IMPORTAR – Por Vladimir Belmino

A palavra importar é da classe gramatical verbo do tipo regular, etimologicamente vem do Latim (importare: ‘trazer para dentro, importar’). Como verbo, pode ter vários significados, variáveis de acordo com sua flexão e com seu emprego, seja como verbo intransitivo, seja como verbo pronominal, seja como verbo transitivo direto e, finalmente, como verbo transitivo indireto.

Para efeito deste rápido trabalho, nos interessa o verbo pronominal, o que traduz ‘dar importância a’; ‘fazer caso de’, podendo ser utilizado como nas frases: “não se importa com nada” e “ele se importa com ela”.

Ainda como verbo, como todo e qualquer verbo, ele é ação em sua essência. Ou seja, o palavra-verbo importar implica um movimento; sendo da classe verbo às palavras que fazem a vida existir, a exemplo do famoso texto bíblico de João 1:1-4 “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Tudo foi feito por ele; e nada do que tem sido feito, foi feito sem ele. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens”.

E esse pensamento é muito poderoso, uma chave de conhecimento, independente de sua contextualização religiosa. Em verdade, a mensagem que vem do texto bíblico transpassa a religiosidade ao se perceber que não é dado a ninguém, nem mesmo ao Deus, realizar sem ação, sem verbo.

Então, na frase “ele se importa com ela”, o que nos conta o verbo ‘importar’ na utilização pronominal? A qual movimento nos agita? A qual ação nos inspira? Ele nos diz que temos que nos importar com o outro, mas como se dá essa ação de se importar com o outro? É a compaixão, seria compreender o que o próximo está passando ou o colocar-se no lugar do outro? Refletindo sobre outro trabalho apresentado na sessão da Loja Zohar, de autoria de nosso irmão José Lobo Neto, cheguei a outra conclusão.

Se importar com o outro é o movimento de trazer o outro para dentro de si; como se fosse um ato de importar produto do estrangeiro para dentro de nosso pais. É mais que sentir compaixão, muito mais do que se colocar no lugar do outro, sentir na pele o que ele passa. Isso é só o começo do ‘se importar com o outro’.

No momento em que se realiza a dificuldade alheia, percebendo-a, foi dado o primeiro passo no complexo ato de ‘se importar’ com o outro, na sequencia vem a ação propriamente dita de tirar o outro de onde se encontra – ajudar a sair da dificuldade ou do sofrimento – trazendo-o para seu mundo onde esta vicissitude não existe, ou onde pode ser mais branda pelo compartilhamento da solidariedade.

Solidariedade é um ato de bondade com o próximo ou um sentimento, uma união de simpatias, interesses ou propósitos entre os membros de um grupo. Ao pé da letra, significa cooperação mútua entre duas ou mais pessoas, interdependência entre seres e coisas ou identidade de sentimentos, de ideias, de doutrinas. Alguém quer falar de sua etimologia? Pois ela não é verbo, mas rende bons pensamentos também.

Por fim, para que repouse em nossa mente algo de útil sobre o verbo e sobre agir, que demonstre a beleza de seu movimento e a pequenez de nossa mente, socorro-me e espalho o pensamento inquietantemente belo de Manoel de Barros, no poema VII de “Uma didática da invenção” (in Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2011), deixando a quem deseje, criar a poesia IMPORTAR:

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

Confrade Vladimir Belmino de Almeida, cadeira nº 31 Moacyr Arbex Dinamarco, em 12.02.2017.

ERA UMA VEZ – Crônica de Evandro Luiz

Foto: Maurício Paiva.

Crônica de Evandro Luiz

A cidade era tão pequena e distante dos grandes centros que passava despercebida do resto do país. A população, na maioria agricultores, estava profundamente enraizada com a terra. “daqui só saio para o cemitério’’ dizia Joaquim da Paixão, negro de um metro e oitenta, exímio batedor da caixa de marabaixo, forte como um búfalo, rápido que nem cobra sorrateira e liso que nem giju.

Veleiro no Rio Amazonas – Foto: Manoel Raimundo Fonseca

Com toda essa performance, ganhou fama e prestigio, mas também adversários. as marcas no corpo revelavam uma vida agitada. ainda assim, repetia sempre: “daqui não saio nunca, só morto”. O rio em frente da cidade parecia ser um obstáculo intransponível para quem tinha o desejo de sair do isolamento, tamanho a sua magnitude.

Foto: blog Amapá, minha terra amada.

Além do medo de ter que viajar em barcos que pareciam ser grandes gaiolas, por um período de três dias para se chegar a cidade mais próxima. Viajar de avião era impossível para quem vivia da agricultura de sub existência. então só lhes restavam viver com intensidade o que lhes foram destinados.

Folia Religiosa de São Sebastião, em Mazagão Novo, no Amapá (Foto: Iran Lima/Associação Amapaense de Folclore)

Líderes da comunidade cumpriam religiosamente o calendário dos santos preferidos e de datas importantes. Tradicionalmente se reuniam e faziam a festa do senhor em frente à igreja. Com a chegada de padres italianos os ânimos ficaram acirrados.

Foto: Márcia do Carmo

Os padres não queriam aqueles rituais envolvendo o senhor em frente do templo. Eles espalharam que os festeiros seriam amaldiçoados caso não mudassem a festa da santíssima trindade para outro lugar.

Foto: Chico Terra

Houve resistência foi aí então que a igreja usou do seu quinhão celestial contra os simples mortais. em reunião secreta entre os padres e governo, foi decidido que o centro da cidade seria urbanizada. assim os moradores que viviam em terras, fruto da herança de seus antepassados, estavam entre a desobediência e a cruz. Ainda assim, alguns tentaram ficar. Mas o medo de serem amaldiçoados e banidos do cristianismo falou mais forte.

Foto: Maurício Paiva.

Para enfraquecer o movimento veio o segundo golpe: as lideranças foram divididas e distribuas para lugares diferentes e longe do centro. contudo, o balé das senhoras com roupas coloridas persistiam. e mesmo com as dificuldades, a força e a vontade dos festeiros em preservar os costumes dos antepassados eram fortes. mMs com a fragmentação do movimento, reacende um sentimento incubado nas lideranças. O da disputa pela hegemonia do calendário profano da festa do senhor.

Foto: Maurício Paiva.

A festa da criação da cidade é realizada com toda estrutura governamental e participam do evento os grupos folclóricos em uma tentativa de agradar a todos. Porém, a disputa ficava mais evidente era na corrida de cavalo que os ânimos ficavam acirrados e justamente onde João da Paixão se destacava. Ganhando praticamente todas as provas. Um fazendeiro de São Paulo ficou tão admirado, que não pensou duas vezes: vou levar esse vaqueiro.

A notícia se espalhou rápido. No embarque para são paulo, João tremia que nem vara verde. Pela primeira vez ia entrar em um avião o que estava totalmente fora de seu controle, foram seis horas de muita agonia.

Dois meses depois da sua chegada veio o primeiro rodeio. João da Paixão nunca tinha visto tanta gente reunida. a prova consistia em derrubar um boi em pleno movimento. Prova fácil para o vaqueiro do norte que conquistava cada vez mais admiradores. Na realidade, João se preparava para o grande final que reunia os melhores peões do país. No dia da competição, o vaqueiro do norte entrou na arena sob gritos da multidão.

Foto: Maurício Paiva.

Para trás ficava em definitivo o batedor da caixa de marabaixo.

Hoje é o Dia do Abraço – Abrace!

Você sabia que dia 22 maio é o dia do abraço? Um abraço pode ser acolhedor ao final de um dia cansativo, ou animador, se dado pela pessoa certa. Pode afastar o frio ou proteger do medo. Pode matar as saudades ou relembrar as tristezas. Todo mundo gosta de um abraço!

A data é por conta da iniciativa do australiano “Juan Mann”, que em 2004, criou a campanha “Free Hugs Campaign”, onde distribuía gratuitamente abraços pelas ruas de Sydney. O objetivo fazer as pessoas felizes e, com isso, ganhou visibilidade na cidade.

Sua iniciativa ganhou destaque internacional quando a banda australiana Sick Puppies gravou um clipe com imagens da campanha. O vídeo foi um presente para Juan Mann que havia perdido a avó há pouco tempo.

Sempre digo que manifestações de carinho, afeto e apreço são fundamentais. Sempre digo ou faço algo pra demonstrar a quem gosto que gosto dessa pessoa. Todo dia é dia de abraçar alguém, mas nesta sexta-feira, abraço é o que não pode faltar aos que amamos ou simplesmente gostamos. Mesmo um virtual (como a vida está improvisada e on-line). Como disse Cazuza: “o abraço é o encontro de dois corações.

Sinto falta de abraçar os meus afetos nestes tristes tempos de distanciamento e pandemia. Portanto, aos leitores deste site, amigos e principalmente aos meus amores da minha vida, aquele abraço!

Elton Tavares

*Datas curiosas

Só uma coisinha, essa sessão de Datas Curiosas deste site incomoda alguns, que chegaram a reclamar de tais registros. Ainda bem que todo dia é dia de alguma profissão ou atividade. Desse jeito dá pra elogiar os familiares e amigos. Acreditem, tem gente que não gosta. Mas são somente os amarguinhos que encontramos pela vida.

Hoje é o Dia Nacional do Técnico e Auxiliar de Enfermagem – Meus agradecimentos aos profissionais

Como este site possui uma sessão chamada “datas curiosas” e hoje, 20 de maio, é o Dia Nacional do Técnico e Auxiliar de Enfermagem, claro que não deixamos passar a data batida. Afinal, o mundo todo está devendo suas vidas ao trabalho de médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem, entre outros diversos profissionais que estão na linha de frente no combate, prevenção e tratamento da pandemia que assola o planeta e a raça humana.

O Dia Nacional do Técnico e Auxiliar de Enfermagem foi instituído a partir da resolução nº 294, de 15 de outubro de 2004, e definido pelo Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Esta data homenageia todos os profissionais que se dedicam a cuidar da saúde das pessoas, auxiliando os demais profissionais do ramo, como os médicos e enfermeiros.Só quem sabe a barra que é trabalhar em um hospital pode definir a pressão. Mas a maioria são profissionais comprometidos com a saúde e o bem-estar do ser humano.

Desde o início dessa crise em que vivemos, os profissionais da saúde lutam com todas as forças para salvar vidas. Não tem como fugir do clichê, pois são, de fato, heróis. Muitos deles foram infectados com a Covid-19 em todo o mundo. Além de correr o disco diário, essas valorosas pessoas ainda se privam do contato com suas famílias, de tanta exposição ao vírus.

Sem equipamentos adequados, trabalhando em unidades de saúde lotadas e com falta de medicamentos, o que médicos e enfermeiros tem feito são verdadeiros milagres. Mesmo com todo o estresse, apreensão, incerteza e medo, entre outras dificuldades impostas pela pandemia do coronavírus.

Nossa dívida de gratidão com profissionais da saúde aumentou astronomicamente em 2020. Enfim, por tudo dito/escrito acima e pela bravura e doação dessas pessoas especiais, parabenizo e agradeço, a todos os técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos que se dedicam e lutam diariamente por todos nós eque fizeram de suas vidas instrumentos de solidariedade!

Meus parabéns e obrigado!

Elton Tavares

O último voo do Pavão – Crônica porreta de Fernando Canto sobre a história do homem do marabaixo (que partiu há exatos 11 anos)

Mestre Pavão – Foto: Chico Terra

Na segunda-feira, 11 de maio de 2009, o mestre Pavão bateu suas belas asas para nunca mais.

O homem do marabaixo partiu para encontrar-se com seus ancestrais, os mesmos que lhe ensinaram a tocar tão bem a caixa, o tambor que anunciava bons augúrios nas tardes do Laguinho. Com ele Pavão comunicava a seus pares, os agentes populares do sagrado, que a festa do Divino e da Santíssima Trindade já tinha início. E todo um ritual deveria ser obedecido, desde o Domingo da Aleluia, passando pelos preparativos da seleção dos mastros nas matas do Curiaú, até a sua derrubada e escolha dos próximos festeiros no Domingo do Senhor. Com ele se foi um arcabouço cultural de grande valia para a memória do nosso patrimônio imaterial.

Foi-se também a sabedoria dos que fazem acontecer as manifestações mais legítimas do povo. E restou apenas o espanto dos que ficaram. Doente, não mais participava ativamente dos eventos do marabaixo como nos velhos tempos, mas sempre dava um jeito de ir em sua cadeira de rodas aos mais importantes, para ouvir o rufar das caixas e ver as saias da negras velhas rodarem sob o ritmo intenso oriundo de além-mar.

Pavão levava muito a sério o que fazia no marabaixo. Até brigava por ele. Seu amor pelo folclore certamente foi herdado do avô Julião Ramos, o grande líder negro, que na época da implantação do Território Federal do Amapá disseminou o ritmo e a dança para todo o Brasil. No domingo, véspera da sua morte, sua filha Ana perguntou-lhe se ia ao marabaixo do Dia das Mães na casa da Naíra – uma das festeiras desse ano no bairro do Laguinho. Ele disse que não ia porque estava indisposto, mas mandou todo o pessoal de sua casa para lá, pedindo que não deixassem a ”cultura morrer”. Mal sabiam todos de sua casa que a cultura do marabaixo, nele impregnada, estava morrendo um pouquinho com ele.

Justo que consideramos a memória como o deciframento do que somos à luz do que não somos mais, a morte é o abismo que tudo leva e engole inclusive o segredo da identidade, aquilo que nos pertence social e culturalmente. Posto isto, quantas conversas não foram abruptamente cortadas numa gravação para um trabalho de conclusão de curso dessas tantas faculdades da capital? Assim sendo, o que restou de seus depoimentos, desse depósito memorial tão importante para que se analise o marabaixo? Ora, sabe lá quantos pesquisadores egoístas guardam suas fitas encarunchadas e vídeos empoeirados que nunca vão se abrir para ninguém?

Mestre Pavão a todos respondia com a maior paciência, paciência esta que aprendeu a ter com a doença intratável que lhe fez perder uma perna. Mestre Pavão dava a todos o seu conhecimento vívido e vivido intensamente em setenta e dois anos de repetição ritualística que a sua memória avivava e exprimia no vai-e-vem dos olhos.

Aqui peço licença poética ao escritor moçambicano Mia Couto que escreveu o “Último Voo do Flamingo”, para parafraseá-lo, dizendo que o nosso pavão alçou seu último voo na tarde amena de maio. Um voo curto,é certo, porque pavões não voam quase nada, mas são aves do paraíso por excelência. Sua luxuriante plumagem em profusão de dourados, verdes e azuis à luz do sol reflete uma miríade de cores, onde o vermelho e o branco parecem estar presentes como se preparando para um desfile da Universidade de Samba Boêmios do Laguinho, a escola do coração do mestre. Convém lembrar aqui que o simbolismo do pavão carrega as qualidades de incorruptibilidade, imortalidade, beleza e glória, que por sua vez se baseia em outro aspecto além destes: a ave é predadora natural da serpente, e em certas partes do mundo, mesmo seu aspecto maravilhoso é creditado ao fato da ave transmutar espontaneamente os venenos que absorve do réptil. Este simbolismo de triunfo sobre a morte e capacidade de regeneração, liga ainda o animal ao elemento.

Fogo, sim, do marabaixo quente, do “Caldeirão do Pavão” com seu caldo revitalizador do carnaval que tanto o mestre amava e por isso se enfeitava nos áureos tempos dos desfiles da FAB. Vai em paz, Pavão, tua plumagem tem cem olhos para vigiar o que deixaste entre nós.

(*) Publicado No livro “Adoradores do Sol”, de Fernando Canto. Scortecci, São paulo, 2010. Minha homenagem a um dos mais importantes divulgadores do Marabaixo.

**Fotos encontradas nos sites do Chico Terra; Rostan Martins; Memorial Amapá (Neca Machado); Tribuna Amapaense e Federação Folclórica do Amapá e jornalista Mariléia Maciel.

Moro apresenta duas provas que desmentem Bolsonaro, mentiroso compulsivo. Mas ainda deve ter mais 200 para mostrar na hora certa.

Sergio Moro exerceu por mais de 22 anos o cargo de juiz federal.

Em boa parte de sua carreira na magistratura, atuou como juiz criminal.

Esmerou-se, portanto, em saber como bandidos agem, inclusive os da Lava Jato.

Não seria agora que iria fazer acusações tão graves contra a maior autoridade da República sem dispor das provas necessárias para não incorrer, ele próprio, em crimes vários, como os de calúnia e denunciação caluniosa, entre outros.

É de uma ingenuidade atroz imaginar-se, como estão imaginando bolsonaristas ingênuos, mas ensandecidos, que Moro não teria provas das acusações graves, gravíssimas como as que fez a Bolsonaro na manhã desta sexta-feira, ao anunciar sua saída do cargo de ministro da Justiça.

Ontem (24), o Jornal Nacional exibiu duas provas enviadas por Sergio Moro.

Uma delas, para reforçar a acusação de que Bolsonaro se mostrava irresignado com investigações da PF sobre deputados bolsonaristas, ainda que Moro lhe explicasse que a Polícia Federal estava agindo por determinação doe ministro do STF Alexandre de Moraes.

A outra prova, para demonstrar que ele, Moro, rechaçou proposta indecorosa da deputado bolsonarista Carla Zambelli, de apoiar uma eventual indicação do então ministro para o Supremo, caso ele permanecesse no Ministério da Justiça e aceitasse a indicação do delegado Alexandre Ramagem para substituir Maurício Valeixo na direção geral da PF.

Essas duas provas, ainda que relevantes e contundentes, são apenas uma preliminar, são apenas um aperitivo do que Moro certamente deve ter, para exibir no momento oportuno e no foro adequado.

Mesmo assim, há bolsonaristas acreditando que Bolsonaro, um mentiroso compulsivo, não mente.

Mesmo assim, há bolsonaristas acreditando que Bolsonaro é uma espécie de vestal intocada da nova política, logo ele, que, sabem todos, é uma cria da velha, velhíssima política.

Mesmo assim, há bolsonaristas se recusando a aceitar o fato de que Bolsonaro, como presidente da República, não tem respeito nem pelo cargo que exerce e muito menos pelo Brasil, que ele desgoverna desde 1º de janeiro de 2019.

Fonte: Espaço Aberto

Hoje é o Dia Mundial do Livro

Hoje, 23 de abril, é o Dia Mundial do Livro. A data foi criada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), no ano de 1995, em Paris (FRA), durante o XXVIII Congresso Geral. O objetivo é encorajar as pessoas – especialmente os jovens – a descobrirem os prazeres da leitura, disseminar a cultura e fazer com que o maior número de pessoas conheçam a contribuição dos autores de livros através dos séculos. Hoje também é celebrado o Dia dos Direitos de Autor.

Com o escritor, poeta e amigo Fernando Canto, quando o mesmo me presenteou com seu livro “Mama Guga”.

Origem do Dia Mundial do Livro

A Unesco escolheu a data do Dia Mundial do Livro, por ser o dia da morte de três grandes escritores da história: William Shakespeare, Miguel de Cervantes, e Inca Garcilaso de la Vega. Essa é também a data de nascimento ou morte de outros autores famosos, como Maurice Druon, Haldor K.Laxness, Vladimir Nabokov, Josep Pla e Manuel Mejía Vallejo.

Com a escritora, poeta e amiga Alcinéa Cavalcante, quando ela me presenteou com seu livro “Paisagem Antiga”.

Uma tradição catalã ligada aos livros já existia no dia 23 de abril, e parece ter influenciado a escolha da Unesco, pois tradicionalmente, no dia de São Jorge (23 de abril), é costume dar uma rosa para quem comprar um livro. Trocar flores por livros já se tornou costume em outros países também.

Presentes via correio que ganhei do escritor, poeta e amigo Luiz Jorge: seus livros “Thybum”, “Antena de Arame” e “Cão Vadio”

Quando perguntam qual a minha profissão, digo que sou jornalista, assessor de comunicação e editor de um site. Mas que, um dia, gostaria de ser escritor. Bom isso tá muito perto de se realizar (depois conto em outro texto).

Apesar de não ter lido nem metade do que deveria e gostaria, ainda acredito na velha máxima: “ler para ser”. Pois sei que é fundamental para fertilizar as ideias, principalmente na minha profissão. Que tal começar ou terminar um livro hoje?

Elton Tavares
Fonte: Calendar Brasil

Hoje é o Dia Mundial da Terra (data para reflexão sobre o nosso lar no Universo)

Hoje é o Dia Mundial da Terra. A data foi criada em 1970, pelo senador norte-americano Gaylord Nelson que resolveu realizar um protesto contra a poluição da Terra, depois de verificar as consequências do desastre petrolífero de Santa Barbara, na Califórnia, ocorrido em 1969.

Desde então, no dia 22 de abril, milhões de cidadãos em todo o mundo manifestam o seu compromisso na preservação do ambiente e da sustentabilidade da Terra. Neste dia de cariz educativo escrevem-se frases e poemas sobre a importância do planeta Terra nas escolas, entre outras atividades.

É possível juntar-se a atividades existentes, criar eventos próprios, doar dinheiro, ou tomar simples atos como plantar uma árvore ou separar o lixo, por exemplo.

O Dia Mundial da Terra conta já com mais de mil milhões de atos realizados em prol do ambiente ao longo da história. É o maior dia do ano para o planeta Terra, desejando que todos os habitantes do mundo realizem algum ato que o proteja. Este ato será uma espécie de semente para regar durante o resto do ano.

Nesta data são debatidos temas como aumento da temperatura global da Terra; extinção de espécies animais; aumento do nível dos oceanos; escassez de água potável; maior número de catástrofes naturais, como tempestades, secas e ondas de calor.

Há muitos anos, quando eu era ignorante sobre a importância do assunto, jogava lixo nas florestas, no Rio Amazonas ou em qualquer lugar inapropriado. É essencial que tenhamos sensibilidade, educação e consciência sobre a preservação do nosso lar no Universo. O mundo está morrendo, aos poucos, mas está. E a fragilidade do nosso planeta precisa ser explicada para podermos adiar a extinção dele e, consequentemente, a nossa.

Senhor cure a nossa vida, para que possamos proteger o mundo e não o depredemos, semeando beleza e não poluição e destruição” – Papa Francisco.

Elton Tavares
Fonte: Calendar 

Em tempos de coronavírus, escritor realiza Campanha Solidária do Livro para comprar cestas básicas para pessoas carentes

 

Eu, editor deste site, com o amigo e maior escritor vivo do Amapá, Fernando Canto.

Nestes dias enigmáticos do novo coronavírus, o sociólogo, poeta, compositor e escritor Fernando Canto inicia a “Campanha Solidária do Livro”. A quantia arrecadada com a venda das obras “Mama Guga – Contos da Amazônia” e Tese de Doutorado “Literatura das Pedras – A Fortaleza de São José de Macapá como locus das Identidades Amapaenses”, ambas de autoria do idealizador da iniciativa, será investida na compra de cestas básicas para famílias carentes, que sofrem nestes tempos de isolamento social por não poderem trabalhar.

Ajude-nos a comprar estes alimentos para pessoas de comunidades carentes de Macapá. Adquira uma (ou as duas) publicação por excepcionalmente R$ 10,00 (dez reais).

Mama Guga – Contos da Amazônia

O livro “Mama Guga – Contos da Amazônia” (Editora Paka-Tatu, Belém – 2017, 104 pág.), O livro traz 26 contos do tipo fantástico, alguns dos quais já publicados em sites ancorados na capital amapaense. Além de impresso, com uma tiragem de dois mil exemplares, terá sua versão digital e será vendido pela maior livraria virtual do planeta, a Amazon.com , a exemplo de outros trabalhos do autor publicados pela mesma editora.

Literatura das Pedras – A Fortaleza de São José de Macapá como locus das Identidades Amapaenses

A Tese de Doutorado “Literatura das Pedras – A Fortaleza de São José de Macapá como locus das Identidades Amapaenses”, em e-book. Coleção Gapuia – Sociologia em Pesquisas e Teses – CAPES, UFC, UNIFAP, Editora da UNIFAP e Autografia, Macapá, 2017. 310 Pág.) é um estudo sociológico sobre a maior fortificação da América Latina e também a continuação de sua tese de Mestrado em Desenvolvimento Regional. A obra detalha quatro fases: a construção da Fortaleza; a instalação do governo no então Território Federal do Amapá; a Ditadura Militar por aqui e a redemocratização neste lado do Rio Amazonas.

Para adquirir qualquer um dois dois livros ou as duas obras, você pode ligar para o autor no número – 96-99183-4488 (ou mandar mensagem de WhatsApp no mesmo contato). O e-mail do autor é ([email protected]).

Nós faremos que as obras cheguem em suas mãos, limpos e desinfectados com álcool em gel. Acertaremos a forma de pagamento quando falarmos.

Por favor, usufrua de belos textos literários em casa e contribua com quem não pode comprar comida. Seja solidário.

 Fernando Canto e Elton Tavares

MEMÓRIA – BEBÉ TACACAZEIRA – Por João Silva

Dona Bebé, ou a Bebé Tacacazeira – Foto: Blog do João Silva

Por João Silva

Dona Bebé no preparo do tacaca que virou uma tradição de 43 anos no canto da Igreja de São José

Poucas pessoas do povo dentre aquelas que frequentavam ou não sua banca de delicias, sabiam seu verdadeiro nome, Raymunda Cezarina Rodrigues de La-Rocque, a dona Bebé, ou a Bebé Tacacazeira, nascida no dia 02 de abril de 1934, em Bailique, Distrito de Macapá, filha Mário Palha Rodrigues e Raimunda de Carvalho Rodrigues, mais conhecida como Dona Dica. Bebé contraiu nupcias com o paraense Alfredo Luiz Duarte de La-Rocque, pioneiro do Território Federal do Amapá, funcionário público aposentado, no dia 15 de março de 1957, em Macapá.

O casal teve três filhos, todos homens: Abel Rodrigues de La-Rocque (2 de setembro dse 1958), técnico em eletrônica formado pela escola Técnica Federal do Pará; Sérgio Roberto Rorigues de La-Rocque, engenheiro quimíco industrial pela UFPA, atual secretário de transportes do Governo do Amapá (09/12/1959); Luiz Jorge Rodrigues de La-Rocque (30/08/62), escrivão de polícia, técnico em contabilidade pelo Colégio Comercial do Amapá.

Dona Bebé, Raymunda C ezarina Rodrigues de La-Rocque estudou no Educandário Antônio Lemos em regime de internato até sua formatura, quando retornou à Macapá mais ou menos em 1948; foi contratada pela casa Leão do Norte, trabalhando como auxiliar da gerente, dona Clemência até seu casamento.

Em 1962, morre a mãe de Raymunda Cezarina Rodrigues de La-Rocq(Bebé), dona Dica, que começara com venda de tacacá e outras delicias, como vatapá, caruru, beijo de moça, cocada na Praça Veiga Cabral, sob uma das imensas mangueiras que foram retiradas do leito da Rua São José. Bebé então assume o lugar da mãe e a banca se desloca para o canto da Igreja de São José, de onde só saiu, doente, para falecer no dia 5 de março de 2004, em Belém do Pará.

Dona Bebé – Foto: Tribuna Amapaense

Em 43 anos de trabalho, Bebé transformou o tacacá da família Rodrigues de La-Rocque, e outras delicias que vendia ao cair da tarde, em um atrativo da cidade de Macapá. Seu corpo, em reconhecimento à sua figura carismática, foi velado no Plenário da Câmara Municipal, e foi sepultada no Cemitério de Nossa Senhora da Conceição, no mesmo mousoleu da sua genitora.

Bebé atendia todos os seus fregueses muito bem, e pela ordem de chegada, sem distinção. Sua banca funcionava de segunda a sábado, na calçada do prédio da Diocese, local em que se instalaram as Livrarias Paulinas, e tinha um público eclético: ia de governador, juiz, promotor, deputado, até o povão. Ela conversava muito pouco enquanto trabalhava, e guardava a sete chaves os segredos que faziam do seu cardápio de comidas típicas uma gostosura que os macapaenses jamais irão esquecer. Ah, outra coisa: quando estava de folga não gostava de conversar sobre o seu trabalho…”Aqui eu sou outra Bebé, não sou a Bebé Tacacazeira”.

Meu comentário: eu ia muito na banca de tacacá da dona Bebé, na Macapá anos 80 e 90. Sempre levado pelos meu pais, Zé Penha e Maria Lúcia. Bons tempos!

* João Silva é jornalista amapaense. Esse texto sobre a querida dona Bebé foi achado no blog homônimo a ele.

Frases, contos e histórias do Cleomar (Edição Especial Coronavírus)

Tenho dito aqui, desde fevereiro de 2018, que meu amigo Cleomar Almeida é cômico no Facebook (e na vida). Ele, que é um competente engenheiro, é também a pavulagem, gentebonisse, presepada e boçalidade em pessoa, como poucos que conheço. Um maluco divertido, inteligente, gaiato, espirituoso e de bem com a vida. Dono de célebres frases como “ajeitando, todo mundo se dá bem” e do “ei!” mais conhecido dos botecos da cidade, além de inventor do “PRI” (Plano de Recuperação da Imagem), quando você tá queimado. Quem conhece, sabe. Desta vez, a publicação é Edição Especial Coronavírus.

Saquem o capítulo dos disparos virtuais do nosso pávulo e hilário amigo sobre situações vividas em tempos de Covid-19. Boa leitura (e risos):

Descrédito

Aquela segunda-feira que tu tá mais sem moral do que o Aedes Aegypti, depois que apareceu o Coronavírus.

Corrida aos supermercados

Queria saber o tamanho da geladeira desse povo que corre pra o supermercado pra comprar tudo. Deixa de doidice viado!

Isolamento

Se o Coronavírus não acabar com meu casamento, não tem cão no mundo que acabe.

Quarentena

Já tô a tanto tempo dentro de casa, que os carapanãs daqui, passam por mim e fazem cara de nojo.

Pronunciamento do Bozo

Aí eu te pergunto, vais confiar nos médicos, cientistas e pesquisadores, ou no retardado? E outra coisa, atleta de cu é rola!

Quarentena II

Se me perguntar se quero ir pra rua: Claro que quero.
Se me perguntar se eu vou: Claro que não, ainda não tô doido!

OS ZUMBIS E O MENTECAPTO – Por Fernando Canto

PREÂMBULO

Escrevi o texto abaixo na véspera da eleição do segundo turno para presidente da República (28 de outubro de 2018) e por isso mesmo fui muito criticado pelos bolsonaristas de então que festejaram a vitória do seu candidato por dias e noites, até a posse e depois dela.

Por eu ser um democrata que sempre se manifestou contra qualquer governo tirano, seja ele de qualquer viés ideológico, vi que fiz uma análise sobre o quadro eleitoral que se interpunha entre o caminho democrático do país e as possíveis ações políticas de extrema direita propostas pelo então candidato que ela representava. Com sua vitória foram inevitáveis as críticas expressas nos sorrisos irônicos dos meus colegas de trabalho, de bar e até de familiares.

O quadro eleitoral de então não me fez vidente, mas me fez vislumbrar sociologicamente o que seria o país na mão de um homem despreparado como o eleito, que chamavam até de “mito”.

Hoje, após seus pronunciamentos infelizes nos meios de comunicação, vejo que eu estava certo ao escrever o texto abaixo, sendo que sua fala, ontem, em rede nacional, me fez considerá-lo mais que um mentecapto e ter a certeza que sua imbecilidade diante da grave condição epidêmica do corona vírus que grassa no país, é o top da irresponsabilidade política contra os cidadãos brasileiros. Sobre os seus seguidores zumbis arrependidos, que engulam o seco de seus interesses políticos e econômicos.

Para terminar este prólogo, informo que por todos estes meses aceitei o novo presidente, mesmo sabendo que ele não é o ideal para o Brasil, pois sempre fui a favor da alternância dos poderes, desde que eles não se tornem formas espúrias de governar nosso país, como me parece agora, se transformando de forma negativa nas mãos de um maluco e seus apaniguados políticos. Isso nunca mais, ainda que o vírus da ignorância continue grassando nos pulmões dos brasileiros pela contramão da História (F.C.).

Darth Sidious – Filme Star Wars

OS ZUMBIS E O MENTECAPTO

Por Fernando Canto

A palavra opinião tem a ver com conceito, ideia, doutrina, crença, capricho, juízo, reputação, parecer e até modo de pensar. Filosoficamente é uma atribuição de verdade ou falsidade, mas não é certeza. É uma asserção não-objetiva nem subjetiva. Entretanto, também é um ponto de vista que pode se tornar ideologia a partir de sua frequente manifestação entre grupos que se ligam sem a presença física e que se sustentam mais pela propaganda que lhes é incutida do que pela certeza ou pela objetividade dos seus valores implícitos.

Filme Guerra Mundial Z

Na minha opinião, grupos de opinião que estão à direita da História, que cultuam valores odientos do passado, estão fadados a cair como as pedras de dominó enfileiradas após a queda da primeira ou como as balizas de madeiras em feitio de garrafas, do jogo de boliche ao primeiro toque sutil da bola. E é exatamente nesses grupos que me detenho para falar das eleições que amanhã vão mover o país, já crucificado por um governo espúrio, que se move sub-repticiamente em suas últimas ações de conchavos políticos no palácio do Planalto e entre os que saem e os que entram no Congresso Nacional. É a espera de um novo palimpsesto histórico que se repetirá mais uma vez como farsa, se por acaso venha a ganhar o pleito.

Filme Guerra Mundial Z

Porém, a ordem hoje é superar dialeticamente o que pode vir de ruim daqui para a frente, pois Lord Vader e os outros prepostos do Imperador estão na linha de frente, no front de uma saga indubitavelmente cruel para o nosso país, onde os influenciáveis soldados vão a loucura com as “propostas” emanadas por um pretenso líder de um exército de zumbis. E de um mentecapto tudo pode se esperar, principalmente se no seu grupo disseminador de ideias estão presentes outros paranoicos que em tudo veem a possibilidade de destruir para tentar construir novamente a seu modo.

Darth Vader – Filme Star Wars

Entretanto e por outro lado, o contágio pode ser do vírus da esperança, do vislumbre de novos avanços e de uma democracia onde as aporias fiquem apenas no campo filosófico e do diálogo e não no estouro de um disparo que poderá ferir o sonho conquistado e transformá-lo em pesadelo permanente.

Filme Star Wars

A tensão visceral provocada pelas falsas notícias não poderá abalar as mentes lúcidas, a não ser que penetrem a fundo naquelas predispostas a terem vertigens provocadas pelo impacto esterilizador da vontade. E isso o mentecapto e seu grupo de lobos faz bem, diga-se assim.

Filme Star Wars

Mas não será por isso que serei impedido de sempre sonhar com a evolução da nossa democracia à brasileira, impermeável que estou às agruras políticas, e reflexivo diante do “espelho da fraternidade cósmica, que é a sociedade humana”, ou de um poema, no dizer de Octávio Paz.

Photo Illustration by Elizabeth Brockway/The Daily Beast

Dos discursos de resistência dos difíceis tempos em que fui guardião, com meu canto solitário e quase anônimo, hoje também estou diante do nascimento de um poder ameaçador com suas engrenagens reificadoras que deterioram a natureza humana e as potencialidades dos homens. Entretanto, tenho a ESPERANÇA de milhões de homens e mulheres e crianças que acreditam que ela seja fundante, construtiva e alicerçante, e que é capaz de ser partilhada com os eleitores sensatos, meus semelhantes brasileiros, amanhã, ainda que o barulho das armas de fogo ensurdeça os zumbis do mentecapto.

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Pela liberdade, que a Força esteja conosco!

DE QUE MORREU LÁZARO? – Conto de Luiz Jorge Ferreira

Conto de Luiz Jorge Ferreira

Olhou os dois camelos no chão, lado a lado, babando e estrebuchando, como se picados por cobra. Mas ali, não havia cobras. Adiante, os demais que ele separara de manhãzinha estavam moribundos. Puxou a barba até sentir dor. Era assim que fazia quando muito preocupado. Com esses, já eram seis animais que adoeciam e morriam sem que ele pudesse fazer alguma coisa. Um deles era de Madalena. Nem havia contado para ela. Há dias não via a irmã. Estava apaixonada pelo novo profeta. Andava por toda a Galileia seguindo Nazareno.

Abaixou-se próximo aos animais e fez-lhes beber a infusão que preparara. Ficou apertando os focinhos até que engolissem. Estava sozinho. Todos tinham ido ouvir Nazareno, inclusive sua mãe que fazia oferendas de animais vivos ao Bezerro de Ouro do Templo. Partira com suas irmãs para ouvi-lo pregar.

Afastou-se dos animais, entrou na cabana e deitou-se. Pensou na possibilidade de Nazareno saber um remédio para curar a doença dos camelos e, assim, fazê-los sarar. De uma feita, encontrara o junto com seus seguidores em uma festa de casamento. Pareceu-lhe um homem despojado, apesar da grande fama de profeta. Madalena, em determinado momento, o pegou pela mão e levou-o até onde estavam sentados.

“- Este é Jesus.”- disse. Abraçou-os, como costume da região, mas não ficou entre eles. Soube que a certa altura da festa faltara vinho e ele enchera os tonéis com água e a transformara em vinho. E dos bons, pensou, lembrando se de como saíra da festa. Fora levado, como um menino, pelas mãos de Marta. O engraçado era que toda a vez que se lembrava de Nazareno, era invadido por uma sensação estranha, como se ele estivesse próximo. Podia sentir um cheiro de alfazema, contrastando com o cheiro de camelo que sentia em si mesmo. Passou a mão na cabeça. Suava muito. Estava calor, mas sentia muito frio. Puxou a pele de cabra aos pés por cima do corpo e enrodilhou-se todo. Quando amanheceu de novo, um cheiro fétido veio lá de fora. Com certeza os animais haviam morrido. Tinha que se levantar e enterrá-los. Logo seus corpos atrairiam os abutres. Sentiu que não tinha forças. Olhou para os pés inchados, sentiu a boca seca, e o corpo cheio de nódulos. Estava doente assim como os camelos. Esforçou-se para chamar alguém. Porém estava só. Pensou gritar por Madalena. E gritou em pensamento bem alto!

Dias depois, apreensivas, elas de longe avistaram o redemoinho dos abutres sobre os animais. Os dois camelos sobreviventes deitados moribundos sedentos. E dentro da cabana estava Lazaro. Semi coberto. Hirto. Morto. Devia estar assim há mais de três dias. As feridas já estavam cheias de vermes. As mulheres se desesperaram. Quem as iria sustentar? Mantinham-se pelo trabalho dele no trato com os animais. Trabalho de homens.

Madalena tomou de volta a trilha. Tinha que encontrar o Nazareno e convencê-lo a ver Lazaro. Já o assistira erguer os aleijados, aprumar os tortos, dar luz aos cegos, fazer ouvir os surdos. As outras mulheres ficaram umedecendo Lazaro com óleos numa tentativa inútil de amenizar o ressecamento que lhe apergaminhava. Ela o encontrou na casa de um dos Escribas que lhe dera pernoite, sem cansar de ouvir admirado as palavras que saiam de sua boca. Os guardas levaram Madalena até o interior da casa. Madalena contou o que se passara com os animais e com Lazaro.

“- Descanse um pouco.” – disse-lhe. “- Logo vamos.” Deram-lhe água fresca e alimentos. Partiram antes da quinta hora. O Escriba fez questão de ir. Seguiu com um séquito de mais de trinta empregados. Andaram rápido, porque Nazareno, acostumado a caminhar longos trechos, andava a passos largos. Ao se aproximarem, podiam sentir o cheiro forte dos animais. As mulheres tinham jogado terra sobre eles sem, contudo, enterrá-los. O escriba derramou óleo perfumado sobre as vestes antes de descer na porta da cabana. As mulheres se afastaram e Nazareno sentou-se ao lado de Lazaro que estava escurecido, todo molhado de óleo, encolhido em torno de si. O escriba e todos os outros com panos na mão cobriam o nariz. Ele olhou Lazaro coberto da cabeça aos pés, colocou seu rosto sob a pele de cabra que o cobria e o chamou soprando em seu ouvido, como se lhe contasse um segredo. Um vento trouxe uma poeira fina do terreno ao redor que encheu o cômodo. O cheiro fétido sumiu e surgiu um cheiro de alfazema, estranhamente, vindo do quintal junto com a fina poeira que invadiu o lugar onde estavam. Lazaro continuou a gritar por Madalena. Era como se estivesse com a boca cheia de tâmaras e vinagre em um tempo só. O pior é que tudo estava longe e perto ao mesmo tempo e o olhar parecia olhar e não entender o que olhava. Tudo parecia galopar rapidamente em seu pensamento de frente para trás. Foi ficando mais forte o cheiro de alfazema e quando abriu os olhos, sentiu a presença dele ao seu lado.

Antes de olhar seu rosto, sabia que ele ali estava presente. Abriu os olhos. Ele realmente estava sentado ao seu lado com a cabeça encostada ao seu ouvido. Não o ouvia falar nada. Era como se o chamasse, sem dizer, uma palavra. Logo pensou. Estava surdo! Olhou espantado a multidão. E o que fazia ali toda aquela gente? Até um escriba em sua casa? Olhou para Nazareno, parecia que repetia seu nome, mas não percebia mexer os seus lábios. Os outros movimentavam a boca pareciam dar graças aos céus, aos gritos. Mas ele não escutava suas vozes, só enxergava suas bocas em movimento, seus pescoços túrgidos e suas mãos erguidas. Madalena veio em sua direção. “- Minha irmã!” – falou, mas nenhum som saiu. Estava mudo!

Nazareno levantou se do seu lado e foi em direção a porta. Os outros se ajoelharam. O escriba tomou sua mão e a beijou. Sua mãe e suas irmãs e os outros saíram com ele. Pareciam tão felizes… Sozinho, Lazaro tentou se erguer, mas estava muito cansado parecia ter caminhado muitos dias sem beber e sem comer. Pensou nos animais lá fora. Se Nazareno houvesse chegado antes teria ensinado uma poção para curá-los.

As pessoas foram se afastando no caminho de volta a Vila de Karfun. Porque tinham vindo ter com ele até sua casa? Pensou consigo sem entender nada. Enquanto levantava cambaleante em direção ao poço de água, ouviu o barulho dos camelos agora curados.

*Conto do livro Antena de Arame – Editora Rumo Editorial – 2ª Edição (2018) – São Paulo – Brasil.