiosidade; foco; entusiasmo; e tenacidade.

A história está repleta de mentes fecundas que mudaram nossas vidas, sejam com teorias, ideias, músicas, pinturas, arquitetura, design, invenção de novos produtos, na literatura, fotografia, artes plásticas e tecnologia.

Aqui no Amapá, alguns grupos merecem reconhecimento e aplausos. Gente que movimenta Macapá e outras cidades do nosso Estado. Parabenizo os meus amigos criativos que fazem as coisas acontecerem neste estado distante de tudo. Às vezes, somente com muita criatividade mesmo!

Enfim, congratulações a todos que produzem arte, cultura, pesquisa, desenvolvimento e humor com muita criatividade. Este site sempre se propôs a divulgar toda essa gente paid’égua. Portanto, parabéns aos criativos, que fazem deste mundo muito melhor!

Elton Tavares

Site De Rocha completa 11 anos no ar

Parece que foi ontem, mas já faz 11 anos. O ano de 2009 foi bem legal, mas as duas coisas que mais gostei nele foram o show do Radiohead e a criação do blog De Rocha.

Incentivado por uma ex-namorada, comecei escrever na página virtual. Foi no dia 15 de novembro, há exatos 11 verões e um dia.

A gíria “De Rocha” nomeia este site porque nós, grande parte dos nortistas amapaenses e paraenses, a usamos quando queremos passar credibilidade sobre determinado assunto.

Na página, sempre publiquei fotografias, notícias, músicas, poesias, futebol, crônicas, contos, gifs, informes sobre fatos, eventos, pessoas públicas, bandas, arte, muita arte, e assuntos de interesse da população.

A promoção da cultura, em todas as suas vertentes, sempre foi o principal objetivo do De Rocha, além de expor meus pontos de vista, críticas leves e pesadas ou elogios amenos e exagerados aos que merecem. Foram tantos artistas, músicos, bandas, incontáveis eventos. Também publiquei textos do trampo por onde passei como assessor de comunicação. Além disso, falei muito da minha amada e preciosíssima família. E isso tudo misturando blá-blá-blá abobrístico, pois a vida sem humor é horrível.

Apesar da “internet soviética”, como diz o amigo jornalista Régis Sanches (ex-colaborador deste site), dos acusadores, fiscais e críticos, o De Rocha virou sucesso. Confesso que, quando comecei a escrever, nem imaginava que minha página virtual seria tão bem aceita. Isso aqui abriu portais, portas, janelas, gavetas e até alçapões em minha vida (risos).

Sei que rolou muito atrevimento, ironia, polêmicas, sarcasmo, verdades doloridas de se ler, alfinetadas, acidez e até bobagens de minha parte. Mas também rolou tanta homenagem, tanto amor real, tanta coisa legal. Claro que cometi alguns erros, não poderia ser de outro jeito. Mas tudo é aprendizado. Me arrependo de ter magoado algumas pessoas. De verdade!

Por aqui passaram vários colaboradores. Alguns deles nem são mais meus amigos, mas sou grato pelas contribuições. Cada um teve papel importante na formação deste espaço. Também agradeço aos parceiros que continuam por aqui. Em especial aos amigos Fernando Canto, Ronaldo Rodrigues, Jaci Rocha, Patrícia Andrade, Alcinéa Cavalcante, Luiz Jorge, Marcelo Guido e Marcelle Nunes, além do velho e saudoso Tãgaha Luz (In memoriam). Ah, os caras que fazem a manutenção do boteco: Rômulo Ramos e Laerte Diniz. Obrigado, meninas e caras.

O blog morreu há seis anos, quando foi criada esta página eletrônica (dados do antigo endereço foram migrados para cá). Passado todo esse tempo, mantenho-me como comecei: jornalista, assessor de comunicação, compulsivo por atualizações da página, cronista, crítico, ex-blogueiro e editor de um site ético sem rabo preso com ninguém (apesar de muita gente confundir o espaço dado a amigos assessores com favorecimento).

Tenho a ousadia de usar as palavras do escritor Caio Fernando Abreu: “acho que fiz tudo do jeito melhor, meio torto, talvez, mas tenho tentado da maneira mais bonita que sei”. Uma eterna luta do bem contra o mal dentro de mim, mas com 99% de vitórias da luz.

Ah, desculpem os palavrões em alguns textos, mas isso também é liberdade de expressão.

Muitas das crônicas de minha autoria foram reunidas em um livro, o “Crônicas De Rocha – Sobre Bençãos e Canalhices Diárias”, lançado em setembro passado (à venda na Public Livraria ao preço de R$ 30,00 ou comigo. Contato: 96-99147-4038).

Aqui a bola sempre foi minha. Você pode discordar, mas é isso o que penso e ponto. Com essa frase, agradei a maioria. Meu muito obrigado a vocês, senhores e senhoras que compõem o leitorado do De Rocha, sejam admiradores, críticos e detonadores (que de certa forma também são admiradores). Sigamos aplaudindo, criticando, discordando e incentivando as boas práticas. Valeu!

Elton Tavares

O naufrágio eleitoral de Joice Hasselmann

Mas que situação, hein, gente?

Que situação!

Vejam a situação de Joice Hasselmann.

O PSL já teme que ela tenha menos votos pra prefeita de São Paulo do que os votos obtidos quando se elegeu deputada federal.

E pensar que essa mulher já foi uma pitbull de Bolsonaro.

E pensar que, Bolsonaro eleito, ela previa o Brasil como uma espécie de Suíça da direita.

E pensar que posava como a parlamentar que tinha maior intimidade com o poder.

E pensar que proclamava Bolsonaro como o novo farol da humanidade.

Ate que Bolsonaro a chutou pra longe.

E hoje ela sente ne pela os efeitos de ter virado traidora do bolsonarismo.

Joice está arrependida das escolhas que fez em passado recente?

Se estiver, que nunca se esqueça dessa lição e aponte suas bússolas para posições mais moderadas e comedidas.

Se não, que tenha apenas um voto: o dela mesma.

Fonte: Espaço Aberto

A vitória de Biden é a vitória da democracia. Trump vira um fantasma eleitoral. Mas o trumpismo, não duvidem, está vivo

Vejam essas manchetes históricas, disponíveis nos sites dos principais jornais americanos.
Não é preciso que você saiba inglês para entendê-las.
Basta que você entenda o seguinte: Acabou. Acabou para Trump.
Pronto.
Joe Biden, do Partido Democrata, acaba de ter sua eleição para presidente dos Estados Unidos confirmada, neste sábado (07), depois de projeções que apontam sua vitória no estado da Pensilvânia.
Esse feito conquistado por Biden tem um significado histórico e determinante: o de elevar-se como um freio de contenção – e esperamos que seja assim – na guinada extremista, à direita, pela qual várias democracias, inclusive a nossa, no Brasil, têm enveredado.
Esse extremismo já ensejou a criação de um termo recente – e da moda -, déficit democrático ou recesso democrático, um e outro querendo dizer, em português de Portugal, apenas isto: a utilização, por autocratas declarados ou meio enrustidos, de mecanismos legítimos oferecidos pela democracia para miná-la, fragilizá-la, desfigurá-la, estuprá-la sem parar, até que a transformem numa ditadura. Com todos os requintes de uma ditadura.
Joe Biden era o melhor dos candidatos para derrotar Trump?
Não.
Mas, nas circunstâncias – em que era preciso alguém com um discurso mais moderado para derrotar um lunático -, Biden era, sim, o melhor candidato.
Esperemos para ver como se conduz.
Até porque, como sabemos, Trump é agora um fantasma eleitoral.
Mas o trumpismo está aí, vivíssimo.
Estão aí os 74.478.345 de votos atribuídos a Biden até o momento.
Mas também estão aí os 70.329.970 atribuídos a Trump.
Para mim, já é assustador que dez pessoas votem num elemento como Donald Trump.
Vocês imaginem então o que é ver mais de 70 milhões pessoas terem votado nele, comungando de suas ideias malucas, mentirosas, racistas, xenófobas, misóginas, homofóbicas, supremacistas, excludentes, desconectadas da realidade.
Mas enfrentar o trumpismo é pra depois.
No momento, é celebrar essa vitória, literalmente, como uma vitória da democracia.
E Trump?
No momento, diz-se, está jogando golfe.
Tomara que resista em sair da Casa Branca, em janeiro do próximo.
Se recusar-se, será tirado à força, escoltado pelo Exército, como previsto nas leis americanas.
E se for retirado sob escolta, e além disse metido numa camisa de força, muito melhor.

Fonte: Espaço Aberto.

Cemitério: um lugar de encontro e memória- Crônica de Fernando Canto

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Crônica do sociólogo Fernando Canto

No cemitério todos estão iguais: mortinhos. Mas as pessoas que o visitam no Dia de Finados estão ali para reverenciar os mortos pelas suas qualidades, pela saudade que ficou, pelo respeito à obra que deixaram ou pelo amor que ainda paira na lembrança.

Assim o cemitério torna-se um lugar da memória porque ali cada lápide é uma imagem que enclausura um objeto de representação social ou familiar. E a presença dos parentes e amigos não só traz o significado do respeito e da fé religiosa como também o da mudança que se opera em todos os homens e mulheres diante da inflexibilidade da morte. Torna-se também lugar de oração, culto e reflexão.guADUcn23tc

Embora já não represente mais tanto mistério nem incuta mais tanto medo, o “campo santo” no centro da cidade é apenas mais um dos tantos aparatos urbanos encravados e irremovíveis que chegam a causar muitos problemas para as administrações municipais. Principalmente os de natureza ambiental, porque o chorume humano polui densamente os lençóis freáticos das suas redondezas, algo semelhante quando combustíveis como óleos ou gasolina penetram no subsolo.

cemiterio (1)É um lugar democrático: defuntos de todas as classes sociais estão enterrados nele. É um local frequentado por pessoas de todo tipo, que expressam seus sentimentos das mais diversas maneiras. Há fanáticos, por exemplo, que se atrelam a um devocionismo doentio, pois crêem que determinado defunto faz milagres e por isso pedem o que querem e inundam seu túmulo com plaquetas de agradecimento “pela graça alcançada”. Já vi homens virarem santos por obra e graça dessa morbidez que povoa a cabeça dos devotos. Vi pessoas serem homenageadas com pompas fúnebres pela ilibada condumeninos-rosto-pintado-dia-de-mortos-xcaret-mexicota pessoal e profissional que tiveram, assim como já vi impropérios atirados a assassinos mortos pela polícia e a um político que a vida toda enganara eleitores e a família. Soube, inclusive, que nos anos 60 muita gente soltou foguetes no enterro de um delegado famoso por sua perversidade para com os presos.

O cemitério também é um lugar de encontro dos amigos. Ora, depois de uma rezada básica e uma vela acesa para os parentes, antigos amigos que hoje só se encontram no dia das eleições ou numa decisão do campeonato amapaense, se cumprimentam e se põem a conversar sobre conhecidos que já morreram. Então vêm à tona inesquecíveis episódios e velhas piadas sobre eles. A memória se reacende e traz de volta à vida o homem e sua conduta, mesmo que lhe reste apenas o pó dos ossos sob a lápide.544aa3a500447

A conversa gira sobre os assuntos mais banais: desde a vizinhança de túmulos de entes queridos aos preços cobrados pelos coveiros que estão “pela hora da morte”; desde os “bons e velhos tempos” às doenças enfrentadas por eles (principalmente o diabetes) e as consultas periódicas aos médicos; desde aos planos mais mirabolantes às tentativas de convencimento a votar em certo candidato.Cemitério

Em que pese a gritaria e o comércio de ambulantes que quase não deixam as pessoas passarem na frente do cemitério, a homenagem aos mortos passa a ser um acontecimento um tanto quanto banalizado pela força do capital que se instaura em qualquer lugar, seja onde for. Alguém vai sempre lucrar com isso. E como a morte rende… Não é à toa que cada vez mais aumenta o número de vendedores e de produtos diversificaddownload-3-300x160os nas proximidades das necrópoles. Não é à toa que o comércio abre suas portas mesmo sendo feriado.

Não quero dizer que acho isso estranho, pois tudo muda, evolui. Mas lembro com certa saudade a programação musical da extinta Rádio Educadora Sãlula-engana-a-morte-orlandeli-181111-humor-politicoo José no dia de finados. O dia todo só tocava música clássica. Isso despertou em mim a curiosidade pelos eruditos que os padres italianos ouviam com prazer.

Cemitério é palavra que vem do grego, koimeterion, que significa “dormitório”. Como eu não quero ainda “dormir” na cidade dos pés juntos, prefiro me programar para ir até lá no dia dos finados, exercitar a memória e jogar conversa fora com os amigos.

Rita Barcessat gira a roda da vida. Feliz aniversário, querida amiga!

Rita Barcessat – Foto: arquivo Pessoal.

Quem lê este site, sabe: gosto de parabenizar amigos em seus natalícios, pois declarações públicas de amor, amizade e carinho são importantes pra mim. Neste vigésimo primeiro dia de outubro, Ana Rita Barcessat gira a roda da vida e rendo lhe homenagens.

Gabo-me de ser amigo de muita gente Phoda. Rita é uma dessas pessoas. Ela é professora universitária do curso de Enfermagem da Universidade Federal do Amapá (Unifap), Mestre em Laser na Odontologia e Doutora em Estomatologia e Patologia Oral pela Universidade de São Paulo (USP). Ela é reconhecidamente uma profissional competente, estudiosa imparável (como diz o amigo Fernando Canto, no sentido de nunca parar) e responsável.

Com a querida Rita, na Banca Rios Beer.

Ela também é sócia-proprietária do melhor pub de Macapá, a Banca Rios Beer Cervejaria, leitora da carcaça alheia (com diagnóstico mais rápido que foto polaroide), pois domina a técnica do “corpo explica”, melhor fazedora de tábuas de frios desta cidade no meio do mundo, visão estrategista política e filosofa de bar, ativista, humanista, feminista, humorista de rodadas, às vezes doida varrida, noutras sábia visceral, gaita, geniosa, às vezes malaca, sempre descolada sagaz, maluca das antigas, meio bruxa e broda deste editor. Ufa! Ela é caralhenta mermo!

Nesta linha, como tudo que se propõe a fazer, Rita é uma mulher mãe de família. Ela desempenha com maestria os papéis de esposa do também Igor Maneschy, mãe do Matheus (ambos também brothers), Caique e Marina (a estrela do clã), além de outra cria à caminho.

Barcessat é culta, amante de vinhos, Rock and Roll, bem humorada e desencanada. Ao mesmo tempo é brava, desconfiada, e cirúrgica em suas colocações. Uma mulher autêntica, ultra-inteligente, agradável, coerente, gente boníssima, comprometida com os seus (sejam amigos ou familiares) e uma figuraça que gosto de ter por perto.

Igor, Rita, Caique, Matheus e Marina – Foto: arquivo Pessoal.

Ela e o marido são meus mais novos queridos amigos. Acredito que nosso consideramento é mútuo, já que eles tratam este gordo de forma espetacular. Já contei, mas vou repetir. Conheci o casal em 2000, há 20 anos, quando eles iam a um boteco chamado “Lokau”, lá no bairro Santa Rita (próximo ao São Camilo), onde só tocava rock. Essa bar era meu e do grande amigo, Edmar Santos, o “Zeca”. Eu os achava um tanto boçais – meio pavulagem, para dizer a verdade. Ledo engano (a Rita disse que “isso mostra que não tenho bom feeling pra gente boa”). Foram necessárias quase duas décadas pra eu sacar que eles são demais paid’éguas.

Conversas sempre excelentes na companhia de gente safa e porreta. Com Rita e Igor, na Banca Rios Beer.

Com suas tiradas sagazes e irônicas, critica os manés de forma que eles, às vezes, nem sacam. Cheia de ditados e colocações meio regionais e meios sarcásticas, Rita emplaca, malandramente e caralisticamente, suas opiniões difíceis de rebater. Aí tem argumentação, tedoidé!

Inteligente e politizada (do jeito certo), com a Rita (e Igor) já curti muitas noitadas incríveis no super bar dela do que posso lembrar. A gente dá e recebe brodagem de forma recíproca. Seja dividindo cervejas, falando bobagens legais ou conversando sobre assuntos sérios. Afinal, já resolvemos os problemas de Macapá, do Amapá, Brasil e mundo várias vezes em nossos incontáveis papos porretas nas madrugadas que dividimos.

Com a querida Rita, na noite de autógrafos do meu livro, na Banca Rios Beer – Foto: Sal Lima.

Resumo da ópera (rock), esse texto é um registro da minha admiração, repeito e amizade por Rita Barcessat. Pois ela é uma mulher e tanto.

Rita, querida amiga, que teu novo ciclo seja ainda mais paid’égua. Que sigas com essa garra, sabedoria, coragem e talento. Que a Força esteja contigo. Saúde e sucesso sempre. Parabéns pelo teu dia. Feliz aniversário!

Elton Tavares

Os motivos de eu escrever… – Crônica de Elton Tavares

Crônica de Elton Tavares

Escrevo ao longo dos últimos 14 anos. Dez deles para este site, que já foi um blog. Sempre tento me ater à verdade. Redigir textos onde dados e fatos me levam. Com exceção de sandices, devaneios e contos, que são escritos mágicos para mim. Pois ficção exercita a criatividade.

Um dia, há alguns anos, me perguntaram: “Elton, porque você perde tempo com esse papo de blog. Porque não faz algo útil com o tempo gasto nessa página de besteiras”. Neste instante, consegui evitar um surto psicótico e palavrões a esmo para o meu questionador.

Aí expliquei para o pateta porque escrevo. Escrevo porque amo a noite, futebol, samba, rock and roll, minha família, meus amigos e amo ser eu (com todos os defeitos e chatices), não necessariamente nesta ordem, claro. No meu caso, leituras alternativas tornam o dia menos tedioso. Principalmente quando tais escritos são sobre cultura em geral.

Gosto de usar um senso de humor cortante nos meus textos para este site, assim como muita nostalgia, sentimentalismo barato (que pra mim é caro), transformar relatos em memória da minha cidade, do meu estado. Vez ou outra, até fazer velhas piadas com novos idiotas, ser um tanto antipático, chato ou adorável encrenqueiro. E sempre amoroso com minhas pessoas do coração. Sim, gosto disso.

Certa vez, li a frase: “escrever não é desistir de falar, é empurrar o silêncio para fora”, do poeta Fabrício Carpinejar. É esse o papo mesmo; escrever é uma válvula de escape, vicia e extravasa.

Escrevo até sobre o que finjo que acredito. Sabe aquelas pequenas porções de ilusão e mentiras sinceras de que o Cazuza falou? Pois é. Às vezes, detritos do cotidiano, grandeza desprezada, coisas bobas que parecem socos na cara – é bem por aí.

Mas gosto muito mais de escrever sobre o amor, sobre atitudes legais, sobre manifestações públicas de afeto e sobre pessoas admiráveis. Falar ou escrever sobre positividade é tão melhor.

Antes redigia um texto ou mais por dia – e com muita facilidade. Agora, a falta de tempo e os períodos de entressafra de inspiração tornam os autorais mais raros. Quem dera fosse só querer e baixasse o espírito de Rui Barbosa, Charles Bukowski, Mário Quintana, Drummond ou do meu amigo Fernando Canto, e eu começasse a redigir como um gênio. Seria firmeza. Acreditem, um dia lançarei um livro de crônicas e contos.

Em tempo, escrevo para não deixar meus pensamentos parados. Queria poder escrever como Carlos Drummond de Andrade, que disse: “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.

Como não dá, sigo rabiscando minhas certezas, achismos, incertezas, chatices, amor, entre outro tantão de coisas que vivem neste meu universo particular que gosto de expor aqui. E fim de papo.

Elton Tavares

* Crônica republicada.

Minhas ausências involuntárias

Não fui na casa da minha avó paterna neste fim de semana passado. Já faz quase uma semana que não nos vemos. Estas “ausências involuntárias” são muitos ruins. Se você se ausenta, some por algum motivo, é uma coisa, mas por razões que fogem ao seu controle é bem triste, principalmente quando quem sente sua falta são as pessoas que você ama.

Eu deveria, por exemplo, me organizar para ir ver mais vezes os meus corações que moram em Belém (PA), periodicamente. Falo da minha sobrinha, irmão e cunhada, além da querida amiga Rita. Mas por pura falta de empenho, isso não acontece.

Essa rotina frenética nos afasta de muita gente importante, às vezes chego cansado do trabalho, tomo um banho e vou direto para cama. Mas nunca esqueço de quem amo. Às vezes, já tarde da noite, penso: “eu poderia ter ao menos telefonado hoje, mas agora já não dá mais tempo ”.

Um dia, encontrei um amigo do passado e comecei a me perguntar: por que nos afastamos? Não encontrei motivo algum, foi a vida, nossas prioridades e escolhas, mas o cara ainda é “considerado” um amigo querido. Doideira, né?

Graças a Deus (ou seja lá o nome Dele), tem muita gente que gosta de mim, já passei por diversas turmas, tenho velhos e bons amigos. Quando encontro alguns deles, seja em Belém ou Macapá, sempre rola aquele papo: “pô, vamos marcar algo, será muito legal”. E nunca acontece o tal encontro, falamos tudo da boca para fora, involuntariamente.

Meu falecido pai um dia me disse: “temos que dizer para as pessoas que amamos que as amamos hoje, amanhã pode não ser possível”, concordo.

É isso mesmo. Preciso urgentemente visitar pessoas queridas, prestigiar aniversários e ir a festas de gente que gosta de mim. Tudo isso parece simples, mas, por algum motivo, às vezes deixo de lado. Não sei vocês, mas preciso dar um jeito nas minhas ausências involuntárias.

“O amor calcula as horas por meses, e os dias por anos; e cada pequena ausência é uma eternidade” – John Dryden.

Pensem nisso e tenham uma ótima semana.

Elton Tavares

*Republicado pelo mesmo motivo.

Sobre o Dia das Crianças, minha infância e minhas crianças

Eu, em 1978, gitinho.

12 de outubro é Dia das Crianças e nós festejamos nossos pequenos grandes amores. Também voltamos no tempo com fotos e muita memória afetiva. É impossível contabilizar os benefícios que recebemos de nossos pais, particularmente na infância. Quando moleques, meus pais deram a mim e ao meu irmão Emerson uma infância fantasticamente feliz. Meu coração bateu mais rápido só de lembrar daquela época.

Com Emerson e nossos maravilhosos pais.

Sinto saudades do futebol de botão, luzes e sons de fliperamas, jogar bola e brincar na piscina da Associação Atlética do Bando do Brasil (AABB), entre centenas de coisas que fazia com meu irmão caçula. Hoje em dia, bebemos, viajamos e curtimos tudo que a vida permite juntos e rimos orgulhosamente do que vivemos.

De certa forma, continuo um moleque. Não por falta de responsa ou atitudes imbecis, mas pelos gostos dos tempos crianças. Ainda assisto desenhos animados, jogo videogame e amo brinquedos. Graças a Deus!

História da data

A data visa homenagear as crianças e foi proclamada pela primeira vez durante em 1925, na Conferência Mundial para o Bem-estar da Criança, realizada em Genebra. A ONU reconhece o dia 20 de novembro como o Dia Mundial da Criança, por ser a data em que foi aprovada a Declaração Universal dos Direitos da Criança em 1959 e a Convenção dos Direitos da Criança em 1989.

No Brasil, o dia das crianças foi solenizado em 12 de outubro somente em 1960, quando a Fábrica de Brinquedos Estrela fez uma promoção conjunta com a Johnson & Johnson para lançar a “Semana do Bebê Robusto” e aumentar suas vendas, é que a data passou a ser come morada. Deu tão certo que, no ano seguinte, os fabricantes de brinquedos decidiram escolher um único dia para a promoção. A partir daí, o dia 12 de outubro se tornou uma data importante para o setor de brinquedos e doces no Brasil.

Nunca fui bom com crianças, nem com brincadeiras infantis com filhos de amigos. Na verdade, a primeira que gostou de mim foi a Sofia, minha primeira afilhada (já é uma moça linda). Também sou padrinho da Maria (pequena lindeza), elas duas são amadas por mim. Mesmo eu sendo, com o perdão do gerúndio, um dindo relapso e ausente. Mas se elas precisarem de mim, podem botar fé que farei o meu melhor.

Mas quando nasceu a Maitê, alguma coisa floresceu dentro de mim. Nunca vou esquecer-me daquele momento, quando conheci Maitê Ferreira Tavares, minha linda sobrinha, que na época tinha de somente um mês e 11 dias de vida. Foi amor a primeira vista e eu queria estar perto dela hoje e sempre.

Maitê, minha sobrinha (mas como se fosse filha). A dona do gordão aqui.

Depois disso, entendo os meus amigos que tem filhos, entendi o sentimento dos meus pais e olho diferente para crianças. E amo “a pureza da resposta das crianças”, elas são realmente um barato. Incrível como pequenos seres despertam os melhores sentimentos em nós, adultos de coração duro. Devem ser algum tipo de fio condutor de Deus para conosco. É, os pirralhos são mesmo mágicos, a magia do amor!

Portanto, que Deus abençoe todas as crianças!

“Todas as pessoas grandes foram um dia crianças. Mas poucas se lembram disso”, disse o escritor Antoine de Saint-Exupéry, no livro Pequeno Príncipe.

Elton Tavares

O poema e a prosa – Crônica de Lulih Rojanski

Crônica de Lulih Rojanski

É muito mais fácil ler um poema do que ler uma crônica. O poema já vem com o apelo visual das poucas palavras, basta colocar os dois lado a lado para que o leitor preguiçoso não tenha dúvidas e escolha rapidamente o poema. O mesmo acontece com o conto: tem enredo, narrador, personagens, tempo e espaço, é muita coisa para quem não compreende a verdadeira magia da literatura. As poucas palavras do poema têm a vantagem do efeito concentrado, em menos de um minuto o leitor pode degustar uma peça de raro prazer. Aí está uma das mais importantes funções da literatura, a fruição, o prazer, o gozo. O poema, quando é bem escrito, ou seja, quando realmente tem poesia, proporciona a fruição imediata. É como colocar um doce sobre a língua úmida. O prazer da prosa é mais lento, vai surgindo na medida em que se vai tomando ciência dos acontecimentos, em que ela vai envolvendo a curiosidade, a afetuosidade, a capacidade de raciocínio e a intuição do leitor. É como comer o mesmo doce em pequenos pedaços.

Confesso que não sei escrever poemas. Escrevo breves versinhos para saciar o gosto dos seguidores de minha fanpage que apreciam as frases existencialistas, espiritualistas. Talvez um dia consiga escrever frases como as do célebre Rubem Alves, um dos maiores cronistas que o Brasil já teve, ganhador do Jabuti com seus livros de crônicas e que jamais se importou de ser conhecido como um frasista. Suas frases se encaixam na categoria espiritualista.

Voltando, não sei escrever belos poemas, mas sei escrever belos contos e crônicas, em linguagem de que jamais abrirei mão, aquela que se utiliza de recursos emocionais, de humor e outros ingredientes que proporcionam prazer, pois me recuso à linguagem seca dos autores que surgem aos punhados nas plataformas digitais e até mesmo nas prateleiras das modernas livrarias, como se fossem tudo o que a literatura tem a dizer nos tempos atuais. “Vão todos para o caralho” diria qualquer personagem de García Márquez, com toda a razão. Mas com tanta coisa que vêm sendo produzida, talvez consigamos resgatar a literatura capaz de proporcionar o verdadeiro encantamento, aquela cuja prosa nasceu no mesmo ventre da poesia e andam as duas se confundindo pelas páginas, inundando a alma e transbordando os olhos dos leitores como um rio que flui às vezes silencioso e manso, às vezes intempestivo.

Não acredito, porém, no valor maior de um gênero sobre o outro. Literatura é literatura. Apenas gostaria que o leitor tivesse, para ler um conto, a mesma disposição que tem para ler um poema. Tenho uma tendência clara a gostar mais da prosa porque só sei escrever em prosa, mas não é por isso que me daria à indelicadeza de desmerecer a poesia. Assim como um poeta não tem o direito de dizer que conto não é literatura. Porque se este poeta estiver certo, a gente precisa imediatamente avisar os vivos e os mortos: Edgar Alan Poe, Franz Kafka, Charles Dickens, Guy de Maupassant, Tolstói, Voltaire, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca, Moacyr Scliar, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, etc.

Há seis anos, foi extinto o Orkut, o nosso primeiro hospício virtual

O Google matou (desativou) o Orkut há exatamente seis anos. O site, criado em janeiro de 2004, pelo engenheiro de software turco Orkut Büyükkökten, foi uma febre no Brasil, assim como o Facebook e Instagram. Aliás, os brasileiros foram os recordistas de adesão. Em dezembro de 2011, ele foi substituído pelo “Feice”, que deu as caras por aqui em português.

Aí, por causa dessa parada, fui ao meu antigo “profile” Orkut salvar fotos velhotas. Bateu logo saudades. A nostalgia foi um misto de alegria e tristeza. Amigos que já partiram para outro plano, outros que não são mais amigos e aqueles que foram embora de Macapá. Momentos felizes eternizados nas imagens, manifestações de carinho, etc. Coisa louca saporra de lembrança virtual que mexe com a memória afetiva.

Lembro que para entrar no Orkut, ainda em inglês, era preciso um convite de um amigo. Depois traduziram a rede social e você já podia criar um perfil sem ser convidado. Fui expulso do site três vezes. O motivo? Discutia nas comunidades, me divertia com a polêmica dos assuntos banais que rolavam nas comunidades mais inusitadas.

Só que o Orkut não era só guerrinha pra tirar barato com as minhas idiotices e futilidades (minhas e dos outros), mas também umas paradas bacanas. Para encontrar pessoas então, era uma espécie de Interpol.

Lá, escrevi e recebi “scraps” (recados) de amor, amizade, elogios e “testimonials” (depoimentos) bacanas. Muitas juras para sempre (que sempre acaba). No Orkut encontrei uma velha amiga que acabei namorando por cinco anos. Por causa dele, eu e outra moça que namorei, quase nos matamos. Ciúme virtual nem é uma coisa tão das antigas assim. Não no meu caso (risos).

O Orkut foi o nosso primeiro hospício virtual. Foi um lance paid’égua, apesar de dizerem que a “orkutização” seja uma grande babaquice, todos nos divertimos (e muito) por lá. Sim, aquela parada foi legal pra caramba. Valeu!

Elton Tavares