MEMÓRIA – BEBÉ TACACAZEIRA – Por João Silva

Dona Bebé, ou a Bebé Tacacazeira – Foto: Blog do João Silva

Por João Silva

Dona Bebé no preparo do tacaca que virou uma tradição de 43 anos no canto da Igreja de São José

Poucas pessoas do povo dentre aquelas que frequentavam ou não sua banca de delicias, sabiam seu verdadeiro nome, Raymunda Cezarina Rodrigues de La-Rocque, a dona Bebé, ou a Bebé Tacacazeira, nascida no dia 02 de abril de 1934, em Bailique, Distrito de Macapá, filha Mário Palha Rodrigues e Raimunda de Carvalho Rodrigues, mais conhecida como Dona Dica. Bebé contraiu nupcias com o paraense Alfredo Luiz Duarte de La-Rocque, pioneiro do Território Federal do Amapá, funcionário público aposentado, no dia 15 de março de 1957, em Macapá.

O casal teve três filhos, todos homens: Abel Rodrigues de La-Rocque (2 de setembro dse 1958), técnico em eletrônica formado pela escola Técnica Federal do Pará; Sérgio Roberto Rorigues de La-Rocque, engenheiro quimíco industrial pela UFPA, atual secretário de transportes do Governo do Amapá (09/12/1959); Luiz Jorge Rodrigues de La-Rocque (30/08/62), escrivão de polícia, técnico em contabilidade pelo Colégio Comercial do Amapá.

Dona Bebé, Raymunda C ezarina Rodrigues de La-Rocque estudou no Educandário Antônio Lemos em regime de internato até sua formatura, quando retornou à Macapá mais ou menos em 1948; foi contratada pela casa Leão do Norte, trabalhando como auxiliar da gerente, dona Clemência até seu casamento.

Em 1962, morre a mãe de Raymunda Cezarina Rodrigues de La-Rocq(Bebé), dona Dica, que começara com venda de tacacá e outras delicias, como vatapá, caruru, beijo de moça, cocada na Praça Veiga Cabral, sob uma das imensas mangueiras que foram retiradas do leito da Rua São José. Bebé então assume o lugar da mãe e a banca se desloca para o canto da Igreja de São José, de onde só saiu, doente, para falecer no dia 5 de março de 2004, em Belém do Pará.

Dona Bebé – Foto: Tribuna Amapaense

Em 43 anos de trabalho, Bebé transformou o tacacá da família Rodrigues de La-Rocque, e outras delicias que vendia ao cair da tarde, em um atrativo da cidade de Macapá. Seu corpo, em reconhecimento à sua figura carismática, foi velado no Plenário da Câmara Municipal, e foi sepultada no Cemitério de Nossa Senhora da Conceição, no mesmo mousoleu da sua genitora.

Bebé atendia todos os seus fregueses muito bem, e pela ordem de chegada, sem distinção. Sua banca funcionava de segunda a sábado, na calçada do prédio da Diocese, local em que se instalaram as Livrarias Paulinas, e tinha um público eclético: ia de governador, juiz, promotor, deputado, até o povão. Ela conversava muito pouco enquanto trabalhava, e guardava a sete chaves os segredos que faziam do seu cardápio de comidas típicas uma gostosura que os macapaenses jamais irão esquecer. Ah, outra coisa: quando estava de folga não gostava de conversar sobre o seu trabalho…”Aqui eu sou outra Bebé, não sou a Bebé Tacacazeira”.

Meu comentário: eu ia muito na banca de tacacá da dona Bebé, na Macapá anos 80 e 90. Sempre levado pelos meu pais, Zé Penha e Maria Lúcia. Bons tempos!

* João Silva é jornalista amapaense. Esse texto sobre a querida dona Bebé foi achado no blog homônimo a ele.

Frases, contos e histórias do Cleomar (Edição Especial Coronavírus)

Tenho dito aqui, desde fevereiro de 2018, que meu amigo Cleomar Almeida é cômico no Facebook (e na vida). Ele, que é um competente engenheiro, é também a pavulagem, gentebonisse, presepada e boçalidade em pessoa, como poucos que conheço. Um maluco divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade, além de inventor do “PRI” (Plano de Recuperação da Imagem), quando você tá queimado. Quem conhece, sabe. Desta vez, a publicação é Edição Especial Coronavírus.

Saquem o capítulo dos disparos virtuais do nosso pávulo e hilário amigo sobre situações vividas em tempos de Covid-19. Boa leitura (e risos):

Descrédito

Aquela segunda-feira que tu tá mais sem moral do que o Aedes Aegypti, depois que apareceu o Coronavírus.

Corrida aos supermercados

Queria saber o tamanho da geladeira desse povo que corre pra o supermercado pra comprar tudo. Deixa de doidice viado!

Isolamento

Se o Coronavírus não acabar com meu casamento, não tem cão no mundo que acabe.

Quarentena

Já tô a tanto tempo dentro de casa, que os carapanãs daqui, passam por mim e fazem cara de nojo.

Pronunciamento do Bozo

Aí eu te pergunto, vais confiar nos médicos, cientistas e pesquisadores, ou no retardado? E outra coisa, atleta de cu é rola!

Quarentena II

Se me perguntar se quero ir pra rua: Claro que quero.
Se me perguntar se eu vou: Claro que não, ainda não tô doido!

OS ZUMBIS E O MENTECAPTO – Por Fernando Canto

PREÂMBULO

Escrevi o texto abaixo na véspera da eleição do segundo turno para presidente da República (28 de outubro de 2018) e por isso mesmo fui muito criticado pelos bolsonaristas de então que festejaram a vitória do seu candidato por dias e noites, até a posse e depois dela.

Por eu ser um democrata que sempre se manifestou contra qualquer governo tirano, seja ele de qualquer viés ideológico, vi que fiz uma análise sobre o quadro eleitoral que se interpunha entre o caminho democrático do país e as possíveis ações políticas de extrema direita propostas pelo então candidato que ela representava. Com sua vitória foram inevitáveis as críticas expressas nos sorrisos irônicos dos meus colegas de trabalho, de bar e até de familiares.

O quadro eleitoral de então não me fez vidente, mas me fez vislumbrar sociologicamente o que seria o país na mão de um homem despreparado como o eleito, que chamavam até de “mito”.

Hoje, após seus pronunciamentos infelizes nos meios de comunicação, vejo que eu estava certo ao escrever o texto abaixo, sendo que sua fala, ontem, em rede nacional, me fez considerá-lo mais que um mentecapto e ter a certeza que sua imbecilidade diante da grave condição epidêmica do corona vírus que grassa no país, é o top da irresponsabilidade política contra os cidadãos brasileiros. Sobre os seus seguidores zumbis arrependidos, que engulam o seco de seus interesses políticos e econômicos.

Para terminar este prólogo, informo que por todos estes meses aceitei o novo presidente, mesmo sabendo que ele não é o ideal para o Brasil, pois sempre fui a favor da alternância dos poderes, desde que eles não se tornem formas espúrias de governar nosso país, como me parece agora, se transformando de forma negativa nas mãos de um maluco e seus apaniguados políticos. Isso nunca mais, ainda que o vírus da ignorância continue grassando nos pulmões dos brasileiros pela contramão da História (F.C.).

Darth Sidious – Filme Star Wars

OS ZUMBIS E O MENTECAPTO

Por Fernando Canto

A palavra opinião tem a ver com conceito, ideia, doutrina, crença, capricho, juízo, reputação, parecer e até modo de pensar. Filosoficamente é uma atribuição de verdade ou falsidade, mas não é certeza. É uma asserção não-objetiva nem subjetiva. Entretanto, também é um ponto de vista que pode se tornar ideologia a partir de sua frequente manifestação entre grupos que se ligam sem a presença física e que se sustentam mais pela propaganda que lhes é incutida do que pela certeza ou pela objetividade dos seus valores implícitos.

Filme Guerra Mundial Z

Na minha opinião, grupos de opinião que estão à direita da História, que cultuam valores odientos do passado, estão fadados a cair como as pedras de dominó enfileiradas após a queda da primeira ou como as balizas de madeiras em feitio de garrafas, do jogo de boliche ao primeiro toque sutil da bola. E é exatamente nesses grupos que me detenho para falar das eleições que amanhã vão mover o país, já crucificado por um governo espúrio, que se move sub-repticiamente em suas últimas ações de conchavos políticos no palácio do Planalto e entre os que saem e os que entram no Congresso Nacional. É a espera de um novo palimpsesto histórico que se repetirá mais uma vez como farsa, se por acaso venha a ganhar o pleito.

Filme Guerra Mundial Z

Porém, a ordem hoje é superar dialeticamente o que pode vir de ruim daqui para a frente, pois Lord Vader e os outros prepostos do Imperador estão na linha de frente, no front de uma saga indubitavelmente cruel para o nosso país, onde os influenciáveis soldados vão a loucura com as “propostas” emanadas por um pretenso líder de um exército de zumbis. E de um mentecapto tudo pode se esperar, principalmente se no seu grupo disseminador de ideias estão presentes outros paranoicos que em tudo veem a possibilidade de destruir para tentar construir novamente a seu modo.

Darth Vader – Filme Star Wars

Entretanto e por outro lado, o contágio pode ser do vírus da esperança, do vislumbre de novos avanços e de uma democracia onde as aporias fiquem apenas no campo filosófico e do diálogo e não no estouro de um disparo que poderá ferir o sonho conquistado e transformá-lo em pesadelo permanente.

Filme Star Wars

A tensão visceral provocada pelas falsas notícias não poderá abalar as mentes lúcidas, a não ser que penetrem a fundo naquelas predispostas a terem vertigens provocadas pelo impacto esterilizador da vontade. E isso o mentecapto e seu grupo de lobos faz bem, diga-se assim.

Filme Star Wars

Mas não será por isso que serei impedido de sempre sonhar com a evolução da nossa democracia à brasileira, impermeável que estou às agruras políticas, e reflexivo diante do “espelho da fraternidade cósmica, que é a sociedade humana”, ou de um poema, no dizer de Octávio Paz.

Photo Illustration by Elizabeth Brockway/The Daily Beast

Dos discursos de resistência dos difíceis tempos em que fui guardião, com meu canto solitário e quase anônimo, hoje também estou diante do nascimento de um poder ameaçador com suas engrenagens reificadoras que deterioram a natureza humana e as potencialidades dos homens. Entretanto, tenho a ESPERANÇA de milhões de homens e mulheres e crianças que acreditam que ela seja fundante, construtiva e alicerçante, e que é capaz de ser partilhada com os eleitores sensatos, meus semelhantes brasileiros, amanhã, ainda que o barulho das armas de fogo ensurdeça os zumbis do mentecapto.

Filme Star Wars

Pela liberdade, que a Força esteja conosco!

DE QUE MORREU LÁZARO? – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Olhou os dois camelos no chão, lado a lado, babando e estrebuchando, como se picados por cobra. Mas ali, não havia cobras. Adiante, os demais que ele separara de manhãzinha estavam moribundos. Puxou a barba até sentir dor. Era assim que fazia quando muito preocupado. Com esses, já eram seis animais que adoeciam e morriam sem que ele pudesse fazer alguma coisa. Um deles era de Madalena. Nem havia contado para ela. Há dias não via a irmã. Estava apaixonada pelo novo profeta. Andava por toda a Galileia seguindo Nazareno.

Abaixou-se próximo aos animais e fez-lhes beber a infusão que preparara. Ficou apertando os focinhos até que engolissem. Estava sozinho. Todos tinham ido ouvir Nazareno, inclusive sua mãe que fazia oferendas de animais vivos ao Bezerro de Ouro do Templo. Partira com suas irmãs para ouvi-lo pregar.

Afastou-se dos animais, entrou na cabana e deitou-se. Pensou na possibilidade de Nazareno saber um remédio para curar a doença dos camelos e, assim, fazê-los sarar. De uma feita, encontrara o junto com seus seguidores em uma festa de casamento. Pareceu-lhe um homem despojado, apesar da grande fama de profeta. Madalena, em determinado momento, o pegou pela mão e levou-o até onde estavam sentados.

“- Este é Jesus.”- disse. Abraçou-os, como costume da região, mas não ficou entre eles. Soube que a certa altura da festa faltara vinho e ele enchera os tonéis com água e a transformara em vinho. E dos bons, pensou, lembrando se de como saíra da festa. Fora levado, como um menino, pelas mãos de Marta. O engraçado era que toda a vez que se lembrava de Nazareno, era invadido por uma sensação estranha, como se ele estivesse próximo. Podia sentir um cheiro de alfazema, contrastando com o cheiro de camelo que sentia em si mesmo. Passou a mão na cabeça. Suava muito. Estava calor, mas sentia muito frio. Puxou a pele de cabra aos pés por cima do corpo e enrodilhou-se todo. Quando amanheceu de novo, um cheiro fétido veio lá de fora. Com certeza os animais haviam morrido. Tinha que se levantar e enterrá-los. Logo seus corpos atrairiam os abutres. Sentiu que não tinha forças. Olhou para os pés inchados, sentiu a boca seca, e o corpo cheio de nódulos. Estava doente assim como os camelos. Esforçou-se para chamar alguém. Porém estava só. Pensou gritar por Madalena. E gritou em pensamento bem alto!

Dias depois, apreensivas, elas de longe avistaram o redemoinho dos abutres sobre os animais. Os dois camelos sobreviventes deitados moribundos sedentos. E dentro da cabana estava Lazaro. Semi coberto. Hirto. Morto. Devia estar assim há mais de três dias. As feridas já estavam cheias de vermes. As mulheres se desesperaram. Quem as iria sustentar? Mantinham-se pelo trabalho dele no trato com os animais. Trabalho de homens.

Madalena tomou de volta a trilha. Tinha que encontrar o Nazareno e convencê-lo a ver Lazaro. Já o assistira erguer os aleijados, aprumar os tortos, dar luz aos cegos, fazer ouvir os surdos. As outras mulheres ficaram umedecendo Lazaro com óleos numa tentativa inútil de amenizar o ressecamento que lhe apergaminhava. Ela o encontrou na casa de um dos Escribas que lhe dera pernoite, sem cansar de ouvir admirado as palavras que saiam de sua boca. Os guardas levaram Madalena até o interior da casa. Madalena contou o que se passara com os animais e com Lazaro.

“- Descanse um pouco.” – disse-lhe. “- Logo vamos.” Deram-lhe água fresca e alimentos. Partiram antes da quinta hora. O Escriba fez questão de ir. Seguiu com um séquito de mais de trinta empregados. Andaram rápido, porque Nazareno, acostumado a caminhar longos trechos, andava a passos largos. Ao se aproximarem, podiam sentir o cheiro forte dos animais. As mulheres tinham jogado terra sobre eles sem, contudo, enterrá-los. O escriba derramou óleo perfumado sobre as vestes antes de descer na porta da cabana. As mulheres se afastaram e Nazareno sentou-se ao lado de Lazaro que estava escurecido, todo molhado de óleo, encolhido em torno de si. O escriba e todos os outros com panos na mão cobriam o nariz. Ele olhou Lazaro coberto da cabeça aos pés, colocou seu rosto sob a pele de cabra que o cobria e o chamou soprando em seu ouvido, como se lhe contasse um segredo. Um vento trouxe uma poeira fina do terreno ao redor que encheu o cômodo. O cheiro fétido sumiu e surgiu um cheiro de alfazema, estranhamente, vindo do quintal junto com a fina poeira que invadiu o lugar onde estavam. Lazaro continuou a gritar por Madalena. Era como se estivesse com a boca cheia de tâmaras e vinagre em um tempo só. O pior é que tudo estava longe e perto ao mesmo tempo e o olhar parecia olhar e não entender o que olhava. Tudo parecia galopar rapidamente em seu pensamento de frente para trás. Foi ficando mais forte o cheiro de alfazema e quando abriu os olhos, sentiu a presença dele ao seu lado.

Antes de olhar seu rosto, sabia que ele ali estava presente. Abriu os olhos. Ele realmente estava sentado ao seu lado com a cabeça encostada ao seu ouvido. Não o ouvia falar nada. Era como se o chamasse, sem dizer, uma palavra. Logo pensou. Estava surdo! Olhou espantado a multidão. E o que fazia ali toda aquela gente? Até um escriba em sua casa? Olhou para Nazareno, parecia que repetia seu nome, mas não percebia mexer os seus lábios. Os outros movimentavam a boca pareciam dar graças aos céus, aos gritos. Mas ele não escutava suas vozes, só enxergava suas bocas em movimento, seus pescoços túrgidos e suas mãos erguidas. Madalena veio em sua direção. “- Minha irmã!” – falou, mas nenhum som saiu. Estava mudo!

Nazareno levantou se do seu lado e foi em direção a porta. Os outros se ajoelharam. O escriba tomou sua mão e a beijou. Sua mãe e suas irmãs e os outros saíram com ele. Pareciam tão felizes… Sozinho, Lazaro tentou se erguer, mas estava muito cansado parecia ter caminhado muitos dias sem beber e sem comer. Pensou nos animais lá fora. Se Nazareno houvesse chegado antes teria ensinado uma poção para curá-los.

As pessoas foram se afastando no caminho de volta a Vila de Karfun. Porque tinham vindo ter com ele até sua casa? Pensou consigo sem entender nada. Enquanto levantava cambaleante em direção ao poço de água, ouviu o barulho dos camelos agora curados.

*Conto do livro Antena de Arame – Editora Rumo Editorial – 2ª Edição (2018) – São Paulo – Brasil.

Frases, contos e histórias do Cleomar (Parte VIII)

Tenho dito aqui, desde fevereiro de 2018, que meu amigo Cleomar Almeida é cômico no Facebook (e na vida). Ele, que é um competente engenheiro, é também a pavulagem, gentebonisse, presepada e boçalidade em pessoa, como poucos que conheço. Um maluco divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade, além de inventor do “PRI” (Plano de Recuperação da Imagem), quando você tá queimado. Quem conhece, sabe.

Na mesma linha da PRIMEIRA, SEGUNDA, TERCEIRA, QUARTA, QUINTA, SEXTA e SÉTIMA edições sobre seus papos no Facebook, mais uma vez selecionei alguns de seus relatos hilários na referida rede social. Saquem o sétimo capítulo dos disparos virtuais do nosso pávulo e hilário amigo. Boa leitura (e risos):

Papa

Se o Papa que é Santo perde o controle, avalie eu, que sou meio doido!

Governo Bozo

Esses bichos não gostam de professor, de estudante, não gostam de índio, de preto, não gostam de árvore, de funcionário público, não gostam de mulher, de viado nem pensar, não gostam de empregada doméstica. De onde saíram esses filhos de putas, que só sabem não gostar?

Não dá

Alguém avisa a moçada aí que não dá pra ser nazista, índio, negro e latino americano ao mesmo tempo.

BBB

Vendo o Piong levando esporro em rede nacional, lembrei de meu amigo Cayo Mira, que ainda ontem me dizia – “Negão, a birita antes de te matar, ela te humilha, te faz passar vergonha!!!”

Parasita

Se eu tivesse votado no cara, e o ministro dele viesse me chamar de parasita, eu ia ficar muito puto. Fica putinho não, tu não podes nem reclamar.

Samba e beleza

Sobre o Show do Diogo Nogueira, apesar de muita gente achar que somos muito parecidos, devo admitir, ele canta melhor que eu.

Prejuízo

Os eletrodomésticos aqui de casa parece que adivinham quando meu pagamento vai sair.

Vírus transfronteiriço

Eu morrendo de medo do Corona Vírus, afinal já chegou na França, logo alí, passando o Oiapoque.

Panemagem

Povo falando da abstinência no carnaval e aí eu te pergunto, na real, quantos carnavais faz que tu não comes ninguém? Preocupação desnecessária!

Blefo

Agora a pouco fui buscar minha filha no shopping e vi dois caras quase brigando por causa de uma vaga daquelas de beira de rua. Se tu não tens dinheiro pra pagar nem o estacionamento praga, o que diabos tu vais fazer no shopping? Tá liso, faz que nem eu, fica em casa miséria!!!!

Corona Vírus e Olimpíadas

Minha mulher vendo a reportagem sobre o Corona Vírus e o adiamento das Olimpíadas:
– Eu é que não iria pra essa Olimpíada.
– Ei bonita, não iria não, tu não vais, com ou sem Corona Vírus! ??

Bolsonaristas

Bicho, se tu és Bolsonarista, nem perde teu tempo mandando solicitação de amizade, aqui só terás aporrinhação.

Velocidade no diagnóstico do boato

O primeiro caso de Corona Vírus demorou quase dez dias pra ser diagnosticado em São Paulo, aqui em Macapá em duas horas a gente já confirmou. “A gente semos foda!”

Ronaldinho Gaúcho

Toda vez que você se sentir meio abestado, lembra do Ronaldinho, que usou um passaporte falso pra entrar no Paraguai.

Contículos Alados (rápidos lampejos geniais de Fernando Canto)

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Para Herbert Emanuel e Joãozinho Gomes

Eu via o mundo invertido quando passava na rua do poeta. Ele acenava do fundo da terra me pedindo um dracma de ouro.

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INSÔNIA

Para Carla Nobre

Sem dormir à noite toda fui cedo à padaria comprar um sonho.

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TRAVESSIA

Para Elton Tavares

Ao atravessar a faixa de pedestre só levantou a mão na hora do impacto.

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RUA DO POETA

Para Paulo Tarso

Cruzava a rua do poeta plantando bananeira para não pisar nem na lembrança.

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O CHOQUE

Para Jorge e Edelwais

Quando as pedras finalmente se encontraram viraram pó.

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PARTO

Para Luli Rojanski e Manoel Bispo

A torneira do jardim pariu seis gatos pingados. Acabara de chover.

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OVERLOOPING

Para Osvaldo Simões e Isnard Lima

O “encosto”, reclinado, frustrou a acrobacia de Mayra no monomotor. O voo foi tiro e queda.

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IMPÉRIO DOS SENTIDOS

Quando assisti “O Império dos Sentidos” a teu lado no Cine Orange, acreditei em definitivo que o ovo cozido é um alimento saudável. Que saudade de tua panela quente!

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ANSIEDADE

O cara é um paciente apressado.

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Foto: Gê Paula

BAIXA TESÃO

A lua iluminava tanto o céu de Macapá que os enamorados da Beira-Rio torciam por um eclipse.

Cai dentro, 2020. Feliz ano novo! (meus votos para todos nós, pois o futuro está ali, dobrando a esquina)

2020 está ali, dobrando a esquina. Que todos nós, eu, você e demais pessoas que estão lendo este texto, assim como nossos amores, sigamos saudáveis e sejamos felizes no ano que chegará logo. A vida boa e lôca. Só é feliz quem arrisca. Vamo com toda a força no novo ciclo.

Mesmo com todos os desafios, injustiças de toda ordem, homens e mulheres que xingam em nome de Deus e são obscuros adoradores de armas, sobrevivemos ao difícil 2019.

Sou grato aos meus companheiros de jornada, tanto os familiares, amigos e colegas de trabalho, quanto aos que me ajudaram e não estão inclusos em nenhum destes grupos citados. Fomos felizes em 2019, apesar de TUDO. A vida que construí e os momentos que compartilhei com pessoas que amo são tudo para mim. Agradeço de coração aos meus e, como diz o jornalista Luiz Melo: “obrigado por gostar de mim, apesar de mim”.

Que tenhamos luz e sabedoria para encarar as adversidades e os desalmados que certamente aparecerão no novo ciclo. E que nos esforcemos para sermos pessoas melhores que em 2020. Esse “vinte, vinte”, como disse uma amiga, será desafiador.

Que em 2020 tenhamos muito boa vontade, forças positivas, disposição e autoconfiança para corrermos atrás de tudo o que desejamos alcançar. Tenho certeza de que muita alegria nos espera no ano vindouro. Pelo menos a esperança nisso não é pouca.

Viverei 2020 como se fosse o último ano de minha vida, podem apostar (sempre faço isso). O ano novo promete. Que ele se cumpra então, que seja mágico/fabuloso e sem muitas aporrinhações. E quando fraquejarmos, que ainda haja amor e força para recomeçar.

Tomara que eu e você sigamos lutando por uma vida digna, menos ordinária, no combate a dias e noites tediosas, e cheia de amor. Ou paixões. Afinal, tudo depende de você. E se possível, sem “muitas fingidades”, como dizia Guimarães Rosa. E isso sempre contou pra caralho. E continuará contando sempre!

A todos os que fazem parte da minha vida e aos leitores do De Rocha, desejo um ano novo transbordante de amor e paz. Na hora em que os fogos explodirem no céu e o Ano Novo chegar, desejo que vocês estejam felizes, com boa comida, boa bebida e pessoas que amam.

O escritor Rubem Alves, no livro de crônicas intitulado “Pimentas”, disse: “a gente fala as palavras sem pensar em seu sentido. ‘Benção vem de bendição’. Que vem de ‘dizer o bem ou bem dizer’. De bem dizer nasce ‘Benzer’. Quem bem diz é feiticeiro ou mágico. Vive no mundo do encantamento, onde as palavras são poderosas. Lá, basta dizer a palavra para que ela aconteça”. Então, que Deus continue nos abençoando!

Boas energias, muita saúde e prosperidade. “Difícil de ver. Sempre em movimento está o futuro”, disse uma vez o mestre Yoda. 2020, vem com tudo, cai dentro! Feliz ano novo!

Elton Tavares

10 dias na estrada pelo Norte da América do Sul – Uma expedição musical pela Guiana Francesa e Suriname – Por Clicia Vieira Di Miceli

Pé na estrada! Joãozinho Gomes, Dante Ozzetti, Patricia Bastos, Nilson Chaves e Enrico Di Miceli a caminho do município de Oiapoque

Por Clicia Vieira Di Miceli

Aquilo que seria uma viagem a trabalho para um show na Guiana Francesa se tornou uma incursão cultural com destaque para a original música tocada, cantada e dançada ali no topo da América do Sul – Guiana Francesa e Suriname. Saímos de Macapá dia 2 de agosto, para uma viagem de 10 dias.

Mais que um meio de transporte, a van carregou a nossa disposição e a felicidade de estarmos juntos na estrada.

Percorremos o trecho até o Oiapoque em 8h e foram necessários mais 3h para chegarmos em Caiena, totalizando 11h de viagem por via terrestre da capital do Amapá até a capital da Guiana Francesa.

Uma foto clássica, registro de quem já está perto de chegar na fronteira Brasil – Guiana Francesa

O trajeto entre Caiena e Paramaribo também foram percorridos de maneira intercalada. Fizemos a rota entre as duas capitais em aproximadamente 6 horas, sendo 1h até Kourou, mais 3h até St Laurent du Maroni e quase 2h até a capital do Suriname.

Passamos um pouco mais de uma semana viajando entre um lugar e outro, que pela intensidade e riqueza do que vivemos, nos causou a sensação de estarmos bem mais dias juntos.

A placa marca a entrada no território francês; ao fundo, o ponto de controle de entrada e saída de pessoas e veículos.

Pegamos a estrada em uma van que nos acompanhou até o final do percurso, um carro que não servia somente para nos transportar entre os destinos, mas um importante ponto de apoio e onde longas conversas foram travadas, muitas horas de músicas foram ouvidas e projetos futuros foram desenhados.

Os artistas Dante Ozzetti, Patricia Bastos, Michaëlle Ngo Yamb Negan, Enrico Di Miceli e Nilson Chaves no palco do Complexo Eldorado.

O repertório da playlist foi variado, mas algumas músicas marcaram o roteiro que fizemos e se tornaram trilhas da viagem – uma em especial e que, mesmo discordando do letrista, que diz que “Caiena é tão perto daqui quando penso na estrada…”, sem titubear, a música “De Macapá a Cayenne”, dos compositores Joãozinho Gomes e Zé Miguel foi a escolhida por aclamação popular, sentimental e física a Número 1 da viagem.

Visita da cantora Clara Nugente, que também esteve no show dos artistas brasileiros na noite de 03 de agosto no complexo Eldorado.

No total, éramos sete pessoas: a cantora Patricia Bastos, os compositores Nilson Chaves, Enrico Di Miceli, Joãozinho Gomes, Dante Ozzetti, Clicia Vieira Di Miceli e o motorista, comandante da Nave da constelação de parentes, Jerre Lews, carinhosamente chamado de Velho Lobo.

Na esquerda, Marie-Françoise Pindard, pesquisadora dos ritmos tradicionais crioulos da Guiana Francesa, recebendo o Amazônia Orbita, trabalho instrumental de Dante Ozzetti, resultado de uma pesquisa sobre os ritmos da Amazônia brasileira. Ambos estudiosos dessa musicalidade regional. Na foto do centro, a produtora Andressa Duvigneau, que esteve em vários momentos da viagem e nos acompanhou na visita ao grupo Os Anciãos de Kourou. Na direita, o produtor Lívio de Sá, no dia seguinte ao show, mostrando a cidade de Caiena aos artistas.

Nossa primeira parada programada foi em Oiapoque, onde o Nilson Chaves tinha um show agendado e com muito prazer curtimos a noite da cidade, que, para a maioria, era a primeira visita ao município.

Na catraia do rio Oiapoque

No dia seguinte, antes de seguirmos para Caiena, navegamos de catraia pelo rio Oiapoque, fomos na Grand Roche nas proximidades de Clevelândia do Norte até a cidade de Saint-Georges de L’Oyapock para apresentar a nossa fronteira brasileira com o território francês.

Apresentação da etnia Kali’na. O que marca sua identidade musical é o tambor Sampula, instrumento nos rituais de canto e dança desse grupo.
Enrico Di Miceli, Patricia Bastos e Joãozinho Gomes no Centro Espacial de Kourou, uma das bases de lançamento da Agencia Espacial Européia.
Com as “parentas” na Jornada internacional dos povos autóctones- Caiena/2019.

Atravessamos a ponte sobre o rio Oiapoque às 15h do sábado, dia 03, e aqui vale o registro de que nos beneficiamos do primeiro final de semana da abertura da ponte Binacional, que até a presente data abria na segunda-feira em horário comercial e fechava definitivamente ao meio dia do sábado, reabrindo novamente somente no início da semana seguinte.

Passado o ponto de controle para apresentação dos passaportes e o obrigatório visto de entrada na Guiana Francesa, pegamos a sinuosa estrada que nos leva até Caiena, nosso próximo destino.

Compositor e arranjador Dante Ozzetti participando de um ritual de purificação espiritual, recebendo o cigarro da mão do cacique para a autodefumação.

Quem nos levou à Guiana Francesa foi a música, através de um show que fechamos com o produtor Lívio de Sá para uma apresentação coletiva de Nilson Chaves, Enrico Di Miceli, Patricia Bastos e Dante Ozzetti, através do projeto Ponte Cultural Amapá-Guiana, que aconteceu no Complexo Eldorado, nas imediações da Place des Palmistes, coração da cidade e ponto de muitas manifestações culturais.

O cantor e compositor Nilson Chaves e a cantora Patricia Bastos apreciando a arte urbana de valorização da música tradicional crioula.

O show teve a participação da flautista Michaëlle Ngo Yamb Negan e recebeu uma plateia composta por guianenses, franceses metropolitanos e brasileiros nortistas imensamente saudosos por seus estados, mas ali afagados pelo repertório de canções que retratam nossa vida na Amazônia brasileira, e marcados pelos ritmos do marabaixo, do batuque e do carimbó.

Na esquerda, Joãozinho Gomes, Dante Ozzetti e Enrico Di Miceli, aguardando uma iguaria em um restaurante tipicamente crioulo. Na direita, compositor Enrico Di Miceli na cidade de Caiena, com destaque para a arquitetura crioula, que é marcante nessa coletividade territorial francesa.

Fechamos aquela noite felizes da vida e já querendo concordar com o poeta que diz que “Caiena é tão perto daqui”. Sim, somos separados por quase 800 Km de estrada e ligados por uma ponte Binacional e pelo belo rio Oiapoque.

Dante Ozzetti, Joãozinho Gomes, Patricia Bastos e Enrico Di Miceli acompanhados do tamboreiro Antoine Villageos, que nos apresentou a matriarca de um dos grupos mais tradicionais do Grajé de Kourou, a senhora Rosiette Fauvette. Destaque para os tambores circulares do Grajé, e para o tecido Madras no quadriculado da camisa, no vestido e acessório de cabeça chamado La Chat, isso tudo compõe a identidade visual da tradição crioula da Guiana Francesa.

São 590km até o município de Oiapoque, sendo 111km sem asfalto e mais 190 km até a capital da Guiana Francesa, somados a algumas dificuldades burocráticas que nos distanciam de nossos vizinhos franceses. Mas, ao fazermos esse encontro musical com artistas, pesquisadores e produtores locais, as nossas afinidades regionais foram afloradas e passamos a nos sentir “em casa”, sobretudo quando sonhamos conjuntamente a construção e afirmação de uma identidade amazônida que tem como base os nossos tambores, o nosso DNA indígena, a mistura crioula e um sotaque de línguas latinas que entrecruzam o português e o francês nessa fronteira cortada por rios e por uma costa atlântica que nos interliga ao mar do Caribe e às pequenas e grandes Antilhas, ilhas que permeiam nosso imaginário musical como Martinica, Guadalupe, Cuba, Jamaica e Haiti.

Apresentação de um grupo de Kasékò, formado por 4 tocadores, sendo três tambores Kasékò (barril de vinho) que possuem funções diferentes na execução do ritmo e um tibwa. Da direita para a esquerda: Plonbé – tambor de acompanhamento, emite o som grave,Koupé – tambor para os solos e improvisações, Foulé – tambor de acompanhamento, emite o som médio e o Tibwa – instrumento fundamental para a execução do ritmo Kasékò, funciona como metrônomo e os tambores seguem a sua pulsação

A Guiana Francesa é muito especial: possui uma diversificada cultura pela história de migração que viveu a partir da década de 1960 com a construção do Centro Espacial Guianense – CSG, na cidade de Kourou. A busca por salários pagos em Franco, hoje Euro, o sonho do ouro e a qualidade de vida com padrões europeus estimulou a ida de muita gente para lá e transformou aquele lugar em um caldeirão cultural composto por brasileiros, chineses, haitianos, hmongs, surinameses, dominicanos e outros tantos grupos que transformaram a Guiana Francesa em um território multicultural. Mas com tudo isso, nada é tão forte, belo e instigante quanto a original cultura franco-guianense dividida entre ameríndia, crioula e bushnengé.

Cantora Patricia Bastos e Clicia Vieira Di Miceli com o adereço Kanmiza, aprendendo os passos do Kasékò com a Dra. em Etnomusicologia, Marie-Françpoise Pindard

Um portal que nos desloca de uma parte da União Europeia e da tecnologia espacial para um universo sonoro dos tambores e das maracas, dos dialetos, da culinária, da vestimenta e da arquitetura peculiar, uma Amazônia profunda que vai além dos manjados e estereotipados cartões postais.

A música tribal dos Bushinengé.

Os Ameríndios:

As comunidades indígenas e suas tradições estão na pauta do dia com suas manifestações salvaguardada na Guiana Francesa, através de políticas de valorização dedicadas a celebrar a cultura de seus primeiros povos, a exemplo do evento de que participamos em praça pública – 9° Jornada internacional dos povos autóctones – com a participação dos 6 povos nativos: Kalina, Lokono, Palikur, Teko, Wayãpi e Wayana, alguns desses também presentes em território brasileiro, no estado do Amapá, a exemplo dos Palikur e Wayãpi.

Dante Ozzetti em uma vila Saramká, a caminho de St Laurent du Maroni, com destaque para a arquitetura e a pequena Bushinengé.

Os Crioulos ou mestiços:

A cultura crioula da Guiana Francesa é fruto da mestiçagem e da herança do período da colonização que iniciou no século XVII e tem como base o francês, mas que se misturou com indígenas e africanos. O termo “crioulo” é utilizado para identificar uma língua e um povo, e a partir desse conjunto de identidades se percebe de maneira marcante a arquitetura, juntamente com a culinária, a vestimenta e a música que facilmente é ouvida na capital e nas demais cidades. A música crioula possui 7 ritmos de base (Grajé, Kanmougwé Léròl, Débòt, Béliya, Grajévals e Kasékò) tocados em tambores específicos dessa tradição. O Grajé é tocado no tambor Grajé, o Kanmougwé nos tambores Yongwé, e os demais ritmos nos tambores feitos de barril de vinho, chamados de tambor Kasékò. Já o ritmo Léròl, além dos tambores, utiliza o Chachá, um tipo de maraca da tradição indígena.

Patricia Bastos e os Saramaká.

Os Bushnengé:

Outro marcante traço da tradição franco-guianense é o povo bushnengé (businenge) também chamados de noir-marron. São descendentes de africanos que foram escravizados pelos holandeses colonizadores do Suriname entre os séculos XVII e XVIII. Fugindo da escravidão em direção das matas às margens do Maroni, rio da fronteira do Suriname com a Guiana Francesa, reproduziram seu estilo de vida tribal e foram se adaptando à vida amazônica. Os Bushinengé possuem características específicas e são organizados socialmente com culinária, língua, arquitetura, embarcação, traço iconográfico, vestimenta, dança, ritmos e instrumentos próprios. Embora pareçam uma única etnia, são divididos em 6 grupos: Saramakà, Paramakà, Matawaï, Kwinti, Aluku (Boni) e Djuka.

Momento de estase musical com amigos que conhecemos na noite de St Laurent du Maroni. Todos Bushinengé, a maioria músicos e exímios dançarinos.

Após nossa estada em Caiena e Kourou, seguimos para a terra dos Bushinengué, Saint Laurente du Maroni, última cidade franco-guianense antes de entrarmos no Suriname. Atravessamos o rio Maroni até a cidade de Albina e de lá seguimos de carro para Paramaribo, capital do Suriname, a ex-colônia holandesa que se tornou um país independente em 1975, o último da América do Sul a se descolonizar de um país europeu. É um país muito novo comparado às demais nações do continente e possui uma população composta por índios, descendentes de africanos, indianos, javaneses e brasileiros, que o torna uma nação culturalmente bem diferente quando comparada às particularidades históricas dos demais países da América do Sul que foram colonizados por portugueses ou espanhóis. Essa multiculturalidade se reflete na língua que oficialmente é o holandês, mas possui um dialeto local – o crioulo surinamense ou Sranantongo – popularmente chamado de taki taki.

Enrico Di Miceli, Patricia Bastos e Joãozinho Gomes no Centro Espacial de Kourou, uma das bases de lançamento da Agencia Espacial Européia.

Uma diversidade de traços físicos do povo, na marcante arquitetura dos casarões de herança da colonização holandesa, nos templos hindus, nas mesquitas, nas sinagogas, na diversidade encontrada na música e nas inúmeras possibilidades gastronômicas do país nos revelam uma abundante riqueza cultural, o traço mais forte desse país.

Enrico Di Miceli e um Bushinengé, acertando a nossa travessia para o Suriname que aparece ao fundo, cidade de Albina. Essas embarcações são as pirogues bushinengé, através das quais o vai-e-vem dessa fronteira se desenha; elas transportam a população e os produtos que circulam entre a Guiana Francesa e o Suriname

A partir de Paramaribo, iniciamos o nosso percurso de volta a Macapá. No retorno, paramos em Kourou (Guiana Francesa) para conhecermos a Íle du Salut (Ilhas da Salvação), um arquipélago composto pelas Íle du Diable, Íle Royale e a Íle Saint-Joseph, que abrigou o mais rigoroso complexo penal francês, criado no século XIX e desativado na década de 1940.

Na imagem acima, a ruas de Paramaribo com o colorido dos transportes públicos, nos fazendo lembrar que o caribe tá bem perto da gente. Embaixo, na esquerda, Patricia Bastos, Enrico Di Miceli e Joãozinho Gomes em visita ao Forte Zeelandia, erguido no século XVII em Paramaribo. Hoje funciona como museu e guarda parte da história do pais. E, abaixo, na direita, um registro dos pequenos estudantes que demostram a sociedade multiétinica que é o Suriname: Indianos, javanes e o crioulo surinamense.

Nossa viagem até as ilhas foi em um pequeno barco a motor e durou 30 minutos, o que nos levou ao encontro da memória e das ruínas de um dos episódios mais conhecidos da antiga colônia francesa, que inspirou o livro Pappillon de Henri Charrière, posteriormente adaptado para o cinema e que ainda povoa de forma mítica a nossa imaginação.

Na esquerda, a diversidade religiosa é uma das marcas culturais do Suriname como demostra esse conjunto de imagens de um templo hindu na capital Paramaribo. Na direita, Dante Ozzetti, Enrico Di Miceli, Patricia Bastos e Joãozinho Gomes entrando na Ilha Real.

A única ilha aberta à visitação é a ilha Real, que hoje abriga uma estrutura de hotelaria e restaurantes. O lugar paradisíaco recebe muitos turistas que buscam o contato com a história e as belezas naturais do lugar. A ilha do Diabo e a São José, fechadas à visitação, podem ser observadas do próprio barco ou de vários pontos da ilha Real.

Na esquerda, Clicia Vieira Di Miceli e Patricia Bastos em uma das edificações administrativa da antiga prisão. Na direita, Dante Ozzetti e Enrico Di Miceli visitando as ruinas das celas de detenção

Com um banho de mar nas ilhas de Salut, começamos a nos despedir daqueles dias especiais divididos entre a amizade, a música, a estrada, a comida crioula, a culinária asiática, o vinho francês, a cerveja surinamesa Parbo, as novas aquisições de Cds, os encontros no café da manhã, os planos traçados para o dia, o cansaço superado pela curiosidade de conhecer mais coisas, as mímicas pra ajudar na comunicação quando a língua falhava, a pimenta que nos pegava de surpresa, o bami, o poulet fumé, as pirogues, os sons dos variados tambores, a primeira audições do Todo Música, a audição das faixas mixadas do Timbres e Temperos e aquela emoção coletiva ao ouvirmos a Chiquinha é Chique, as incontáveis piadas e o nosso rico vocabulário de expressões renovadíssimos.

Joãozinho Gomes, da Ilha Real, avistando a Ilha do Diabo.

Viajar pela Guiana Francesa e o Suriname foi especial. Lugares que nos permitem estabelecer a interface da Amazônia com o Caribe e a União Européia.

Sempre motivados pela música, essa foto representa as muitas coisas bacanas que vivemos na Van. Esse sorriso geral é após a primeira audição do CD Todo Música do Enrico Di Miceli, que chegou da fábrica às vésperas da viagem e que rolou muito durante as horas de estrada.

Viajamos quase 3 mil km de estrada no trajeto Macapá/Oiapoque/St Georges/Caiena/ Kourou/Saint Laurent/ Paramaribo, e retornamos “no mesmo pé” até chegarmos ao nosso ponto de partida com a bagagem cheia de coisinhas legais, incluindo ritmos, projetos musicais e a amizade alimentada por um emaranhado de lindos momentos que vivemos.

Patricia Bastos na viagem de volta, cheia de história pra contar e toda trabalhada no Madras

Texto e Fotografia: Clicia Vieira Di Miceli
Clicia é produtora cultural, geógrafa e mestra em Estudos de Fronteira.

*Escrito em agosto e publicado somente em dezembro de 2019 por falta de tempo para revisar o texto e selecionar as fotos.

Nostalgia e Luz – Crônica de Natal de Fernando Canto

Crônica de Fernando Canto

Hoje de manhã me vi subitamente abatido por um ataque de nostalgia.

No meu caminho para o trabalho observei um homem ateando fogo no lixo. Tinha uma vassoura nas mãos e cuidava com atenção para que as chamas não se espalhassem sobre a calçada. Aquele ato, pensei, era um resquício da herança cultural indígena tão presente em nossa vida cotidiana.

De repente me veio a lembrança do tempo que Macapá caminhava lenta, em sua vivência pacata sob o sol do equador, quando vizinhos se respeitavam e eram amigos; quando cada um sabia das necessidades do outro e ninguém hesitava em pedir uma xícara de óleo, um pouquinho de farinha, um teco de colorau, de pó de café ou de pimenta-do-reino, ou quando trocavam gentilmente deliciosos pratos de comida, feita com abundância para a família.

Lembro que às vezes, pela manhã, minha mãe varria as folhas do cutiteiro que sombreava a frente de nossa casa e fazia a sua fogueira no lixo amontoado. Ele também era o alvo dos moleques da baixada que quebravam nossas telhas com as tentativas de apanharem os frutos jogando pedras e paus na árvore. A pequena fogueira fazia pouca fumaça, mas ia se juntando com a fumaça da vizinha e da outra vizinha e da outra vizinha. E ninguém se incomodava porque a fumaça era fugaz, se dispersava com o vento vindo das marés do Amazonas, lá adiante.

À noite trafegava em sua beleza estelar na escuridão. Crianças brincavam de roda à boca da noite e adolescentes gastavam suas energias na brincadeira de “pira” ou de “bandeirinha”, sob a luz da lua ou das lâmpadas pálidas dos postes da CEA. E, quando a luz se apagava, íamos até mesmo ouvir dos mais velhos as histórias de assombração, pregar peças de visagens aos poucos passantes da noite ou observar os satélites que cruzavam os céus do equador entre as estrelas.

Naquele tempo meu pai deixava aberta a porta de casa para que eu e meus irmãos não incomodássemos seu sono, certo de que ninguém ousaria abri-la para roubar. Era um tempo em que bastava a presença de um cãozinho para o possível gatuno se escafeder. E até as criações de galinhas e patos não eram protegidas da ousadia das “mucuras velhas” de plantão, que roubavam os animais para fazer tira-gosto de suas bebedeiras noturnas. Ah! E como eles sabiam fazer isso. Há casos em que roubavam a própria casa.

Os quintais não tinham cerca, tinham caminhos de atalhos, tinham campinhos, leiras de verduras e árvores frutíferas. As ruas eram tão nossas que ao fim da tarde viravam campos de futebol, em jogos que só terminavam ao anoitecer. Cada um respeitava seu cada qual: o dono da bola podia ser ruim no jogo, mas era o dono, e pronto. Ninguém furtava a merenda do colega nem caderno nem brinquedo.

Ainda que eu não queira culpá-la, mas depois que a televisão chegou nada mais foi igual. A molecada ia assistir a programação na casa do seu João de Deus onde havia o único aparelho de TV no bairro. Seu João colocava um vidro azul no vídeo para que as cenas das novelas “Meu Pedacinho de Chão” e “Vejo a Lua no Céu” parecessem mais coloridas. Doce ilusão! E dava o exemplo de patriotismo acompanhando em pé com a mão no peito o Hino Nacional, no fechamento da programação, por volta de meia-noite. O sagrado jantar familiar ficou mais apressado porque a novela ia começar e todos iam para a sala assistir aos folhetins de Janete Clair.

Mas ainda que brote da minha memória, eu não vejo com saudade essas lembranças. A saudade é mais profunda, é mais poética e mais densa que a nostalgia, que é uma palavra originária do grego e significa “regressar”, “voltar para casa”. E nesse regresso emocional, observo que as pessoas quase já não varrem as folhas que caem das árvores na frente de suas casas, nem fazem mais fogueira com medo de denúncias de vizinhos aos órgãos ambientais e por acharem que é um trabalho exclusivo dos garis da Prefeitura. E assim, as fumaças que eram como bandeiras ou cantos de galos se espalhando, já não enfeitam mais as manhãs ensolaradas da minha cidade. A solidariedade dos vizinhos foi substituída pela individualidade de cada morador aprisionado em suas portas e muros gradeados, pelo medo tácito da violência urbana.

As pedras jogadas nas mangueiras e cutiteiros se transformaram em duras palavras atiradas até em quem não tem telhado de vidro. A energia vital dos adolescentes é gasta nas baladas, quando longe dos pais, muitos enveredam pelos caminhos das drogas. As antigas histórias de assombração agora são contadas pelo Rádio e pela TV nos noticiários da violência no trânsito, brigas de gangues e mortes cruéis por motivos fúteis. O olhar real da juventude que acompanhava o curso dos satélites no céu escuro da noite tornou-se um virtual olhar, onde o romantismo de outrora foi trocado pela racionalidade dos programas dos computadores e celulares on line na Internet e pela comunicação ingênua das redes sociais.

Ah, os ladrões… Desde que mundo é mundo temos ladrões, prostitutas e assassinos e os seus trabalhos diferenciados sob a Lei, porque não há sociedade sem crime, ainda que teimemos em construir nossa utopia. Os ladrões de um passado (nem tão longe assim) eram de patos e galinhas, que ao menos não sujavam o nome de nossa terra e nem nos envergonhavam nacionalmente com negociatas políticas e atos de corrupção explícita.

Nem se comparam com muitos da atualidade que usam a pele de cordeiro para, como lobos ferozes, roubar o dinheiro público, enriquecer às custas do povo e trair cinicamente os que neles confiaram pelo voto. Naquele tempo as cercas inexistentes nos quintais davam a todos a liberdade de fazer seus próprios caminhos, de realizar seus atalhos e se apressar para a vida que viçava lá fora, principalmente pelo caminho da educação, pulsante nas escolas públicas, onde os professores eram mais que isso: eram educadores e amigos. Ensinavam também, como no ato do seu João de Deus em frente à TV ouvindo o hino nacional, a respeitar os valores da Pátria, apesar da era de obscurantismo da ditadura militar.

Hoje olhamos para os costumes sociais e familiares em mudança e nos molhamos de nostalgia. Tudo mudou com os avanços tecnológicos, que tanto facilitam a nossa vida. E tudo começou com a televisão, essa invenção incrível, pois quando a luz apagava na hora de um programa ninguém mais conversava. A família ia para o pátio da casa olhar a rua espelhada de chuva, e uns se perguntavam aos outros: será que foi geral? Será que ela vai voltar? Já pensou? Ficar sem TV o resto da noite… Afirmo, pois, com certa tristeza que foi aí que começou a morte do diálogo familiar.

E as ruas? Ora as ruas. Ruas de tempos abençoados que não testemunharam atropelamentos fatídicos, apenas quedas de bicicleta ou boladas na cara de algum passante desatento. Ruas da minha cidade transformada, ruas que hoje absorvem o sangue dos mortos diariamente em cada esquina, ruas não mais tangidas pelos protestos do povo inconformado, ruas esburacadas pela angústia no rosto da juventude sem emprego, ruas que se tornam rios de chuva e trazem doenças inevitáveis, ruas que lêem os passos cansados dos que tem pouca mobilidade física, ruas escuras, ruas das violências noturnas, ruas dos loucos, dos bêbados, das putas, dos travestis e dos moralistas de plantão.

Mas elas são também as ruas dos sonhadores como nós, que tentamos enfeitar a madrugada e trazer a música e o sol no cavalo alado da nostalgia, para iluminar um mundo futuro ausente de dor e de vergonha, mas cheio de luz e de perdão.

Não deixemos, pois, por isso mesmo, a luz ir embora dos nossos corações.

O Craque Dener – Por Marcelo Guido

Por Marcelo Guido

Dos campos de terra, ao palco celeste. Os Deuses do futebol conspiram sempre nos terrões localizados nas várzeas, “campos” onde grama é algo raro, surgem talentos natos. Em um desses veio para o mundo da bola o genial Dener.

Negro, baixo, magro como muitos de seus pares, tinha o dom de comandar a pelota como poucos. Esguio, liso como peixe ensaboado, deixava para trás seus adversários, que ficavam a mercê de seu talento como míseros “Joões” sem pai nem mãe.

Dribles desconcertantes foram sua marca maior, tal qual Umbabarauma , o ponta de lança africano de Benjor. Dener era o arquétipo máximo do bom jogador.

Honrou em sua curta passagem pela vida três dos maiores pavilhões do futebol. Portuguesa, Grêmio e Vasco. Deixou boquiaberto o grande Maradona. Don Diego teve sua reestreia no futebol portenho ofuscada pelo desempenho maior do camisa 10 de São Januário.

Foram realmente poucos títulos, a Copinha de 91 pela Lusa, o Gauchão de 93 pelo Tricolor e a Taça Guanabara de 94 pelo Gigante. Mais sua contribuição foi eterna para o espetáculo. Até hoje quem entende um pouco de futebol, não importando a identificação clubística , coloca o garoto do Canindé entre os melhores que já pisaram em um campo de futebol.

Pepe, eterno canhão da Vila, rendeu-se ao Gênio comparando ao incomparável Rei do futebol :“ foi o mais próximo que chegamos de um novo Pelé”. Pegar a bola em uma linha central, sair driblando em zigue-zague com o objetivo máximo de levar a criança para dormir no fundo das redes adversarias era sua constante dentro de campo.

Dener era o suprassumo da coerência futebolística, para ele um drible bonito era sim, mais bonito que um gol. Ele era o espetáculo.

Calou críticos, que ousaram dizer que o campeonato gaúcho era muito pesado para ele, levou o Maracanã ao delírio em um inesquecível Vasco x Fluminense, onde a torcida Vascaína bradou em alto e bom som, “E cafuné , o Dener é a mistura do Garrincha com Pelé”, fez o gol mais bonito já feito no solo sagrado do Canindé , contra a Inter de Limeira, virou musica na voz de Luiz Melodia, “ se vocês querem um conselho vou dar, deixem o menino driblar” e literatura nas mãos de Luciano Ubirajara Nassar autor de “ Dener , o Deus do Drible”.

Sua vida passou como ele passava pelos beques , seu drible mais desconcertante foi com certeza na miséria e sua carreira foi rápida como um raio. Dener Augusto de Sousa deixou órfãos os amantes do bom futebol no dia 19 de abril de 1994, em um fatídico acidente automobilístico na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro.

Talvez o próprio Deus, boquiaberto com tanto talento daquele menino negro, resolveu escala-lo para seu time celeste para o jogo de domingo.

Ficou a história de um dos que, em pouco tempo, provou ser um dos melhores no mundo da bola.

Dener, Deus e Drible, os “D” em caixa alta, atitude mais que correta.

* Marcelo Guido é Jornalista, Pai da Lanna Guido e do Bento Guido. Maridão da Bia.

Cemitério: um lugar de encontro e memória- Crônica de Fernando Canto

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Crônica do sociólogo Fernando Canto

No cemitério todos estão iguais: mortinhos. Mas as pessoas que o visitam no Dia de Finados estão ali para reverenciar os mortos pelas suas qualidades, pela saudade que ficou, pelo respeito à obra que deixaram ou pelo amor que ainda paira na lembrança.

Assim o cemitério torna-se um lugar da memória porque ali cada lápide é uma imagem que enclausura um objeto de representação social ou familiar. E a presença dos parentes e amigos não só traz o significado do respeito e da fé religiosa como também o da mudança que se opera em todos os homens e mulheres diante da inflexibilidade da morte. Torna-se também lugar de oração, culto e reflexão.guADUcn23tc

Embora já não represente mais tanto mistério nem incuta mais tanto medo, o “campo santo” no centro da cidade é apenas mais um dos tantos aparatos urbanos encravados e irremovíveis que chegam a causar muitos problemas para as administrações municipais. Principalmente os de natureza ambiental, porque o chorume humano polui densamente os lençóis freáticos das suas redondezas, algo semelhante quando combustíveis como óleos ou gasolina penetram no subsolo.

cemiterio (1)É um lugar democrático: defuntos de todas as classes sociais estão enterrados nele. É um local frequentado por pessoas de todo tipo, que expressam seus sentimentos das mais diversas maneiras. Há fanáticos, por exemplo, que se atrelam a um devocionismo doentio, pois crêem que determinado defunto faz milagres e por isso pedem o que querem e inundam seu túmulo com plaquetas de agradecimento “pela graça alcançada”. Já vi homens virarem santos por obra e graça dessa morbidez que povoa a cabeça dos devotos. Vi pessoas serem homenageadas com pompas fúnebres pela ilibada condumeninos-rosto-pintado-dia-de-mortos-xcaret-mexicota pessoal e profissional que tiveram, assim como já vi impropérios atirados a assassinos mortos pela polícia e a um político que a vida toda enganara eleitores e a família. Soube, inclusive, que nos anos 60 muita gente soltou foguetes no enterro de um delegado famoso por sua perversidade para com os presos.

O cemitério também é um lugar de encontro dos amigos. Ora, depois de uma rezada básica e uma vela acesa para os parentes, antigos amigos que hoje só se encontram no dia das eleições ou numa decisão do campeonato amapaense, se cumprimentam e se põem a conversar sobre conhecidos que já morreram. Então vêm à tona inesquecíveis episódios e velhas piadas sobre eles. A memória se reacende e traz de volta à vida o homem e sua conduta, mesmo que lhe reste apenas o pó dos ossos sob a lápide.544aa3a500447

A conversa gira sobre os assuntos mais banais: desde a vizinhança de túmulos de entes queridos aos preços cobrados pelos coveiros que estão “pela hora da morte”; desde os “bons e velhos tempos” às doenças enfrentadas por eles (principalmente o diabetes) e as consultas periódicas aos médicos; desde aos planos mais mirabolantes às tentativas de convencimento a votar em certo candidato.Cemitério

Em que pese a gritaria e o comércio de ambulantes que quase não deixam as pessoas passarem na frente do cemitério, a homenagem aos mortos passa a ser um acontecimento um tanto quanto banalizado pela força do capital que se instaura em qualquer lugar, seja onde for. Alguém vai sempre lucrar com isso. E como a morte rende… Não é à toa que cada vez mais aumenta o número de vendedores e de produtos diversificaddownload-3-300x160os nas proximidades das necrópoles. Não é à toa que o comércio abre suas portas mesmo sendo feriado.

Não quero dizer que acho isso estranho, pois tudo muda, evolui. Mas lembro com certa saudade a programação musical da extinta Rádio Educadora Sãlula-engana-a-morte-orlandeli-181111-humor-politicoo José no dia de finados. O dia todo só tocava música clássica. Isso despertou em mim a curiosidade pelos eruditos que os padres italianos ouviam com prazer.

Cemitério é palavra que vem do grego, koimeterion, que significa “dormitório”. Como eu não quero ainda “dormir” na cidade dos pés juntos, prefiro me programar para ir até lá no dia dos finados, exercitar a memória e jogar conversa fora com os amigos.

Campanha para ajudar a RPPN Revecom

O Ministério Público do Amapá (MP-AP) está chamando cidadãos para que façam adesão à campanha para ajudar na manutenção da RPPN Revecom, local de abrigo e cuidados de animais silvestres e flora, situada no município de Santana, e que mais uma vez está com dificuldades para alimentar os animais e pagar funcionários.

🥰 Deposite qualquer quantia, sua sensibilidade com causa é muito importante para o meio ambiente!

Por conta da campanha, republico o texto “Um guardião no Amapá”, do jornalista João Marcos Rosa, publicado na revista National Geographic em 2016: 

Santana_AP, 28 de Agosto de 2011.
Paulo Amorim, diretor da RPPN Revecom.
FOTO: JOAO MARCOS ROSA / NITRO

Por JOÃO MARCOS ROSA

Santana_AP, 28 de Agosto de 2011. Veado-fuboca (Mazama rondoni) na floresta da RPPN Revecom. FOTO: JOAO MARCOS ROSA / NITRO
FOTO: JOAO MARCOS ROSA / NITRO

Nossas escolhas sempre definirão o futuro que nos espera, mas algumas das opções que fazemos podem também ajudar a construir uma história diferente. Recentemente estive no Amapá para fotografar e tive o prazer de conhecer uma pessoa que fez da sua história a história do lugar que escolheu para viver.

Paulo Amorim era médico no Rio de Janeiro quando, há 41 anos, decidiu mudar-se para a Amazônia. Nesse tempo o Amapá ainda era um tapete verde, um verdadeiro santuário que englobava diversos ecossistemas, transitando entre o Cerrado e a Floresta Amazônica.

Ainda hoje o estado se gaba por ter mais de 70% do seu território em áreas protegidas, mas o que se vê na prática é uma realidade diferente das anunciadas pelas autoridades. A maioria das unidades de conservação do estado não dispõe de infraestrutura e pessoal para fiscalização, vivendo à mercê de garimpeiros, caçadores e invasões, inclusive de estrangeiros, já que é mais fácil chegar no Amapá vindo de outro país do que do próprio Brasil.

Santana_AP, 28 de Agosto de 2011. Vista do Rio Amazonas desde a sede da RPPN Revecom. FOTO: JOAO MARCOS ROSA / NITRO
FOTO: JOAO MARCOS ROSA / NITRO

Na tarde em que estive com Paulo à beira do rio Amazonas ouvi esse relato, além de outras diversas histórias desse cidadão do mundo que resolveu ali em Santana montar o seu quartel na luta por um mundo melhor.

O que antes era uma mata contínua foi se esvaindo e, em 1999, Paulo recorreu às suas economias para tentar manter protegidos os 17 hectares que transformou na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Revecom.

Santana_AP, 28 de Agosto de 2011. Floresta na RPPN Revecom. FOTO: JOAO MARCOS ROSA / NITRO
FOTO: JOAO MARCOS ROSA / NITRO

Pelos cursos e palestras de educação ambiental que promove na RPPN já passaram mais de 70 mil pessoas, a maioria delas crianças, e o local acabou se tornando uma referência no manejo e recuperação de animais silvestres no estado.

Na caminhada que fizemos pela reserva naquela tarde de sábado, consegui enxergar o amor que alguns homens ainda nutrem pela natureza. Pude também perceber que as bandeiras pessoais podem, sim, ser levantadas em busca de um futuro melhor para todos.

Fonte: National Geographic

 

Amigos & Inimigos- Crônica firmeza de Fernando Canto

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Crônica de Fernando Canto

Sempre tive muitos amigos: de infância, de escola, de bar, amigos que fiz no decorrer de uma vida cheia de altos e baixos e que sempre pude contar com eles nas horas que precisei. Não se têm amigos só para jogar conversa fora, brindar em uma comemoração ou para fazer (in)confidências, às vezes mentirosas e desnecessárias. Nesse caso sempre a amizade vai por água abaixo quando uma confidência é espalhaddownloada pelos sete cantos da cidade. Já tive “amigos” que supus serem Amigos, que ajudei pensando estar fazendo um bem, e que a ingratidão deles brotou como espinhosa árvore na lavoura que tentei cultivar.

Não falo de inimigos, pois como os ex-amigos, eles não merecem a minha ira. Apenas desprezo o que não quero prezar. Eles são meramente pontos obscuros de referência na encarnação de um
images (5)maniqueísmo torpe, trivial e vulgar. Amigo mesmo é para contar com ele na hora da necessidade, para se divertir, criar junto e imaginar um mundo melhor. Amigos bons nós desenhamos para que se tornem o modelo da nossa própria utopia.Luis_XVI_no_cadafalso

Talvez fosse desnecessário este preâmbulo para falar de gente que gostamos de graça e nem fosse conveniente registrar numa crônica o apreço que sentimos por certas pessoas que às vezes, por gestos naturais e descomprometidos, nem sabem a extensão do bem que fizeram a nós em determinados períodos de nossa história pessoal. É verdade que nesse caminhar encontramos amigos dos amigos que não são nossos amigos, mas que os toleramos por respeito à admiração pessoal ao amigo titular. Assim também é verdade que falseaArquivoExibirmos nossa conduta para não decepcioná-lo, embora acreditando que de falso em falso se chega ao cadafalso.

Machado de Assis dizia em “Ressurreição” que o tempo não conta para a amizade: “Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes de oito anos”. Talvez o tempo seja o que conta para quebrar os obstáculos que surgem na vida. E dizem que muitas amizades rompidas, um dia voltando, passam a ser mais do que eram, independentemente das diferenças do passado. Voltam mais sólidas e mais maduras. E passam a ver que sempre existiu alguém interessado nesse rompimento. Coisas de novela, mas também coisas da vida.

images (4)Pessoas que estimamos passam por provações e se tornam sábias sem saber se são, ou pelo menos não demonstram isso. Há as que têm as almas simples e vivem num mundo aparentemente sofisticado. Mas as almas dos amigos muito se assemelham a casas: algumas delas são cheias de janelas abertas, onde corre ar puro e luz, outras são como prisões, fechadas e escuras, mas que merecem nossa consideração e respeito, porque a alma entende-se a si mesma e o amigo vale a afeição que fazemos valer por ele. Uma alma, mesmo fechada, sempre traz uma luz que pode nos iluminar antes de banhar-se a si própria.

BONS-AMIGOS-220x220Amigos têm defeitos e mazelas. Por essa imperfeição mútua é que normalmente amizades se atraem, bem como pela admiração recíproca de cada um no seu desempenho social. Uns moldam outros, outros se espelham em alguém. Porém, na amizade só não pode existir a incorporação da personalidade do amigo. Ela deve ser autêntica e eivada de respeito às idiossincrasias, inclusive pela solidão e ao silêncio do outro. Afinal somos seres em alteridades. Espíritos amigos voam na mesma direção da fonte original e bebem da mesma água fresca. Devem saciar sua sede bem antes que ela seja poluída pelos interesses pessoais de qualquer conspirador. A amizade só é possível pela oportunidade do encontro.rivais

Meu amigo R sempre diz que os inimigos são necessários, pois nos ajudam a refletir para que melhoremos. Não discordo, porque entendo que a vida é uma constante dialética. Mas não ando à caça de inimigos. Alguns cruzam meus caminhos em momentos que não criei. E, como não tenho um cemitério para enterrá-los como um certo personagem de Jorge Amado, eles que cavem suas próprias sepulturas e façam de suas mortes um renascimento.

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Eu e meu querido amigo, Fernando Canto. 03/08/2016